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Regime cubano tenta conter insatisfação popular que se propaga na velocidade das redes sociais


Pandemia e escassez de insumos e liberdade derrubam slogans da Revolução e deflagram os maiores protestos espontâneos em 27 anos no país. Manifestante é detido por policial sem farda em Havana, em 11 de julho de 2021
Ramon Espinosa/AP
Diante dos maiores protestos registrados em 27 anos contra o regime, o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, convocou a população a uma reação para defender a Revolução Cubana da ação de “mercenários e contrarrevolucionários”. Não surtiu efeito. A adesão de manifestantes se estendeu espontaneamente por várias cidades e fez o presidente correr para San Antonio de los Baños, a 26 quilômetros de Havana, um dos focos da revolta de domingo, a fim de mobilizar partidários.
A terceira onda da pandemia do novo coronavírus, aliada à falta de medicamentos e alimentos e ao sistema de saúde à beira do colapso, castiga o país sem piedade. A despeito das denúncias de subnotificações, os casos se alastram em uma proporção assustadora: cerca de 7 mil infectados por dia, segundo dados oficiais, registrando a taxa de 1.300 para cada 100 mil habitantes.
Manifestantes gritam “liberdade” e “pátria livre” em protestos em Cuba
O governo descartou a proposta de criar um corredor humanitário em Cuba, sob o argumento de que a imagem do caos no sistema de saúde – a vitrine do regime — faz parte de uma campanha orquestrada no exterior e que não corresponde à realidade.
Se pandemia e escassez foram o motor propulsor para encher as ruas no domingo, gritos por liberdade e pelo fim do regime ecoaram fortemente nos protestos. Manifestantes cantaram trechos de “Patria y vida”, o rap que virou o hino da insatisfação cubana e contesta o mantra “Pátria e morte”, entoado por Fidel.
Presidente de Cuba convoca comunistas a irem para as ruas
“Acabou o medo”, indicou Erika Guevara-Rosas, diretora da Anistia Internacional para as Américas, ao notificar, pelo Twitter, o “incrível e poderoso protesto espontâneo em Cuba”.
Em três anos no comando da ilha caribenha, Díaz-Canel abriu o acesso à internet, sem o qual o desenvolvimento não é mais possível. Agora, enfrenta seu teste mais desafiador — o de conter a frustração popular que se propaga na velocidade das redes sociais.
O regime tem reprimido fortemente as ações de artistas e jornalistas, tachados de agentes a serviço dos EUA, com prisões arbitrárias e apagões da internet.
Recentemente, num encontro com intelectuais cubanos, ele deixou claro que a liberdade de expressão é limitada pela própria Revolução de 1959: “Dentro da Revolução, a única coisa que não está em discussão é a Revolução.”
O presidente parafraseava um lema proferido 60 anos antes por Fidel Castro: “Dentro da Revolução, tudo; fora da Revolução, nada.” Neste domingo, contudo, os cubanos se multiplicaram nas ruas para desafiar mais um mantra em vigor há seis décadas.
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Fonte: G1 Mundo

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Final da Eurocopa: 49 torcedores são presos e 19 policiais são feridos no estádio de Wembley


Do lado de fora do estádio houve aglomeração de torcedores sem ingressos que tentaram entrar. Torcedores do lado de fora do estádio de Wembley, em 11 de julho de 2021
Peter Cziborra/Reuters
A polícia do Reino Unido prendeu 49 pessoas perto do Estádio de Wembley no domingo (11), onde torcedores entraram em confrontos entre si e também com agentes que faziam a segurança do evento —19 policiais ficaram feridos. A Inglaterra e a Itália disputaram a final da Eurocopa.
Itália vence a Inglaterra e conquista a Eurocopa 2020
Além de brigar entre eles mesmos e com os policiais, os torcedores também derrubaram cordões de segurança e avançaram em áreas restritas antes do começo do jogo, que a Itália venceu nos pênaltis depois de um empate em 1 a 1.
Os torcedores estavam bebendo desde cedo no centro de Londres. Havia filas nos pubs (bares) já pela manhã (o jogo aconteceu às 20h de Londres), e as praças ficaram cheias de gente.
Torcedores depois do jogo entre Itália e Inglaterra pela Eurocopa, em 11 de julho de 2021
Tolga Akmen/AFP
Milhares de pessoas foram ao estádio para o jogo de metrô.
Torcedores sem ingressos
A polícia havia pedido para que aqueles que não tivessem ingressos não fossem para a porta do estádio. Mesmo assim, havia gente do lado de fora.
Cerca de duas horas antes do jogo, a região do entorno do estádio estava lotada. Alguns torcedores avançaram para além da linha dos policiais e chegaram ao saguão do estádio. Do lado de fora, as pessoas jogavam garrafas nos policiais.
Alguns guardas foram atacados. Chegaram a barrar os torcedores com ingressos durante 20 minutos, até conseguirem restabelecer a ordem da entrada.
Do lado de fora, torcedores continuavam a beber e festejar.
A polícia disse que quem não tinha ingresso não conseguiu entrar, mas segundo a agência Reuters, há testemunhas que afirmaram ter visto alguns torcedores fugindo de seguranças já nas áreas das cadeiras.
Comentários racistas após o jogo
Três jogadores negros da seleção inglesa foram vítimas de textos racistas em redes sociais após o fim do jogo. Bukayo Saka, Jadon Sancho e Marcus Rashford foram insultados por terem perdido pênaltis contra a Itália.
O primeiro-ministro Boris Johnson afirmou, em uma rede social, que os jogadores deveriam ser recebidos como heróis, e não serem vítimas de agressões raciais.
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Fonte: G1 Mundo

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Polícia prende haitiano que vive nos EUA e contratou colombianos que mataram o presidente


O chefe da Polícia Nacional do Haiti, Leon Charles, fala durante uma entrevista coletiva sobre o assassinato do presidente do país, Jovenel Moise, em em 11 de julho de 2021
Ricardo Arduengo/Reuters
A polícia do Haiti anunciou no domingo (11) a prisão de um cidadão haitiano que vive nos Estados Unidos e contratou os mercenários suspeitos de assassinar o presidente do país, Jovenel Moise.
O diretor da Polícia Nacional, Léon Charles, afirmou que Charles Emmanuel Sanon, de 63 anos, “entrou no Haiti a bordo de um avião particular com objetivos políticos”.
Sanon chegou ao Haiti em junho, acompanhado de vários colombianos contratados para fazer a sua segurança, segundo Charles. “Então a missão mudou”.
“A missão era deter o presidente da República, e daí se montou a operação. Depois, mais 22 pessoas entraram no Haiti”, detalhou o chefe da polícia haitiana em uma entrevista coletiva.
Os colombianos foram contratados por meio de uma empresa de segurança venezuelana chamada CTU, que tem sede na Flórida. A polícia chegou a Sanon após interrogar os colombianos detidos.
Interrogatórios feitos com os 18 cidadãos colombianos detidos na quarta-feira (7) permitiram à polícia tomar conhecimento de que Charles Emmanuel Sanon havia recrutado os 26 membros do comando.
“Quando nós, a polícia, bloqueamos o avanço desses bandidos depois de terem cometido seu crime, a primeira pessoa para quem um dos agressores ligou foi Charles Emmanuel Sanon. Ele entrou em contato com outras duas pessoas que consideramos autores intelectuais do assassinato do presidente Jovenel Moise”, acrescentou Léon Charles, sem divulgar a identidade destes dois suspeitos.
Funcionários de diferentes órgãos do governo americano – FBI (a Polícia Federal dos EUA), Departamento de Estado, Departamento de Justiça e Departamento de Segurança Interna – chegaram ao Haiti no domingo e se reuniram com o diretor-geral da Polícia Nacional.
A delegação americana também teve reuniões em separado com os principais atores políticos locais, entre eles, o primeiro-ministro Claude Joseph.
“Eu me reuni com a delegação americana e, juntos, valorizamos a resolução do Senado que me elegeu presidente interino da República”, tuitou o presidente do Senado, Joseph Lambert, no domingo.
Quatro dias após o assassinato do chefe de Estado, permanecem inúmeras zonas cinzentas sobre o homicídio de Moise, atacado em sua residência particular, fortemente protegida.

Fonte: G1 Mundo

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Manifestantes protestam contra o governo em Cuba


Pandemia do novo coronavírus mergulhou Cuba em sua pior crise econômica em 30 anos. Manifestantes gritaram “Liberdade”, “Pátria e vida”, “Abaixo a ditadura” e “Não temos medo”. Há longas filas para conseguir alimentos e escassez de medicamentos. Manifestantes gritam “liberdade” e “pátria livre” em protestos em Cuba
Manifestantes foram às ruas em Cuba aos gritos de “Liberdade” e “Abaixo a ditadura” neste domingo (11). As mortes em razão da Covid-19, assim como a situação econômica do país – a pior em 30 anos –, agravada pela redução do turismo, são alguns dos motivos para o ato contra o governo cubano.
Os protestos, divulgados nas redes sociais, começaram de forma espontânea pela manhã. Trata-se de um fato incomum no país governado pelo Partido Comunista, onde as únicas concentrações autorizadas costumam ser as do partido. As informações são da Agência France Presse.
Protestos em Havana, capital de Cuba, neste domingo (11)
Reuters/Stringer
Gritando principalmente “Pátria e vida”, título de uma canção polêmica, mas também “Abaixo a ditadura” e “Não temos medo”, milhares de manifestantes marcharam pelas ruas de San Antonio de los Baños, uma pequena cidade de 50 mil habitantes a cerca de 30 km da capital Havana.
“Liberdade”, entoavam outras centenas em Malecón, na costa de Havana.
Outros protestos foram relatados e transmitidos ao vivo pelo Facebook ou Twitter, em todo o país, onde a internet móvel só chegou no fim de 2018.
O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, também se dirigiu à cidade acompanhado de militantes do partido, que desfilaram gritando “Viva Cuba” e “Viva Fidel”.
O presidente de Cuba, Miguel Diaz-Canel, dá entrevista neste domingo (11), dia de protestos em Havana
Reuters/Alexandre Meneghini
‘Máfia cubano-americana’
A pandemia do novo coronavírus, cujos primeiros casos na ilha foram detectados em março de 2020, mergulhou Cuba em sua pior crise econômica em três décadas.
Todos os dias, os cubanos têm que esperar longas horas em filas para conseguir alimentos e também enfrentam a escassez de medicamentos, o que tem gerado um forte mal-estar social.
Dificuldades econômicas também levaram as autoridades a aplicar cortes de eletricidade de várias horas por dia em grandes áreas do país.
“Parece que a situação energética foi a que levantou alguns ânimos aqui”, reconheceu Diaz-Canel diante de jornalistas, culpando as sanções americanas impostas por Donald Trump e mantidas até agora por Joe Biden.
“Se quer que o povo fique melhor, levante primeiro o bloqueio”, imposto desde 1962, acrescentou.
“A máfia cubano-americana pagando muito bem nas redes sociais (…) tomou como pretexto a situação de Cuba e convocou manifestações em todas as regiões do país”, afirmou.
O presidente disse que “há pessoas que vieram expressar insatisfação”, até mesmo “revolucionários confusos”.
Mas aqui estamos “muitos, e me coloco como o primeiro, que estão dispostos a dar nossas vidas por esta revolução”, declarou ele durante um discurso ao vivo na televisão.
#SOSCuba
Cuba registrou neste domingo mais um recorde de infecções pela Covid-19 em 24 horas, com 6.923 casos, em um total de 238.491, e de óbitos, com 47, totalizando 1.537.
“São números alarmantes, que aumentam a cada dia”, comentou Francisco Durán, chefe de epidemiologia do Ministério da Saúde, durante sua coletiva diária na televisão.
Sob hashtags como #SOSCuba, #SOSMatanzas e #SalvemosCuba, os pedidos de ajuda se multiplicam nas redes sociais, inclusive por artistas e famosos, além dos apelos ao governo para que o envio de doações do exterior seja facilitado.
No sábado, um grupo de oposição pediu a criação de “um corredor humanitário”, iniciativa que o governo rapidamente descartou.
“Conceitos ligados a corredor humanitário e ajuda humanitária estão associados a zonas de conflito e não se aplicam a Cuba”, disse o diretor de Assuntos Consulares e Atenção aos Cubanos Residentes no Exterior, Ernesto Soberón, em entrevista coletiva.
Soberón também denunciou “uma campanha” que visa “apresentar uma imagem de caos total no país que não corresponde à situação atual”.
No entanto, a autoridade anunciou que o governo abrirá uma conta de e-mail na segunda-feira para agilizar as doações do exterior.
Em fevereiro de 2021, Cuba teve apagão nos serviços de telefone e internet

Fonte: G1 Mundo

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Governo dos Estados Unidos diz que enviará equipe ao Haiti para avaliar necessidades do país


Assistência dos EUA foi solicitada por causa do assassinato do presidente haitiano na semana passada, disse o Pentágono. Imagem de 2018 mostra o presidente do Haiti, Jovenel Moise, em uma cerimônia no país
Dieu Nalio Chery/AP
Os Estados Unidos enviarão uma equipe de especialistas ao Haiti para determinar quais as necessidades do país depois que foi solicitada assistência aos EUA em virtude do assassinato do presidente haitiano na semana passada, disse o Pentágono neste domingo (11).
“Hoje uma equipe inter-agências, principalmente do Departamento de Segurança Interna e do FBI, está indo para o Haiti neste momento para ver o que podemos fazer para ajudar no processo de investigação”, disse o porta-voz do Pentágono John Kirby ao programa “Fox News Sunday”.
Indústria de mercenários colombianos que pode estar por trás do assassinato do presidente Jovenel Moïse
O presidente dos EUA, Joe Biden, será informado pela equipe quando retornar e “então tomará decisões sobre o caminho a seguir”, disse um alto funcionário do governo Biden à Reuters separadamente.
O Haiti procurou ajuda dos EUA na investigação do ataque que matou o presidente Jovenel Moise na quarta-feira em sua casa em Porto Príncipe, e que deixou a nação insular ainda mais turbulenta. Autoridades haitianas disseram que dois haitianos-americanos estavam entre os suspeitos.
Não ficou imediatamente claro por quanto tempo a equipe enviada ficará no Haiti. O funcionário do governo disse neste domingo que Washington também consultará parceiros regionais e a Organização das Nações Unidas (ONU).
Assassinato, gangues e instabilidade política: o que está acontecendo no Haiti

Fonte: G1 Mundo

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Sobe para 90 o número de mortos em desabamento de edifício na Flórida


Corpos de três crianças foram identificados pelo departamento de polícia de Miami-Dade. Equipe de socorro israelense deixou o estado neste domingo. Memorial para as vítimas do desabamento do edifício Champlain Towers South em Miami, Flórida.
REUTERS/Shannon Stapleton
As buscas por vítimas nos escombros do edifício Champlain Towers South, prédio que caiu em Surfside, na Flórida (Estados Unidos), no fim de junho, chegou ao seu 18° dia com o número de mortos alcançando a marca de 90.
Entre os novos corpos identificados, 3 são de crianças, informou o departamento de polícia de Miami-Dade.
Ao todo, 71 corpos foram identificados e 31 pessoas que poderiam estar no prédio quando ele desabou ainda estão desaparecidas, anunciou a prefeita do condado de Miami-Dade, Daniella Levine Cava.
Mais de 6 mil toneladas de concreto e outros entulhos foram removidos do local, segundo ela.
As operações de busca continuam 24 horas por dia e “estamos prestes a acessar os carros da garagem” subterrânea, disse Alan Cominsky, chefe dos bombeiros de Miami-Dade.
Cominsky evitou fixar um prazo para a conclusão da operação. “É difícil dar uma data, mas acreditamos que conseguiremos retirar todo o entulho”, afirmou. “É um trabalho metódico para as equipes que fazem a busca manual. É um processo lento.”
Ajuda israelense
A equipe israelense de busca e resgate chegou ao sul da Flórida logo depois que o prédio desabou em 24 de junho para ajudar na operação. Eles retornam para casa neste domingo.
A equipe israelense usou plantas do prédio para criar imagens 3D detalhadas do local do desastre para ajudar na busca. Eles também coletaram informações de famílias de desaparecidos, muitos dos quais eram judeus, para construir uma maquete cômodo por cômodo, mostrando onde as pessoas teriam dormido durante o colapso antes do amanhecer.
Na noite de sábado, membros da comunidade caminharam pela Collins Avenue, a principal via da cidade, para celebrar as equipes que vieram de todo país e o auxílio de Israel e do México – que também enviou socorro.
Presidente do Paraguai vai a Miami
Entre as vítimas, está Sophia López Moreira, cunhada do presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez. Ele e a primeira dama paraguaia viajaram na sexta-feira a Miami. Além de Sophia, o marido dela, os três filhos do casal e a babá da criança estavam no prédio que desabou.
O prédio abrigava dezenas de famílias de diferentes partes da América Latina — muitas vezes como residência temporária, na madrugada. Há, inclusive, brasileiros entre os desaparecidos.

Fonte: G1 Mundo

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Talleyrand, o homem que comandou duas revoluções, enganou 20 reis e ‘fundou’ a Europa


Charles Maurice de Talleyrand é uma das figuras mais fascinantes (e controversas) da história francesa e europeia. Charles Maurice de Talleyrand, uma das figuras mais fascinantes (e controversas) da história francesa e europeia
GETTY IMAGES/BBC
Príncipe de Benevento e do Império, príncipe de Talleyrand e Périgord, duque de Dino, conde de Périgord, duque de Talleyrand e Périgord, cavaleiro da Ordem do Espírito Santo, grão-comandante da Ordem da Coroa de Westfalia…
Estes são alguns dos muitos títulos acumulados por Charles Maurice de Talleyrand (1754-1838) — uma das figuras mais fascinantes e controversas da história francesa e europeia — ao longo de 82 anos de vida.
Político de habilidades incríveis, que teve influência gigantesca entre o final do século 18 e início do século 19, Talleyrand é considerado o arquetípico traidor.
Além da lista quase interminável de títulos honoríficos, acumulou também imensa fortuna e o rancor dos muitos dirigentes que apoiou e logo depois abandonou à própria sorte — 20 deles ao todo, segundo o escritor Victor Hugo, seu contemporâneo.
“Liderou duas revoluções e enganou 20 reis”, escreveu Hugo após a morte de Talleyrand, em 1838.
E é possível que tenha enganado muitos mais, diz o escritor Xavier Roca Ferrer, autor de uma nova e detalhada biografia do personagem, intitulada Talleyrand. El ‘diablo cojuelo’ que dirigió dos revoluciones, engañó a veinte reyes y fundou a Europa (em tradução livre, “Talleyrand. O ‘diabo manco’ que liderou duas revoluções, enganou vinte reis e fundou a Europa”), Editora Arpa.
Isso porque, argumenta Ferrer, durante o auge da influência de Talleyrand, a Alemanha, por exemplo, possuía cerca de 300 Estados independentes. Cada um desses Estados tinha seu próprio líder, embora não necessariamente um rei.
“Entre reinados, impérios, ducados, principados e outros, é muito possível que o número (de líderes cortejados e abandonados por Talleyrand) tenha sido ainda mais alto.”
De bispo a “traidor”
Culto e refinado, Talleyrand nasceu em uma família da aristocracia francesa em 1754.
Era o primogênito, mas devido a um problema na perna, seus pais decidiram que ele teria poucas chances de fazer um casamento vantajoso. Então, concentraram suas atenções no segundo filho e decidiram que Talleyrand deveria seguir a carreira eclesiástica.
Durante o reinado de Luís 16, com a ajuda de um tio arcebispo, Talleyrand tornou-se ministro da Fazenda da Igreja francesa — cargo que o lançou ao topo da instituição religiosa e fez dele o bispo de Autun.
Xavier Roca-Ferrer é autor de uma nova biografia de Talleyrand
IRENE HERNÁNDEZ VELASCO/BBC
O sacerdócio, no entanto, não impediu que ele tivesse relacionamentos com inúmeras mulheres, entre elas a condessa Adelaida de Flahaut, mãe de seu único filho. Também não conteve sua insaciável paixão pelo jogo, nem impediu que especulasse e se envolvesse em incontáveis negócios sujos e casos de corrupção.
“Talvez a verdadeira grande paixão de Talleyrand não tenha sido a política, nem a economia, nem o jogo ou as mulheres mas, sim, o Risco, com letra maiúscula, e em todos esses campos”, escreve Roca Ferrer em sua biografia.
De início, ao eclodir a Revolução Francesa, foi simpático aos “descontentes” que a haviam impulsionado. O título de bispo lhe garantia um assento nos Estados Gerais de 1789 e o direito a intervir na nova França que se configurava. E ele não perdeu a oportunidade.
Colaborou na redação da primeira Constituição francesa, da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, tentou impulsionar uma monarquia constitucional “à inglesa” e propôs uma lei de educação universal gratuita que só um século depois se tornaria realidade.
Mas Talleyrand foi mais além. Quando a Assembleia Nacional debateu a desastrosa situação econômica do país, Talleyrand se destacou ao fazer uma proposta extremamente ousada, especialmente para alguém que levava o manto de arcebispo: ele propôs a nacionalização de todos os bens da Igreja francesa — dona, naquela época, de um quarto de todas as propriedades do país.
A proposta foi bem-sucedida, mas, obviamente, não agradou as autoridades eclesiásticas, que passaram a considerá-lo um traidor. Em 1791, o Papa ameaçou excomungá-lo. Não fez diferença: Talleyrand decidiu pendurar as vestes.
Uma relação próxima com Napoleão
Inicia-se o Terror, período em que a Revolução Francesa se radicaliza e a guilhotina começa a cortar cabeças.
Talleyrand decidiu sair da França e buscar refúgio na América, onde continuou fazendo negócios para sobreviver. Mas tinha saudades de seu país e, em 1796, regressou.
Um novo regime político se inaugurava na França nesse período. De natureza republicana, o chamado Diretório tinha forte apoio dos militares — e entre eles estava um jovem chamado Napoleão Bonaparte.
Talleyrand serviu como ministro das Relações Exteriores durante o Diretório e se tornou muito amigo do “promissor” Bonaparte. O vínculo entre os dois era tal que, no dia 9 de novembro de 1799, Napoleão, que ganhara grande prestígio após suas vitórias militares na Europa, deu um golpe de Estado com a ajuda de Talleyrand e tomou o poder.
Estabeleceu-se uma nova forma de governo, o chamado Consulado, também republicano. O poder ficava nas mãos de três cônsules, o primeiro deles sendo Napoleão.
Conhecedor das incríveis habilidades negociadoras de Talleyrand, a primeira providência de Napoleão ao assumir o poder foi nomeá-lo ministro das Relações Exteriores e cobri-lo de títulos.
Nesse período ocorreu o sequestro e, mais tarde, fuzilamento do duque de Enghien, um poderoso nobre, descendente da Casa de Bourbon que havia conseguido aglutinar o apoio da monarquia.
É possível que o crime esteja relacionado a um atentado contra Napoleão em dezembro de 1800 que quase lhe custou a vida (nove pessoas morreram). Acredita-se que o incidente seja atribuível à cumplicidade entre Enghien e os bretões em ascensão. Tanto Napoleão quanto Talleyrand temiam que, se algo desse tipo voltasse a acontecer, e com êxito, poderia ter início na França uma guerra civil.
Conspiração contra Napoleão
Ambicioso ao extremo, e desejoso de poder falar de igual para igual com os monarcas da Europa, Napoleão decidiu transformar o Consulado em um Império, proclamando-se imperador no dia 28 de maio de 1804.
E porque Talleyrand permanecera a seu lado, nomeou-o Grão-camarista, Vice Eleitor do Primeiro Império Francês e Príncipe de Benevento, além de conceder-lhe um salário estratosférico.
Ainda assim, Talleyrand foi aos poucos se distanciando de Napoleão que, cego por sua vaidade e por seus sucessivos êxitos em batalha, começou a tomar decisões erradas. As invasões da Espanha e da Rússia puseram fim à aliança entre os dois.
“Eu estava indignado diante de tudo o que via e escutava, mas me via obrigado a calar minha indignação”, escreveu Talleyrand em suas memórias.
Alegando problemas de saúde, renunciou ao cargo de ministro das Relações Exteriores. Bonaparte, por sua vez, nunca o perdoou por esse gesto e o humilhava sempre que podia.
Ele obrigou Talleyrand a se casar com a mulher com quem vivia — e de quem o ex-bispo já estava farto.
Convencido de que Napoleão já não trabalhava pela França mas, sim, por sua glória pessoal, Talleyrand decidiu que era preciso acabar com ele, de qualquer maneira.
“Fez tudo o que podia para freá-ló e moderá-lo até que, em 1807, convencido de que Napoleão não tinha conserto, o ex-bispo de Autun passou para o lado do inimigo”, disse o biógrafo.
Talleyrand conspirou o quanto pôde para forçar a saída de Napoleão. Até que, em abril de 1814, derrotado na batalha de Leipzig, Bonaparte renunciou.
O hábil Talleyrand decide então apoiar a ascensão de Luís 18, inimigo de Napoleão e primo do duque de Enghien, em cuja execução Talleyrand estivera envolvido.
Embora não gostasse nem um pouco dos Bourbon, decidiu que um deles era preferível a Napoleão.
Talleyrand foi o representante da França no Congresso de Viena — um encontro internacional cujo objetivo era restabelecer as fronteiras da Europa após a derrota de Napoleão.
“Sua gestão no Congresso de Viena foi magnífica”, diz Roca-Ferrer. “As quatro grandes potências estavam contra a França, queriam aniquilá-la para sempre, mas Talleyrand conseguiu habilmente contornar a situação.”
Mas Napoleão, exilado na ilha de Elba, escapou milagrosamente e ameaçou tomar o poder novamente. A aventura durou cem dias. Sua derrota final na batalha de Waterloo, em junho de 1815, deve ter alegrado bastante Talleyrand.
Embaixador em Londres
Luís 18 morreu em 16 de setembro de 1824. Foi sucedido pelo irmão, o conde de Artois, Carlos 10°. Mas em 1830 a chamada Revolução de Julho, apoiada por Talleyrand, obrigou Carlos 10° a renunciar. Sobe ao trono Luís Felipe de Orleans, que nomeia Talleyrand embaixador em Londres.
O último tratado firmado por Talleyrand como embaixador em Londres foi a Quádrupla Aliança envolvendo França, Inglaterra, Espanha e Portugal.
“Lutou toda a sua vida para pacificar as relações entre os países que julgava serem os mais civilizados do continente e induzi-los a uma colaboração que poderia apenas favorecer a todos. Após 400 anos de confrontos, desejava que França e Grã-Bretanha se entendessem”, diz Roca-Ferrer.
Napoleão recebendo o embaixador da Áustria , Barão Vicente. No meio, vê-se Talleyrand, que ocupou o cargo de ministro das Relações Exteriores de Napoleão
Getty Images/BBC
“Talleyrand queria uma Europa pacífica em que países civilizados e sensatos colaborassem para alcançar o bem-estar geral e, claro, o seu em particular. Nesse sentido, foi muito avançado porque, naquele momento a ideia da União Europeia era inconcebível. Foram necessárias duas guerras mundiais para que se começasse a pensar nela”, acrescenta.
“De qualquer ângulo que você observe”, prossegue Roca-Ferrer, “ele foi um grande sobrevivente. Viveu muitos anos e atravessou períodos muito perigosos, dos quais sempre emergiu coberto de louvores… e mais rico. De qualquer maneira, tudo o que fez pensando em si mesmo acabou por favorecer a França — embora também possa ser dito o contrário: tudo o que fez pela França favoreceu a ele.”
Mas ele foi um traidor?
“Depende do ponto de vista. Ele foi adaptando suas ideias em um período de tremendas mudanças. Para Talleyrand, as circunstâncias moldavam as ideias. Não era um idealista, mas um pragmático. Mais pragmático do que traidor, na minha opinião. E no fundo, tudo o que fez, fez pensando em si mesmo e na França. O que ocorre é que, para ela, essas duas coisas estavam intrinsecamente conectadas. Por isso é tão difícil fazer um julgamento moral”, diz o biógrafo.

Fonte: G1 Mundo

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Dilúvios e monstros lendários: os mitos que revelam desastres do passado


Histórias milenares transmitidas de geração em geração estão repletas de criaturas fantásticas e deuses guerreiros, mas também podem conter evidências de desastres ambientais do passado. Erupções vulcânicas num passado distante podem ter tido efeitos de longo alcance que perduram por meio de mitos e fábulas
JMW TURNER/GETTY IMAGES/BBC
Para as pessoas em risco, pode parecer o fim do mundo. Os moradores de Stinson Beach, um destino turístico popular perto de São Francisco, nos EUA, estão tendo que lidar com a perspectiva de que grande parte de sua vizinhança estará debaixo d’água em menos de 20 anos.
Os ricos podem construir casas com fundações elevadas e arcar com os custos de barreiras de contenção que vão reter a água do mar, ao menos por um tempo, mas os mais pobres terão que aceitar a perda de suas casas ou encontrar uma maneira de movê-las para terras mais altas.
Podemos acreditar que agora, no século 21, é a primeira vez que nossa espécie enfrenta esse tipo de tragédia, mas não é verdade. O nível do mar começou a subir há quase 15 mil anos, com o fim da última era do gelo.
O derretimento do gelo terrestre fez com que o nível do mar subisse em média cerca 120 metros desde então — às vezes, era como uma inundação, com a água subindo tão rápido que as pessoas se viam em uma luta desesperada para se antecipar e de alguma forma lidar com os enormes consequências.
Com a possibilidade de um aumento global catastrófico do nível do mar em 1 metro até 2050, que pode forçar milhões de pessoas a deixar suas casas, os pesquisadores começaram a ver com outros olhos histórias antigas de cidades submersas e destruídas pelo mar.
Não só costumam ser boas histórias, repletas de poesia e simbolismo, como também transmitem a memória coletiva de quem as viveu, e dentro das quais pode haver evidências factuais do que pode ter acontecido há milhares de anos quando as camadas de gelo derreteram.
Alguns pesquisadores argumentam que contos sobre rochas lançadas ao mar ou a construção de barreiras de contenção contêm informações factuais, embora exageradas e distorcidas até certo ponto.
Eles nos oferecem uma ideia de como nossos ancestrais se sentiram a respeito da elevação do nível do mar e o que fizeram a respeito, e podem fornecer evidências de que sua reação foi extremamente semelhante à nossa.
As percepções dos povos antigos podem, na verdade, salvar vidas no futuro.
Estes pesquisadores são conhecidos como geomitólogos. A geóloga americana Dorothy Vitaliano cunhou o termo em uma palestra de 1967 (baseando suas ideias nas do filósofo grego antigo Euhemerus, que se propôs a encontrar os eventos reais ou pessoas por trás dos mitos populares).
Embora as pesquisas dos geomitólogos sobre as origens da lenda de Atlântida ou do mito do monstro do Lago Ness possam ganhar as manchetes de maneira sensacionalista, o trabalho deles é estudar histórias antigas outrora consideradas mitos ou lendas, mas que agora são vistas como possíveis observações de fenômenos naturais por povos primitivos.
“Os geomitos representam os primeiros indícios do impulso científico”, diz a folclorista e historiadora da ciência antiga Adrienne Mayor, pesquisadora da Universidade de Stanford, na Califórnia, e autora do livro The First Fossil Hunters.
“Isso mostra que os povos da Antiguidade eram observadores atentos e usavam o melhor pensamento racional e coeso do seu espaço e tempo para explicar as forças naturais notáveis ​​que vivenciaram”.
Hoje, o número cada vez maior de artigos publicados, citações e resultados de pesquisa no Google mostram que o interesse por tais trabalhos está crescendo na comunidade científica.
São eventos como erupções vulcânicas no início da história humana ou até mesmo temas bíblicos, que mostram como vulcões, terremotos e pragas podem ter moldado a história do Êxodo que aparece na Bíblia Hebraica.
“Os geólogos começaram a perceber que há realmente informações em algumas das tradições e histórias mais antigas da humanidade”, diz David Montgomery, da Universidade de Washington, nos EUA, autor do livro The Rocks Don’t Lie: A Geologist Investigates Noah’s Flood.
O aumento do nível do mar pode em breve inundar comunidades costeiras, como Stinson Beach, na Califórnia
PAUL CHINN/GETTY IMAGES/BBC
“E que embora seja um tipo de informação diferente daquela que tendemos a gravitar em torno na ciência contemporânea, ainda é informação”, completa.
No entanto, muitos geomitos podem estar com os dias contados, e o conhecimento local que eles contêm corre o risco de ser degradado e perdido.
“Nas ilhas do Pacífico, os idosos estão sempre reclamando comigo que os jovens ficam o tempo todo no telefone e que realmente não querem ouvir as histórias dos avós”, conta o geólogo Patrick Nunn, professor de Geografia da Universidade de Sunshine Coast, na Austrália, e autor do livro Worlds in Shadow: Submerged Lands in Science, Memory and Myth.
“Mas acho que no mundo todo, à medida que as sociedades orais [em que as histórias e as tradições são passadas de pessoa a pessoa nas conversas e eventos sociais] estão se tornando amplamente letradas, o conhecimento que era mantido oralmente está desaparecendo, mas é esse conhecimento indígena que vai ajudá-los a lidar com o aumento do nível do mar.”
Nunn é um dos principais geomitólogos do mundo.
Geólogo por formação, ele costuma ser encontrado de bermuda e camiseta, em um pequeno barco navegando entre as ilhas do Oceano Pacífico, com um gravador na mão.
Se as geleiras derreterem e causarem transtornos e migração nas próximas décadas, como seu efeito será sentido nos séculos seguintes?
JORGE FERNÁNDEZ/LIGHTROCKET/GETTY IMAGES/BBC
A pesquisa dele se concentrou em algumas histórias sobre ilhas desaparecidas, como Teonimenu, que podem ser ouvidas em todas as ilhas espalhadas pelo Pacífico.
Para seu projeto de pesquisa mais recente, Nunn não precisou molhar os pés. Ele tem analisado histórias milenares da Austrália e do noroeste da Europa sobre como os povos antigos entenderam e responderam às diferentes experiências de aumento do nível do mar pós-glacial.
Ao longo da costa australiana, o nível do mar parou de subir significativamente há cerca de 6 mil anos, ao passo que continuou a subir no noroeste da Europa até os dias atuais.
Em quase todos os 23 grupos de histórias aborígenes australianas que Nunn estudou, a memória das mudanças na paisagem e no modo de vida causadas pelo aumento do nível do mar pós-glacial parece ter sido preservada desde 7 mil anos atrás.
Em dois grupos particulares, sua resistência parece evidente.
Uma dessas histórias, contada pelo povo aborígene Gungganyji nos arredores de Cairns, na costa de Queensland, pode ser ouvida em diferentes versões no nordeste da Austrália.
Nesta história, o mau comportamento de um homem chamado Goonyah fez com que o mar inundasse a terra, e ele então organizou o povo para impedir isso.
Em outra, ele levou o povo até uma montanha para escapar da água, onde trabalharam juntos para rolar pedras aquecidas no mar. Ao fazer isso, conseguiram conter seu avanço.
No noroeste da Europa, as histórias que Nunn e seus colaboradores estudaram são obviamente bem diferentes.
São pelo menos 15 histórias focadas no destino de cidades submersas, cada uma com um nome diferente, e estão concentradas ao longo da costa da Bretanha, das Ilhas do Canal da Mancha, da Cornualha e do País de Gales — áreas onde, diz Nunn, a “continuidade cultural” pode ter sido maior nos últimos milhares de anos.
Em duas histórias, as elaboradas barreiras de contenção da cidade sugerem que os habitantes haviam lutado uma batalha perdida contra o mar por gerações.
Na Bretanha, a história é sobre a cidade de Ys, governada pelo rei Gradlon, que era protegida por uma série complexa de barreiras marítimas que exigiam a abertura de portões na maré baixa para permitir que o excesso de água escoasse da terra.
Um dia, a filha do rei, Dahut, possuída por um demônio, abriu esses portões na maré alta, permitindo que o oceano inundasse a cidade, que acabou sendo abandonada.
No oeste do País de Gales, uma história semelhante é contada sobre o destino da cidade de Cantre’r Gwaelod, na Baía de Cardigan.
O trabalho de detetive não para por aí. Nunn foi capaz de reconstruir as linhas costeiras mencionadas nas histórias e, a partir do conhecimento das mudanças anteriores no nível do mar, estabeleceu uma idade mínima de 6 mil a 8 mil anos para essas histórias.
“Uma coisa que podemos aprender com essas histórias antigas é que o aumento do nível do mar não pode ser interrompido com muita facilidade por barreiras de contenção, como quebra-mares”, diz Nunn.
“A única solução de longo prazo são as soluções transformadoras, que realmente envolvem as pessoas saírem da zona de perigo.”
“A outra coisa que acho que podemos aprender é que os tipos mais eficazes de adaptações para esses tipos de pressões ambientais são locais. Isso é algo que a ciência realmente só descobriu nos últimos cinco anos, mas, se você voltar 7 mil anos, você pode ver que as pessoas agiram localmente e acreditaram na sua eficácia, e conduziram isso por conta própria. Não esperaram por instruções de outros lugares.”
Apesar do crescimento da geomitologia, ela ainda é vista como “excêntrica” por alguns acadêmicos.
“Provavelmente ainda tem um caráter indigesto para parte de cientistas e historiadores!”, diz Mayor.
“Mas as histórias geomitológicas são expressas em metáforas poéticas e imagens míticas ou sobrenaturais, e as descrições de eventos catastróficos e fenômenos naturais podem ser distorcidas ao longo de milênios e, por causa disso, os cientistas e historiadores tendem a não perceber o fundo de verdade e os conceitos racionais embutidos em suas narrativas.”
Nunn expõe esse argumento de maneira mais contundente.
“Sou um geólogo com formação convencional e posso dizer que muitos outros geocientistas com formação convencional realmente não gostam desse tipo de coisa. Muitos têm curiosidade, mas em geral, é algo considerado tão radical que as pessoas realmente não querem pensar a respeito.”
“Pessoas letradas também são intrinsecamente céticas sobre o poder das tradições orais de transmitir as coisas por meio de centenas de gerações.”
E, nesse contexto, aparecem ainda outras questões.
O fato de acadêmicos pegarem histórias de povos indígenas e publicarem pesquisas sobre as mesmas pode facilmente levar a acusações de apropriação cultural caso não sigam boas práticas simples, como pedir permissão primeiro.
A geomitologia enfrentou uma longa caminhada para ser considerada pelo meio científico, e esta jornada está longe de terminar.
Um ano depois de Dorothy Vitaliano usar o termo pela primeira vez, ela escreveu no Journal of the Folklore Institute que a geomitologia é a “aplicação geológica do evemerismo”, e que os geomitólogos poderiam “ajudar a converter a mitologia de volta à história”, e cinco anos depois ela publicou seu pioneiro livro Legends of the Earth (1973). Infelizmente, ele agora está esgotado.
Foram necessárias três décadas de interesse crescente sobre a área até o 32º Congresso Geológico Internacional realizar sua primeira sessão sobre geomitologia em 2004, na qual Vitaliano, já idosa, fez uma palestra para “250 pessoas em uma sala reservada para cerca de 100 pessoas” .
A geóloga morreu quatro anos depois, após ver a primeira coleção de artigos revisados por pares sobre o assunto, Mito e Geografia, lançada em 2007.
“Foi preciso muita coragem para ela publicar seu livro na década de 1970, e ela foi mantida à distância por vários geólogos por muito, muito tempo”, diz Nunn, que falou após Vitaliano naquele evento.
“Foi a sessão de 2004 no Congresso Internacional de Geologia que realmente ajudou a validar a geomitologia na cabeça de muitos cientistas.”
O campo fundado por Vitaliano começou a evoluir.
Pode ter levado 20 anos para Mayor pesquisar e escrever The First Fossil Hunters (2000), mas o livro que ela lançou criou o conceito de “mitos fósseis” porque foi o primeiro estudo sistemático de evidências para a antiga descoberta de fósseis.
Mayor é conhecida por ter feito a conexão entre as descrições gregas e romanas do lendário grifo, que ela achou que pareciam relatos de testemunhas oculares, e os incríveis fósseis de dinossauros que podem ser encontrados na superfície do deserto de Gobi, perto da Rota da Seda, usada ​​para conectar comercialmente a Europa e a China.
Sua pesquisa mais recente inclui trabalhar com o paleontólogo Lida Xing, na China, para descobrir como as tradições orais chinesas sobre criaturas míticas explicam os rastros de dinossauros locais.
Se as geleiras derreterem e causarem transtornos e migração nas próximas décadas, como seu efeito será sentido nos séculos seguintes?
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Em maio de 2021, o livro Geomythology: How Common Stories are Related to Earth Events, de Timothy Burbery, chegará às livrarias para se tornar o primeiro livro didático de geomitologia.
“Mayor colocou a geomitologia em outro patamar, não olhando apenas para eventos geológicos, mas também para os paleontológicos”, diz Burbery, professor de inglês na Universidade Marshall, nos EUA.
“E realmente tendo noção de quão traumático teria sido para os povos antigos encontrarem os ossos de algum animal enorme e estranho”, completa.
No fim das contas, a geomitologia desafia nossa maneira de pensar sobre nosso passado e nosso futuro.
“A geomitologia desafia a crença de que todos os mitos e lendas são apenas ficção e fantasia”, afirma Mayor.
“Geomitos são tesouros de informações e detalhes para as ciências físicas que, de outra forma, seriam perdidos.”
Segundo ela, novos geomitos podem até ser criados para as futuras gerações analisarem.
“Imagino que o aquecimento global, as mudanças climáticas e a elevação do nível do mar podem inspirar novos geomitos”, diz.
“A lição mais importante é que vamos sobreviver”, acrescenta Nunn.
“Isso não significa que não teremos que nos adaptar, em muitos casos de forma radical, para acomodar os efeitos da mudança climática. Mas significa que iremos sobreviver a ela”.

Fonte: G1 Mundo

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Austrália registra primeira morte por contaminação local de Covid-19 em 2021


Estado de Nova Gales do Sul acumula 77 novos casos do vírus e está lutando contra um surto da variante Delta. Menos de 10% da população do país foi vacinada. Funcionários trabalham em estação de testes de Covid-19 em Melbourne, na Austrália
AP Photo/Hamish Blair
A Austrália registrou a primeira morte por contaminação local de Covid-19 neste domingo (11) no estado de Nova Gales do Sul. A região acumula um total de 77 novos casos do vírus e está lutando contra um surto da variante Delta, altamente infecciosa.
Sidney, maior cidade da Austrália, está em lockdown desde o final de junho, enquanto o país caminha a passos lentos na campanha de vacinação — menos de 10% da população recebeu o imunizante.
A vacinação, por enquanto, está disponível apenas para pessoas com mais de 40 anos e grupos de risco por comorbidades ou exposição ao vírus no trabalho.
Dos hospitalizados em Sidney, 11 têm menos de 35 anos e mais de três quartos dos pacientes não receberam nenhuma dose, disseram as autoridades de saúde.
VÍDEO: Austrália registra 1ª morte no ano por contaminação local de Covid-19
No sábado (10), houve 50 casos, o recorde anterior de 2021. O surto recente é de 566 casos.
Dos casos registrados no domingo (horário da Austrália), 33 eram pessoas que passaram algum tempo junto aos vizinhos enquanto estavam infectadas, aumentando a probabilidade de que o bloqueio de três semanas de mais de 5 milhões de pessoas em Sidney e arredores seja estendido.
Desde o início da pandemia, a Austrália registrou 11 mortes por Covid-19, segundo o site Our World in Data. Em 2021, foram duas: a primeira foi de um turista que foi contaminado no exterior e morreu no país.

Fonte: G1 Mundo

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Papa celebra missa do hospital após cirurgia e agradece a fiéis: ‘Senti apoio de vossas orações’


Neste domingo, pontífice apareceu na sacada de uma janela para cumprimentar as crianças que também estão hospitalizadas para reforçar a necessidade de orações e apoio a elas. Papa Francisco celebra missa da Policlínica Universitária A. Gemelli.
Filippo MONTEFORTE / AFP
O Papa Francisco deu seu conhecido “Buongiorno” (bom dia, em italiano) na missa deste domingo (11) do 10° andar da Policlínica Universitária A. Gemelli, na Itália.
O pontífice se recupera de uma cirurgia para tratar de uma diverticulite de cólon realizada no domingo passado (4).
Nesta manhã, o Papa apareceu na sacada de uma janela para cumprimentar as crianças que também estão sendo tratadas no hospital e reforçar a necessidade de orações e apoio a elas.
VÍDEO: Papa celebra Ângelus dominical direto do hospital onde está internado
O Pontífice disse ter ficado feliz por poder cumprir sua agenda de encontros semanais do Angelus, ainda que do hospital.
“Senti profundamente proximidade e o apoio das vossas orações. Obrigado do fundo do meu coração!”

Fonte: G1 Mundo