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Protestos no Irã: como uso do celular pode levar à prisão no país


O dispositivo móvel ajudou jovens iranianos a compartilhar imagens dos protestos antigoverno com o mundo, mas também pode levá-los à prisão. As autoridades iranianas estão fazendo o possível para impedir o compartilhamento de vídeos e fotos de protestos contra o governo
Getty Images via BBC
“Digite a senha do seu telefone!”, o agente de segurança iraniano gritava para o manifestante.
Cada grito era acompanhado por um soco na cara.
O rapaz de 20 e poucos anos foi preso durante um protesto na capital, Teerã, em outubro do ano passado.
“As forças de segurança estavam prendendo uma mulher”, diz ele. “Depois que ajudei ela a escapar, um policial me derrubou no chão.”
“Então, dois policiais colocaram os pés em cima das minhas costas e no meu rosto, me imobilizando no chão, e um terceiro me bateu por vários minutos.”
Eles fizeram uma pausa e pediram seu celular — ele entregou. Quando também obtiveram sua senha, ele foi colocado em uma van.
Por segurança, vamos manter ele e outros personagens desta reportagem em anonimato.
“Eles continuaram a me bater enquanto outro policial desbloqueava meu telefone e começava a vasculhar”, diz ele à BBC.
“Depois de alguns minutos, ele anunciou: ‘Não tem nada’. Finalmente, me deixaram ir.”
Segundo ele, os policiais só checaram sua galeria de fotos para ver se ele havia filmado os protestos.
Se ele tivesse essas imagens no telefone, poderia ter sido acusado de “propaganda contra o Estado”, como tantos outros manifestantes.
O regime iraniano está tentando endurecer a repressão.
O Parlamento está analisando atualmente um projeto de lei que puniria a filmagem e o compartilhamento de imagens de “crimes”.
O ato renderia até cinco anos de prisão — e a expectativa é de que inclua qualquer filmagem de protestos “ilegais”.
O Parlamento também está analisando uma emenda ao código penal para amordaçar celebridades — que foram alguns dos mais proeminentes apoiadores dos manifestantes.
Se uma celebridade fizer uma “declaração falsa” — que pode ser qualquer coisa que cause distúrbios —, ela pode ser condenada a até 15 anos de prisão.
Pena de morte no Instagram
O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, identificou o “ciberespaço” como um campo de batalha e pediu repetidamente às autoridades que “lutem contra a guerra híbrida dos inimigos”.
Ele diz que qualquer forma de dissidência é obra dos EUA e de seus aliados.
Outro jovem me contou que ele e outros manifestantes foram ameaçados de “estupro, execução e prisão de familiares” para forçá-los a desbloquear seus celulares para buscas.
Ele foi detido em um depósito junto a outras 300 pessoas em setembro.
Eles foram então coagidos a assinar falsas “confissões”.
A Justiça do Irã também publicou supostas capturas de tela de stories do Instagram e bate-papos online para “provar” a culpa de um jovem condenado à morte.
Mohammad Boroughani, de 19 anos, foi condenado por “hostilidade contra Deus” e acusado de esfaquear um oficial de segurança, além de “encorajar” as pessoas a participar dos protestos.
Depois que pessoas se mobilizaram nas redes sociais e protestaram na porta da cadeia onde ele está preso, seu caso foi enviado de volta à Suprema Corte para ser revisado.
Afsaneh Rigot, pesquisadora de tecnologia, legislação e direitos humanos da Universidade Harvard, nos EUA, diz que os dispositivos móveis estão sendo convertidos em “cenas de crimes”.
Ela estuda o uso de “provas digitais” na perseguição de pessoas LGBTQ no Oriente Médio e Norte da África há uma década.
“Estamos vendo essa tática ser usada principalmente em contextos repressivos, em que os sistemas de Estado e policiamento buscam processar (as pessoas) por crimes de pensamento, expressão e até identidade.”
Ela diz que evidências digitais obtidas “muitas vezes ilegalmente”, como fotos, vídeos ou até mesmo a instalação de alguns aplicativos, são tratadas como provas concretas.
Elas são então usadas ​​para respaldar os processos durante “julgamentos de fachada”, quando o histórico de navegação de alguém é, na melhor das hipóteses, um indício.
“Em países como o Irã, que criminalizam pessoas LGBTQ e crimes de pensamento e resistência, a presunção de inocência não existe”, diz ela.
“Você é presumidamente culpado, e as provas só precisam ser encontradas ou forjadas.”
Buscas direcionadas
Dispositivos eletrônicos são rotineiramente apreendidos sem mandados ou o devido processo legal.
A casa da família de um jornalista em Teerã foi invadida em outubro por uma dúzia de agentes do Ministério da Inteligência.
Ele ficou detido por semanas. Mas não foi a única pessoa afetada pela operação.
Policiais à paisana apreenderam os celulares de todo mundo e, na sequência, revistaram os aparelhos das pessoas com menos de 40 anos em busca de “evidências” digitais.
Um jovem presente disse à BBC que os agentes vasculharam as conversas do WhatsApp, Telegram e Instagram. Eles também checaram postagens de rede social, mas estavam focados principalmente nas galerias de fotos.
“Um dos policiais começou a me questionar sobre o que ele descreveu como roupa ‘não convencional’ de uma mulher em uma das minhas fotos de família”, ele relembra.
“Quando comecei a discutir com o policial dizendo que aquelas fotos eram particulares, de família, o líder da equipe de policiais interveio e disse: ‘Só procure fotos e vídeos de protesto! Ignore fotos pessoais’.”
Ele acredita que os agentes focaram neles por causa da idade e origem — como os mais propensos a se mobilizar nas ruas.
“Eles só querem garantir que o mundo não veja imagens dos protestos.”
Desde que as autoridades iranianas começaram a executar manifestantes, as mobilizações de rua se tornaram mais esporádicas e o epicentro do movimento de protesto mudou para os funerais.
O regime também mantém um controle rígido sobre a mídia.
Todas as emissoras são controladas pelo Estado, e os jornais repetem a narrativa oficial.
O Estado também recorre a proibições, ameaças e prisões para silenciar as publicações que criticam as políticas do governo.
Com a mídia convencional amordaçada, a maioria dos iranianos depende de canais de TV transmitidos via satélite para o país e da internet para obter notícias.
De acordo com estatísticas divulgadas pelo governo iraniano, 70% dos 84 milhões de habitantes do país usam internet, embora o Irã tenha um dos espaços online mais censurados do mundo.
Todas as plataformas populares de rede social e ferramentas de troca de mensagem são proibidas no Irã.
Para driblar essas restrições, as pessoas usam redes privadas virtuais e servidores proxy, que também estão na mira do Estado.
Para Afsaneh Rigot, que também é pesquisadora do grupo de direitos humanos Article 19, nada disso é novo, mas os riscos são muito altos.
“Nas mãos de Estados autoritários, a evidência digital é uma arma muito perigosa.”
– Este texto foi publicado em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-64450667

Fonte: G1 Mundo

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Fome pode gerar crise humanitária na Coreia do Norte


Pyongyang coloca ambições militares e nucleares acima da produção de alimentos. Com exterior diminuindo drasticamente a ajuda humanitária, país caminha para desastre semelhante à fome de quatro anos da década de 1990. Povoado de Kaepoong, na Coreia do Norte, e plantação são vistas ao fundo, atrás de posto de controle na fronteira com a Coreia do Sul.
Ahn Young-joon/ AP
A Coreia do Norte atravessa atualmente uma terrível crise alimentar. Analistas alertam que a situação pode deteriorar e transformar-se num desastre humanitário semelhante ao visto durante a fome de quatro anos em meados da década de 1990, que causou milhões de mortes – episódio denominado pelo regime norte-coreano como “Marcha Árdua”.
Os preços dos gêneros básicos estão subindo na Coreia do Norte à medida que se tornam cada vez mais escassos nos mercados do país, de acordo com a análise de uma série de estatísticas por especialistas do The Stimson Center, um think tank de relações exteriores com sede em Washington.
Embora a Coreia do Norte já tenha sofrido escassez de alimentos no passado, desta vez a situação possivelmente é mais grave, devido à resposta do governo de Pyongyang ao surto de coronavírus na vizinha China no início de 2020, que incluiu o fechamento de suas fronteiras e a suspensão de praticamente todas as importações, também de alimentos e medicamentos.
Para tornar ainda mais aguda a situação já crítica, as nações que nos últimos anos haviam fornecido ajudas milionárias à Coreia do Norte cortaram a assistência em resposta ao aumento da beligerância do país.
Em 2022 Pyongyang intensificou a retórica contra seus supostos inimigos, continuou o desenvolvimento de ogivas nucleares e disparou cerca de 80 mísseis, incluindo vários de longo alcance, que chegaram ao território japonês.
Famílias morrendo de fome
Apesar de não ser possível obter uma imagem clara da situação na Coreia do Norte devido ao firme controle que o governo exerce sobre a imprensa e o povo, há relatos na mídia dissidente de famílias morrendo de fome.
Uma reportagem publicada pelo Daily NK, com sede em Seul, em 9 de janeiro, afirma que uma mãe e o filho adolescente foram encontrados mortos em casa na cidade de Hyesan em meados de dezembro. Não havia comida e nem combustível para manter o lar aquecido nas temperaturas abaixo de zero grau centígrado. O jornal usa telefones celulares para se comunicar com uma rede de contatos na Coreia do Norte.
De acordo com o site de análise da Coreia do Norte 38 North, administrado pelo Stimson Center, “os dados de quantidade e preço apontam para uma situação de deterioração, agravada pela escolha do regime de se autoisolar em reação à pandemia de covid-19 “.
Marcus Noland, vice-presidente executivo do Peterson Institute for International Economics e colaborador do relatório, apontou que estimativas de agências como o Programa Mundial de Alimentos sugerem que a Coreia do Norte teve um déficit de 1,5 milhão de toneladas métricas de alimentos no pico da Árdua Marcha, enquanto sua colheita mais recente ficou cerca de 500 mil toneladas aquém.
“Está claro que as coisas estão ruins, mas neste momento não estamos falando de outra ‘grande fome'”, disse Noland à DW. Por outro lado, ele admite: há poucos indícios de que a situação alimentar do país asiático vá melhorar em breve.
Coreia do Norte aumenta volume de exercícios militares com lançamento de mísseis
“O governo norte-coreano é completamente irresponsável e prioriza outras coisas antes de seus cidadãos não pertencentes à elite, começando pelos militares: são armas nucleares, sistemas de mísseis e as Forças Armadas em geral. Então as reformas necessárias para alimentar o povo não são realizadas, porque a prioridade é preservar a estabilidade. E a posição deles é que, se o povo passa fome e morre, é simples ‘pena’.”
Ressaca da crise dos anos 1990
O líder norte-coreano Kim Jong Un inspeciona um teste de míssil em um local não revelado na Coreia do Norte, em operação realizada há mais de um mês.
Korean Central News Agency/Korea News Service via AP, File
A situação alimentar da Coreia do Norte nunca se recuperou completamente da fome de meados da década de 1990, causada por uma combinação de má administração econômica, colapso dos sistemas de distribuição de alimentos, uma série de secas e inundações e a crise econômica na Rússia, que havia sido um apoiador-chave.
Esses fatores subjacentes foram exacerbados pelo fracasso em aumentar a produtividade na agricultura doméstica, agravada pelas novas sanções das Nações Unidas impostas em 2018 após uma série de testes nucleares e lançamentos de mísseis balísticos intercontinentais, aponta Noland.
“Anteriormente, as sanções do Conselho de Segurança da ONU se concentravam no sistema militar, mas foi extensamente ampliado para incluir as importações de bens de luxo e a maioria das exportações norte-coreanas, como têxteis e vestuário”, relata Noland. “Foi uma mudança qualitativa no regime de sanções.”
A decisão de Pyongyang de se isolar, com o início da pandemia, agravou ainda mais a situação, interrompendo, por exemplo, o fornecimento de importações de fertilizantes. Além disso a Coreia do Norte tampouco ficou imune ao aumento dos preços globais de energia. resultaante da invasão da Ucrânia pela Rússia.
Park Jung-won, professor de direito internacional da Universidade Dankook da Coreia do Sul, diz que há evidências claras de “fadiga dos doadores” em países que já haviam intervindo anteriormente com assistência humanitária.
“Esses governos veem as constantes provocações do Norte no último ano e se questionam por que isso está acontecendo e por que deveriam continuar fornecendo assistência. É um país pobre que escolhe gastar dinheiro em mais mísseis e armas nucleares que põem em risco a segurança internacional, e eles estão gradualmente concluindo que não podem justificar seu apoio anterior.”
De acordo com o Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários, em 2022 os diversos governos nacionais entregaram às agências de ajuda US$ 2,3 milhões (cerca de R$ 11,71 milhões), uma queda dramática em relação aos US$ 14 milhões (cerca de R$ 71 milhões) do ano anterior.
A Suíça foi a maior doadora individual, fornecendo 1,6 milhão de dólares através do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e da organização Cooperação Suíça para o Desenvolvimento.
Vários países – incluindo Alemanha, França, Finlândia e Canadá – liberaram em 2021 verbas para apoiar a assistência humanitária na Coreia do Norte, mas não em 2022.
Noland ressalta que, embora a situação pareça estável no momento, isso é algo que normalmente ocorre até que a colheita do ano anterior termine.
“No momento as coisas parecem relativamente bem e os preços não estão mais subindo, mas os problemas tendem a se manifestar no fim de abril e maio, quando os suprimentos diminuem. Então a crise voltará nesses meses de escassez.” E, questionado se outra “Marcha Árdua” está despontando, Noland conclui: “É definitivamente possível”.

Fonte: G1 Mundo

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Palco que receberá papa Francisco desaba parcialmente na República Democrática do Congo


Segundo autoridades do país, chuva forte causou o desabamento. Pontífice visitará o país africano a partir de terça-feira (31). Cartaz em rua de Kinshasa, a capital da República Democrática do Congo, anuncia visita do papa Francisco ao país, em 30 de janeiro de 2023.
Luc Gnago/ Reuters
Um dossel sobre um palco construído para receber o papa Francisco em um estádio de Kinshasa, na República Democrática do Congo, desabou, segundo autoridades locais.
O pontífice chegará ao país africano na terça-feira (31) e rezaria uma missa no palco.
Segundo autoridades locais, o desabamento parcial ocorreu por conta de fortes chuvas que atingiram a cidade na noite de domingo (29). O chefe da polícia de Kinshasa, Sylvano Kasongo, afirmou à agência de notícias Reuters que o palco estava sendo reconstruído e poderá receber o pontífice.
“É a estrutura e a decoração gyproc (placa de gesso) que desabou, mas o pódio ainda está no lugar e o trabalho está em andamento para colocar tudo de volta em ordem”, disse ele.
Nas redes sociais, publicações mostravam a estrutura parcialmente desabada.
O palco fica dentro do Estádio dos Mártires, onde Francisco falará na manhã de quinta-feira (2). O estádio passava por reparos nesta segunda-feira, mas o governo da República Democrática do Congo não autorizou a entrada da imprensa.
O ministro do Interior, Daniel Aselo Okito, visitou o estádio nesta manhã como parte de um tour pelos locais que receberão o papa, e disse em um comunicado que espera que os reparos sejam concluídos a tempo para o evento de quinta-feira.

Fonte: G1 Mundo

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Quem foi Maomé, a figura-chave do islã


Líder religioso ficou conhecido em português como Maomé. Para muçulmanos e estudiosos do islã, contudo, a transliteração não é bem-vinda — pode soar até como ofensiva. Gravura otomana de autor desconhecido representa Maomé com o rosto vendado, justamente para não “representá-lo”
BBC
Líder religioso e político do Oriente Médio, Abul Al-Qasim Muhammad ibn Abd Allah ibn Abd Al-Muttalib ibn Hashim (571-632) entrou para a história como Maomé — ou Muhammad, com preferem seus seguidores —, o fundador do islã.
“Sabe-se que ele foi um líder que fez uma revolução muito significativa no território que hoje majoritariamente pertence à Arábia Saudita”, resume o cientista da religião Atilla Kus, pesquisador e mestre pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e autor do livro A Constituição de Medina.
“Ele nasceu em Meca e, aos 40 anos, começou a pregar uma nova religião que foi denominada, no livro sagrado Alcorão, como ‘islam’ – islã, como se costuma dizer no Brasil.”
O pesquisador é enfático: “Não há registros que indiquem que ele não existiu”. E diz que, como acontece com outros fundadores de religiões, o próprio fato de que tantos passaram a seguir o que foi deixado por ele também é um indicativo que, sim, ele existiu.
Kus diz que os 1,8 bilhão de adeptos do islã são “a maior evidência de que ele existiu e liderou um movimento religioso na primeira metade do século 7 da era comum”.
Há documentos antigos, escritos pouco tempo após a morte dele, chamados de “sira” e que são considerados, por muçulmanos e também por alguns estudiosos do islã, como as biografias de Maomé. Segundo a antropóloga Francirosy Campos Barbosa, professora na Universidade de São Paulo (USP-Ribeirão Preto) e autora do livro ‘Hajja, hajja: a experiência de peregrinar’, “muito do que sabemos sobre a vida” dele é devido a esses registros.
Ela ressalta que pesquisadores não muçulmanos também costumam se apoiar nesses escritos, como é o caso da historiadora da religião Karen Armstrong, ex-freira, graduada na Universidade de Oxford, que lecionou na Universidade de Londres. Entre seus livros, estão títulos como ‘Muhammad: a Biography of the Prophet’ e ‘Muhammad: Prophet For Our Time’.
“Muhammad tornou-se profeta aos 40 anos. E o que se sabia é que ele era um membro do Hachemita, nome que vem da linhagem de seu pai Hashim, e dos Coraichitas, grupo influente em Meca”, relata Barbosa. “Sobre a infância e adolescência, sabemos que ele perdeu seus pais ainda criança, e foi criado por seu tio, Abu Talib. Tornou-se mercador como muitos homens de sua época.”
Aos 25 anos, ele se casou com Khadija, vivendo com ela até se tornar viúvo, com 50 anos. Khadija era uma comerciante 15 anos mais velha do que Maomé. Tiveram vários filhos. “Mas vários deles também morreram. Uma das suas filhas mais conhecidas é Fátima”, comenta Barbosa.
“Na época, Meca já era uma cidade importante, um caminho de trocas comerciais, por onde passavam grandes caravanas de mercadores”, acrescenta a antropóloga. O local já era ponto de peregrinação para quem visitava a Caaba, local considerado sagrado por tribos beduínas da região mesmo antes do islã — e depois ressignificado com o advento da nova religião.
“Essa cidade-estado era controlada pelos Coraichitas. No entanto, muitos moradores da península arábica eram adoradores de deuses e faziam seus cultos na Caabra”, contextualiza a pesquisadora. “Muhammad era conhecido pela sua bondade desde criança, seu tratamento justo com as pessoas, sua honestidade que sempre se destacava. Ele tinha o hábito de se afastar para o Monte Hira para rezar e estar mais perto de Deus.”
Foi numa dessas idas à montanha que Maomé viveu a epifania que daria origem ao seu papel religioso. Ele teria sido surpreendido pelo anjo Gabriel. “Que disse a ele: Iqra, ou seja, leia!”, pontua Barbosa.
“Lê, em nome do teu Senhor Que criou; Criou o homem de algo que se agarra. Lê, que o teu Senhor é Generosíssimo, Que ensinou através do cálamo, Ensinou ao homem o que este não sabia”, diz o trecho do Alcorão.
“A partir dessa experiência, o profeta passa a conduzir a sua vida espiritualmente. Se por um lado trouxe muitos seguidores, também trouxe muitos que os perseguiram, passando a ser considerado um subversivo religioso”, comenta a pesquisadora.
“Ele pregava a existência de um só Deus e isso provocava imensamente a população da época, que adorava vários. Durante 23 anos o Alcorão foi revelado ao profeta, uma parte em Meca e a outra parte em Medina, para onde teve que imigrar devido a perseguições que sofria do povo de Meca. Aos poucos Muhammad foi se tornando de líder carismático a um líder político. A própria Constituição de Medina é um exemplo da sua forma equilibrada de dialogar com muçulmanos e não muçulmanos.”
Islã e islamismo
Para os muçulmanos, é importante delimitar a diferença dos termos islã e islamismo. “É muito comum e é um vício de linguagem se referir ao islã como islamismo, porém é um equívoco, pois islamismo é, academicamente, a nomenclatura que se usa para referenciar o movimento político que se sustenta no islã”, explica Kus. “O nome da própria religião é islam, ou islã – esta como foi feita a adaptação no português brasileiro.”
“O termo mais correto é islam, que significa paz. Este é o nome da religião”, complementa Barbosa. “É comum usarmos islamismo quando nos referimos a ações político-religiosas de alguns grupos muçulmanos.”
Outra questão recorrente quando se fala sobre a religião muçulmana é a possibilidade da representação, por meio de imagens, do profeta Maomé. Costuma-se dizer que qualquer retrato que aluda a ele seja algo terminantemente proibido. Mas, segundo os pesquisadores, isso não é tão radical como possa parecer.
“A imagem é permitida desde que não seja um objeto de adoração”, explica Kus. “No islã, o uso de figuras humanas em desenhos e imagens foi proibido por muito tempo porque as pessoas poderiam adotar aquilo como uma divindade. Portanto, [no contexto religioso,] a representação imagética de Muhammad também é proibida por esse motivo.”
A antropóloga Barbosa ressalta que “a imagem de todo profeta” tem a reprodução proibida dentro do islã. “Não apenas de Muhammad. Há mais de 144 mil profetas segundo o islam e nenhum deles pode ter sua imagem reproduzida. Inclusive Jesus, que é um dos profetas da religião.”
“Como o islã é uma religião monoteísta, de crença em Deus único, a preocupação é de que imagens de pessoas importantes para o islã possam virar cultos, o que passem a ser adorados. Isso faz com que o entendimento seja de proibir imagens de profetas e mensageiros”, contextualiza ela.
O cientista da religião Kus ressalta que a determinação foi dada pelo próprio profeta, “para que as pessoas posteriormente não adotassem a imagem dele como uma divindade e, assim, caíssem no único pecado imperdoável no islã: o de atribuir parceiros a Deus”.
“Por outro lado, depois de um certo avanço científico e intelectual, na jurisprudência islâmica permitiu-se a pintura de figuras humanas”, comenta ele. Como exemplo, ele cita a pintura do sultão Mehmed 2º (1432-1481), do Império Otomano, realizada no século 15.
Charlie Hebdo
A representação de Maomé ou Muhammad por meio de imagens é uma situação muito controversa mesmo dentro do islã. Em 30 de setembro de 2005, o jornal dinamarquês Jyllands-Posten publicou 12 caricaturas do profeta muçulmanos e, com isso, desencadeou uma série de protestos.
A narrativa da época era de que o órgão de imprensa havia violado de forma proposital o preceito islâmico de não representação iconográfica do líder religioso. Seguidores do islã no país passaram a exigir um pedido formal de desculpas e pelo menos dois dos cartunistas precisaram de resguardo porque passaram a enfrentar ameaças de morte. Houve protestos de muçulmanos em Copenhague e um pedido de diplomatas muçulmanos para que o chefe de estado dinamarquês condenasse publicamente o jornal.
Em janeiro do ano seguinte, o Jyllands-Posten publicou um pedido de desculpas. Contudo, diversas outras publicações europeias, baseadas em princípios da liberdade de imprensa, decidiram republicar as caricaturas. Houve incidentes em embaixadas. Em 4 de fevereiro, manifestantes muçulamos na Síria incendiaram as sedes locais da Noruega e da Dinamarca. No dia seguinte, seguidores do islã atearam fogo no consulado dinamarquês em Beirute, no Líbano.
Em 7 de janeiro de 2015, o alvo foi o jornal satírico francês Charlie Hebdo. Um atentado ocorrido na redação da publicação, em Paris, acabou deixando 12 mortos e cinco feridos. O jornal vinha, reiteradamente e há anos, publicando ilustrações de Maomé e de temáticas islâmicas, sempre com fundo humorístico.
Segundo a antropóloga Francirosy Campos Barbosa, “a criação de imagens é uma questão controversa entre os muçulmanos devido às narrações proféticas que proíbem fortemente imagens associadas à idolatria e que rivalizam com a criação de Alá”.
“No entanto, o profeta fez uma concessão em relação a imagens e os estudiosos modernos permitiram imagens se elas servissem a um propósito útil”, explica. “Todos os estudiosos muçulmanos permitem fotos e imagens de coisas que não têm alma, como árvores, pedras, paisagens e assim por diante. Essa concessão foi dada por Ibn Abbas quando lhe foi pedido um julgamento sobre imagens.”
Parente de Muhammad, Ibn Abbas é considerado, pelos muçulmanos, um dos primeiros especialistas em Alcorão.
A proibição das imagens, conforme explica Barbosa, é baseada nos hádices do profeta. São diversos os que versam sobre isso. “Segundo algumas opiniões, é totalmente proibido fazer imagens de coisas com uma alma. Essa é a opinião mais estrita e a mais segura para os muçulmanos que desejam evitar imagens ilegais”, contextualiza a especialista. “No entanto, existem fortes evidências que sugerem que não são as imagens em si mesmas que são ilegais, mas é a intenção para a qual elas são usadas.”
“Desde o início, o profeta Muhammad havia proibido o desenho da imagem dele, pelo medo de que as pessoas pudessem adotá-la como ícone de adoração, de idolatria”, diz Kus.
Maomé ou Muhammad?
O líder religioso acabou ficando conhecido, em português, como Maomé. Para muçulmanos e estudiosos do islã, contudo, a transliteração não é bem-vinda — pode soar até como ofensiva. Não há um consenso, contudo.
A antropóloga Barbosa cita um estudo realizado pela Universidade Jean Moulin Lyon 3, da França, para argumentar que houve uma “deformação” do nome do profeta do islã que remonta à Idade Média.
Nas primeiras traduções latinas do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, Muhammad foi transcrito como Mahumet ou Mahomet. “Alguns muçulmanos na França acreditam que ‘Mahomet’ tenha sido forjado a partir de um raiz xenófoba denegridora, ou que tenha vindo de ‘ma houmid’, expressão que significaria ‘o indigno de louvor'”, aponta Barbosa.
Ela lembra que esse nome não foi o único a ser distorcido durante a transição do árabe para o látim. “Nomes de grandes estudiosos muçulmanos sofreram o mesmo destino, sem que isso tenha dado origem à menor disputa. Como o filósofo Ibn Sina [estudioso que viveu entre 980 e 1037], que se tornou Avicena”, comenta ela. “A corruptela do nome foi seguida em Portugal. Muhammad para Mahumet e, daí, Maomé.”
“Eu acredito que o uso do nome Maomé é inapropriado e errado, pois por mais que os prenomes sejam traduzíveis, os nomes de pessoas que marcam a história geralmente são preservados em sua forma original”, argumenta Kus.
É uma verdade parcial. Kus usa como exemplo o fato de que o atual monarca do Reino Unido seja tratado, no Brasil, como Rei Charles 3º, e não Rei Carlos 3º. Entretanto, muitos países “traduzem” o nome do britânico, chamado de Carlos em Portugal, Carlo na Itália e Karel na Eslovênia, por exemplo.
E mesmo no Brasil há uma tradição de transliterações, considerando outras figuras históricas. Nas escolas, por exemplo, é comum que o príncipe neerlandês Willem Van Oranje (1544-1584) seja referido como Guilherme de Orange. E, navegando por searas religiosas, Moisés é plenamente aceito como a versão em português de Moshé, assim como Jesus é a maneira como se nomeia Yeshu.
Outro ponto levantado por Kus, contudo, merece reflexão: para muitos seguidores do islã, Maomé pode ter sido uma tradução mal-feita. “Acredito que devamos usar Muhammad ao invés de Maomé porque, com se pode ver, um nome não tem nada a ver com outro”, argumenta o pesquisador. “Pelo que tenho visto, português e francês são os únicos idiomas que fizeram essa adaptação nada a ver com o nome original.”
Segundo Kus, uma possível explicação seria por conta de “nomes de escravizados africanos que eram muçulmanos”. “Um deles tem uma autobiografia, e se chamava Mahomah Baquaqua. Porém, as adaptações desses nomes não eram para substituir o original Muhammad. Era para derivar novos nomes para que as pessoas não ofendessem o nome do profeta”, explica ele.
Nesse sentido, usar Maomé para se referir ao líder religioso seria um contrassenso, à medida que a transliteração torta teria sua origem justamente quando a ideia fosse não se referir a ele.
“Penso que isso pode ter sido uma transliteração do nome para facilitar a pronúncia”, comenta a antropóloga Barbosa. “No entanto, nenhum muçulmano no Brasil vai se referir ao profeta com esse nome. O incorreto para os muçulmanos é dizer que se segue a Maomé, ou se referir a eles como maometanos.”
É uma polêmica que já foi discutida na imprensa. Entre 2001 e 2006, por exemplo, naquele contexto pós-atentados do 11 de Setembro, a Folha de S. Paulo adotou a grafia Muhammad em vez de Maomé. Conforme explicou o jornalista Marcelo Beraba, então ombudsman do jornal, em coluna publicada em 19 de março de 2006, isso ocorreu porque havia o entendimento de “que Maomé era uma palavra ofensiva para os muçulmanos”. E isso passou a constar inclusive do Manual de Redação utilizado pela publicação.
Em seu texto, no entanto, Beraba justificou a volta do uso de Maomé argumentando que “uma transliteração malfeita não significa que o termo transliterado seja uma ofensa”. Em linhas gerais, contudo, a volta do termo outrora consolidado se apoiou, depois de tantas reclamações de leitores, na tradição. “O questionamento principal [dos leitores] tinha como base a tradição. Por que deveríamos adotar uma grafia novas se tínhamos uma consagrada, Maomé?”, argumentou o jornalista.
Diálogo interreligioso
Interessante notar que o islã, nascido após o judaísmo e o cristianismo, conserva em suas bases um diálogo com essas religiões predecessoras. “Isso vem desde os primórdios”, diz Kus. “Segundo a tradição islâmica, quando o profeta Muhammad recebeu as primeiras revelações corânicas aos seus 40 anos de idade e ficou espantado pela realidade sobrenatural que lhe aconteceu, Khadija, sua esposa, o levou até um primo próximo que era um estudioso cristão das escrituras sagradas.”
Esse primo, Waraqa ben Nawfal, teria sido quem lhe deu amparo sobre o ocorrido e o orientado sobre os próximos passos. “Além disso, os primeiros muçulmanos foram bem recebido por reis cristãos como Najashi As-ham, da Abissínia, e Heracleio, do Império Bizantino”, pontua Kus. “Já a relação com os judeus é muito mais estrita, conforme vemos na Constituição de Medina, que é meu objeto de estudo no meu livro de mesmo nome.”
Ele ressalta que a maioria das figuras bíblicas, como Adão, Noé, Moisés, Jesus e Maria, faziam parte “de ensinamentos” do Alcorão, sempre “como exemplos de fé e profetas de Deus”. “Particularmente, Noé, Abraão, Moisés e Jesus são citados como os maiores profetas e mensageiros enviados na história de toda a humanidade”, comenta Kus.
“Jesus é conhecido e respeitado pelo islam como a palavra de Deus encarnada e concebida por Virgem Maria de forma milagrosa. Maria é a única mulher citada por nome como um exemplo de fé e devoção e possui um capítulo do Alcorão propriamente dedicado a ela.”
Barbosa ressalta que Jesus e Moisés são mais vezes citados no Alcorão do que o próprio Muhammad.
– Este texto foi originalmente publicado em https://www.bbc.com/portuguese/geral-63635739

Fonte: G1 Mundo

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Oposição turca divulga programa comum para derrotar Erdogan nas eleições


União dos seis partidos contrários ao atual governo ainda não divulgou o nome do concorrente, mas ele deve sair do Partido Republicano do Povo (CHP). Líderes dos seis partidos de oposição da Turquia durante divulgação de frente única contra o atual presidente Recep Tayyip Erdogan
Adem ALTAN / AFP
Os seis partidos da oposição turca apresentaram, nesta segunda-feira (30), um programa comum de 240 páginas com mais de 2.300 objetivos para as eleições legislativas e presidenciais de maio, para enfrentar o presidente em final de mandato, Recep Tayyip Erdogan, no poder há 20 anos.
A chamada Aliança Nacional ainda não designou seu candidato para enfrentar o chefe de Estado, mas, muito provavelmente, o nome sairá do Partido Republicano do Povo (CHP, social-democrata).
Primeira força de oposição no Parlamento, o CHP foi criado por Mustafa Kemal Atatürk, o fundador da República, em 1923.
A eleição presidencial será realizada junto com as legislativas, em 14 de maio. Caso seja necessário, o segundo turno será em 28 de maio.
Líderes dos seis partidos de oposição da Turquia durante divulgação de frente única contra o atual presidente Recep Tayyip Erdogan
Adem ALTAN / AFP
Conhecida como Mesa dos Seis, a Aliança Nacional quer voltar à estrita separação de poderes no país, com um papel reforçado do Legislativo, “um Executivo responsável” por suas decisões e “um Poder Judiciário independente e imparcial”.
Os poderes executivos seriam, assim, confiados a um primeiro-ministro escolhido pelo Parlamento, e o presidente poderia ser eleito apenas para um único mandato de sete anos.
Líder do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, conservador islâmico), Erdogan foi primeiro-ministro de 2003 a 2014 antes de se tornar o primeiro presidente turco eleito por sufrágio universal direto, em 2014. Foi reeleito em 2018. Em 2017, uma revisão constitucional ampliou seus poderes, significativamente.
Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, usa máscara durante discurso em 3 de novembro de 2020
Adem Altan/AFP
A oposição promete que, se eleita, as emendas à Constituição serão submetidas à aprovação do Parlamento por uma maioria de dois terços, ou seja 400 votos do total de 600 deputados. Outra promessa é o fim dos decretos presidenciais, os quais Erdogan tem usado, regularmente, para demitir funcionários de alto escalão do governo, como o governador do Banco Central.
O presidente também não poderá vetar uma lei que esteja em discussão no Parlamento, mas poderá devolvê-la aos deputados, se quiser impugná-la.
A Aliança Nacional promete, ainda, que qualquer processo contra um partido político para bani-lo estará sujeito ao sinal verde do Parlamento.

Fonte: G1 Mundo

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Alemanha anuncia cerca de 200 milhões de euros para ações ambientais no Brasil

Valor equivale a mais de R$ 1,1 bilhão, na cotação atual. País europeu é o principal financiador do Fundo Amazônia; verba anunciada nesta segunda vai também para outras iniciativas. Os governos do Brasil e da Alemanha fizeram um anúncio conjunto nesta segunda-feira (30) para detalhar um aporte de cerca de 200 milhões de euros, a serem enviados pela Alemanha, para uso em ações ambientais no Brasil.
O anúncio foi feito em Brasília, após uma reunião entre a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e a ministra da Cooperação da Alemanha, Svenja Schulze.
Conforme o anúncio, os 203 milhões de euros serão divididos entre diferentes iniciativas:
80 milhões de euros em empréstimos a juros reduzidos;
35 milhões de euros para o Fundo Amazônia;
31 milhões de euros em apoio aos estados da Amazônia para implementação de medidas “ambiciosas” para maior proteção florestal;
29,5 milhões de euros para um Fundo Garantidor de Eficiência Energética para pequenas e médias empresas;
13,1 milhões de euros para reflorestamento de áreas degradadas;
9 milhões de euros para apoio a cadeias de abastecimento sustentável;
5,37 milhões de euros para consultoria para o fomento de energias renováveis na indústria e no setor de transportes.
Ao tomar posse no cargo, no início de janeiro, Marina Silva afirmou que o país precisaria de “parcerias” para reestruturar a proteção ao meio ambiente no país. Relembre abaixo:
‘Vamos precisar de parcerias’, diz Marina Silva sobre medidas do Ministério do Meio Ambiente
Ajuda aos Yanomami
Também na coletiva com a ministra alemã, Marina Silva afirmou que o governo federal utilizará recursos do Fundo Amazônia para ajudar o povo Yanomami.
A população indígena sofre com uma grave crise de saúde, com inúmeros registros de desnutrição e malária.
Criado em 2008, o Fundo Amazônia estava parado desde 2019, primeiro ano do governo Jair Bolsonaro. Na ocasião, o então governo suspendeu diversos comitês, entre os quais dois ligados ao fundo.
Naquele mesmo ano, em meio a diversas medidas e declarações polêmicas do governo sobre a gestão ambiental, Noruega e Alemanha suspenderam os repasses.
Em 1º de janeiro, dia em que tomou posse como novo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva assinou uma série de medidas, entre elas um decreto em que determinou a retomada do fundo.
Fome, desnutrição, malária, e contaminação por mercúrio: a tragédia Yanomami em Roraima

Fonte: G1 Mundo

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Morte brutal de Tyre Nichols pressiona Congresso para aprovar reforma da polícia nos EUA


Engavetada no Senado, Lei George Floyd esbarra na resistência republicana para limitar a violência policial no país Policiais são acusados de homicídio doloso nos EUA
Entre os assassinatos brutais de George Floyd e Tyre Nichols, há um projeto de lei aprovado em 2020 pela Câmara dos Representantes dos EUA para reformar a polícia: acabaria com a imunidade qualificada para policiais acusados de má conduta, criaria um registro de ações disciplinares, proibiria estrangulamentos e mandados de segurança.
Nada disso aconteceu porque o projeto foi engavetado pelo Senado republicano, e o país foi submetido, mais uma vez, a angustiantes imagens do espancamento de um negro até a sua morte, ocorrida três dias depois num hospital de Memphis, no Tennessee. Com outra configuração, o Congresso se vê novamente sob pressão, a começar pelo presidente Joe Biden, para aprovar finalmente a Lei George Floyd.
“Quantas dessas tragédias temos que ver em vídeo antes de dizer que temos um problema, América?”, vociferou Ben Crump, advogado da família de Nichols, o jovem de 29 anos e pai de um menino de 4, que foi espancado por cinco policiais, todos negros.
Manifestantes em Nova York participam do segundo dia de protestos pela morte de Tyre Nichols, em 28 de janeiro de 2023
REUTERS/Jeenah Lua
O prognóstico para se alcançar um acordo bipartidário desta vez, contudo, permanece nebuloso. Como previu o ex-congressista republicano Adam Kinzinger, entrevistado no programa “State of Union”, da CNN, deverá fracassar pelo partidarismo extremo no Congresso. Embora os democratas tenham conquistado mais uma cadeira no Senado, um acordo requer a aprovação de 60 votos para que o projeto se transforme em lei.
Com a legislação emperrada na legislatura passada, Biden assinou uma ordem executiva dois anos após a morte de Floyd. São ações limitadas que podem ser aplicadas apenas pelos policiais federais e proíbem estrangulamento e ampliam o uso de câmeras acopladas aos agentes.
A ordem federal, no entanto, não se estende às polícias locais. Pelo menos 25 governos estaduais tomaram a dianteira e aprovaram medidas para restringir a imunidade policial em casos de má conduta. Foram aprovados cerca de 300 projetos de lei para reformar as polícias locais, estabelecendo supervisão civil às corporações, treinamentos e limites para o uso de força.
Em Memphis, onde 65% da população é negra, assim como 58% da corporação, os cinco policiais que espancaram Tyre Nichols, foram demitidos e acusados em assassinato de segundo grau. O Departamento de Polícia anunciou a extinção da unidade Scorpion, a qual pertenciam, que na sigla em inglês ironicamente significa “Operações de Crimes de Rua para Restaurar a Paz em Nossos Bairros”.
Trata-se de um primeiro passo, mas, como reza o dito popular, o sofá continua na sala.
Advogado da família de Tyre Nichols pressiona Biden por reforma na polícia

Fonte: G1 Mundo

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3 ursos-beiçudos morrem de frio dentro de avião na Bélgica


Avião não pôde decolar devido à neve no local. Animais iam do Peru para o Catar. Hana, uma ursa-beiçuda fêmea, inspeciona sua nova casa na área Asia Trail do Zoológico Nacional em Washington
Molly Riley/REUTERS
Três ursos-beiçudos morreram de frio depois de serem deixados em um avião no aeroporto de Liege, informou o jornal belga SudInfo nesta segunda-feira (30).
A aeronave foi impedida de decolar devido ao mau tempo, o que fez os animais sofrerem com as baixas temperaturas da cidade que alcançaram os 2°C nesta segunda.
No total, nove ursos-beiçudos estavam no avião, que seguia do Peru para o Catar, antes de ficarem presos no trânsito do aeroporto de Liege, em Grâce-Hollogne, na Bélgica, segundo a SudInfo.
“Vamos ver quais são as responsabilidades e quais sanções devem ser tomadas à luz disso”, disse a ministra do bem-estar animal de Walloon, Celine Tellier, à rádio Bel-RTL.
Os ursos-beiçudos, também conhecidos como ursos de mel ou ursos-preguiça estão listados como vulneráveis na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
Segundo a agência de notícias Reuters, eles são frequentemente capturados para serem treinados como ursos dançarinos.

Fonte: G1 Mundo

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Defesa de Daniel Alves entrega recurso e acredita que jogador deve deixar prisão dentro de um mês


Advogados pediram à Justiça da Espanha nesta segunda (30) que jogador responda em liberdade à acusação de estupro. Entenda prisão preventiva de Daniel Alves por suposta agressão sexual na Espanha
Os advogados de Daniel Alves apresentaram nesta segunda-feira (30) um recurso pedindo que o o jogador responda em liberdade à acusação de ter estuprado uma jovem em Barcelona.
A defesa acredita que o jogador deve deixar a prisão em menos de um mês.
O jogador está preso de forma preventiva há mais de uma semana em Barcelona, na Espanha, acusado de estuprar uma mulher no banheiro de uma boate. Ele foi detido enquanto prestava depoimento sobre o caso.
A juíza responsável pelo caso viu contradições em suas declarações e acatou um pedido do Ministério Público espanhol de prisão preventiva sem fiança para o jogador.
De acordo com o jornal “El Periódico”, o recurso foi entregue nesta manhã ao 15º Tribunal de Instrução de Barcelona – esse tipo de Corte é o responsável por analisar um caso antes de decidir se ele deve ou não ir a julgamento. Alves ainda não é considerado réu.
O pedido será transferido para a Audiência de Barcelona – a instância mais alta da Justiça local, que será quem julgará se aceita ou não o recurso. A defesa da jovem que acusa Alves também será notificada e poderá apresentar novas argumentações, caso queira.
Fontes da defesa de Daniel Alves contaram ao jornal espanhol “El Mundo” que a expectativa é que a Justiça aceite o recurso em um prazo de aproximadamente um mês, um cálculo que levou em conta os prazos para a análise do pedido e trâmites legais.
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A tática da defesa para redigir o recurso foi a de se concentrar no argumento de que a relação foi consensual – esta foi a última versão dada por Daniel Alves em declaração à Justiça. A suposta vítima nega, e a Promotoria disse ter provas suficientes que comprovem o crime de agressão sexual.
No depoimento inicial, Alves havia dito que não conhecia a vítima e garantiu que não houve qualquer relação.
Os advogados argumentam que ele mentiu por não querer revelar a traição à sua mulher, a modelo das ilhas Canárias Joana Sanz – Sanz ainda não se pronunciou sobre o caso, mas apagou as fotos do marido em sua conta do Instagram.
A defesa também sugeriu, no recurso, que Daniel Alves use uma pulseira eletrônica e entregue seu passaporte à Justiça. As sugestões são uma tentativa de desarmar a principal argumentação da Promotoria quando pediu a prisão preventiva do brasileiro – a de que havia alto risco de fuga, já que ele residia em outro país e tem poder aquisitivo suficiente para deixar a Espanha em avião.
Alves tem uma casa em Barcelona, e foi demitido do Pumas, no México, onde estava jogando – isso também consta no recurso.
Futebol na prisão
Prisão na Catalunha onde Daniel Alves está preso
Secretaria de Justiça da Catalunha
Enquanto aguarda a resolução do caso – a Justiça espanhola ainda analisa se levará a acusação a julgamento -, Daniel Alves começou a jogar futebol com outros presos do presídio de Brians 3, para onde ele foi enviado.
Parentes de presos e funcionários do presídio relataram ao jornal catalão “La Vanguardia” que Alves jogou uma partida pela primeira vez desde que chegou ao local. De acordo com os relatos, até diretores do complexo penitenciário foram assistir ao jogo.
Ainda assim, ele foi enviado para um setor reservado do presídio, destinado a condenados por agressão sexual – crime que, na Espanha, inclui estupro. Ele divide cela com um brasileiro.

Fonte: G1 Mundo

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A ameaça de ataque com míssil feita por Putin, segundo Boris Johnson


Ex-premier britânico afirmou, no entanto, que acredita que a declaração foi feita em tom de brincadeira. Johnson disse que Putin adotou ‘tom bastante descontraído’ e um ‘ar de distanciamento’ durante a ligação.
Getty Imagens via BBC
O ex-premiê britânico Boris Johnson contou que o presidente russo, Vladimir Putin, ameaçou atacá-lo com um míssil durante um telefonema “extraordinário” pouco antes da invasão da Ucrânia.
De acordo com Johnson, que ocupava o cargo de primeiro-ministro do Reino Unido na época, Putin afirmou que “levaria apenas um minuto”.
O comentário teria sido feito depois que o então premiê britânico alertou que a guerra seria uma “catástrofe total” durante um telefonema “muito longo” em fevereiro de 2022.
Os detalhes da conversa são revelados no documentário da BBC Putin vs the West, que analisa as interações do presidente russo com líderes mundiais.
Johnson teria alertado Putin que invadir a Ucrânia levaria a sanções ocidentais e a mais tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) nas fronteiras da Rússia.
Ele também teria tentado dissuadir a ação militar russa dizendo a Putin que a Ucrânia não se juntaria à Otan “num futuro próximo”.
No entanto, conforme Johnson relatou: “Ele me ameaçou em um dado momento e disse: ‘Boris, não quero te machucar, mas, com um míssil, levaria apenas um minuto’ ou algo assim”.
“Mas acho que pelo tom bastante descontraído que ele estava adotando, o tipo de ar de distanciamento que ele parecia ter, ele estava apenas brincando com minhas tentativas de convencê-lo a negociar.”
Segundo Johnson, Putin havia sido “bastante amistoso” durante o “telefonema mais extraordinário”.
Nenhuma referência ao diálogo apareceu nos registros da ligação feita por Downing Street e pelo Kremlin. É impossível saber se a ameaça de Putin era genuína.
No entanto, dados os ataques russos anteriores ao Reino Unido — mais recentemente em Salisbury, em 2018 —, Johnson provavelmente não teria escolha a não ser levar a sério qualquer ameaça do líder russo, ainda que tenha sido dita em tom leve.
Boris Johnson recebeu uma ligação de Putin um dia depois de se encontrar com Volodymyr Zelensky em Kiev.
Getty Images via BBC
Nove dias depois, em 11 de fevereiro, o secretário de Defesa britânico, Ben Wallace, voou para Moscou para se encontrar com seu homólogo russo, Sergei Shoigu.
O documentário da BBC revela que Wallace saiu com garantias de que a Rússia não invadiria a Ucrânia, mas disse que ambos os lados sabiam que era mentira.
Ele descreveu isso como uma “demonstração de intimidação ou força, do tipo: vou mentir para você, você sabe que estou mentindo, e eu sei que você sabe que estou mentindo e ainda assim vou mentir para você”.
“Acho que se tratava de dizer: ‘Sou poderoso'”, declarou Wallace.
Boris Johnson, do Reino Unido, diz que Putin o ameaçou com um ataque de míssil
Ele disse que a “mentira bastante assustadora, mas direta” havia confirmado sua crença de que a Rússia invadiria a Ucrânia.
Ao sair da reunião, ele conta que o general Valery Gerasimov — chefe do Estado-Maior da Rússia — disse a ele: “nunca mais seremos humilhados”.
Menos de quinze dias depois, quando os tanques cruzaram a fronteira em 24 de fevereiro, Johnson recebeu um telefonema do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, no meio da noite.
“Zelensky está muito, muito calmo”, conta Johnson. “Mas, ele me diz, você sabe, estão atacando em todos os lugares.”
O então premier britânico diz que se ofereceu para ajudar a levar Zelensky para um local seguro. “Ele não aceitou essa oferta. Ele heroicamente ficou onde estava.”
O documentário “Putin Vs the West” será transmitido nesta segunda-feira (30/01) no canal BBC Two, às 21h, e estará disponível no iPlayer no Reino Unido.

Fonte: G1 Mundo