Categorias
MUNDO

Com a saída de Merkel, Emmanuel Macron é o novo mediador da Europa?


Cientista político avalia que uma aliança franco-alemã será capaz de desempenhar um papel preponderante para a União Europeia, inclusive em relação à guerra na Ucrânia. No entanto, ainda não há como comparar a ex-chanceler alemã com nenhum outro líder europeu. A então chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e o presidente francês, Emmanuel Macron, gesticulam enquanto conversam durante cúpula dos líderes da União Europeia (UE) em Bruxelas, na Bélgica, em 2019
Yves Herman/Reuters
Angela Merkel, ex-primeira-ministra da Alemanha, ficou no poder por mais de 15 anos. Ela deixou um legado por ter sido uma das lideranças mais fortes da Europa. Além de governar em tempos de crise, como durante nas ondas de refugiados em 2015 e no início da pandemia de Covid-19, esteve entre os índices mais altos de aprovação entre a população (relembre a trajetória de Merkel).
Com o fim do mandato da ex-chanceler, ficou aberta a vaga para alguém que possa responder pelo bloco e, ao menos, tentar seguir os passos de Merkel. Quem poderá ocupar esse lugar?
O g1 conversou com Hussein Kalout, conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), cientista político e pesquisador da Universidade Harvard. Na visão do especialista, Emmanuel Macron pode sim ocupar um papel de relevância dentro do bloco europeu, mas ficará ainda mais fortalecido dividindo essa liderança com o atual primeiro-ministro da Alemanha, Olaf Scholz. Leia mais abaixo.
TEMPO REAL: siga as últimas notícias da guerra na Ucrânia
Macron é a nova liderança europeia?
Desde o aumento da tensão entre a Rússia e a Ucrânia envolvendo países do Ocidente e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o presidente francês Emmanuel Macron tem, de certa forma, atuado como um mediador entre os países europeus e a Rússia, aproveitando essa janela de oportunidade com a saída da Merkel. É ele quem negocia com Vladimir Putin desde antes da invasão russa ao território ucraniano.
Para Hussein Kalout, uma das razões pelas quais Macron assumiu este papel é que a França é uma das grandes potências da Europa junto com o Reino Unido e com a Alemanha, mesmo que os britânicos não façam mais parte da União Europeia.
“A França é um país que compõe a coluna vertebral e o coração pulsante da União Europeia. De modo que, o Macron procurou, sim, estabelecer um diálogo com o presidente russo na tentativa de impedir a eclosão da guerra e conduzir o desentendimento russo-ucraniano ou russo-ocidental para a mesa de negociação diplomática”, analisa.
Cinco demonstrações de humanidade em meio à guerra na Ucrânia
Emmanuel Macron, em discurso concedido no Palácio de Elysee, em Paris, no dia 17 de fevereiro de 2022
IAN LANGSDON/Reuters
Na visão de Kalout, tentar comparar qualquer líder europeu com a Merkel é “muito assimétrico”, já que “a Merkel se tornou a força gravitacional política da Europa”. Aos adjetivos atrelados à Merkel, ele adiciona: singular e incomparável.
Para o pesquisador, entre os motivos de a ex-chanceler ter tido tanto sucesso ocupando essa posição, estão o peso político e econômico da Alemanha na Europa e a longa experiência dela na condução de grandes temas da ordem internacional.
Agora, se o Macron poderá se converter em uma figura tão potente como a Merkel, vai depender, também, de ele conseguir se reeleger como presidente da França nas eleições que acontecem em abril deste ano. Lembrando que, caso Macron seja reeleito, ele ficará à frente do país por menos tempo que Angela Merkel ficou durante todo o seu governo.
Perdeu alguma informação: veja a que você precisa saber sobre a guerra na Ucrânia
Além de conquistar a reeleição, outro fator que o especialista pondera é o desempenho político do líder francês como representante do bloco.
“Me parece que, até o momento, ele [Macron] conseguiu ocupar esse vácuo e que tem tido um desempenho satisfatório, condizente com o que preconiza o espírito europeu de ‘juntos são mais unidos e juntos são mais fortes’ “, comenta Hussein Kalout.
Ainda na avaliação do cientista político, Macron mostra ter “um posicionamento estruturado, equilibrado e muito firme”. E, ao que tudo indica, é o candidato favorito nas eleições francesas. Sem contar que, o momento atual pede “estabilidade”, um elemento essencial em períodos de crise — que também acaba favorecendo o atual presidente da França nas urnas.
Aliança franco-alemã
Emmanuel Macron (esq.) e Olaf Scholz (dir.) no Palácio do Eliseu em Paris, em 10 de dezembro de 2021
Sarah Meyssonnier/Reuters/Pool
Talvez Emmanuel Macron não seja a aposta única como o líder do bloco europeu. No entendimento de Kalout, existe a possibilidade da aliança entre França e Alemanha para enfrentar questões internacionais. “O posicionamento franco-alemão tem sido à altura dos acontecimentos. Eu acho que esses dois terão capacidade de desempenhar um papel preponderante”, observa.
Uma vez que o Reino Unido não faz mais parte da União Europeia, França e Alemanha se tornam peças fundamentais no continente.
“Particularmente vejo o Olaf Scholz e o Macron sendo os dois pilares centrais de uma política europeia no que diz respeito à guerra na Ucrânia. Parece que há uma sintonia fina entre os dois governos, pelo menos sobre partes substanciais, como a questão da crise energética, impacto econômico, de refugiados e social.”
Crise de refugiados
Entre os impactos da guerra na Ucrânia para a Europa, está o fluxo de refugiados que fogem da invasão em busca de asilo, o que gera ainda mais pressão para governos europeus.
O número de ucranianos que foram forçados deixar o país já ultrapassou dois milhões. A Organização das Nações Unidas (ONU) acredita que esta pode ser a maior crise migratória desde a Segunda Guerra Mundial.
Refugiados cruzam a fronteira da Ucrânia com a cidade de Korczowa, na Polônia, no dia 10 de março de 2022 para fugir da invasão russa
Fabrizio Bensch/Reuters
‘Hierarquia de refugiados’: ucranianos têm entrada facilitada em países europeus
O professor comenta que essa crise humanitária exige uma “responsabilidade compartilhada no âmbito humanitário da União Europeia”.
“Eu, intuitivamente diria, que o presidente francês se inclinará a ter uma política de acolhimento de refugiados ucranianos. O problema da Ucrânia é também um problema europeu. E por ser um problema europeu, exigirá das duas maiores potências europeias [França e Alemanha], responsabilidade.”
Em 2015, Angela Merkel liderou a crise de refugiados sírios que fugiam da guerra e tentaram migrar para a Europa. “Ela transformou a crise de refugiados em uma política de Estado, de acolhimento, e não como política de vitrine. Ela tinha um projeto de acolhimento e de inserção econômica”, conclui Kalout.
Economia: Ucrânia afirma que invasão militar russa causou danos de US$ 100 bilhões
Refugiados, a maioria mulheres com crianças, descansam depois de chegar na fronteira com a Polônia
AP Photo/Visar Kryeziu

Fonte: G1 Mundo