Bang Si-hyuk (ao centro) criou o grupo de K-pop BTS, formado por sete integrantes
Bang Si-hyuk’s Instagram
Bang Si-hyuk, magnata do K-pop e criador do supergrupo BTS, pode ser preso sob acusação de cometer fraude antes de sua empresa, avaliada em US$ 7,3 bilhões (cerca de R$ 36,5 bilhões), abrir o capital na Bolsa de Valores coreana anos atrás.
A polícia sul-coreana pediu ao Ministério Público que solicite ao tribunal um mandado judicial para prender Bang. A acusação é de que ele teria induzido investidores ao erro em 2019, ao afirmar que a abertura de capital de seu conglomerado, a Hybe, não era provável, enquanto preparava secretamente a operação.
A Hybe estreou na bolsa sul-coreana Kospi em outubro de 2020, e a polícia afirma que Bang teria lucrado cerca de 200 bilhões de won (aproximadamente R$ 680 milhões) com a operação. Ele nega as acusações.
O caso de Bang se arrasta há anos e já incluiu buscas na sede da Hybe, congelamento de parte de seus bens e pressões para que deixe o cargo de presidente do conselho da empresa.
Aos 53 anos, Bang afirmou que agiu dentro da lei. Em agosto, ele foi proibido de viajar ao exterior enquanto a investigação estiver aberta.
O pedido de mandado de prisão ocorre poucas semanas depois de o BTS, principal ativo da Hybe e responsável por seu grande sucesso, iniciar uma turnê mundial de retorno, após um hiato de quase quatro anos.
Analistas do setor estimam que a Hybe pode arrecadar mais de US$ 1 bilhão (em torno de R$ 5 bilhões) com a turnê, cujos ingressos estão esgotados e que levará o grupo a 34 cidades ao redor do mundo.
As ações da Hybe atingiram o maior nível em quatro anos quando o BTS anunciou a turnê mundial em janeiro, acrescentando mais de 1 trilhão de won (cerca de R$ 3,6 bilhões) ao valor de mercado da companhia.
Bang, que teve papel central na projeção global do grupo, disse em entrevista recente à revista americana especializada em música Billboard que o BTS se tornou uma “atração turística… amplamente reconhecida e acolhida pelo público global”.
Pela legislação sul-coreana, quem for condenado por obter 5 bilhões de won ou mais em receitas ilícitas pode enfrentar pena de cinco anos de prisão até prisão perpétua.
Quem é Bang Si-hyuk?
A paixão de Bang pela música começou cedo. Na escola, ele integrou uma banda que se apresentava com músicas de sua autoria. A carreira como compositor começou a se desenvolver durante a universidade.
Em 1997, Bang cofundou a empresa JYP Entertainment ao lado do cantor e compositor Park Jin-young. Assim como a Hybe, a JYP é hoje uma das “quatro grandes” do K-pop.
Um dos primeiros sucessos de Bang e Park foi o grupo g.o.d, da primeira geração do gênero, que lhes rendeu a reputação de compositores de hits e deu a Bang o apelido de “Hitman Bang”.
Em 2005, Bang deixou a JYP para fundar sua própria empresa, a Big Hit Entertainment, conhecida hoje como Hybe. Em 2010, começou a formar um grupo masculino de sete integrantes, mas o BTS, como é conhecido hoje, levou alguns anos para se consolidar.
O grupo foi inicialmente concebido como uma formação de hip-hop, mas Bang decidiu adotar o “modelo de ídolo do K-pop” após considerar “o contexto de negócios”, disse em entrevista à revista americana Time em 2019.
Desde o lançamento, o BTS se tornou um dos grupos pop mais bem-sucedidos da história, sendo o primeiro sucesso sul-coreano a liderar a parada Hot 100 da Billboard e o primeiro grupo asiático a ultrapassar 5 bilhões de reproduções no serviço de transmissão de músicas Spotify.
As ações da Big Hit Entertainment estrearam em outubro de 2020 a US$ 235 (cerca de R$ 1.175) cada, mais do que o dobro do preço inicial da oferta pública, de US$ 110 (cerca de R$ 550).
Em 2019, a agência de notícias Bloomberg estimou a fortuna de Bang em cerca de US$ 770 milhões (aproximadamente R$ 3,8 bilhões). Desde então, esse valor superou US$ 2 bilhões (cerca de R$ 10 bilhões).
Até o mês passado, ele detinha mais de 13 milhões de ações da Hybe, avaliadas em quase 5 trilhões de won (em torno de R$ 18 bilhões), segundo o Korea CXO Research Institute, empresa de análise corporativa com sede em Seul, capital da Coreia do Sul.
A empresa de Bang, a Hybe, também está por trás de outros grandes nomes do K-pop, incluindo Seventeen, Le Sserafim e Katseye
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Acusações de negociação ilegal
Em dezembro de 2024, o regulador financeiro da Coreia do Sul abriu uma investigação sobre suspeitas de que Bang teria firmado acordos de divisão de lucros com fundos de private equity (modalidade de investimento que compra participações em empresas privadas que não estão em bolsas de valores) antes da estreia da Hybe no mercado de ações, sem a devida divulgação pública.
A polícia afirma que Bang teria enganado investidores e empresas de capital de risco a acreditar que não havia planos para a abertura de capital da empresa, levando-os a vender suas ações da Hybe para um fundo de private equity com o qual ele supostamente mantinha vínculos.
Segundo as autoridades, Bang teria então recebido uma participação de 30% nos lucros obtidos de forma supostamente ilícita, no valor de cerca de 200 bilhões de won (cerca de R$ 680 milhões), quando o fundo de private equity vendeu sua participação após a abertura de capital da empresa.
A Hybe nega irregularidades e sustenta que forneceu uma cópia do acordo em questão aos responsáveis pela oferta pública inicial, que teriam orientado que a divulgação não era necessária.
Bang também nega qualquer irregularidade ao longo das investigações.
Na terça-feira (21/4), os advogados de Bang disseram “lamentar” o pedido de prisão feito pela polícia. “Continuaremos a cooperar com todos os procedimentos legais e faremos todos os esforços para esclarecer nossa posição”, afirmaram em comunicado.
As ações da Hybe caíram 2,3% no fechamento de terça-feira, enquanto o índice Kospi, referência da bolsa sul-coreana, subiu 2,7%. As ações dos outros três grandes conglomerados do k-pop também caíram.
Repressão da Coreia do Sul à manipulação de ações
O problema de manipulação do mercado de ações é recorrente na Coreia do Sul, onde as autoridades têm prometido combater a prática com mais rigor.
Até recentemente, envolvidos em práticas ilegais de negociação estavam sujeitos a punições relativamente brandas, como advertências e multas administrativas. O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, no entanto, defendeu a adoção de sanções mais severas.
Em agosto, uma nova força-tarefa foi criada com representantes dos órgãos reguladores do mercado financeiro e da Bolsa de Valores sul-coreana para investigar negociações ilegais.
A equipe adota uma política de “tolerância zero”, pela qual contas usadas em atividades ilícitas são imediatamente suspensas. Os infratores podem ser multados em até o dobro dos ganhos obtidos de forma ilegal.
Outras figuras de destaque que já foram indiciadas em casos distintos de manipulação de ações incluem o presidente da empresa Samsung, Lee Jae-yong, o fundador da Kakao, Kim Beom-su, e a ex-primeira-dama Kim Keon-hee. Todos foram absolvidos.
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Fonte: G1 Entretenimento