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Sob Bolsonaro e Macri, Mercosul quer comércio ao estilo Trump

Brasil e Argentina, duas das economias mais protecionistas do mundo, concordam que é preciso reformar o Mercosul. A mudança pode atender a demanda represada por anos, mas também trazer custo político.

O presidente eleito Jair Bolsonaro sinalizou intenção de tornar o Mercosul mais ágil e permitir que seus integrantes negociem acordos de livre-comércio bilateralmente, de modo parecido com o que defende o presidente dos EUA, Donald Trump. Na Argentina, o presidente Mauricio Macri também quer reformar o bloco, segundo dois integrantes do alto escalão de governo que pediram anonimato.

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Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai (os dois outros parceiros do bloco) não conseguiram fechar nenhum acordo comercial significativo desde a fundação do Mercosul, há quase três décadas.

Agora, Bolsonaro e Macri precisam mostrar ao eleitorado que políticas pró-mercado podem melhorar a vida da população, ao atrair mais investimentos, trazer produtos importados mais baratos e abrir mercados para suas exportações. No entanto, muitos grupos defendem as tarifas protecionistas do Mercosul.

“O preço da transição será salgado e trará custos sociais e políticos, mas o esforço acabará valendo a pena”, disse Benjamin Gedan, responsável pelo Projeto Argentina do Wilson Center, que foi diretor do Conselho Nacional de Segurança da Casa Branca para a América do Sul durante o governo Obama.
Hora da mudança

Nas últimas semanas, vem surgindo uma retórica unificada sobre o comércio –algo raro na América do Sul–, sinalizando que as reformas podem ser iniciadas quando Bolsonaro assumir o cargo, em janeiro.

“O Mercosul não é uma gaiola de ouro, mas uma plataforma de inserção global”, disse o vice-ministro de Relações Exteriores do Uruguai, Ariel Bergamino, em entrevista por telefone. “Talvez o Mercosul precise se modernizar para refletir o mundo atual.”

Paulo Guedes, escolhido por Bolsonaro para comandar Ministério da Economia, criticou o Mercosul e disse que o Brasil não será “prisioneiro” da ideologia protecionista do bloco. Entre os líderes argentinos, um sentimento parecido sobre o legado das tarifas se faz mais presente.

“Na Argentina, não funcionou”, disse o presidente do Banco Central argentino, Guido Sandleris, em entrevista recente à Bloomberg. “No governo anterior, houve um processo de desengajamento com o comércio global, e estamos tentando reverter isso.”
Reforma versus realidade

Remover as tarifas do bloco não traz muito ganho de curto prazo para Bolsonaro, que pode liderar a reforma. A maior parte das exportações brasileiras de bens manufaturados vai para parceiros do Mercosul e, se novos acordos comerciais reduzirem as tarifas sobre as importações de países de fora do bloco, o país pode perder clientela porque os produtos brasileiros são mais caros e têm menos qualidade, segundo especialistas.

“Essa conversa de que o Brasil não negocia [acordos bilaterais] porque não pode é uma das maiores falácias de política comercial”, disse Pedro Motta Veiga, associado ao Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), no Rio de Janeiro, e diretor do CINDES (Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento). “O Brasil é, de longe, o mais protecionista dos países do Mercosul.”

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