Ex-URSS e EUA protagonizaram retiradas de tropas distintas, mas deixaram o país à mercê dos radicais Talibã segura armamento na entrada do Ministério do Interior em Cabul, no Afeganistão
Javed Tanveer / AFP
No período de 32 anos, duas superpotências – a antiga URSS e os EUA – protagonizaram, cada uma a seu modo, as retiradas de seus exércitos do Afeganistão. Derrotadas, após uma década de ocupação, as tropas soviéticas fizeram, em 15 de fevereiro de 1989, uma saída digna e ordeira pela Ponte da Amizade, que liga o país ao Uzbequistão.
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O Exército dos EUA saiu sem fazer alarde, reduzindo gradualmente seu contingente, 20 anos depois de invadir o Afeganistão para dar uma resposta aos maiores atentados terroristas já perpetrados em seu território. Mas, independentemente da estratégia de saída, tanto soviéticos quanto americanos deixaram o Afeganistão mergulhado no caos.
Os EUA se envolveram no país há quatro décadas, durante a Guerra Fria, apoiando combatentes armados – os mujahedin – contra os soviéticos. O impacto do conflito desgastou a economia soviética até que o então presidente Mikhail Gorbachev anunciou a retirada total das tropas.
Apesar da derrota, os soviéticos continuaram a sustentar o governo afegão, liderado por Mohammad Najibullah, para conter o avanço dos rebeldes. Mas o império desmoronou, a fonte secou e, em 1992, Najibullah foi destituído do poder.
Estava aberto, então, o caminho para o fortalecimento do Talibã, que atuava na região montanhosa entre o Paquistão e o Afeganistão, impondo uma versão fundamentalista da lei islâmica. Em 1996, após quatro anos de guerra civil, a milícia extremista assumia o controle de Cabul.
O ex-presidente, conhecido também como Dr. Nagib, foi retirado do complexo da ONU, arrastado e enforcado. O Talibã comandou um regime de terror no país, baseado em sua versão da sharia. Decretou amputações e apedrejamentos para adúlteros e ladrões, impôs o uso de burca para mulheres e aboliu símbolos da cultura afegã, entre outras punições severas.
O Talibã passou a controlar 90% do país e assegurou refúgio e apoio financeiro a outro grupo extremista, a al-Qaeda, comandada pelo saudita Osama bin-Laden. Embora ambos se assemelhassem na ideologia religiosa, seus objetivos eram distintos: o Talibã almejava estabelecer um emirado islâmico restrito às fronteiras do Afeganistão; a al-Qaeda se caracterizava como uma rede difusa, expandindo tentáculos por vários países.
Os dois grupos foram vinculados como grupos terroristas e sancionados pelo Conselho de Segurança, em 1999. Dois anos depois, em 11 de setembro, a organização comandada por Bin Laden executava quatro ataques terroristas com três mil mortos nos EUA.
Em outubro de 2001, começou então a Guerra ao Terror, sob o nome de Operação Liberdade Duradoura, liderada pelo então presidente George W. Bush. Em algumas semanas, o Talibã, que se recusou a entregar o líder terrorista, foi derrubado.
A permanência da coalizão da Otan no Afeganistão, comandada pelos EUA, se prolongou por duas décadas. O país ganhou uma Constituição, elegeu presidentes, reconquistou direitos para as mulheres, mas não deixou de ser terreno fértil para o terror. Tampouco conseguiu se desvencilhar da chaga da corrupção. Suas instituições se mantiveram frágeis.
Prova disso é o avanço e a vitória do Talibã, que põe novamente o Afeganistão na mesma rota da catástrofe em que se encontrava na virada do século XXI.
VÍDEOS sobre a situação atual no Afeganistão
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Fonte: G1 Mundo