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Joséphine Baker será a primeira mulher negra a entrar no Panteão


Artista franco-americana consagrou-se a primeira estrela internacional negra e foi espiã da Resistência Francesa contra as tropas nazistas durante a Segunda Guerra. Josephine Baker
Paul Nadar
A artista franco-americana Joséphine Baker (1906-1975) entrará para o Panteão de Paris a partir de 30 de novembro. Figura eminente da resistência francesa antinazista e da luta antirracista, Baker será a primeira pessoa negra e a sexta mulher a descansar na secular necrópole francesa.
A informação foi confirmada neste domingo (22) por fontes próximas do presidente Emmanuel Macron e pelo jornal Le Parisien. Segundo o veículo francês, o presidente anunciou a notícia a um grupo de personalidades que concordava com a transferência de Baker para o Panteão.
“Quando o presidente nos disse que sim, foi uma grande alegria”, disse a empresária Jennifer Gueson, uma das personalidades recebidas que defendeu a entrada de Baker no Panteão. Segundo eGuesdon, Macron anunciou a entrada da artista em 21 de julho.
Brian Bouillonr-Baker, um dos 12 filhos adotivos de Baker, também esteve entre os convidados de Macron. O pedido de ‘panteonização’ teria sido feito pela família Baker desde 2013, segundo Jennifer Guesdon, e a petição tem “quase 40 mil assinaturas”.
Primeira estrela negra e espiã de guerra
Josephine Barke
Walery
Jospehine Baker é considerada a primeira grande estrela do teatro de revista. Ela também foi a primeira mulher negra a desempenhar o papel principal em uma grande produção cinematográfica no longa francês “A Sereia dos Trópicos”, de 1927. Também foi uma das mais renomadas dançarinas do icônico Folies Bergère. Em Paris, ficou conhecida pelas danças sensuais e a irônica saia de bananas, que definiu sua imagem da época.
Ainda conhecida pelos posicionamentos antirracistas, Josephine foi uma das artistas negras que se recusou a se apresentar para plateias segregadas nos Estados Unidos, onde a cantora nasceu e foi também uma das vítimas do Jim Crow.
Já na Europa, sua imagem de artista glamourosa a fez um grande nome da Resistência Francesa contra os nazistas. Conhecida pelos apelidos de Vênus Negra, Pérola Negra e Deusa Crioula, os holofotes em cima de sua sensualidade a faziam passar despercebida como espiã de guerra: além de esconder diversos franceses em sua propriedade durante a invasão nazista em Paris, Baker usou sua turnê pela América do Sul para contrabandear documentos para o general Charles de Gaulle. Em suas partituras, carregou informações codificadas sobre movimentos das tropas alemãs na França.
Sexta mulher no Panteão
Por mais de um século, o Panteão foi a necrópole secular dos “grandes homens – e mulheres -” na França, cuja memória, a “pátria reconhecida” quer homenagear. O imponente edifício fica no coração da capital francesa. Entre os 80 personagens “panteonizados” estão políticos, escritores, cientistas, alguns religiosos e muitos militares.
Atualmente, ficam ali apenas os restos mortais de cinco mulheres, como os de Simone Veil, a última a ter sido incluída, em 2018. O escritor francês Maurice Genevoix foi o último “panteonizado”, em 2020.
Joséphine Baker será a sexta mulher a entrar no Panteão, depois de Sophie Berthelot, a física Marie Curie, as lutadoras da resistência Germaine Tillion e Geneviève de Gaulle-Anthonioz, além de Simone Veil, que também era uma figura política.
Sophie Berthelot, a primeira a descansar ali, ao lado de seu marido, o cientista Marcelino Berthelot a quem ela ajudara em suas pesquisas, havia se distinguido “em homenagem à sua virtude conjugal”.
Veja quem são as mulheres do Panteão francês, na ordem em que entraram:
Marie Curie
Marie Curie foi a primeira pessoa a receber dois prêmios Nobel em áreas distintas, física e química, em 1903 e 1911, respectivamente
Getty Images via BBC
Nascida em Varsóvia em 1867, Marya Salomea Sklodowska veio a Paris para estudar física e matemática. Casou-se com o físico Pierre Curie em 1895. Eles encontraram dois novos átomos, radioativos, batizados de polônio e rádio, e obtiveram o Nobel de Física em 1903, com Henri Becquerel.
Em 1906, Pierre Curie morreu atropelado por um caminhão. Viúva, Marie Curie teve um caso com o físico Paul Langevin, que também descansa no Panteão. Mas a esposa traída apresentou uma queixa contra ela e o escândalo estourou em 1911, terminando seu romance. Nesse mesmo ano, ela recebeu o Nobel de Química.
A única mulher no mundo a ser laureada duas vezes, ela morreu em 1934.
Em 1995, suas cinzas foram transferidas para o Panteão com as de seu marido, na presença do presidente polonês Lech Walesa. Uma decisão do presidente François Mitterrand tomada por sugestão de Simone Veil e outras personalidades.
Sophie Berthelot
 Marcelino Berthelot (1827-1907) foi químico, biólogo e político. Muitas ruas, praças, escolas ou escolas secundárias levam o nome daquele que depositou mais de 1.000 patentes científicas e foi Ministro das Relações Exteriores e da Educação Pública.
Quando sua esposa, Sophie (nascida Niaudet), que o ajudava em suas pesquisas, adoeceu, ele disse a seus filhos (o casal tinha seis) que não poderia “sobreviver” a ela. Ele morreu alguns momentos depois dela. As causas de sua morte não foram claramente elucidadas.
A família concordou em “panteonizá-lo” com a condição de que Sophie fosse enterrada com ele. O Ministro Aristide Briand disse em seu elogio em 1907: “Ela possuía todas as raras qualidades que permitem a uma mulher bela, graciosa, gentil, gentil e culta estar associada às preocupações, sonhos e trabalho de um homem. Gênio”.
Geneviève de Gaulle-Anthonioz
A primeira mulher a receber a Grã-Cruz da Legião de Honra, Geneviève de Gaulle-Anthonioz (1920-2002) foi sobrinha do General de Gaulle. Estudante de história, ingressou na famosa Rede de Resistência do Museu do Homem, uma das primeiras criadas em Paris. Denunciada e presa em 1943, ela foi deportada em janeiro de 1944 para Ravensbrück, onde esteva ao lado de Germaine Tillion.
De volta do campo de concentração, ela trabalhou por um período no Ministério da Cultura com André Malraux com o marido Bernard Anthonioz. Mas, no final de 1958, conheceu o padre Joseph Wresinski, criador do movimento “Ajuda em qualquer perigo “, que se tornaria o ATD Quart-Monde. Em 1964, ela assumiu a chefia da associação. Em 1996, ela apelou aos parlamentares a favor de um projeto de lei de coesão social finalmente aprovado em 1998.
Germaine Tillion
Etnóloga, Germaine Tillion (1907-2008) foi uma lutadora incansável pelos direitos humanos. Aluna do sociólogo Marcel Mauss, em 1934 saiu para investigar a população berbere nos Aurès. Meio historiadora, meio repórter, ela cumpriu quatro missões ali.
Durante a guerra, ela participou da criação da Rede Museu do Homem. Ela também foi deportada para Ravensbrück, ao mesmo tempo que sua mãe, Émilie. Detentora de inúmeras condecorações por seus atos heróicos durante a guerra, ela é a segunda mulher a se tornar Grã-Cruz da Legião de Honra.
No retorno do campo de concentração, ela trabalhou no CNRS e na École Pratique des Hautes Etudes, escrevendo vários livros sobre Ravensbrück, Argélia ou sua profissão.
O seu caixão e o de Geneviève de Gaulle-Anthonioz foram instalados no Panteão em 2015, sem os seus restos mortais, a pedido das suas famílias que pretendiam mantê-los nos cemitérios onde estão enterrados.
Simone Veil
Simone Veil, sobrevivente de Auschwitz, ministra da Saúde (1974-1978) e presidente do Parlamento Europeu (1979-1982), foi uma das personalidades favoritas da França.
Também acadêmica, foi presidente da Fundação para a Memória da Shoah (2001-2007).
Sua notoriedade e popularidade se devem muito à sua luta para que a lei de interrupção voluntária da gravidez (aborto) seja adotada em 1975, apesar da oposição de grande parte da direita.
Ela foi panteonizada em 2018, um ano após sua morte. Seu marido, Antoine, falecido em 2013, repousa ao seu lado.

Fonte: G1 Mundo

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Dirigente do Talibã culpa os EUA por caos no aeroporto de Cabul


Nos últimos dias, milhares de pessoas se dirigiram ao local na tentativa de embarcar em voos para fugir do país. Segundo o governo britânico, sete pessoas morreram em torno do aeroporto no sábado (21). Centenas de pessoas se reúnem do lado de fora do aeroporto internacional em Cabul, no Afeganistão, em 17 de agosto de 2021
AP
Um líder do grupo Talibã responsabilizou neste domingo (22) os Estados Unidos pelo caos no aeroporto de Cabul, no Afeganistão. No local, milhares de pessoas tentam embarcar em voos para fugir do país.
“Estados Unidos, com todo seu poder e seus meios (…), fracassaram em impor ordem no aeroporto”, disse Amir Khan Mutaqi, um dirigente talibã.
“Reina a paz e a ordem em todo o país, mas há caos somente no aeroporto de Cabul”, continuou. “Isso deve acabar o mais rápido possível”.
VÍDEOS: Caos no Afeganistão
Cinco brasileiros estão no Afeganistão e dois querem sair, diz Itamaraty
O Ministério da Defesa do Reino Unido informou que sete pessoas morreram nos arredores do aeroporto no sábado (21). A Reuters afirmou que elas foram esmagadas contra os portões.
Um oficial da Organização do Tratado do Atlântico Nortes (Otan) relatou à agência que ao menos 20 pessoas morreram nos últimos dias dentro ou nos arredores do aeroporto.
A rede britânica Sky News divulgou no sábado imagens de pelo menos três corpos cobertos com um plástico branco fora do aeroporto. Segundo o repórter da emissora, Stuart Ramsay, as pessoas estavam sendo esmagadas e outras “desidratadas e aterrorizadas”.
Embaixada dos EUA no Afeganistão pede que americanos se mantenham distantes do aeroporto
Uma semana após a tomada de poder do grupo extremista, milhares de afegãos tentam deixar o país. O secretário de Defesa do Reino Unido, Ben Wallace, defendeu que o prazo de permanência dos EUA no Afeganistão seja ampliado para permitir a retirada de todas as pessoas.
O presidente dos EUA, Joe Biden, chegou a um acordo com o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, para usar duas bases militares em território espanhol como recepção receber cidadãos que estavam no Afeganistão.
Os EUA alertaram no sábado (21) que americanos no Afeganistão devem evitar o aeroporto de Cabul se não tiverem instruções de representantes do governo.
Vídeos: Histórias e relatos sobre o caos no Afeganistão

Fonte: G1 Mundo

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Como os EUA perderam a ‘guerra ao ópio’ no Afeganistão


A despeito de uma estratégia ativamente voltada para impedir a produção de ópio e heroína, a área de cultivo da papoula no Afeganistão cresceu 37% em 2020 – e é uma das principais fontes de renda do Talibã. Afegão em campo de papoula, em foto de 2016; dados de 2019 apontam que a produção do ópio respondia por quase um terço do PIB do país
Reuters/BBC
É novembro de 2017. A câmera de visão noturna mostra um conjunto de ruas em uma cidade da província de Helmand, polo de cultivo de papoula no Afeganistão.
A câmera tenta centrar no alvo antes de os mísseis serem disparados.
São nove disparos no total, cada um deles alvejando uma edificação, em uma série de explosões quase simultâneas.
É um exemplo marcante de bombardeios de precisão, que usam algumas das mais caras e avançadas tecnologias militares já produzidas, incluindo um bombardeiro estratégico B-52, um caça F-22 Raptor e um disparador de foguetes M142.
O vídeo desse ataque, no qual oito civis afegãos foram mortos, foi parte de uma série postada online naquele ano pelos militares americanos (aqui, em inglês) como evidência do avanço da campanha de bombardeios chamada de “Tempestade de Ferro”.
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O objetivo era destruir laboratórios de heroína no âmago do comércio de ópio promovido pelo grupo extremista Talibã – que agora retomou o controle do país – e que já lhe rendia, na época, cerca de US$ 200 milhões por ano. Os bombardeios americanos atingiriam cerca de 200 alvos semelhantes.
No entanto, de acordo com um relatório publicado em abril de 2019 pela unidade de políticas sobre drogas da universidade britânica London School of Economics, a Operação Tempestade de Ferro não teve exatamente o impacto desejado.
O estudo identificou que, apesar de contar com excelentes informações de inteligência, a campanha multimilionária de bombardeios vinha tendo um efeito mínimo sobre o Talibã e sobre as redes de tráfico dentro do Afeganistão.
Dados mais recentes apontam para o crescimento do cultivo de papoula, a matéria-prima do ópio e, por consequência, da heroína, que é uma das principais fontes de renda do Talibã.
Em maio de 2021, uma investigação da Agência da ONU contra Crimes e Drogas (Unodc) junto à Agência Nacional de Estatísticas do Afeganistão estimou que a área de cultivo da papoula para ópio cresceu 37% em 2020 em relação ao ano anterior – com 224 mil hectares, essa área de cultivo é uma das maiores já registradas no país e tinha potencial de produzir 6,3 mil toneladas de ópio e gerar lucros ilícitos de US$ 350 milhões.
Reportagem da agência Reuters publicada na segunda-feira (16/8) calcula que os EUA tenham gastado mais de US$ 8 bilhões ao longo de 15 anos tentando impedir, por meio de bombardeios e destruição de lavouras, que o comércio de ópio continuasse sendo uma fonte de renda ao Talibã. Mas a estratégia não deu certo: o Afeganistão continua sendo o maior fornecedor de ópio ilícito do mundo, status que deve ser reforçado com a retomada do poder central pelo grupo fundamentalista, aponta a Reuters.
Os bombardeios
O que, então, os americanos estavam atacando naquele bombardeio em 2017?
O pesquisador David Mansfield, especialista no tema, fez essa pergunta a si mesmo enquanto assistia ao vídeo do ataque.
“Foi bizarro”, ele disse à BBC News em 2019. “Eu estava sentado (na minha casa) no Reino Unido, a milhares de quilômetros de distância, assistindo àqueles ataques inacreditáveis. A tecnologia usada pelos americanos era surpreendente. Esses bombardeios pareciam ter uma ótima precisão, mas eu pensava: qual é o alvo?”
Mansfield estuda a indústria afegã do ópio há mais de duas décadas. Ele explicou que a produção da heroína deixa certos rastros, e ele não estava vendo nenhum deles.
No entanto, os americanos afirmaram que aquele ataque foi um sucesso.
Foram necessários meses de trabalho de detetive usando análises geoespaciais de imagens de satélite e investigação em campo até Mansfield ter a sensação de ter entendido o desenrolar dos fatos.
E a conclusão dele causou surpresa. Apesar da grande injeção de recursos por parte dos EUA, Mansfield e sua equipe se convenceram, em 2019, de que a Força Aérea americana estava usando tecnologias caras e de última geração para bombardear meras choupanas de barro.
O avanço da indústria da heroína
O ópio está profundamente intrincado na história de conflitos do Afeganistão, palco da maior guerra da história americana.
Os lucros do comércio da heroína são usados para financiar tanto o Talibã quanto grupos considerados terroristas, como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda.
A heroína também movimenta a corrupção tão corrosiva à sociedade civil no Afeganistão.
Em 2016, a BBC viu uma amostra de quão institucionalizado o cultivo de papoula era no país, ao visitar uma fazenda dentro de uma área que, ao menos em teoria, era controlada pelo (agora erradicado) governo afegão.
Os agricultores do local não viam qualquer necessidade de esconder que ali era cultivada papoula em um espaço a meia hora de distância do aeroporto Mazar-e-Shafir, ao lado da rodovia principal da região.
Um agricultor, Taza Meer, parecia tranquilo sob a proteção de um homem que carregava um AK47 em seus ombros.
“Não se preocupe com ele”, disse Meer à reportagem. “Ele é um policial local”.
A produção de ópio era, em teoria, um crime grave no Afeganistão, punido com a pena de morte sob o governo apoiado pelo Ocidente. Mesmo assim, aquele policial assistiu à visita da BBC a uma plantação de papoula no auge da colheita.
Quando os EUA e o Reino Unido invadiram o Afeganistão, em outubro de 2001, havia cerca de 74 mil hectares afegãos dedicados à papoula. Hoje, é três vezes maior, segundo o mais recente relatório da ONU.
E houve outra mudança adicional: no passado, o látex feito de ópio era secado e traficado para fora do Afeganistão como uma pasta grudenta, que seria refinada em outras partes do mundo. Nos últimos anos, porém, autoridades afegãs e ocidentais estimam que ao menos a metade do ópio afegão já saía do país processado na forma de morfina ou heroína.
Isso torna seu tráfico muito mais fácil, além de aumentar consideravelmente os lucros dos traficantes e do Talibã – que recolhia, segundo estimativas de 2019, um “imposto” de 20% sobre esses lucros.
Nas ruas dos EUA
Esse pico na produção de heroína ocorreu simultaneamente a uma epidemia de opioides nos EUA.
A Casa Branca declarou o problema como emergência de saúde pública em outubro de 2017, ante a estimativa de que mais de 2 milhões de americanos eram viciados em opioides – e em um momento em que overdoses haviam se tornado a principal causa de mortes nos EUA, superando acidentes de carro e violência armada.
Essa epidemia de opioides começou com a prescrição indiscriminada de analgésicos, mas, à medida que o controle sobre esses remédios aumentou, pessoas viciadas passaram a recorrer à heroína ou a opioides sintéticos, como Fentanyl.
E, é claro, o Afeganistão é, de longe, o maior produtor de ópio do mundo – as estimativas do Unodc são de que o país seja a origem de mais de 80% do ópio e da heroína globais (nos EUA, curiosamente, a maior parte do suprimento de heroína não vem do Afeganistão, e sim do México e da América do Sul, segundo dados de 2019 da Agência de Combate às Drogas americana).
Mas, assim como em qualquer commodity, quando aumenta a oferta, os preços caem.
Diante da expectativa de que a produção aumente sob o mando do Talibã, “mais produção faz com que as drogas fiquem mais baratas e acessíveis”, disse à agência Reuters, nesta semana, Cesar Gudes, chefe do escritório de Cabul da Unodc. “Estes são os melhores momentos em que grupos ilícitos tendem a se posicionar (para expandir seus negócios)”.
Ação militar
A lógica da operação Tempestade de Ferro era simples.
“Vamos atingir o Talibã onde dói, que é nas suas finanças”, disse o comandante general John Nicholson, em uma coletiva de imprensa no dia seguinte à primeira onda de bombardeios.
Cerca de 60% dos lucros do Talibã vêm do comércio de narcóticos, então atacar essa fonte reduziria o financiamento do grupo e a oferta de heroína pelo mundo, concluíram os estrategistas americanos.
A inspiração veio da Síria, onde bombardeios aéreos americanos contra a indústria petroleira ilegal do Estado Islâmico destruiu plataformas, caminhões-tanque e outros equipamentos. A campanha foi considerada um sucesso, reduzindo dramaticamente as receitas do autoproclamado califado e dificultando a cooptação de combatentes.
Mas, como não é incomum na longa história de conflitos no Afeganistão, não foi tão simples adaptar a ideia.
Processo improvisado
A produção de heroína no Afeganistão não é um processo industrial, explicou David Mansfield à BBC. E os espaços improvisados onde os afegãos refinam o ópio sequer podem ser chamados de laboratórios, segundo ele.
Não há jalecos brancos, locais esterilizados ou equipamentos adequados. A heroína costuma ser feita em habitações comuns afegãs – uma parede de argila com cerca de seis choupanas construídas ali dentro.
E, como o processo expele gases nocivos, ele geralmente ocorre em lugares mais abertos.
Ele é difícil de ser escondido, afirmou Mansfield, porque deixa vestígios bem específicos de restos de fogueira, geralmente em fileiras.
Um espaço ativo de refinamento também terá pilhas de tambores de combustível, prensas de extração de morfina, recipientes de gás, carvão ou madeira (para o fogo) e barris químicos, além de movimento de pessoas.
Quando o Exército dos EUA divulgou 23 vídeos mostrando ataques em supostos laboratórios de heroína, Mansfield afirmou que apenas olhando para as imagens já conseguiu perceber que na maioria daqueles locais não havia nenhuma produção significativa de heroína, porque “não havia os rastros dessa atividade”.
Busca por evidências
Mas Mansfield sabia que, para explicar seu ponto, precisaria de mais provas.
Ele acionou a Alcis, uma start-up britânica especializada em análise geoespacial de fatos ocorridos em locais remotos.
Embora as coordenadas tivessem sido apagadas dos vídeos divulgados pelos EUA, foi possível identificar os locais dos ataques por meio de imagens de satélites do Afeganistão e, assim, identificar o que havia acontecido naqueles locais antes dos disparos de mísseis.
A Alcis conseguiu identificar 31 edifícios. De todos os locais examinados, apenas um deles estava, com certeza, produzindo ópio quando foi atingido pelo míssil americano – era uma edificação contendo cerca de 200 barris (e imagens termais mostravam esses barris com a cor branca, indicando que eles estavam quentes e ativamente envolvidos no processo de refinamento de heroína).
Pesquisa de campo
Em seguida, Mansfield reuniu uma equipe de pesquisadores afegãos para entrevistar as pessoas nas comunidades afetadas pelos mísseis americanos. Eles conversaram com donos de laboratórios, operadores e trabalhadores, e também com 450 agricultores em Helmand e outras áreas produtoras de ópio.
As entrevistas indicaram que a inteligência obtida pela Força Aérea americana era, de fato, boa. A maioria dos locais examinados pelos pesquisadores havia sido usado como laboratório de heroína no passado mas – e este é o ponto-chave -, em sua grande maioria, já não estavam mais ativos no momento dos ataques de mísseis.
Os entrevistados disseram que os laboratórios operavam de modo intermitente e que todo o material usado na produção de heroína era removido quando o local ficava fechado. Além disso, era possível montar um novo laboratório com facilidade, em questão de dias.
Ou seja, na ausência de significativos estoques de heroína, químicos e equipamentos dentro das edificações, seu valor prático, como alvo, era mínimo: Mansfield e sua equipe estimam esse valor entre US$ 10 mil a US$ 20 mil por edificação, no máximo.
“Qual é a perda, para uma organização narcotraficante, quando você essencialmente derruba um local, uma edificação de barro?”, questionou.
Então, por que se dar ao trabalho de atacá-los?
“É uma pergunta difícil”, afirmou Mansfield em 2019 à BBC. “Acho que os comandantes recebiam ordens de seus chefes em Washington dizendo que era preciso agir, e acho que eles estavam sendo cautelosos, tentando evitar mortes de civis”.
Mudança de comando
Mansfield não foi o único a questionar o valor estratégico dessa operação americana: também houve questionamentos por parte de algumas autoridades de alto escalão.
A então secretária de Força Aérea, Heather Wilson, demonstrou preocupação com os custos: em entrevista coletiva de fevereiro de 2018, afirmou que “nós (EUA) não deveríamos estar usando um F-22 para destruir fábricas de narcóticos no Afeganistão”.
O F-22 é o caça mais avançado do mundo. Cada aeronave custa US$ 140 milhões, e a hora de voo custa ao menos US$ 35 mil.
Em agosto de 2018, o general Jeffrey Harrigian, então chefe do Comando Central da Força Aérea americana em Doha, afirmou que a estratégia de atacar fontes de renda escusas no Afeganistão “não estava funcionando tão bem quanto na Síria”.
Até que, em 2 de setembro de 2018, o general John Nicholson foi substituído no comando das forças da Otan (aliança militar ocidental) e dos EUA no Afeganistão pelo general Austin “Scott” Millar.
Isso, na prática, selou o fim da campanha Tempestade de Ferro, havendo depois disso houve apenas dois disparos de mísseis contra supostos laboratórios de heroína.
Millar passou na época a focar em uma estratégia mais agressiva, de alvejar o Talibã diretamente, com ataques aéreos e incursões.
Em 2019, quando a BBC questionou as tropas americanas a respeito das descobertas de Mansfield, a resposta foi: “todos os nossos esforços buscam criar as condições para um acordo político e resguardo dos interesses nacionais”, disse uma porta-voz. “A grande maioria de nossos disparos são letais contra o Talibã ou o Estado Islâmico.”
A porta-voz não quis comentar, na época, a respeito de se a Força Aérea estava deliberadamente atingindo alvos inativos de forma a evitar mortes de civis.
Que efeito, então, a operação Tempestade de Ferro teve na produção de narcóticos? A resposta é: muito pouco.
Quando a iniciativa acabou, o Exército americano reportou que “a produção de narcóticos no Afeganistão continuava em níveis elevados”.
Relatório de novembro de 2020 do grupo Lessons for Peace, que contou com a colaboração de David Mansfield, diz que “acredita-se que o ópio seja o produto mais lucrativo traficado pelas fronteiras afegãs, em termos de renda bruta. A ONU estima (com base em dados de 2019) que a receita do comércio de ópio afegão tenha variado em anos recentes, entre US$ 1,2 bilhão e US$ 6,6 bilhões anuais, em uma indústria que emprega centenas de milhares de pessoas”.
“Detenções e interdições continuam tendo um impacto mínimo no cultivo de papoula do país”, apontou outro relatório, esse entregue oficialmente ao Congresso americano, em julho deste ano, pelo Inspetor General da Reconstrução Afegã (Sigar, na sigla em inglês). “É um fracasso total”, afirmou a jornalistas, em 29 de julho, John Sopko, chefe do Sigar, a respeito da política antidrogas no Afeganistão.
“Os EUA e seus parceiros internacionais continuamente deixaram de lidar com a questão do cultivo da papoula”, disse nos últimos dias à agência Reuters uma fonte do Exército americano, sob condição de anonimato. “O que vamos descobrir é que isso (o cultivo) explodiu.”
Vídeos: Histórias e relatos sobre o caos no Afeganistão

Fonte: G1 Mundo

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7 pessoas morrem nos arredores do aeroporto de Cabul, diz Ministério da Defesa do Reino Unido


Secretário britânico afirma que nenhum país vai conseguir retirar todos os cidadãos em tempo hábil se o prazo de permanência dos EUA não for ampliado. Aeronave britânica com refugiados
Reprodução
Segundo o Ministério da Defesa do Reino Unido, 7 pessoas morreram em meio a uma multidão nos arredores do aeroporto de Cabul, no Afeganistão. O Talibã conseguiu estabelecer ordem e tentou organizar filas para o acesso, de acordo com informações da Reuters. No sábado, os Estados Unidos alertaram para os riscos na região.
“Nossos sinceros pensamentos estão com as famílias dos 7 afegãos que morreram nas multidões de Cabul”, diz uma nota do Ministério da Defesa britânico.
Neste domingo o secretário de Defesa do Reino Unido, Ben Wallace, escreveu uma coluna no jornal Daily Mail e disse que se o prazo estabelecido pelos EUA para deixar o Afeganistão não for ampliado, não haverá tempo para evacuar todas as pessoas que querem deixar o país.
“Talvez os americanos possam ficar mais tempo, e eles terão nosso completo apoio se eles ficarem (…) Eu tenho dito o tempo todo que nenhuma nação vai conseguir retirar todo mundo”, afirmou Wallace.
EUA avaliam uso de aviões comerciais na operação de resgate no Afeganistão
Segundo ele, os afegãos que queiram fugir do Talibã terão que se encaminhar para as fronteiras por conta própria se os americanos não estenderem a permanência. “Nós vamos estabelecer uma série de hubs nas fronteiras para aqueles afegãos que nós temos a obrigação de trazer para o Reino Unido”, disse.
A Agência de Refugiados da ONU faz um apelo para que países que fazem fronteira com o Afeganistão mantenham as fronteiras abertas para a entrada de imigrantes.
Segundo a representante da agência, Caroline Van Buren, a maioria dos afegãos não conseguem deixar o país por vias legais. Ela alertou que até o último sábado não haviam voos comerciais chegando ou saindo de Cabul.
EUA vão usar bases na Espanha para receber afegãos
Embaixada dos EUA no Afeganistão pede que americanos se mantenham distantes do aeroporto
O presidente Joe Biden entrou em acordo com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, para usar duas bases militares no sul da Espanha para receber afegãos que trabalharam para o governo dos EUA.
“Eu tive uma conversa significativa com o presidente Joe Biden na qual falamos sobre interesses comuns, particularmente na situação do Afeganistão e a colaboração entre os nossos governos para evacuar cidadãos daquele país”, escreveu Sánchez em sua conta de Twitter.
Os Estados Unidos aconselharam, neste sábado (21), que norte-americanos no Afeganistão evitem ir para o aeroporto de Cabul, após milhares de pessoas terem tentado fugir do país depois que o Talibã assumiu o poder.
O aviso chegou após um dos cofundadores do Talibã, Mullah Baradar, chegar a Cabul para reuniões com outros líderes para formar um novo governo afegão.

Fonte: G1 Mundo

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Afegã grávida tem bebê dentro de avião militar dos EUA


Piloto teve que fazer manobra rasante para aumentar a pressão dentro da aeronave. Afegã é levada para unidade de saúde após ter filha dentro de avião
Reprodução
Uma mulher grávida afegã deu à luz a uma menina dentro de um avião militar dos Estados Unidos depois de fugir do Afeganistão. Durante um vôo de uma base no Oriente Médio para a Alemanha, a mãe entrou em trabalho de parto e começou a ter complicações.
O piloto decidiu voar mais baixo para aumentar a pressão do ar na aeronave. A manobra deu certo e ajudou a estabilizar o estado de saúde da mãe.
Após o pouso, os militares auxiliaram a mulher no trabalho de parto e o bebê nasceu na área de carga do avião. A menina e a mãe foram levadas para uma unidade médica da cidade e passam bem. As informações são da Força Aérea dos EUA.
Mães entregam crianças para soldados
VÍDEO: Soldado puxa bebê para dentro de aeroporto de Cabul em meio a tumulto
Com a chegada do Talibã ao poder no Afeganistão, histórias como essa se tornaram rotina no país. As cenas de mulheres tentando entregar seus filhos pequenos para salvá-los enquanto uma multidão se espremia para tentar fugir do país por causa da tomada do poder pelo Talibã comoveu e preocupou muita gente (veja abaixo). Algumas crianças chegaram a ficar feridas pelos arames da cerca.
Farista Rahmani, mãe de Hadiya, se perdeu de seu marido, Ali Musa Rahmani, e ficou com medo de que a filha ficasse ferida ou acabasse caindo e sendo pisoteada na confusão. Por isso decidiu entregar o bebê aos soldados, segundo a agência Reuters.
Bebê entregue pelos pais no aeroporto em Cabul recebe cuidado de soldados
Os soldados então se encarregaram de trocar a fralda de Hadiya e alimentá-la, além de garantir um rodízio de colos para que ela se acalmasse.
A Agência de Refugiados da ONU faz um apelo para que países que fazem fronteira com o Afeganistão mantenham as fronteiras abertas para a entrada de imigrantes.
Os Estados Unidos aconselharam, neste sábado (21), que norte-americanos no Afeganistão evitem ir para o aeroporto de Cabul, após milhares de pessoas terem tentado fugir do país depois que o Talibã assumiu o poder.

Fonte: G1 Mundo

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Agência da ONU pede que países deixem a fronteira com o Afeganistão aberta


Representante diz que maioria dos afegãos não consegue deixar o país por vias legais. Grécia instala barreira para evitar chegada de refugiados afegãos ao país
A Agência de Refugiados da ONU faz um apelo para que países que fazem fronteira com o Afeganistão mantenham as fronteiras abertas para a entrada de imigrantes.
Segundo a representante da agência, Caroline Van Buren, a maioria dos afegãos não conseguem deixar o país por vias legais. Ela alertou que até o último sábado não haviam voos comerciais chegando ou saindo de Cabul.
Na última semana, imagens mostraram uma grande multidão tentando embarcar em aviões militares. Até a pista de decolagem foi invadida no aeroporto de Cabul.
Afegãos desesperados invadem aeroporto de Cabul e se agarram a avião para fugir do Talibã
Alguns países que não têm divisa direta com o Afeganistão já tomaram medidas para evitar a entrada de imigrantes. A Grécia instalou uma cerca de 40 km e um sistema de vigilância em sua fronteira com a Turquia.
O país europeu, que estava na linha de frente da crise migratória em 2015, quando mais de um milhão de pessoas fugindo da guerra e da pobreza no Oriente Médio cruzaram a fronteira da Turquia para a União Europeia, disse que pode mandar de volta quaisquer afegãos que chegarem ilegalmente ao país.
A Turquia, por sua vez, aumentou o patrulhamento na fronteira com o Irã. Neste sábado, as forças de segurança turcas detiveram alguns imigrantes na cidade de Van. A maioria deles era de nacionalidade afegã.
Imigrantes são detidos na fronteira do Irã com a Turquia
Murad Sezer/Reuters
Os Estados Unidos aconselharam, neste sábado (21), que norte-americanos no Afeganistão evitem ir para o aeroporto de Cabul. No domingo, o Talibã organizou filas para evitar novos tumultos no aeroporto.
O governo australiano disse que quatro voos saíram de Cabul neste sábado à noite com mais de 300 pessoas, incluindo australianos, britânicos, americanos e afegãos com visto. Na última semana, cerca de 8 mil pessoas deixaram o Afeganistão em aviões dos EUA, Reino Unido e de países europeus.
Um dos cofundadores do Talibã, Mullah Abdul Ghani Baradar, chegou a Cabul neste sábado (21) para iniciar o processo de formação de um novo governo no Afeganistão, informou o organismo extremista.
Outro líder talibã histórico visto na capital nos últimos dias é Khalil Haqqani, um dos terroristas mais procurados pelos Estados Unidos, com uma recompensa de US$ 5 milhões.
Avanço do Talibã
Líder do Talibã chega a Cabul e faz discurso para militantes
O Talibã completou seu rápido avanço pelo país, à medida em que as forças lideradas pelos EUA se retiraram, coincidindo com o que a chanceler alemã Angela Merkel disse ser um “colapso espantoso” do exército afegão.
A autoridade do Talibã afirmou que o grupo planejava preparar um novo modelo para governar o Afeganistão dentro das próximas semanas, com equipes diferentes tratando de assuntos de segurança interna e financeiros.
A estrutura do novo governo não será uma democracia, pelas definições ocidentais, mas “protegerá os direitos de todos”, acrescentou a autoridade.
O Talibã, que segue uma versão ultra-rígida do islamismo sunita, apresentou uma versão moderada desde que retornou ao poder, dizendo que quer paz e que respeitará os direitos das mulheres, dentro dos parâmetros da legislação islâmica.

Fonte: G1 Mundo

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Tempestade interrompe evento de reabertura em NY enquanto furacão Henri se aproxima


Show foi paralisado por ameaça de tempestade de raios; furacão Henri pode chegar no domingo Show marcava a reabertura da cidade de Nova York; autoridades pediram para que público buscasse abrigo
REUTERS/Eduardo Munoz
Um evento realizado no Central Park, em Nova York, neste sábado (21) precisou ser interrompido às pressas por conta do risco de uma tempestade de raios. O fenômeno acontece enquanto a tempestade tropical Henri foi reclassificada como furacão e pode atingir a costa nordeste dos EUA neste domingo (22).
O show celebrava a reabertura da cidade para eventos com público e o relaxamento das medidas de proteção contra a pandemia da Covid-19. Milhares de pessoas vacinadas assistiam à apresentação de Barry Manilow por volta das 19h30 (horário local) quando o show foi interrompido e autoridades pediram para as pessoas buscarem abrigo em carros e outros locais.
Segundo vídeos divulgados em redes sociais, as pessoas deixaram o local de forma ordenada e sem confusão.
O show havia sido anunciado em julho e contou com a participação da Orquestra Filarmônica de Nova York, e contou com a presença de Jennifer Hudson, Carlos Santana, LL Cool J, e a banda Earth, Wind and Fire.
Caso toque o solo, o Henri será o primeiro furacão desde 1991 a chegar à região. Em setembro daquele ano, o furacão Bob causou destruição no estado de Massachusetts.

Fonte: G1 Mundo

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Tempestade Henri se transforma em furacão e pode chegar aos EUA no domingo


É a primeira vez em 30 anos que um furacão pode tocar o solo da costa nordeste dos EUA; Nova York mobiliza 500 soldados da Guarda Nacional Em setembro de 1991, o furacão Bob causou destruição em Dartmouth, no Massachusetts
AP Photo/Susan Walsh
A tempestade tropical Henri se transformou em furacão de categoria 1 neste sábado (21) e deve tocar o solo na costa nordeste dos Estados Unidos no domingo (22), informou o Centro Nacional de Furacões (NHC).
“É tão grave quanto um ataque cardíaco”, disse o governador de Nova York, Andrew Cuomo, anunciando o estado de emergência e o envio preventivo de 500 soldados da Guarda Nacional.
Cuomo observou que o furacão deve atingir a costa de Long Island, lar dos luxuosos Hamptons, onde muitos nova-iorquinos ricos passam o verão, por volta de meio-dia no horário local (13h no horário de Brasília) de domingo (22).
“Será um evento que durará aproximadamente 26 horas”, acrescentou Cuomo, alertando os nova-iorquinos para esperarem “quedas de energia significativas” e “inundações significativas” em alguns subúrbios da cidade.
Furacão Grace mata 8 pessoas e perde força na costa do México
Furacão Grace, que já passou por Haiti e Jamaica, atinge o México
No México, famosos relatam medo e mostram imagens da passagem do furacão Grace
O Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos, em seu último boletim, alertou sobre “perigosas tempestades, furacões e inundações” em áreas do sul da Nova Inglaterra e Long Island.
Com ventos de até 120 km/h atualmente, Henri provocará entre 7cm e 15cm de chuvas em toda a região e até 25cm em alguns lugares, estimou o NHC, ao alertar sobre o risco de enchentes.
Primeiro furacão desde 1991
Último furacão a tocar o solo na região foi o Bob, em setembro de 1991
AP Photo/Stephen Rose
Uma parte do nordeste dos Estados Unidos, incluindo Nova York, foi colocada em alerta na sexta-feira (20) por Henri, que poderia se tornar o primeiro furacão em 30 anos a chegar na costa de Nova Inglaterra.
“O último furacão que tocou solo em Nova Inglaterra foi Bob em 1991”, disse à AFP Dennis Feltgen, porta-voz do NHC. Ele causou a morte de pelo menos 17 pessoas na costa leste.
Já último furacão a atingir a costa de Long Island foi o Gloria, em 1985.
Diante da ameaça, vários governadores pediram à população para ser prudente. Em Massachusetts, estado em que se encontra a cidade de Boston, o governador Charlie Baker pediu para “evitar as viagens desnecessárias”, especialmente nos litorais.
No estado, onde todas as praias e parques estarão fechados entre sábado e segunda-feira, o furacão poderia provocar cortes de energia elétrica que afetariam entre 100 mil e 300 mil habitantes, segundo o escritório do governador.

Fonte: G1 Mundo

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A chuva ‘preocupante’ registrada pela primeira vez no ponto mais alto da Groenlândia


Cientistas da estação Summit ficaram surpresos ao verem gotas de água escorrer pela janela – algo inédito desde que o alojamento foi construído em 1989. Cientistas da estação Summit ficaram surpresos ao verem gotas de água escorrer pela janela
GETTY IMAGES
Ninguém sabe quando foi a última vez que choveu nesta área remota da Terra.
Por estar localizado a 3.216 metros de altitude na região do Ártico, com temperaturas abaixo de zero quase o tempo inteiro, o pico da Groenlândia normalmente não apresenta condições atmosféricas para gerar precipitação.
Por isso, o que aconteceu no dia 14 de agosto surpreendeu os pesquisadores da estação Summit, da agência americana National Science Foundation, que monitora o clima nesta parte do planeta.
Choveu “por várias horas”, de acordo com as informações do Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo dos Estados Unidos (NSIDC). Nada parecido tinha sido observado desde que os registros começaram a ser feitos em 1987, conforme as informações compartilhadas pelo cientista Martin Stendel em suas redes sociais.
Conforme o relatório, “a temperatura do ar ficou acima de zero por cerca de nove horas”. O aumento nos termômetros criou condições de degelo que só foram vistas anteriormente em três ocasiões: 1995, 2012 e 2019.
Mais um exemplo de como o aquecimento global está afetando lugares tão remotos como o pico da Groenlândia, de acordo com especialistas.
“Isso não é um sinal saudável para um manto de gelo”, disse à agência de notícias Reuters Indrani Das, glaciologista do Observatório Terrestre Lamont-Doherty da Universidade de Columbia.
“Água no gelo é ruim… Torna o manto mais propenso a derreter na superfície.”
Estação Summit começou a operar em 1989
GETTY IMAGES
‘Choveu o dia todo’
Embora muitas vezes chova na superfície congelada da Groenlândia, o fenômeno nunca tinha sido observado no ponto mais alto.
Na estação de pesquisa, os cientistas ficaram surpresos ao verem gotas de água escorrer pelas janelas do alojamento — e chegaram a compartilhar imagens nas redes sociais.
“No sábado, choveu basicamente o dia inteiro, a cada hora em que a equipe fazia observações do tempo”, disse a engenheira Zoe Courville ao The Washington Post.
“E é a primeira vez que se vê isso na estação.”
A temperatura chegou a 0,48°C — a quarta vez nos últimos 25 anos que ela ultrapassa zero naquela área.
Os termômetros ficaram acima de 0°C durante várias horas, o que, combinado com a chuva, criou condições para o degelo na superfície do pico e arredores, segundo dados do NSIDC.
No total, o derretimento atingiu 872 mil quilômetros quadrados no dia 14.
“Somente em 2012 e 2021 houve mais de um evento de derretimento de 800 mil quilômetros quadrados”, destaca o relatório do NSIDC.
A região do Ártico está esquentando duas vezes mais rápido que o resto do planeta devido às mudanças climáticas, explica Steve Turton, pesquisador de geografia ambiental da Universidade Central de Queensland, na Austrália, em um artigo no site The Conversation.
Enquanto no resto do planeta a temperatura aumentou em média em 1°C, na região esse ritmo chegou a quase 2°C.
“Esta chuva preocupante no topo da Groenlândia não é um evento isolado”, ressaltou Twila Moon, cientista do NSIDC.
Junto com o aumento de enchentes, incêndios e outros eventos extremos, é um dos muitos “sinais de alarme” que apontam a necessidade de reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

Fonte: G1 Mundo

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Afeganistão: como os exércitos mais poderosos do mundo foram derrotados no ‘cemitério de impérios’ nos últimos 180 anos


Império Britânico, depois a União Soviética e, finalmente, os Estados Unidos e seus aliados: nenhuma dessas potências conseguiu controlar por muito tempo todo o território afegão. A congressista dos EUA Elise Stefanik comparou a queda de Cabul a Saigon: “Um fracasso desastroso no cenário internacional que nunca será esquecido”
Getty Images
O poderoso Império Britânico fez sua tentativa no século 19, quando era a superpotência mundial, mas em 1919 teve que deixar o Afeganistão e conceder a independência ao país.
Depois foi a vez da União Soviética, que em 1979 invadiu o país com a intenção de manter o comunismo no poder (instituído por meio de um golpe em 1978) – demorou 10 anos para eles perceberem que não venceriam aquela guerra.
Os britânicos e soviéticos têm em comum que, ao invadirem o Afeganistão, possuíam impérios de primeira ordem e logo depois começaram a desmoronar.
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Vinte anos após a invasão liderada pelos Estados Unidos em 2001, e uma guerra subsequente que causou centenas de milhares de mortes, o governo de Joe Biden decidiu retirar as tropas de seu país do Afeganistão.
Foi uma decisão polêmica, fortemente criticada e que levou à rápida queda de Cabul, a capital afegã, pelas mãos do grupo jihadista Talibã.
Biden defendeu a retirada das tropas, alegando que os americanos não deveriam “lutar uma guerra que afegãos não querem lutar”. Argumentou que “força militar alguma jamais alcançaria um Afeganistão estável, unido e seguro” e lembrou que o país é conhecido como um “cemitério de impérios”.
O Afeganistão tem sido o cemitério dos exércitos mais poderosos dos últimos séculos, que tentaram controlá-lo – com aparente sucesso no início de suas respectivas invasões, mas que depois tiveram que fugir do país.
“Não é que os afegãos tenham muito poder, o que aconteceu no Afeganistão foi culpa dos próprios impérios invasores, da patologia imperial e de suas limitações”, disse o analista de defesa e política externa David Isby à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC.
O Afeganistão é um país com uma infraestrutura muito pobre e uma geografia difícil
Getty Images via BBC
Isby diz que o Afeganistão é, “de um ponto de vista objetivo”, um lugar difícil: é uma nação complexa, com infraestrutura muito pobre, desenvolvimento limitado e sem saída para o mar.
“Mas os impérios, seja soviético, britânico ou os EUA, não mostraram flexibilidade ao lidar com o Afeganistão. Eles queriam e tinham que fazer as coisas do seu jeito e nunca conseguiram entender a complexidade do país”, acrescenta.
É comum ouvir que o Afeganistão é “impossível de conquistar” – uma afirmação errada: os persas, os mongóis e Alexandre, o Grande, fizeram isso no passado.
O certo é que é uma aventura que custou muito a quem tentou. E os últimos três impérios que tentaram invadir Cabul simplesmente falharam.
G1 no YouTube: Como a situação do Afeganistão agora pode ser mais tensa para as mulheres
O Império Britânico e suas três invasões
Durante grande parte do século 19, o Afeganistão foi o palco central do “Grande Jogo” entre os impérios britânico e russo para controlar a Ásia Central.
Por décadas, Moscou e Londres travaram uma luta diplomática e política que os britânicos acabaram vencendo, mas a um preço alto. O Reino Unido tentou invadir o país três vezes entre 1839 e 1919, e pode-se dizer que falharam nas três vezes.
Na Primeira Guerra Anglo-Afegã – que começou quando os britânicos capturaram Cabul em 1839 com medo de que a Rússia fizesse isso antes deles -, Londres sofreu talvez sua maior humilhação da história: o exército daquela que era então a nação mais poderosa do mundo estava completamente destruída por tribos com armas muito simples.
Após três anos de invasão, os afegãos finalmente forçaram as forças invasoras a deixar a capital, e a retirada resultou em tragédia.
Apenas um cidadão britânico sobreviveu, entre um grupo de mais de 16 mil pessoas que deixaram um acampamento militar britânico em 6 de janeiro de 1842 com a intenção de ir para Jalalabad (cidade a leste de Cabul).
“Essa guerra enfraqueceu o avanço da expansão britânica para o subcontinente e também afetou a narrativa de que os britânicos eram invencíveis”, explica Isby.
Quase quatro décadas depois, o Reino Unido tentou novamente com um pouco mais de sucesso.
A Segunda Guerra Anglo-Afegã, que ocorreu entre 1878 e 1880, terminou com o Afeganistão se tornando um protetorado britânico, mas Londres foi forçada a abandonar sua política de manter um ministro residente em Cabul.
Em vez disso, selecionou e apoiou um novo emir afegão e retirou suas tropas do país. Mas em 1919 uma terceira guerra estourou quando um novo emir afegão declarou sua independência da influência britânica.
Naquela época, a Revolução Bolchevique havia reduzido a ameaça russa e, ao mesmo tempo, a Primeira Guerra Mundial paralisou os gastos militares britânicos, de modo que o interesse no Afeganistão diminuiu.
Por isso, após quatro meses de batalhas, Londres acabou reconhecendo a independência do país.
Embora oficialmente os britânicos não estivessem mais no Afeganistão, considera-se que eles mantiveram sua influência por muitos anos mais.
O Vietnã da União Soviética
Durante a década de 1920, o emir Amanullah Khan tentou reformar o país e, entre outras medidas, aboliu a burca tradicional para mulheres. A série de reformas perturbou algumas tribos e líderes religiosos, desencadeando uma guerra civil.
As tensões no país asiático decorrentes de lutas pelo poder continuaram por décadas até que a União Soviética invadiu o país em 1979 para manter no poder um governo comunista profundamente fragmentado.
Vários grupos mujahideen (extremistas religiosos) se opuseram aos soviéticos e começaram a combatê-los, com dinheiro e armas fornecidas por Estados Unidos, Paquistão, China, Irã e Arábia Saudita.
Moscou lançou ataques terrestres e aéreos com a intenção de destruir aldeias e plantações em áreas que considerou problemáticas e a população local foi forçada a fugir de suas casas ou morrer.
A invasão russa foi a mais sangrenta de todas, deixando cerca de 1,5 milhão de mortos e cerca de 5 milhões de refugiados.
Em algum ponto, as forças soviéticas conseguiram controlar as principais cidades e vilas maiores, mas os mujahideen se moviam com relativa liberdade em muitas áreas rurais.
As tropas soviéticas tentaram esmagar a insurgência com várias táticas, mas os guerrilheiros geralmente conseguiam evitar seus ataques.
O país estava em ruínas.
O então líder soviético Mikhail Gorbachev percebeu que não poderia continuar a guerra enquanto tentava transformar a economia russa e decidiu retirar suas tropas em 1988, mas a imagem do país nunca foi recuperada.
O Afeganistão se tornou o Vietnã da União Soviética. Foi uma guerra cara e vergonhosa, na qual apesar de usar todos os seus músculos, a União Soviética foi derrotada e humilhada pelos guerrilheiros locais.
“Os soviéticos reivindicavam poder legítimo no Afeganistão, precisamente numa época em que havia contradições sérias e fundamentais no sistema soviético, em seu governo e em seu exército”, diz o analista David Isby. “Esse foi um dos grandes erros dos soviéticos.”
A União Soviética caiu pouco depois.
Os Estados Unidos e sua retirada “desastrosa”
Após as intervenções fracassadas do Reino Unido e da União Soviética, os Estados Unidos lideraram uma nova invasão do Afeganistão em 2001, prometendo apoiar a democracia e eliminar a ameaça terrorista da Al Qaeda, após os ataques de 11 de setembro.
Como as duas potências invasoras anteriores, Washington conseguiu tomar Cabul rapidamente e forçou o Talebã a entregar o poder.
Três anos depois, um novo governo afegão assumiu a presidência, mas os ataques sangrentos do Talebã continuaram.
O ex-presidente Barack Obama anunciou um aumento de tropas em 2009 que ajudou a repelir o Talebã, mas não por muito tempo.
Em 2014, que acabou sendo o ano mais sangrento da guerra desde 2001, as forças da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) cumpriram sua missão e delegaram a responsabilidade pela segurança ao exército afegão.
Essa ação permitiu ao Talebã conquistar mais territórios.
No ano seguinte, o grupo continuou a ganhar força e lançou uma série de atentados suicidas. Houve ataques ao prédio do parlamento em Cabul e outro nas proximidades do aeroporto internacional da capital.
De acordo com Isby, muitas coisas deram errado na invasão americana.
“Apesar dos esforços militares e diplomáticos, um dos principais problemas foi que nem os Estados Unidos nem a comunidade internacional conseguiram fazer o Paquistão abandonar sua guerra de poder, que se mostrou exitosa”, disse ele. “Acabou sendo mais bem-sucedida do que as armas.”
Enquanto a invasão soviética foi muito mais sangrenta, a americana teve custos financeiros mais altos.
Os soviéticos gastaram cerca de US$ 2 bilhões por ano no Afeganistão, enquanto entre 2010 e 2012 o custo da guerra para os EUA subiu para quase US$ 100 bilhões por ano, segundo dados do próprio governo dos Estados Unidos.
E a queda de Cabul também foi comparada aos eventos no Vietnã do Sul.
“Este é o Saigon de Joe Biden”, tuitou a congressista republicana Elise Stefanik. “Um fracasso desastroso no cenário internacional que nunca será esquecido.”
Com a retirada das tropas americanas e o consequente triunfo do Talebã, o mundo enfrenta uma nova crise humanitária com milhares de refugiados que terão que encontrar um novo lar.
“No médio prazo, será necessário ver se um regime do Talebã pode ser integrado à comunidade internacional, sobre o que tenho grandes dúvidas”, disse David Isby.
E se ficar impossível para a comunidade internacional lidar com o Talebã, será necessário ver se outra potência corre o risco de se aventurar em uma nova invasão do Afeganistão, o cemitério dos impérios.

Fonte: G1 Mundo