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Papa Francisco inicia quinta viagem ao continente africano


Pontífice viajará para a República Democrática do Congo e depois ao Sudão do Sul. Papa Francisco dentro de carro a caminho do avião que o levou para a República Democrática do Congo
Remo Casilli/REUTERS
O papa Francisco viajou nesta terça-feira (31) para a a República Democrática do Congo (RDC) para uma visita de quatro dias, a primeira etapa de sua quinta viagem ao continente africano, que também o levará ao Sudão do Sul.
O avião com o pontífice decolou de Roma às 8h28 (4h28 de Brasília) e deve pousar às 15h00 (11h00 de Brasília) no aeroporto de Kinshasa, a capital do maior país católico do continente.
Papa Francisco sendo empurrado para dentro do avião que o levará até a República Democrática do Congo em 31 de janeiro de 2022
Alessandra Tarantino/AP
Inicialmente prevista para julho de 2022, a visita foi adiada devido às dores no joelho que afetam Francisco, 86 anos, que utiliza uma cadeira de rodas em seus deslocamentos, assim como pelos problemas de segurança em Goma, nordeste do país, etapa da viagem que foi cancelada.
Em sua 40º viagem internacional, o pontífice argentino pretende levar uma mensagem de paz e reconciliação ao país abalado pela violência e miséria.
Contra a violência e a exploração
Na RDC, que tem quase 100 milhões de habitantes, o papa deve abordar os confrontos armados e a exploração que este país rico em recursos naturais enfrenta, mas com uma população empobrecida – dois terços vivem com menos de 2,15 dólares por dia -, como o próprio Francisco antecipou no domingo.
A polícia congolesa conversa com manifestantes pedindo às autoridades que imponham uma retirada acordada dos rebeldes M23 em Goma, na na República Democrática do Congo
Djaffar Sabiti/REUTERS
O país africano enfrenta há vários meses o ressurgimento do grupo armado M23, que conquistou amplas faixas do território de Kivu do Norte, província na fronteira com Ruanda, que o governo da RDC acusa de interferência.
A visita papal acontece duas semanas depois de um ataque mortal reivindicado pelo grupo extremista Estado Islâmico (EI) em uma igreja pentecostal em Kivu do Norte.
Anteriormente conhecido como Zaire, com riquezas como cobre, cobalto, ouro, diamantes, urânio, coltan e estanho, a RDC tem uma história marcada pelo colonialismo, escravidão e abusos.
Também é a terra de Patrice Lumumba, líder anticolonialista africano, que foi o primeiro-ministro do Congo independente em 1960, derrubado e assassinado.
Vigília e grande missa
Palco para receber Papa é montado em Kinshasa na República Democrática do Congo
Luc Gnago/REUTERS
O líder da Igreja Católica será recebido com uma cerimônia oficial no aeroporto e depois percorrerá, no papamóvel, as ruas que seguem até o Palácio da Nação, onde participará em uma recepção com o presidente Félix Tshisekedi.
Ele pronunciará o primeiro discurso diante das autoridades, do corpo diplomático e de representantes da sociedade civil.
“Será a oportunidade para enviar uma mensagem forte aos políticos e abordar o tema da corrupção”, afirmou Samuel Pommeret, da ONG CCFD Terre Solidaire, em referência a um dos grandes males do país.
Durante a noite, dezenas de milhares de pessoas devem participar em uma vigília de oração no aeroporto N’dolo de Kinshasa, onde passarão a noite, antes de uma grande missa na quarta-feira, com a previsão de mais de um milhão de fiéis.
Papa Francisco durante reza em Roma, em 8 de dezembro de 2022.
Yara Nardi/ Reuters
Francisco também se reunirá com vítimas da violência, deslocados, membros do clero e representantes de instituições de caridade.
Com 52 milhões de católicos, a ex-colônia belga representa o futuro para o catolicismo, que está perdendo fiéis na Europa e na América Latina.
O papa viajará na sexta-feira para Juba, capital do Sudão do Sul, o país mais jovem do mundo e um dos mais pobres do planeta, onde permanecerá até 5 de fevereiro.

Fonte: G1 Mundo

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Caso Tyre Nichols: três bombeiros também são demitidos


Integrantes do serviço de emergência falharam em prestar socorro a Nichols, um norte-americano negro que morreu após ser espancado por policiais durante uma abordagem. Policiais são acusados de homicídio doloso nos EUA
Três integrantes do Corpo de Bombeiros de Memphis que socorreram o norte-americano Tyre Nichols – morto após ser espancado pela polícia local – foram demitidos na segunda-feira (30).
Nichols, um cidadão negro, foi fortemente agredido e deixado algemado no chão sem atendimento médico por quase 15 minutos. O caso, que veio à tona na semana passada por conta da divulgação de imagens gravadas por câmeras nas roupas dos policiais, gerou uma nova onda de protestos nos Estados Unidos contra a abordagem policial violenta a negros.
De acordo com um comunicado do Corpo de Bombeiros de Memphis, os técnicos de emergência médica Robert Long e JaMichael Sandridge não conseguiram avaliar adequadamente a condição de Nichols quando chegaram, e a tenente Michelle Whitaker, que os levou ao local, permaneceu dentro de seu veículo.
Uma revisão interna de sua conduta descobriu que todos os três funcionários do Corpo de Bombeiros “violaram inúmeras políticas e protocolos (dos bombeiros)”, afirmou a chefe dos bombeiros local, Gina Sweat, em um comunicado.
LEIA MAIS:
PASSO A PASSO: Veja linha do tempo do caso Tyre Nichols
HISTÓRICO: Relembre outras vítimas de violência policial contra negros nos EUA
PAI, SKATISTA, FOTÓGRAFO: Quem era Tyre Nichols, jovem negro morto após ser agredido por policiais nos EUA
Manifestantes em Nova York participam do segundo dia de protestos pela morte de Tyre Nichols, em 28 de janeiro de 2023
REUTERS/Jeenah Lua
As rescisões ocorreram quando o Departamento de Polícia de Memphis divulgou que sete de seus policiais foram dispensados ​​de suas funções no confronto que levou à morte de Nichols, um homem negro de 29 anos, em 10 de janeiro.
Essa contagem incluiu cinco policiais que foram demitidos da força e acusados ​​na semana passada de assassinato. Os cinco policiais também são negros.
Os advogados da família de Nichols classificaram o espancamento como o último caso de um afro-americano brutalizado como resultado de práticas policiais com preconceito racial que traçam o perfil de pessoas de cor – mesmo quando os policiais envolvidos não são brancos.
Demetrius Haley, Desmond Mills, Jr., Emmitt Martin III, Justin Smith e Tadarrius Bean, policiais que foram presos em Memphis
Reuters
Os cinco policiais – Justin Smith, Desmond Mills Jr., Emmitt Martin III, Demetrius Haley e Tadarrius Bean – foram acusados ​​na quinta-feira (26) de assassinato em segundo grau, agressão, sequestro, má conduta oficial e opressão.
Hemphill, que é branco, usou a câmera corporal que capturou o primeiro de quatro vídeos divulgados pelas autoridades na sexta-feira (27) sobre a parada no trânsito e o confronto violento que se seguiu, segundo o advogado do policial, Lee Gerald.
No vídeo, é Hemphill quem parece disparar uma arma de choque contra Nichols depois que Nichols é arrastado de seu carro, forçado ao chão e encharcado com spray de pimenta antes de se libertar e fugir com os policiais que o perseguem.

Fonte: G1 Mundo

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Rússia diz que avançou suas tropas na cidade de Vuhledar; Ucrânia nega


Segundo o Ministério da Defesa do Reino Unido, os russos atacaram o local com uma brigada de milhares de soldados, mas não devem conseguir ganhos significativos. Escombros de prédio residencial atingido por ataque russo em Chasiv Yar, na região ucraniana de Donetsk
Oleksandr Ratushniak/REUTERS
O líder separatista pró-Rússia na província de Donetsk, Denis Pushilin, disse nesta terça-feira (31) que as tropas russas garantiram uma posição segura em Vuhledar, uma cidade localizada ao leste do país e que detém grande produção de carvão.
A Ucrânia por outro lado nega que o Kremlin tenha conseguido avançar sobre a região.
Denis Pushilin, líder do movimento separatista em Donetsk, em foto de 7 de março de 2022
Alexander Ermochenko/Reuters
O Ministério da Defesa do Reino Unido divulgou uma atualização do seu setor de inteligência onde era confirmado o ataque russo e o domínio de parte da cidade de Vuhledar. Segundo Londres, os russos atacaram com uma brigada de milhares de soldados.
“Existe ainda uma possibilidade realista de que a Rússia continue a obter ganhos locais no setor. No entanto, é improvável que Moscou tenha tropas suficientes não comprometidas na área para alcançar um avanço operacionalmente significativo”, diz o relatório.
Esse documento diz que os comandantes russos provavelmente estavam tentando “desenvolver um novo eixo de avanço” no território controlado pela Ucrânia na região de Donetsk e desviar as forças ucranianas que estão em Bakhmut, mais ao norte, o foco principal do esforço ofensivo da Rússia nos últimos meses.
A cidade de Vuhledar também é importante por ser caminho dos trens russos que abastecem as tropas na região sudeste da Ucrânia.

Fonte: G1 Mundo

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‘Quase aniquilação’: o massacre de Bear River, um dos piores contra indígenas da história dos EUA

Em 29 de janeiro de 1863, ocorreu um dos capítulos mais comoventes da história dos indígenas americanos. Quando os antepassados de Brad Parry viram os cavalos descendo a colina, eles relembraram a primeira vez em que observaram uma locomotiva em funcionamento.
Isso porque, naquela manhã gelada, à distância, chamava a atenção o vapor produzido pela respiração dos soldados e seus cavalos.
É certo que havia tensões com o exército, mas os líderes da tribo não acreditavam que a mobilização seria uma ameaça para o seu povo. Eles orientaram as mulheres e idosos que se encontravam nas tendas para que não se levantassem e voltassem a dormir, como faziam as crianças.
Mas eles logo descobririam que a intenção dos soldados não era de dialogar e rapidamente deram orientação para escaparem.
O que se seguiu foi um dos capítulos mais dolorosos da história dos povos originários norte-americanos. O dia 29 de janeiro de 1863 marcou o que hoje é conhecido como o massacre de Bear River. Estimativas indicam que mais de 300 nativos morreram no massacre. Deles, 90 eram mulheres e crianças.
“Eles agarravam as crianças pequenas pelas pernas como se fossem coelhos e batiam a cabeça delas contra o solo”, conta Elva Schramm, descendente de um dos caciques.
“Foi assustador, o objetivo era matar e durou quatro horas”, segundo Brad Parry.
Parry é vice-presidente do Conselho do grupo do noroeste da nação Shoshone (Northwestern Band of the Shoshone Nation). Ele contou à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) o que chegou até nós sobre esse dia por meio da tradição oral.
Existem registros militares, mas sua avó Mae Timbimboo Parry foi fundamental para que conhecêssemos o ponto de vista dos shoshones.
“Ela foi a primeira a reunir essas histórias. Ela as escreveu e depois divulgou ao público”, afirma a professora Molly Cannon, da Universidade do Estado de Utah, nos Estados Unidos, onde trabalha como diretora do Museu de Antropologia.
A tragédia ocorreu perto do rio Bear, onde hoje fica o Estado de Idaho, no noroeste do país.
“É triste que o maior massacre de nativos americanos da história dos Estados Unidos não seja realmente conhecido”, afirma Darren Parry, ex-presidente do grupo do noroeste da nação Shoshone, no documentário Remembering Bear River: Tragedy for Idaho’s Shoshone Tribe (“Recordando Bear River: tragédia para a tribo Shoshone, de Idaho”, em tradução livre”), apresentado pela PBS, o serviço público de rádio e televisão dos Estados Unidos.
Em ‘silêncio’
Inicialmente, o ocorrido foi descrito como uma “batalha” entre o exército e os guerreiros shoshones. Mas Cannon destaca que Mae Parry fez com que essa definição fosse questionada.
“Essa ideia de que se tratou de uma batalha perdurou por muito tempo na nossa história e na mente dos norte-americanos, mas acredito que a narrativa esteja lentamente desmoronando, em grande parte graças ao trabalho dos grupos tribais”, segundo a antropóloga.
Para Brad Parry, esta é uma história que foi mantida em “silêncio” por mais de 100 anos. Muitas pessoas que moravam perto daquela região preferiram não se aproximar, enquanto outras “não quiseram escrever sobre uma matança de mulheres, crianças e idosos”.
Além disso, o massacre ocorreu durante a Guerra Civil Americana (1861-1865) e a maioria dos jornalistas estava cobrindo os acontecimentos do conflito no leste do país. E, quanto aos nativos americanos, “não sabíamos escrever, só podíamos contar [verbalmente] o que havia acontecido”, afirma Parry.
Mas tudo mudou graças a Mae Parry, avó de Brad, que, segundo ele, “foi uma estudante excepcional”.
“Sua educação foi extremamente boa”, afirma ele. “Ela escrevia e falava muito bem e, quando se formou no ensino médio, seu avô ainda estava vivo. Ela então começou a escrever o que ele contava.”
Os testemunhos dele e de outros sobreviventes alimentaram o registro histórico dos shoshones sobre o acontecido naquele trágico dia.
“Somente nas décadas de 1980 e 1990, minha avó começou a insistir na mudança do nome da ‘Batalha de Bear River’ para ‘massacre de Bear River'”, conta Brad Parry. “Ela enfrentou o exército dos Estados Unidos, foi ao Congresso e se reuniu com todas essas pessoas para conseguir o verdadeiro reconhecimento dos fatos.”
As tensões
O episódio não pode ser observado como um fato isolado. No século 19, os shoshones e outras tribos tiveram suas terras invadidas por colonos e grupos de mórmons, além de enfrentarem garimpeiros em busca de ouro.
O massacre foi “o ápice de quase duas décadas de incidentes que surgiram da interação entre índios e brancos”, segundo a editora da Universidade de Utah na apresentação do livro The Shoshoni Frontier and the Bear River massacre (“A fronteira shoshone e o massacre de Bear River”, em tradução livre), do historiador Brigham Madsen.
“A terra-natal dos shoshones englobava uma grande extensão de território e foi atravessada pelas principais rotas de viagem no oeste, o que fez com que houvesse encontros entre índios e brancos”, ele conta.
“Inicialmente, [os nativos] foram amigáveis e complacentes com os viajantes brancos na década de 1840, [mas] no final da década de 1850, o ressentimento se agravou entre os índios quando houve assassinatos e suas reservas de alimentos foram consumidas pelos imigrantes e seus animais.”
Michael Andersen é o autor do estudo Bear River Massacre and the Ethical Implications for Large Scale Combat Operations (“O massacre de Bear River e as implicações éticas para operações de combate em larga escala”, em tradução livre), publicado pelo Centro Simons para a Liderança Ética e Cooperação Interinstitucional, uma organização dedicada, entre outros temas, a pesquisar sobre assuntos de segurança nos Estados Unidos.
O autor destaca que, embora se costume considerar os sioux e os apaches como “as tribos mais violentas daquele período da história norte-americana, de fato, os shoshones foram responsáveis por mais ataques a colonos e viajantes, em comparação com outras tribos”.
No dia 6 de janeiro de 1863, a tensão aumentou quando um grupo de viajantes que transitava pelo vale Cache relatou que um dos seus membros havia sido assassinado e que seu gado havia sido roubado.
Um dos viajantes forneceu às autoridades uma declaração juramentada que fez com que um juiz emitisse ordem de prisão contra três líderes shoshones. Foi solicitada a assistência do coronel irlandês Patrick Connor, que dirigiu a expedição militar ao vale Cache, onde havia um assentamento shoshone perto do rio Bear.
O encontro
“Todos os anos, no inverno, nós íamos até lá e nos reuníamos com outras nações shoshones que vinham de outras partes”, segundo Brad Parry.
A região é chamada de “casa dos pulmões”. Nela, seus antepassados encontravam recursos e fontes termais com propriedades curativas.
“Era um lugar espiritual sagrado, mas também brincávamos, fazíamos corridas e havia prêmios. Muitas vezes, você conhecia seu cônjuge e havia casamentos. Era como um grande encontro familiar”, ele conta.
“Em janeiro, começava o que chamamos de dança quente, para ajudar a Mãe Terra e o grande espírito a trazer a primavera”, segundo ele.
As famílias dos outros grupos shoshones começavam a voltar para os seus territórios.
“Nosso pequeno grupo, do noroeste, ficava ali porque éramos os anfitriões”, afirma Parry. “Pouco antes de 29 de janeiro, os jovens e os homens mais fortes foram buscar comida, caçando cervos ou alces para passar o resto do inverno.”
“Muito poucos guerreiros” ficaram no acampamento e, quando o chefe shoshone Sagwitch viu os soldados descendo a colina em cavalos, falou com os outros líderes da tribo.
“Ele disse: ‘vamos ver o que querem, se precisam prender alguém, seguiremos as regras’. De forma geral, eles tentavam, entre os líderes, negociar uma saída.”
Para Brad Parry, era evidente que os shoshones não queriam o combate: “eles tinham mulheres, crianças e anciãos nas tendas”.
Segundo Andersen, Sagwitch deu ordens de “não disparar contra o exército”, pois achava que só estavam interessados nas prisões e “logo iriam embora”.
A agonia
A antropóloga Cannon ressalta que os colonos europeus e o exército sabiam que, naquele assentamento, estariam “todos os membros” daquele povo shoshone e não apenas “guerreiros”.
Connor dirigiu cerca de 300 soldados. “Eles cavalgaram até o acampamento, enquanto nós tínhamos nossa primeira linha de defesa”, segundo Brad Parry. E o enfrentamento começou.
Quando os shoshones ficaram sem munição, “a batalha terminou e começou o massacre de homens, mulheres e crianças”, afirma Andersen, com base nos testemunhos coletados no seu estudo.
“Várias indígenas foram assassinadas porque não se submeteram silenciosamente a serem violentadas e outras foram violentadas na agonia da morte”, segundo contou um mórmon da região.
Parry indica que houve testemunhas que viram os soldados “agarrarem crianças pequenas pelas tranças e fazê-las rodopiar até romper o couro cabeludo”.
Os líderes e os homens da tribo trataram de manter os soldados no sul, “para que o nosso povo pudesse escapar pelo norte, mas o coronel percebeu e destacou suas tropas pelo norte, sobre uma colina. Eles começaram a atirar e todas as pessoas precisaram correr em direção ao sul”, ele conta.
Brad Parry conta o caso de Anzie Chee, uma mulher que conseguiu escapar, mesmo ferida. Ela saltou com seu bebê para uma parte do rio que não estava congelada e se escondeu em uma das margens. Ali, ela percebeu que havia outras mulheres.
“Mas seu bebê começou a chorar…”, ele conta. “Ela precisou soltá-lo. O bebê se afogou para poder salvar todas as outras pessoas.”
Fingir-se de mortos
Sagwitch ficou ferido e flutuava no rio até que “um amigo branco o ajudou” e ele sobreviveu.
Seu filho Yeager Timbimboo (avô de Mae Parry) tinha cerca de 14 anos de idade. Junto com sua avó, ele se deitou sobre o solo gelado e eles fingiram estar mortos.
“Não abra os olhos, não olhe para cima”, sussurrou a avó. Mas o menino logo desobedeceu.
“Um soldado percebeu, aproximou-se e colocou uma pistola na sua cabeça, sem disparar. Ele retirou a arma e voltou a apontá-la. Riu e foi embora”, conta Brad Parry.
Yeager cresceu com essas recordações. Ele e outros sobreviventes não queriam que elas desaparecessem.
“Todos os invernos, eles se reuniam e contavam a história do massacre. Eles pegavam uma folha de uma árvore, dobravam e abriam furos com um prego: ‘assim ficaram nossas tendas’, diziam eles.” Outras foram queimadas.
Depois que os soldados foram embora, “os membros da comunidade branca do condado de Franklin [Idaho] correram até os índios para ajudá-los. Muitos foram assistidos muito bem no assentamento. Balas foram retiradas, feridas foram tratadas, crianças foram adotadas.”
Os números
Foram 25 os soldados que morreram, mas calcular com precisão o número de mortes entre os shoshones ainda é difícil. Os soldados contaram 224 corpos, mas deixaram claro que este não era o número total.
O imigrante dinamarquês Hans Jasperson indicou na sua autobiografia de 1911 que, depois de percorrer o acampamento, contou 493 shoshones mortos. “Dei meia volta, voltei a contar e cheguei ao mesmo número”, escreveu ele, segundo o jornal Salt Lake Tribune.
Brad Parry afirma que os membros da comunidade próxima que ajudou as vítimas contaram 368 mortos.
“Nós estimamos que morreram 350 a 500 pessoas”, segundo ele. “Nosso grupo [os shoshones do noroeste] provavelmente tinha cerca de 650 integrantes. Eles nos deixaram com cerca de 125 pessoas.”
“Nossa tribo ainda não superou 600 membros desde então. Acredito que sejamos agora cerca de 578 ou 580. É o número mais alto que atingimos há muito, muito tempo”, ele conta.
“Ainda não recuperamos os números anteriores ao massacre”, afirma Brad Parry. “Foi quase uma aniquilação completa, fomos tão dizimados que levamos 160 anos para voltar à mesma população.”
Antes de irem embora, os soldados se apropriaram dos cavalos, “saquearam o acampamento, roubaram a carne, os grãos e nos deixaram sem nada”. E, territorialmente, aqueles shoshones sentiam que não tinham para onde ir.
Desumanizados
Ao refletir sobre a matança de nativos americanos no século 19, o historiador militar Jonathan Deiss declarou à jornalista Dana Hedgpeth, do jornal The Washington Post, que, naquela época, “as pessoas achavam que os índios realmente não eram humanos, de forma que era fácil justificar sua matança ou maus tratos”.
Com essa percepção desumanizadora dos nativos americanos, segundo Cannon, “os massacres não pareciam massacres, mas sim ações militares, parte de um processo de ocupação e expansão”.
De fato, ao regressar, o coronel Connor foi elogiado pelos seus superiores e promovido a general de brigada. E, um ano depois, foi solicitado seu assessoramento para lidar com um acampamento da tribo arapaho e dos cheyennes no Estado norte-americano do Colorado.
“O coronel [John] Chivington usou uma estratégia similar – um ataque no inverno, de manhã cedo – e massacrou 130 homens, mulheres e crianças”, afirma Andersen.
Já se passaram 160 anos do massacre de Bear River e, todos os anos, os shoshones recordam o inverno em que suas terras se tingiram de vermelho.
Para eles, os espíritos dos mortos continuam ali.
-Este texto foi publicado em https://www.bbc.com/portuguese/geral-64420247

Fonte: G1 Mundo

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EUA e Coreia do Sul prometem aumentar exercícios e cooperação para combater a Coreia do Norte


Os dois países planejam conter o desenvolvimento de armas nucleares na Coreia do Norte e, principalmente, evitar uma guerra. Bandeiras dos EUA e da Coreia do Sul em Yongin
Divulgação via REUTERS
Os chefes de defesa dos Estados Unidos e da Coreia do Sul prometeram, nesta terça-feira (31), expandir os exercícios militares e aumentar o planejamento de dissuasão nuclear para conter o desenvolvimento de armas da Coreia do Norte e evitar uma guerra.
O secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin, estava em Seul para negociações enquanto Washington D.C. busca tranquilizar um importante aliado asiático sobre seu compromisso nuclear em meio às crescentes ameaças da Coreia do Norte.
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Belicismo da Coreia do Norte reacende temor de guerra nuclear na Ásia
O plano dos EUA para gerar contrainformação na Coreia do Norte
Austin se reuniu com o ministro da Defesa sul-coreano, Lee Jong-sup, após suas negociações anuais de segurança em novembro em Washington, e deve se encontrar com o presidente Yoon Suk-yeol antes de voar para as Filipinas.
A última reunião ocorre no momento em que a Coreia do Sul tenta aumentar a confiança na dissuasão estendida americana – sua capacidade militar, especialmente forças nucleares, para impedir ataques a seus aliados.
A Coreia do Norte, com armas nucleares, lançou um número sem precedentes de mísseis no ano passado, incluindo mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs) capazes de atingir o continente americano. Autoridades dos Estados Unidos e da Coreia do Sul também alertaram que Pyongyang pode estar se preparando para seu primeiro teste de um dispositivo nuclear desde 2017.
As crescentes ameaças da Coreia do Norte reviveram os apelos de alguns políticos e especialistas da Coreia do Sul para trazer de volta as armas nucleares táticas dos EUA ou mesmo um programa nuclear sul-coreano, embora as autoridades de Seul tenham descartado essa possibilidade.
Em uma declaração conjunta, os chefes de defesa disseram que concordaram em aumentar o compartilhamento de informações e o planejamento conjunto.
Eles também se comprometeram a expandir o “nível e a escala” dos exercícios militares combinados deste ano e a implantar mais ativos estratégicos dos EUA, como porta-aviões e bombardeiros.
Mais de 28.500 soldados americanos estão estacionados na Coreia do Sul como um legado da Guerra da Coreia de 1950-1953, que terminou em um armistício, em vez de um tratado de paz.
Pyongyang denunciou os exercícios conjuntos como prova das intenções hostis dos aliados e organizou suas próprias demonstrações de força militar.
Austin disse que sua viagem visa aprofundar a cooperação para enfrentar os desafios de segurança compartilhados e reafirmar o compromisso estendido de dissuasão dos EUA com a Coreia do Sul como “de ferro” em um momento de maior tensão e provocação.
“É por isso que os Estados Unidos e a República da Coreia estão tomando medidas claras e significativas para modernizar e fortalecer nossa aliança”, disse Austin em um comunicado especial na terça-feira divulgado pela agência de notícias Yonhap.
“Portanto, nossos adversários e concorrentes sabem que, se desafiarem um de nós, estarão desafiando a aliança EUA-ROK (Coreia do Sul) como um todo”, acrescentou.
Lee diz que os dois países realizarão exercícios nucleares planejados em fevereiro sob o cenário dos ataques nucleares da Coreia do Norte, como parte dos esforços para melhorar o planejamento e implementação nuclear conjunta e aumentar o compartilhamento de informações.
Austin afirma que os exercícios estão de acordo com as negociações dos aliados para expandir as atividades e mecanismos de dissuasão na península e na região.

Fonte: G1 Mundo

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FOTOS: rio nos Balcãs se torna ‘lixão flutuante’


Rio Drina passa pela Bósnia-Herzegovina, pela Sérvia e por Montenegro. Décadas após dissolução da Iugoslávia, região está atrasada em relação ao resto da Europa quando assunto é proteção ambiental. Resíduos flutuando no rio Drina perto de Visegrad, Bósnia, sexta-feira, 20 de janeiro de 2023.
AP Photo/Armin Durgut
Nas últimas semanas, um “lixão flutuante” se formou no rio Drina, ao leste da Bósnia-Herzegovina, após toneladas de lixo serem despejadas em aterros ribeirinhos mal regulamentados ou diretamente em vias navegáveis ​​que passam pela Bósnia, pela Sérvia e por Montenegro e se acumularem. Na água, boiam garrafas plásticas, barris enferrujados, pneus usados, eletrodomésticos, madeira e qualquer outro tipo de lixo jogado no Drina ou em um de seus afluentes.
(Veja mais fotos abaixo)
Uma cerca instalada no rio por uma usina hidrelétrica da Bósnia, alguns quilômetros rio acima de sua represa perto de Visegrad, transformou a cidade em um depósito de lixo regional, reclamam ativistas ambientais locais.
As fortes chuvas e o clima excepcionalmente quente no começo de janeiro causaram o transbordamento de muitos rios e córregos na Bósnia-Herzegovina, Sérvia e Montenegro, inundando as áreas circundantes e forçando dezenas de pessoas a deixarem suas casas. As temperaturas caíram em muitas áreas na sexta-feira (20 de janeiro), quando a chuva se transformou em neve.
“Tivemos muita chuva e inundações torrenciais nos últimos dias e uma enorme entrada de água de Montenegro [afluentes do Drina], que agora, felizmente, está diminuindo”, disse Dejan Furtula, do grupo ambientalista Eko Centar Visegrad.
“Infelizmente, o enorme fluxo de lixo não parou”, acrescentou Furtula.
O rio Drina corre 346 quilômetros das montanhas do noroeste de Montenegro, atravessando a Sérvia e a Bósnia-Herzegovina, e alguns de seus afluentes são conhecidos por sua cor esmeralda e paisagens de tirar o fôlego. Uma parte do rio ao longo da fronteira entre a Bósnia e a Sérvia é popular entre praticantes de rafting quando não é a “temporada do lixo”.
Estima-se que cerca de 10.000 metros cúbicos de resíduos tenham se acumulado atrás da barreira de lixo do rio Drina nos últimos dias, disse Furtula. A mesma quantidade foi extraída nos últimos anos daquela área do rio.
A retirada do lixo leva até seis meses, em média. A remoção, no entanto, para no aterro municipal de Visegrad, que Furtula disse “nem tem capacidade suficiente para lidar com o lixo municipal”.
“Os incêndios no aterro [municipal] estão sempre queimando. [As condições são] não apenas um enorme risco ambiental e de saúde, mas também um grande embaraço para todos nós”, afirmou.
Atraso ambiental
Décadas após as guerras da década de 1990 que acompanharam a dissolução da Iugoslávia, os Bálcãs estão atrasados ​​em relação ao resto da Europa, tanto economicamente quanto no que diz respeito à proteção ambiental.
Os países da região fizeram pouco progresso na construção de sistemas eficazes e ecologicamente corretos de descarte de lixo, apesar de buscarem a adesão à União Europeia (UE) e adotarem algumas das leis e regulamentos da UE.
Depósitos de lixo não autorizados estão presentes em colinas e vales por toda a região, enquanto o lixo cobre as estradas e sacos plásticos são vistos pendurados em árvores.
Além da poluição dos rios, muitos países dos Bálcãs ocidentais têm outros problemas ambientais. Um dos mais urgentes sendo o altíssimo nível de poluição do ar que afeta várias cidades da região.
“As pessoas precisam acordar para problemas como este”, disse Rados Brekalovic, morador de Visegrad.
Resíduos flutuando no rio Drina perto de Visegrad, Bósnia, sexta-feira, 20 de janeiro de 2023.
AP Photo/Armin Durgut
Na água, boiam garrafas plásticas, barris enferrujados, pneus usados, eletrodomésticos, madeira e qualquer outro tipo de lixo jogado no Drina ou em um de seus afluentes.
AP Photo/Armin Durgut
Barcos ao lado do ‘lixão flutuante’, no rio Drina perto de Visegrad, Bósnia, sexta-feira, 20 de janeiro de 2023.
AP Photo/Armin Durgut
Resíduos flutuando no rio Drina perto de Visegrad, Bósnia, sexta-feira, 20 de janeiro de 2023.
AP Photo/Armin Durgut
Resíduos flutuando no rio Drina perto de Visegrad, Bósnia, sexta-feira, 20 de janeiro de 2023.
AP Photo/Armin Durgut
Parte de uma geladeira flutua entre o lixo no rio Drina perto de Visegrad, Bósnia, sexta-feira, 20 de janeiro de 2023.
AP Photo/Armin Durgut

Fonte: G1 Mundo

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Homem que mais enriqueceu em 2022 perde US$ 8,2 bilhões em um dia e sai do grupo dos 10 mais ricos do mundo


O indiano Gautam Adani teve um aumento de US$ 33,8 bilhões em sua fortuna no último ano, desbancando Bill Gates e entrando no top 3 homens mais ricos do mundo. No entanto, problemas com seu grupo empresarial o fizeram perder bilhões de dólares. Gautam Adani
Perfil/Twitter
Gautam Adani, homem mais rico da Ásia e quem mais enriqueceu em 2022, perdeu o acesso a um grupo bastante seleto: o das 10 pessoas mais ricas do mundo. Com base no fechamento dos pregões das bolsas de valores globais nesta segunda-feira (30), o indiano perdeu US$ 8,21 bilhões – cerca de R$ 42 bilhões – em um único dia e caiu para a 11ª posição do ranking de bilionários da Bloomberg.
Atualmente, a fortuna do fundador do Adani Group (conglomerado de sete empresas que vão de operações portuárias na Índia a minas de carvão na Austrália) é estimada em US$ 84,4 bilhões. Apesar do alto valor, há poucos meses, em setembro de 2022, essa fortuna era de US$ 150 bilhões.
A queda mais acentuada da fortuna do bilionário, entretanto, é recente. De acordo com o ranking da Bloomberg, há uma semana, em 23 de janeiro, Adani ainda possuía cerca de US$ 120 bilhões – uma queda de US$ 35,6 bilhões em sete dias.
LEIA MAIS
ENTENDA: Como Gautam Adani, homem mais rico da Ásia, conseguiu aumentar espetacularmente sua fortuna
RANKING: Confira quem foram as pessoas que ficaram mais ricas em 2022
Por que Gautam Adani está perdendo dinheiro?
A forte baixa do patrimônio do magnata indiano é decorrente do derretimento das ações de seu grupo empresarial nas bolsas de valores.
Na semana passada, a empresa de investimentos Hindenburg Research afirmou que o grupo desenvolveu um “sistema de fraude na contabilidade durante décadas”, manipulando os lucros “para manter a aparência de boa saúde financeira e de solvência” de todas as suas filiais de capital aberto listadas em bolsa.
Uma das principais subsidiárias do grupo, a Adani Enterprises, despencou cerca de 15% na bolsa de Nova York desde então.
Depois do relatório da Hindenburg apontando supostas fraudes nas empresas de Adani, o grupo rebateu as acusações e disse que elas foram “mal-intencionadas” – o que ainda não foi suficiente para reverter a queda no preço dos papéis das subsidiárias da empresa ou amenizar a baixa na fortuna do bilionário indiano.

Fonte: G1 Mundo

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Brasil repete nota e mantém desempenho ruim em ranking que mede percepção sobre corrupção


País ficou no 94ª lugar no índice que avalia percepção de integridade no setor público em 180 países, da Transparência Internacional. Entidade diz que Brasil perdeu uma década de avanços. Brasil ocupa a 94ª posição no ranking mundial da corrupção
Marcos Serra Lima/g1
O Brasil registrou 38 pontos e ficou em 94º lugar entre 180 países no ranking mundial da corrupção divulgado pela Transparência Internacional na madrugada desta terça-feira (31).
É o terceiro ano consecutivo que o Brasil mantém um desempenho ruim no índice, de acordo com a organização.
O Índice de Percepção da Corrupção (IPC) mede como especialistas e empresários enxergam a integridade do setor público nos 180 países pesquisados. A nota vai de 0 a 100, onde 0 significa “altamente corrupto” e 100 significa “muito íntegro”.
Quanto melhor a posição no ranking, menos o país é considerado corrupto.
Etiópia, Argentina, Tanzânia e Marrocos obtiveram a mesma nota que o Brasil.
Para a Transparência Internacional, o resultado mostra que o país perdeu uma década de avanços no combate à corrupção.
A pior avaliação obtida pelo Brasil, de 35 pontos, foi registrada em 2018 e 2019. O segundo pior desempenho ocorreu em 2017, com 37 pontos.
Posição do Brasil nos levantamentos:
2022 – 94ª posição
2021 – 96ª posição
2020 – 94ª posição
2019 – 106ª posição
Notas do Brasil:
2022 – 38 pontos
2021 – 38
2020 – 38
2019 – 35
Outros países no ranking:
1º lugar – Dinamarca – 90 pontos
2º lugar – Finlândia – 87 pontos
3º lugar – Nova Zelândia – 87 pontos
Média global – 43 pontos
Média dos países do continente americano – 43 pontos
Avaliação da Transparência
O resultado obtido pelo Brasil, afirma a Transparência, “reflete o desmanche acelerado dos marcos legais e institucionais anticorrupção que o país havia levado décadas para construir” e a “degradação” das instituições democráticas do país durante o governo Bolsonaro.
Segundo a Transparência Internacional, embora o Brasil tenha avançado dois lugares no ranking, o desempenho em relação ao combate à corrupção permaneceu inalterado porque houve a piora de outros países.
Outros países
No levantamento de 2022, Somália (12 pontos), Síria e Sudão do Sul (13) ocuparam as últimas posições do ranking. A lista de dez países considerados “altamente corruptos” é completada por Venezuela, Iêmen, Líbia, Coreia do Norte, Haiti, Guiné Equatorial e Burundi.
Segundo a Transparência Internacional, parte da nota obtida por esses países pode ser atribuída, além do retrocesso em instituições democráticas, a conflitos armados nas regiões.
“A corrupção e os conflitos armados alimentam um ao outro e ameaçam a paz duradoura. De um lado, os conflitos criam um terreno fértil para a corrupção”, afirma o relatório.
A melhora no cenário da corrupção pode ser alcançada, na avaliação da instituição, por meio da promoção da transparência e do fortalecimento de instituições que são “fundamentais para evitar mais conflitos e preservar a paz”.

Fonte: G1 Mundo

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Governo Bolsonaro promoveu ‘desmanche’ no combate à corrupção, diz Transparência


Organização, que divulgou ranking de percepção da corrupção, afirma que ex-presidente usou mandato para destruir aparato de controle e garantir a ‘impunidade’ a familiares e aliados. O então candidato a presidente, Jair Bolsonaro, durante coletiva de imprensa no Palácio da Alvorada em Brasília (DF).
Fátima Meira/Estadão Conteúdo
A Transparência Internacional afirma, em relatório divulgado nesta terça-feira (31), que ações e omissões do governo de Jair Bolsonaro (PL) promoveram um “desmanche acelerado” e um retrocesso no combate à corrupção no Brasil.
A avaliação faz parte do relatório global que mede a percepção sobre a corrupção em 180 países. O Brasil ficou em 94ª lugar no ranking mundial, considerado um desempenho ruim pela organização.
Para a entidade, um dos fatores foi Bolsonaro ter utilizado o mandato, desde o primeiro dia de governo, para se blindar e blindar a família de investigações sobre denúncias de corrupção “fartamente comprovadas”.
O ex-presidente também garantiu proteção, avalia o relatório, ao usar o chamado “orçamento secreto” — emendas parlamentares cuja distribuição de recursos é definida pelo relator do Orçamento e não têm critérios claros ou transparência — para esvaziar o apoio à tramitação de processos de impeachment no Congresso Nacional.
A consequência, afirma a entidade, foi a “destruição” de mecanismos, aparatos e credibilidade de instituições de controle e fiscalização do país.
No ambiente de retrocesso no combate à corrupção, os anos Bolsonaro avançaram, segundo avaliação da entidade, para uma “degeneração sem precedentes” do regime democrático brasileiro, o que levou o país aos ataques golpistas nas sedes dos Poderes em Brasília, no início de janeiro.
“Os dois processos, de desmonte do arcabouço anticorrupção e da degradação da governança democrática, estão estreitamente relacionados”, indica o relatório Retrospectiva Brasil 2022.
Para a instituição, o retrocesso dos últimos quatro anos só foi possível graças a interferências do então presidente em instituições independentes e à omissão de agentes públicos nomeados por Bolsonaro.
Bolsonaro ataca Alexandre de Moraes e diz que não cumprirá mais decisões do ministro
A “peça central”, de acordo com a Transparência, foi a indicação de Augusto Aras para o cargo de procurador-geral da República, que “não apenas desarticulou o enfrentamento à macrocorrupção, mas foi também responsável por uma retração histórica nas funções de controle constitucional dos atos do governo”.
“Muito mais do que frear processos específicos, ele [Bolsonaro] neutralizou o sistema de freios e contrapesos da democracia brasileira, desmontando os três pilares que o sustentam: jurídico, político e social. Com isto, sua blindagem foi muito além da delinquência passada. Ele garantiu impunidade para cometer novos e muito mais graves crimes”, diz o documento.
Causa e recomendações
O relatório aponta como fatores para o “desmonte do arcabouço anticorrupção”:
fragilização das instituições;
ameaças ao sistema eleitoral;
esquemas de corrupção revelados;
ataques ao Supremo Tribunal Federal;
desmonte das políticas de proteção ambiental.
Menciona ainda:
recomendações aos Três Poderes;
e pontos positivos e negativos no Legislativo e Judiciário.
Fragilização das instituições
Segundo o documento, o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro teria interferido na atuação de outras instituições, como a Polícia Federal e a Petrobras.
A entidade cita, por exemplo, a troca de presidentes da Petrobras por insatisfação do governo anterior com o aumento do preço dos combustíveis.
Ameaça ao sistema eleitoral
A entidade avalia que o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores “levantaram dúvidas em relação à segurança das urnas eletrônicas, tentando reiteradamente minar um sistema que se provou confiável ao longo dos anos”.
Um dos casos citados pela Transparência Brasil é a apresentação feita por Bolsonaro para embaixadores de vários países na qual repetiu suspeitas já desmentidas por órgãos oficiais sobre a segurança das urnas eletrônicas.
O relatório lembra ainda que, após o segundo turno, o partido do então presidente Bolsonaro entrou no Tribunal Superior Eleitoral com pedido de verificação do resultado das eleições, sem apresentar provas de fraude.
Investigações contra corrupção
A Transparência lista episódios em que o então presidente e aliados foram citados em esquemas com indícios de corrupção. As apurações não caminharam, segundo a entidade, devido à interferências de Bolsonaro.
Para a organização, os casos desmontaram a narrativa criada por Bolsonaro de que não havia mais corrupção no governo.
O relatório também elenca como causas para o desempenho ruim do país no ranking mundial de corrupção:
o arquivamento da denúncia que apura a participação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em um esquema de “rachadinhas” na Assembleia Legislativa do Rio;
a utilização de servidores da Receita Federal para ajudar na defesa de Flávio Bolsonaro na denúncia de participação do esquema de “rachadinhas”;
o levantamento que aponta que ao menos 51 imóveis foram comprados pela família Bolsonaro com dinheiro vivo;
o suposto esquema para liberação de verbas pelo Ministério da Educação, no qual foram citados o então presidente Jair Bolsonaro e o então ministro Milton Ribeiro, e os indícios de irregularidades na compra de kits de robótica com verbas do Ministério da Educação e do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação;
a utilização da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) para obras com verbas do chamado “orçamento secreto” e de uso eleitoral;
e uma recomendação aprovada pela Comissão Mista de Orçamento do Congresso para que o Tribunal de Contas da União (TCU) deixasse de suspender obras e serviços públicos sem antes consultar o Congresso.
Ataques contra o STF
A Transparência Internacional menciona o perdão da pena concedido por Bolsonaro ao deputado aliado Daniel Silveira (PTB-RJ), que tinha sido condenado a oito anos e nove meses de prisão pelo Supremo Tribunal Federal. “O ato do presidente foi interpretado como um gesto de confronto contra o tribunal”, diz.
“Desde que assumiu, suas investidas autoritárias se depararam com a resistência institucional do STF, o que o levou a atacar marcadamente a Corte e seus ministros que passaram, inclusive, a serem hostilizados nas ruas e nas redes por apoiadores do ex-presidente”, conclui a entidade.
Desmonte da proteção ambiental
A Transparência aponta ainda que o governo Jair Bolsonaro manteve a “desarticulação” de políticas, mecanismos e órgãos de proteção ambiental no país. A instituição menciona como consequências desse movimento o aumento no desmatamento em terras indígenas e de áreas de mineração ilegal.
O assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips também demonstrou, segundo a instituição, falhas na proteção de defensores ambientais.
Recomendações
No documento, a Transparência Internacional faz uma série de recomendações ao novo governo com o objetivo de retomar a agenda de transparência e integridade.
Estão entre as propostas:
Devolver a autonomia a instituições como a Polícia Federal, Receita Federal e a Controladoria Geral da República (CGU);
Respeitar a lista tríplice para a indicação do próximo procurador-geral da República;
Não fazer uso de mecanismos como o “orçamento secreto”;
Respeitar a Lei de Acesso à Informação, reavaliando sigilos indevidos impostos pela administração de Jair Bolsonaro;
Remover do cargo funcionários de alto escalão do governo que estejam sob investigação ou processados por corrupção e delitos relacionados;
Fortalecer estruturas de investigação de crimes ambientais.
Outros poderes
Em relação ao Congresso Nacional e ao Judiciário, a Transparência Internacional destacou o envolvimento desses Poderes com o chamado “orçamento secreto”.
Do lado do Legislativo, o “orçamento secreto” ganhou o selo de ponto negativo. Segundo a entidade, a prática ajudou a fortalecer Bolsonaro junto a parlamentares sem posição ideológica clara – o chamado “Centrão” – e prejudicou o financiamento de políticas públicas e favoreceu esquemas de corrupção. Outro ponto elencado como negativo foi a aprovação de mudanças na Lei das Estatais.
No Judiciário, o julgamento que derrubou o “orçamento secreto” ganhou destaque positivo. Em dezembro, o STF considerou inconstitucional a prática.
Por outro lado, o Poder Judiciário contribuiu, segundo avalia a Transparência, para o cenário de desmonte de combate à corrupção ao derrubar e arquivar investigações. A entidade critica ainda o ativismo judicial de ministros do STF ao combater ataques antidemocráticos com violações a garantias constitucionais de “maneira continuada”.

Fonte: G1 Mundo

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ANTES E DEPOIS: imagens de satélite mostram que cemitério de mercenários de Putin não para de crescer


Atuando principalmente na guerra da Rússia na Ucrânia, Grupo Wagner é, em grande parte, composto por detentos que buscam redução de pena. Cemitério com corpos de mercenários do Grupo Wagner, na Rússia, em janeiro de 2023
Reuters
Levantamento da Reuters mostra que número de mortos entre mercenários do Grupo Wagner vem crescendo rapidamente nos últimos meses. Atuando principalmente na guerra da Rússia na Ucrânia, milícia é, em grande parte, composta por detentos que buscam redução de pena.
ANTES E DEPOIS: veja abaixo fotos de satélite do cemitério do Grupo Wagner em novembro de 2021 e janeiro de 2023
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No final do verão passado, um terreno próximo a uma pequena comunidade agrícola no sul da Rússia começou a ser preenchido por covas de combatentes mortos na Ucrânia. Os locais de descanso eram adornados com cruzes simples de madeira e coroas de flores coloridas que traziam a insígnia do Grupo Wagner da Rússia — um temido e secreto exército privado.
Havia cerca de 200 túmulos no local nos arredores da vila de Bakinskaya, na região de Krasnodar, quando a Reuters visitou no fim de janeiro. A agência de notícias comparou os nomes de pelo menos 39 dos mortos neste e em três outros cemitérios próximos aos registros do tribunal russo, bancos de dados disponíveis publicamente e contas de redes sociais. A Reuters também conversou com familiares, amigos e advogados de alguns dos mortos.
O que é o Grupo Wagner, de mercenários ligados à Rússia
Como o Grupo Wagner recruta detentos africanos para combater na Ucrânia
Muitos dos homens enterrados em Bakinskaya eram condenados recrutados pelo Grupo Wagner em 2022, depois que seu fundador, Yevgeny Prigozhin, prometeu perdão se os prisioneiros sobrevivessem seis meses no front. Eles incluíam assassinos, criminosos de carreira e pessoas com problemas com álcool.
Por meses, o Grupo está envolvido em uma sangrenta batalha para tomar as cidades de Bakhmut e Soledar na região de Donetsk, no leste da Ucrânia. Autoridades ocidentais e ucranianas disseram que estão usando os condenados como bucha de canhão para sobrecarregar as defesas da Ucrânia.
Ao endurecer as sanções contra o Grupo Wager neste mês, o porta-voz da segurança nacional da Casa Branca, John Kirby, classificou o grupo como “uma organização criminosa que está cometendo atrocidades generalizadas e abusos dos direitos humanos”. Em uma breve resposta aberta ao governo dos Estados Unidos, Prigozhin pediu a Kirby que “esclarecesse qual crime foi cometido” por eles.
Vídeos e fotografias das sepulturas apareceram pela primeira vez em canais de mídia social na região de Krasnodar em dezembro. A Reuters localizou geograficamente essas imagens no cemitério Bakinskaya e revisou a imagens de satélite da Maxar Technologies e da Capella Space.
Os registros mostram que o terreno do Gruopo estava vazio no verão de 2022, tinha três fileiras de sepulturas no final de novembro e estava três quartos cheio no início de janeiro. Praticamente todo o terreno havia sido usado no dia 24 de janeiro.
O ativista local Vitaly Votanovsky, que tirou as primeiras fotos e documentou os soldados mortos na Ucrânia que foram enterrados nos cemitérios da região de Krasnodar, disse à Reuters que observou um caminhão entregando corpos no cemitério. Os coveiros disseram a ele que os corpos vieram da cidade russa de Rostov-on-Don, perto da fronteira da Rússia com a região de Donetsk.
Quando a Reuters visitou o cemitério em janeiro, cercas e câmeras de segurança estavam sendo instaladas ao redor do terreno e outro enterro estava em andamento.
No início de janeiro, a agência de notícias estatal russa RIA Novosti publicou imagens de Prigozhin visitando o cemitério, fazendo o sinal da cruz e colocando flores em um túmulo. Segundo ele, os homens cujos corpos estavam no local haviam expressado desejo de serem enterrados em uma capela do Grupo Wagner, em vez de ter seus corpos devolvidos aos parentes.
O lote em Bakinskaya foi fornecido pelas autoridades locais, disse Prigozhin, depois que a capela ficou sem espaço. Em 2019, a Reuters noticiou a existência de um campo de treinamento do Grupo Wagner na vila de Molkino, a cerca 9 quilômetros de Bakinskaya.
Yevgeny Prigozhin, chefe do Grupo Wagner, tem laços estreitos com o Kremlin
AP Photo
Quem são os mortos
Dos 39 condenados identificados pela Reuters, 10 foram presos por assassinato ou homicídio culposo, 24 por roubo e dois por lesão corporal grave. Outros crimes incluíam fabricação ou tráfico de drogas e chantagem. Entre os condenados estavam cidadãos da Ucrânia, da Moldávia e da região separatista georgiana da Abkházia, apoiada pela Rússia. Marcações de madeira em seus túmulos em Bakinskaya e em três cemitérios próximos mostram que os homens morreram entre julho e dezembro de 2022, no auge da batalha em Bakhmut.
Um dos mais jovens, enterrado no cemitério próximo de Martanskaya, é Vadim Pushnya. Ele tinha apenas 25 anos quando morreu em 19 de novembro. Pushnya foi preso em 2020 por arrombar garagens, uma cervejaria e uma fábrica de cimento em sua cidade natal, Goryachiy Klyuch, perto da capela Wagner. A data de nascimento no túmulo de Pushnya corresponde à data fornecida em suas contas nas redes sociais e nos registros do tribunal.
O mais velho, Fail Nabiev, estava cumprindo pena de um ano e meio por roubo na Colônia Penal nº 2 da região de Ivanovo, 320 quilômetros a nordeste de Moscou — esta era pelo menos sua segunda passagem na prisão. Ele havia sido condenado em maio de 2022 por um tribunal na cidade turística de Suzdal por roubar um aparador de barbante e uma lixadeira avaliados em um total de 5.500 rublos (aproximadamente R$ 400) de uma garagem. De acordo com sua lápide de madeira, com o brasão de uma lua crescente islâmica, Nabiev morreu em outubro, menos de cinco meses após ser sentenciado. Ele tinha 60 anos.
A esposa de Nabiev, Olga Viktorova, confirmou à Reuters que Nabiev foi morto enquanto servia com o Grupo Wagner na campanha militar na Ucrânia. Ela disse que seu marido estava chegando ao fim de sua pena de prisão e que ele tinha dívidas substanciais de cartão de crédito que ela agora precisava pagar.
Viktorova disse que não sabia que seu marido havia se juntado a Wagner até depois de sua morte. O site de notícias independente russo iStories informou que Prigozhin visitou a Colônia Penal nº 2 para recrutar combatentes em agosto. A Reuters não pôde verificar o relatório de forma independente.
“Ele sempre teve ideias malucas. Um otimista incorrigível. [Ele provavelmente] pensou que faria uma viagem rápida à Ucrânia e ganharia algum dinheiro”, afirmou a esposa do combatente morto.
O Kremlin, o Ministério da Defesa da Rússia e as autoridades penitenciárias russas não responderam às perguntas para este artigo. O governo russo elogiou no passado as “ações corajosas e altruístas” dos combatentes da milícia. O fundador do Grupo, Prigozhin, que também não comentou, disse anteriormente que está dando aos condenados “uma segunda chance na vida”.
Embora a Reuters não tenha conseguido confirmar onde exatamente os homens morreram, a mãe de um deles disse que seu filho foi morto na região de Donetsk. As contas de mídia social de vários outros também indicam que eles estavam em território ucraniano antes de suas mortes.
Recrutados pelo Grupo Wagner
Anteriormente reservados, o Grupo Wagner e Prigozhin assumiram um perfil cada vez mais público desde o início da guerra da Rússia na Ucrânia. No passado, os mercenários foram enviados para a Síria, a Líbia e a República Centro-Africana em apoio aos aliados da Rússia.
Violência aumenta no Mali um ano após chegada dos russos do Grupo Wagner
Prigozhin, conhecido na Rússia como “chef de Putin” pelos serviços de alimentação contratados pelo Kremlin, negou consistentemente qualquer ligação com os milicianos. Então, em setembro de 2022, ele confirmou que fundou o exército privado, que descreveu como um “grupo de patriotas”.
Esta fotografia sem data entregue pelos militares franceses mostra três mercenários russos, à direita, no norte do Mali.
French Army via AP
Desde então, Prigozhin visitou repetidamente as linhas de frente no leste da Ucrânia, ao mesmo tempo em que criticou a liderança militar da Rússia e alguns altos funcionários, e liderou pessoalmente uma campanha para recrutar combatentes do extenso sistema penal da Rússia.
De acordo com um relatório publicado pelo Serviço Penitenciário Federal da Rússia, a população das colônias penais da Rússia diminuiu cerca de 8% entre agosto e novembro do ano passado — indo de 353.210 presos para 324.906, a maior queda em mais de uma década. O documento não forneceu motivos para o declínio repentino e acentuado, que coincidiu com o início da campanha de recrutamento do Grupo Wagner na prisão. O Serviço Penitenciário Federal não respondeu a perguntas detalhadas para esta reportagem.
Em dezembro, a Reuters informou que a comunidade de inteligência dos EUA acredita que o Gripo Wagner tinha aproximadamente 40.000 recrutas prisioneiros implantados na Ucrânia, número que representa a grande maioria do pessoal do Grupo.
Em uma mensagem de vídeo de 14 de janeiro, Prigozhin descreveu o Grupo como uma força totalmente independente com suas próprias aeronaves, tanques, foguetes e artilharia.
“É provavelmente o exército mais experiente que existe no mundo hoje”, disse Prigozhin.
Alguns dos condenados identificados pela Reuters eram criminosos violentos que passaram grande parte de suas vidas adultas na prisão ou enfrentavam longas sentenças. Documentos judiciais analisados ​​pela Reuters também retratam homens que lutaram contra problemas com álcool. Os nomes de alguns outros estão em listas de bancos, sugerindo problemas financeiros pessoais.
Suas vidas colocam em foco s realidade da subclasse criminosa da Rússia.
Prigozhin disse em dezembro ao site de notícias russo RBC que está dando aos condenados uma oportunidade de “se redimirem”. Em janeiro, ele apareceu ao lado do primeiro grupo de combatentes a ser perdoado, tendo sobrevivido às passagens pela Ucrânia.
Algumas semanas depois, ele escreveu uma carta aberta ao presidente do parlamento russo, Vyacheslav Volodin, pedindo-lhe que criminalizasse quaisquer ações ou publicações que desacreditassem os mercenário, proibindo a divulgação pública do passado criminoso dos milicianos. Prigozhin escreveu que aqueles “que estão arriscando suas vidas todos os dias e morrendo pela Pátria estão sendo retratados como pessoas de segunda classe, privando-os do direito de se redimir”. Volodin não respondeu ao pedido de comentário da Reuters.
Passado violento
Entre os prisioneiros identificados pela Reuters está Anatoly Bodenkov, de 43 anos. Ele estava cumprindo uma sentença de 16 anos após sua condenação como matador de aluguel, mostram documentos do tribunal. De acordo com uma reportagem local sobre o caso, em 2016 Bodenkov assassinou um corretor de imóveis local na cidade de Kirovo-Chepetsk, no norte, com uma espingarda de cano serrado por 400.000 rublos (aproximadamente R$ 29 mil). A lápide de Bodenkov diz que ele morreu em 27 de novembro de 2022. Não diz onde.
Pessoas em uniforme que reivindicam ser membros do grupo paramilitar Wagner, posam para foto ao lado do chefe do grupo, Evgeni Prigojine, em um local que poderia ser uma mina de sal em Soledar, em 10 de janeiro de 2023
CONCORD PRESS SERVICE/REUTERS
Um segundo prisioneiro, Viktor Deshko, 40, foi condenado a 10 anos por assassinato em 2021, de acordo com documentos judiciais e reportagens da mídia local. Bêbado, ele cortou a garganta de uma mulher durante uma discussão sobre dinheiro nas florestas perto da cidade mineira de Shakhty, perto da fronteira com o Donbass controlado pelos russos. Os documentos descrevem Deshko como “uma pessoa agressiva, que abusa do álcool”. Ele estava em liberdade condicional no momento do assassinato, tendo cumprido anteriormente três anos e meio por agressão com arma letal.
Para Bodenkov e Deshko, os nomes completos e datas de nascimento nas lápides correspondiam às mídias sociais e aos registros judiciais. A Reuters não conseguiu entrar em contato com amigos ou familiares dos dois homens, e seus advogados não responderam aos pedidos de comentários.
Mercenário russo relata fuga para a Noruega após testemunhar crimes de guerra
Um terceiro homem, Vyacheslav Kochas, foi condenado a 18 anos de prisão por um tribunal de São Petersburgo por assassinato e assalto à mão armada em 2020, quando tinha 23 anos. De acordo com documentos judiciais russos, Kochas e outro homem invadiram o apartamento de um conhecido enquanto estavam bêbados em uma tentativa de assalto. Ele espancou o conhecido e uma vítima mulher até deixá-los inconscientes, usando um ferro e um varal de metal. Kochas, então, ateou fogo em uma peça de roupa e a jogou no homem inconsciente. Grande parte do apartamento foi destruída pelas chamas, e o homem sucumbiu aos ferimentos dois dias depois.
Fotografias de Kochas nas redes sociais mostram um homem com cara de bebê. Em algumas, ele está abraçado a uma jovem não identificada. O perfil de Kochas no VKontakte, o equivalente russo no Facebook, agora diz: “Morto no Donbass”. A lápide de Kochas em Bakinskaya indica a data de sua morte em 21 de julho, logo após seu 25º aniversário e nos primeiros dias do avanço da Rússia em direção a Bakhmut.
O advogado de Kochas, Stepan Akimov, descreveu seu ex-cliente como “um cara realmente comum”, que ele disse ter sido condenado injustamente. A última vez que ouviu de Kochas foi uma mensagem de texto depois que seu apelo falhou, agradecendo a Akimov por sua ajuda. O advogado soube pela Reuters que seu ex-cliente havia se juntado ao Grypo Wagner.
“Posso imaginar, dada a extensão de sua sentença e quão jovem ele era, pareceu-lhe uma maneira de ficar livre. Quando um prisioneiro tem uma sentença de dois dígitos, aqui eles estão oferecendo libertação em seis meses. Aparentemente, Vyacheslav pensou que esta oferta era uma saída”, afirmou Akimov.
A Reuters não conseguiu entrar em contato com os parentes sobreviventes de Kochas.
A Rússia tem uma das maiores populações carcerárias per capita do mundo. Mark Galeotti, autor de “The Vory: a supermáfia da Rússia”, um livro sobre as culturas criminosas e prisionais da Rússia, diz que o apelo potencial do Grupo Wagner para os presos é mais amplo do que apenas um pedido de clemência. Servir como milicano, disse ele, oferece orgulho e um senso de propósito para condenados com poucas perspectivas após a libertação, pessoas que passaram algum tempo em uma cultura prisional impregnada de “um forte matiz nacionalista russo”.
“Sim, isso lhe dará a chance de sair da prisão, mas também a chance de realmente ser alguém. Esta é uma maneira pela qual, na verdade, o Grupo Wagner pode atrair pessoas que definitivamente são, ou acreditam ser, marginalizadas, forasteiras, perdedoras de alguma forma no sistema, e lhes dá a chance de pensar em si mesmos como vencedoras”, explicou Galeotti.
Um ucraniano no Grupo Wagner
Pelo menos um dos homens enterrados em Bakinskaya escondeu sua ficha criminal e tempo de prisão de seus entes queridos.
O escritório do grupo Wagner em São Petersburgo
Reuters
Por mais de meia década depois de se casar e deixar sua cidade natal, Luhansk, no leste da Ucrânia, Svitlana Holyk acreditou que seu irmão, Yury Danilyuk, estava trabalhando em algum lugar no extremo norte da Rússia. Os dois irmãos nascidos na Ucrânia tinham poucos parentes vivos e raramente se falavam depois que procuradores apoiados pela Rússia tomaram sua cidade natal em 2014. Holyk sabia apenas que seu irmão viajava regularmente a trabalho para a cidade fronteiriça russa de Bryansk, a 800 quilômetros de distância.
Rússia transforma presidiários em ‘heróis’ de guerra contra Ucrânia
Mas enquanto Holyk estava construindo uma nova vida na cidade ucraniana de Dnipro, Danilyuk estava usando as redes sociais para se inscrever em grupos pró-Rússia que apoiavam a insurgência separatista de Donbass. Em 2016, após um ano e meio sem contato, Danilyuk disse à irmã que havia se mudado para o norte ártico da Rússia. Ela disse que suas mensagens eram curtas e ele falava pouco sobre sua vida.
“Suspeitei, então, que algo havia acontecido, que ele poderia ter alguns problemas sobre os quais não queria ou não podia falar por algum motivo”, disse ela à Reuters, falando em ucraniano, em um telefonema do Dnipro. A cidade é agora um importante centro logístico para o exército ucraniano que luta no Donbass e um alvo constante de mísseis russos.
Um amigo próximo de Yury Danilyuk falou à Reuters sob condição de anonimato. Ele disse que Danilyuk mentiu para a irmã, a quem amava profundamente, para não perturbá-la com a notícia de sua prisão. Na verdade, ele havia sido condenado em 2016 a nove anos e oito meses de prisão por tráfico de drogas. Os dois homens foram encarcerados juntos na Colônia Penal nº 6 da região de Krasnodar.
O amigo disse que falou com Danilyuk pela última vez em setembro de 2022 e ouviu no final daquele mês por outros presos que ele havia se juntado ao Grupo Wagner. Olga Romanova, ativista pelos direitos dos prisioneiros do grupo de vigilância Rússia Atrás das Grades, disse à Reuters que Yevgeny Prigozhin visitou a Colônia Penal nº 6 para recrutar presos em duas ocasiões distintas. A Reuters não pôde verificar independentemente essas visitas.
O amigo disse que durante seu tempo na prisão, Danilyuk se envolveu com uma facção de prisioneiros que se recusam a cooperar com as autoridades prisionais por princípio – um fenômeno comum no sistema penitenciário da Rússia. Isso significava que Danilyuk perdeu a chance de ser solto antecipadamente por bom comportamento. A fonta também disse que a decisão do amigo de se juntar aos milicianos foi motivada pelo conhecimento de que, de outra forma, ele provavelmente cumpriria integralmente sua longa sentença.
De acordo com seu túmulo, Yury Danilyuk morreu em 30 de novembro de 2022. Ele tinha 28 anos.
A irmã de Danilyuk, Svitlana, disse que não sabia nada sobre a sentença de prisão de seu irmão, serviço com o Grupo Wagner e eventual morte durante a guerra da Rússia contra seu país natal, até ser contatada por jornalistas da Reuters. Holyk disse: “O fato de Yury ter morrido eu soube por você. Reli sua mensagem várias vezes quando você me escreveu. De alguma forma, não pude acreditar”.
O amigo recluso lembrava-se de Danilyuk como um patriota feroz de Donbass, sua terra natal, apaixonado por carros.
“Eu culpo tudo por ele não querer cooperar com as autoridades da prisão. Se ele tivesse concordado, ele estaria vivo. Mas ele recusou, então ele é um tolo”, disse.

Fonte: G1 Mundo