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A técnica revolucionária que solucionou mistério de irmã sumida há 30 anos


Como um novo uso de DNA e sites de ancestralidade está ajudando a polícia a descobrir pistas sobre assassinatos que já tinham sido arquivados. Mulher foi amarrada com seis tipos diferentes de corda
BBC
Um irmão e uma irmã estavam procurando pela irmã deles há muito tempo desaparecida. Um departamento de polícia estava tentando identificar uma vítima de assassinato. Passaram-se 30 anos, mas uma revolução na ciência forense usando DNA e sites de ancestralidade finalmente ligou os pontos.
A área mais especial da pequena cidade de Bucklin, nos Estados Unidos, é seu cemitério. A grama está bem cortada, e as sepulturas parecem bem cuidadas.
Foi aqui, no mês passado, que cerca de 20 pessoas em luto estiveram ao redor de um pequeno caixão branco para se despedir de Shawna Beth Garber.
Ninguém, incluindo as pessoas que estavam lá, sabia muito sobre Shawna, como ela era, onde morava ou que nome usava quando morreu. Só recentemente eles souberam que ela havia sido assassinada e que seu corpo permaneceu sem ser identificado por três décadas.
A polícia a chamou de Grace (‘Graça’), porque havia sido dito que “somente pela graça de Deus” alguém descobriria quem ela era. No entanto, graças a uma revolução no rastreamento de DNA, que está mudando a forma como casos arquivados estão sendo resolvidos nos EUA, um mistério de 30 anos pode finalmente ser resolvido.
‘Shawna’
Rob e Shawna não nasceram em uma família normal. Um homem tímido de 56 anos, o irmão mais velho de Shawna descreve a mãe deles como “má”.
Ele fala devagar e suas palavras são cuidadosamente escolhidas. Ele não está acostumado a falar sobre sua infância e isso traz memórias turbulentas. Ele e Shawna foram abusados ​​fisicamente pela mãe, diz ele, e isso levou os dois a serem colocados sob cuidados assistenciais.
Suas lembranças de sua irmã mais nova são algumas das únicas boas lembranças que ele tem de sua primeira infância. “Ela era a maior parte da minha vida”, diz.
Quando Rob tinha sete anos e Shawna cinco, o abuso de sua mãe começou a aumentar.
“Na maior parte do tempo, eu era o alvo de tudo”, lembra Rob, “até o incidente que nos levou para longe dela. Isso foi muito acima e além de todo o resto”.
Ele estava na escola quando a mãe jogou fluido de isqueiro em Shawna e colocou fogo nela.
Eles foram separados depois de serem enviados para a assistência e colocados aos cuidados de famílias diferentes. Rob recebeu o sobrenome Ringwald.
Ele viu sua irmã mais uma vez depois que ela saiu do hospital, no aniversário de 8 anos dele, e essa foi a última vez.
Já adulto, na década de 1990, Rob começou a se interessar em encontrá-la.
Ele se lembrou de Shawna, mas também ouviu falar de outros meios-irmãos.
Depois de entrar em contato com as autoridades, ele acabou recebendo o nome de uma meia-irmã, Danielle Pixler, de 48 anos, que também morava no Estado do Kansas.
Eles se conheceram, estabeleceram uma amizade duradoura, e Danielle também ficou ansiosa para tentar encontrar Shawna.
Sentada na varanda de sua casa em Topeka, Kansas, Danielle me conta sobre suas décadas de caça à meia-irmã que ela nunca conheceu.
“Eu colocava folhetos nas árvores. Eu os colocava em sinais de trânsito. Eu os colocava nas janelas dos carros”, diz Danielle.
Ela passou inúmeras ​​horas no Facebook procurando por Shawna. “As pessoas pensaram que eu a estava perseguindo.”
Rob e Danielle construíram seus próprios arquivos sobre o caso, com todas as informações que puderam encontrar sobre Shawna. Mas sem saber nem mesmo informações básicas, como o sobrenome que ela estava usando, acabaria sendo um esforço sem resultado.
‘Grace Doe’
Em dezembro de 1990, o corpo de uma mulher foi encontrado perto de uma casa em fazenda abandonada no Missouri. A autópsia estimou que ela havia sido deixada lá por cerca de seis semanas, e que ela havia sido assassinada.
A polícia tinha poucas pistas para seguir. Ela havia sido amarrada com seis tipos diferentes de corda. Seus restos mortais estavam tão decompostos que seria difícil até mesmo para um parente próximo identificá-la.
O tenente Mike Hall, vice-xerife do condado de McDonald, trabalhou no caso por 14 anos sem chegar perto de descobrir quem era Grace. Muito menos quem a matou.
“Se eu estou dirigindo por aí, em patrulha, minha mente às vezes fica vagando. Eu pensava em quem a trouxe aqui. Está sempre em minha mente”, diz ele.
Com o passar dos anos, o caso de Grace foi ficando cada vez mais distante. Seus restos mortais foram mantidos em um armário no escritório do xerife, quase esquecidos. Era mais um dos cerca de 250 mil assassinatos não resolvidos dos EUA.
Casos arquivados, DNA e o Golden State Killer
O DNA tem sido usado em exames de perícia desde meados da década de 1980. As técnicas tradicionais são boas para combinar material genético com um suspeito se o DNA da pessoa em questão já estiver em um banco de dados da polícia, mas isso tem seus limites.
Por exemplo, nas décadas de 1970 e 1980, a Califórnia foi atacada por um serial killer e estuprador apelidado de Golden State Killer. A polícia tinha seu material genético, mas não havia correspondência no banco de dados de DNA do FBI. Muitos pensaram que ele nunca seria encontrado.
No entanto, em 2018, as autoridades decidiram usar uma técnica inovadora que apareceu em cena: uma que combina o uso de DNA com informações de sites de ancestralidade que podem ser usados ​​para desenhar árvores genealógicas.
Os sites de genealogia são projetados para permitir que as pessoas encontrem parentes há muito tempo separados.
Um usuário coloca um cotonete de DNA no correio e, mais tarde, recebe uma lista de pessoas com quem compartilha genes e uma análise de quão próximos estão.
A polícia percebeu que, se colocasse o DNA do assassino em um site de ancestralidade, obteria uma lista dos parentes do assassino – uma pista crucial.
A maioria dos sites de genealogia não permite verificações no âmbito de “aplicação da lei”, mas alguns permitem. As autoridades no caso Golden State Killer usaram uma empresa chamada GEDmatch.
Depois que os parentes genéticos foram encontrados, as árvores genealógicas puderam ser construídas. As árvores finalmente se juntaram em um ponto que permitiu às autoridades mirar em uma pessoa – um suspeito.
Em 2020, Joseph DeAngelo, um ex-policial da Califórnia, seria finalmente condenado à prisão perpétua.
Encontrando ‘Grace’
A Othram, uma empresa de tecnologia com sede em Houston, foi fundada logo após a descoberta de DeAngelo, com o objetivo de resolver casos não solucionados usando a nova tecnologia.
A empresa usa fontes de dados como as fornecidas pelo GEDMatch e ajudou a polícia a decifrar uma série de grandes assassinatos e casos de pessoas desaparecidas nos últimos dois anos.
Em novembro de 2020, a Othram pegou o caso de Grace e ele passou pelo mesmo processo que a polícia havia feito com o Golden State Killer.
O DNA de Shawna estava degradado e tinha contaminação bacteriana. A Othram limpou o DNA de Grace, criando um perfil genético que poderia ser executado em vários sites de genealogia.
A partir daí, encontraram várias correspondências com primos em terceiro grau e começaram a construir uma árvore genealógica para encontrar um ancestral comum. Trabalhando na árvore genealógica, eles começaram a desenvolver uma teoria sobre com quem ela poderia ter parentesco e deram os nomes ao tenente Hall.
A chamada
O telefonema do tenente veio quando Danielle estava no trabalho. A princípio ela pensou que fosse uma fraude: ouviu algo sobre um assassinato, uma possível irmã, um teste de DNA.
Mas depois de falar com sua família, ela ligou de volta para o número e se deu conta da gravidade do que o tenente Hall estava contando para ela.
“Quando liguei para ele, estava berrando e chorando”, disse ela. “Ele estava me contando todas essas coisas e eu fiquei tipo, ‘como você me encontrou? Como você sabe quem eu sou? Ou que sou parente?’ Eu simplesmente surtei.”
O tenente Hall convenceu Danielle a fazer um teste de DNA.
No dia 29 de março o resultado voltou. Grace Doe era sua irmã, Shawna. “Eu simplesmente comecei a chorar.”
Questões éticas
O caso de Shawna, e muitos outros como o dela, mostra que o processo funciona. Mas também há críticas. O principal problema é a privacidade.
A técnica é tão sensível que o DNA de uma pessoa poderia ser suficiente para identificar centenas ou mesmo milhares de seus parentes genéticos, e nenhum dos quais havia consentido com as checagens.
Na prática, uma pessoa pode inscrever toda a sua família ampliada.
“Não estamos falando sobre pesquisar em bancos de dados as pessoas que voluntariamente enviam suas informações”, disse Erin Murphy, autora do livro Inside the Cell: The Dark Side of Forensic DNA (Em tradução livre: Dentro da célula: o lado obscuro do DNA forense)
“Estamos falando sobre pesquisar em um banco de dados para encontrar as milhares de pessoas que nem sabem que são relacionadas àquele indivíduo.”
Danielle foi encontrada porque um parente distante consentiu que seu DNA fosse usado para verificações de aplicação da lei – não porque ela o fez.
Brett Williams, CEO da GEDmatch, fala sobre o dilema ético de usar a tecnologia.
“Você tem duas prioridades concorrentes aqui. A primeira prioridade é que você tem direito absoluto à privacidade. Mas, ao mesmo tempo, você tem uma prioridade competitiva, que é: nós temos o direito de não sermos assassinados.”
Mas o desejo das famílias de descobrir a identidade de entes queridos – ou o assassino de um parente – não supera as preocupações com a privacidade, argumenta Murphy.
“É incrivelmente difícil dizer isso, mas não fazemos políticas sobre as liberdades civis de toda a nossa sociedade com base nos sentimentos de vítimas individuais”, diz ela.
Esta é a principal razão pela qual tantos sites de genealogia não permitem verificações de aplicação da lei, incluindo Ancestry.com e 23AndMe.
Rob insiste que, sem o processo, eles nunca teriam descoberto o que aconteceu com sua irmã.
“Minha irmã estava sentada em uma prateleira há 30 anos. Agora ela não vai estar mais.”
Algum tipo de conclusão
Rob e Danielle ainda não têm uma imagem de Shawna adulta. Eles ainda não têm certeza do nome que ela estava usando no momento de sua morte.
A polícia está tentando descobrir quais eram os movimentos de Shawna antes de morrer, ou qualquer pessoa que a conheceu quando adulta.
Eles acreditam que ela pode ter residido em Joplin, Missouri, na época de seu desaparecimento.
O tenente Hall acha que tem uma chance real de resolver o caso. “Acho que o assassinato pode ser resolvido agora que sabemos quem ela é”, diz ele.
O funeral de Shawna foi uma mistura de sentimentos para Rob e Danielle. Eles finalmente sabiam quem era e onde estava sua irmã. Ela não havia recusado o contato. Ela não havia emigrado. Mas não era o fim que desejavam.
“Tenho pesadelos. Ouço gritos”, diz Danielle, que não consegue deixar de ler as notícias da imprensa local sobre o caso.
“Eu leio sobre ela todos os dias, eu tenho que ler. É horrível porque eu choro toda vez que leio. Mas de alguma forma eu me sinto mais perto dela quando estou lendo.”
A identificação de Shawna é uma grande descoberta no caso.
Nos EUA, descobertas semelhantes acontecem semanalmente. Não é um eufemismo descrever esta técnica como uma revolução na resolução de assassinatos arquivados.
No entanto, esse método é tão novo que existem poucas leis que regulamentem seu uso. E como a privacidade é uma questão cada vez mais controversa nos EUA, os políticos terão que decidir até que ponto querem que os sites de genealogia sejam usados ​​para combater crimes.
A polícia acredita que há uma possibilidade muito real de que o assassino de Shawna ainda esteja vivo e presumiu que ele escapou impune.
Essa tecnologia significa que um dia essa pessoa, e muitos outros assassinos nos EUA, podem ser levados à Justiça.

Fonte: G1 Mundo

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Premiê da Hungria anuncia referendo sobre lei contra gays


Lei equipara pedofilia e homossexualidade, proíbe a ‘demonstração e promoção da homossexualidade’ para menores de 18 anos e tem causado forte reação da União Europeia. O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, durante entrevista coletiva em Belgrado, na Sérvia, na sexta-feira (15)
Andrej Isakovic/AFP
O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, anunciou nesta quarta-feira (21) que fará um referendo para avaliar o apoio da população à polêmica lei contra a comunidade LGTBQIA+.
O anúncio do premiê foi feito após a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, advertir o governo húngaro para retificar a lei contra ou enfrentar “consequências legais” do bloco europeu.
“Bruxelas claramente atacou a Hungria nas últimas semanas sobre a lei”, afirmou Orbán em um vídeo divulgado em uma rede social.
VEJA TAMBÉM: Como uma partida de futebol fez a União Europeia passar a criticar a Hungria por lei contra gays
A lei húngara equipara pedofilia e homossexualidade, proíbe a “demonstração e promoção da homossexualidade” para menores de 18 anos e tem causado forte reação da União Europeia.
Na prática, séries de televisão como “Modern Family” e filmes como Billy Elliot, por exemplo, seriam banidos da programação de TVs, assim como conteúdos educacionais sobre o tema em escolas.
O governo de extrema direita do premiê Viktor Orbán vem irritando seus pares do bloco europeu por repetidas ações que corroem sistematicamente as instituições democráticas da Hungria.
Sem mencionar a Hungria ou Orbán, 17 líderes europeus assinaram uma carta recentemente na qual reafirmam seu compromisso contra a discriminação à comunidade LGBTQIA+ e a defesa de seus direitos (veja no vídeo abaixo).
Líderes europeus condenam lei que discrimina comunidade LGBTQIA+ na Hungria
O ministro de Relações Exteriores de Luxemburgo, Jean Asselborn, disse que a lei é “indigna da Europa” porque “as pessoas têm o direito de viver como quiserem”. “Não estamos mais na Idade Média”.
Orbán se diz atacado e injustiçado e alega que a legislação aprovada pelo Parlamento húngaro está sendo mal interpretada, pois não combate a homossexualidade — e sim a pedofilia. “Temos a defesa dos direitos das crianças e dos pais, só isso”.
Mas o histórico autoritário contradiz o verniz democrático que o primeiro-ministro tenta dar à sua gestão. Argumento semelhante foi usado para justificar outra lei, sancionada no ano passado, que impediu que casais do mesmo sexto adotem crianças.

Fonte: G1 Mundo

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Olimpíada de Tóquio: como medidas contra Covid vão mudar rotina dos atletas


Medalhista olímpica de Atenas 2004 que hoje é especialista em saúde pública comenta à BBC como as restrições sanitárias dos Jogos de 2020 afetarão a experiência dos competidores – e como impedir que a Olimpíada se torne um evento ‘superpropagador’ do coronavírus. Homem com máscara em protesto contra os Jogos Olímpicos no Japão; medidas foram implementadas para tentar evitar que evento vire um ‘superpropagador’ de Covid-19
Reuters
À medida que se aproxima a data de início dos Jogos Olímpicos de Tóquio, começa a crescer também o número de atletas e funcionários de apoio que testaram positivo para a Covid-19, despertando temores de que a competição seja afetada por focos de contaminação — ou mesmo de que a Olimpíada torne-se um evento “superpropagador”.
Se existe uma pessoa que entende dos riscos envolvidos em sediar uma Olimpíada em meio a uma pandemia global, essa pessoa é Tara Kirk Sell.
Em sua carreira como nadadora de elite, ela conquistou uma medalha de prata para os EUA em Atenas 2004, antes de dar uma guinada profissional e se tornar uma acadêmica no renomado Centro de Segurança em Saúde da Universidade Johns Hopkins.
Com experiência tanto como atleta quanto em doenças infecciosas, ela explica à BBC como as autoridades no Japão planejam manter a segurança de participantes e da população em geral.
A viagem aos Jogos Olímpicos
“Ir a uma Olimpíada foi uma experiência surreal: você começa indo para um campo de treinamento após conquistar a vaga [olímpica], e daí vai à vila olímpica. Tudo acontece muito rápido”, diz Sell.
“Quando me recordo, é quase como se tivesse sido um sonho, porque passa tão rapidamente, há tanta coisa acontecendo, tão fora da sua vida normal.”
Tara Kirk Sell ganhou uma medalha de prata na Olimpíada de Atenas 2004; hoje ela é especializada em segurança em saúde
Getty Images via BBC
Mas é justamente a reunião de tantos atletas de diferentes países que causa preocupação nesta edição dos Jogos, pelo potencial de propagação de variantes do coronavírus.
“Os atletas são testados quando chegam no Japão”, afirma Sell. Isso depois de terem apresentado um resultado negativo de teste de Covid-19 para poderem embarcar ao país.
Além disso, as autoridades japonesas decidiram que os eventos olímpicos ocorrerão sem espectadores, para minimizar os riscos.
A despeito dos cuidados, até esta quarta-feira (21) havia 75 casos de Covid-19 já confirmados no Japão entre pessoas acreditadas para os Jogos (incluindo 6 atletas).
O presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach, admitiu que os preparativos para os Jogos têm sido tortuosos.
“Ao longo dos últimos 15 meses, tivemos de tomar decisões em situações bem incertas. Tivemos dúvidas diariamente. Deliberávamos e discutíamos. Houve muitas noites insones”, disse Bach na terça (20). “Mas para chegar aqui tivemos de ter confiança, tivemos de mostrar uma solução para a crise.”
Vila Olímpica, tradicionalmente um espaço de confraternização e festa, será muito diferente em Tóquio
Reuters
Para Tara Sell, com a chegada e a testagem de cada vez mais atletas ao país, “é garantido que continuaremos a ver mais casos sendo identificados”.
Ao chegar ao país, os atletas precisam se deslocar entre seus alojamentos e os diferentes polos olímpicos, uma movimentação que costuma ser caótica em várias edições dos Jogos.
Sell lembra que já teve de viajar sentada no chão de um ônibus quando se deslocava para uma competição em Atenas, para garantir que chegaria a tempo ao local.
Nesta edição, porém, algumas coisas estão diferentes: o transporte das equipes vai ser feito mais por “vans privadas do que por grandes ônibus, onde todos ficavam juntos”, afirma Sell.
Vida na Vila Olímpica
Outra mudança significativa será na convivência na Vila Olímpica, descrita por Sell como “muito legal”: “você convive gente do mundo inteiro — é uma oportunidade de conhecer pessoas que não são como você. Estar próximo dos demais atletas na mesma vila, comendo juntos, é um aprendizado.”
Nada disso, é claro, será estimulado pelas autoridades nesta edição dos Jogos, que querem que os atletas façam as refeições sozinhos, em seus alojamentos.
Os refeitórios, por sua vez, têm divisórias plásticas instaladas entre os assentos e muito álcool gel.
Pandemia impôs restrições e mudanças significativas na experiência olímpica dos atletas neste ano
BBC
Bebidas alcóolicas não serão vendidas ali, e medidas de distanciamento social devem coibir eventuais romances entre os atletas.
“Eles estarão lá para competir e representar seu país, algo de que não vão se esquecer”, diz Sell. “Para mim, como atleta, foi a razão principal pela qual estava na Olimpíada: não era para as festas, e sim para competir e fazer valer os quatro anos anteriores de treinamento.”
Quando os atletas chegam à Vila Olímpica de Tóquio, só poderão deixar o local para deslocar-se aos seus locais de competição, até chegar a hora de voltar para casa.
“Fazer turismo é um dos charmes da Olimpíada para a cidade-sede”, prossegue Sell. “Então é uma pena que Tóquio não poderá ser isso neste ano.”
Competições
“É um momento incrível sair para os locais das competições e ver os fãs torcendo”, relembra Sell. “É o maior momento para quase todos os atletas – poder competir pelo seu país no palco central do mundo é uma honra da qual nunca vou me esquecer.”
Em anos normais, cidades olímpicas costumam receber mais de 1 milhão de visitantes. Nesta, porém, não haverá a presença de fãs. “Os atletas estarão lá (nos locais de competições), as equipes estarão lá, e alguns representantes da imprensa também.”
Inicialmente, apenas espectadores estrangeiros haviam sido banidos de assistir às competições. Depois, o veto se estendeu aos japoneses, de forma a minimizar as chances de contágio – em uma cidade que tem visto as taxas de covid-19 subirem recentemente, o que fez autoridades declararem estado de emergência.
“As equipes vão torcer para seus atletas, mas talvez tenha bastante eco”, comenta Sell.
“Acho que isso não vai incomodar alguns atletas, que já estão acostumados, mas os atletas que em geral se alimentam da (vibração da) torcida podem não conseguir (essa fonte de energia).”
Pode virar um evento superpropagador?
Apesar dos riscos envolvidos, Sell acredita que seja possível evitar que os Jogos Olímpicos se tornem um evento “superpropagador” do vírus.
“Veremos como será a implementação (das medidas sanitárias) na prática e seu sucesso”, diz. “Certamente se você testar as pessoas diariamente e colocá-las em quarentena rapidamente se testarem positivo, e tiver uma alta taxa de vacinação entre atletas, poderá controlar os casos ao identificá-los.”
Sell opina que o fato de vários atletas terem testado positivo não significa que o sistema não esteja funcionando.
“É bom porque o sistema foi projetado para identificar esses casos, e está fazendo isso. Em contrapartida, cada caso (de covid-19) é uma oportunidade para que as coisas deem errado e para transmissão adicional. Mas a questão é: esses casos serão contidos? E acho que eles (autoridades) têm um bom plano para isso, temos de ver se a a implementação dele vai funcionar.”

Fonte: G1 Mundo

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Guerras, boicotes, apartheid: veja como crises e tensões políticas afetaram a história dos Jogos Olímpicos


As duas Guerras Mundiais levaram ao cancelamento de três edições do evento. Outras grandes crises do século XX e XXI moldaram a história das Olimpíadas. Anéis olímpicos em frente ao Estádio Nacional de Tóquio, no Japão, nesta quarta-feira (20)
Kim Kyung-Hoon/Reuters
A história dos Jogos Olímpicos é marcada não só pelas competições nos estádios e ginásios, mas também por conflitos e disputas políticas entre países sedes e outros participantes.
Nesta reportagem, você vai entender como fatos históricos interferiram na organização de diferentes edições das Olimpíadas:
Guerras Mundiais e cancelamentos (1916, 1940 e 1944)
África do Sul: apartheid, exclusão e boicote (1964 a 1992)
Guerra Fria e boicotes (1980 e 1984)
Massacre em Munique (1972)
Iugoslávia banida (1992)
Coreia do Norte: das bandeiras unidas à desistência por Covid (2000 a 2020)
China: disputa com Taiwan e futuro incerto (1949 a 2022)
Saiba abaixo em detalhes como cada um desses eventos históricos afetou as Olimpíadas
Guerras Mundiais e cancelamentos
Soldados fezem reparo em trincheira após ataque a bomba.
Flickr/U.S National Archives
Os Jogos Olímpicos só não ocorreram em três ocasiões: em 1916, 1940 e 1944. Em todas, por causa das grandes guerras mundiais. Veja abaixo os detalhes:
1916 — Berlim
A capital alemã havia sido escolhida quatro anos antes para sediar as Olimpíadas de 1916 e já tinha construído o Deutsches Stadion — ou Estádio Alemão —, com capacidade para 60 mil pessoas, algo grandioso para a época.
O problema é que em 1914 os conflitos na Europa eclodiram e colocaram a Alemanha em oposição a outras potências europeias, notadamente Reino Unido e França. As autoridades olímpicas achavam que haveria tempo hábil para que os Jogos Olímpicos ocorressem normalmente dois anos depois, mas a possibilidade de retirar a sede de Berlim ficava cada vez mais latente.
Com a continuidade da Primeira Guerra Mundial, que durou até novembro de 1918, não houve espaço nem para Berlim nem para qualquer outra cidade sediar o evento, que, enfim, acabou cancelado.
E como a Alemanha — além de outros derrotados do conflito como os já separados Áustria e Hungria e os remanescentes do Império Otomano — ficou impedida de participar das Olimpíadas depois do fim da guerra, a sede escolhida para 1920 acabou sendo a cidade de Antuérpia, na Bélgica. Foi para lá que o Brasil levou pela primeira vez uma delegação de atletas e conquistou suas primeiras medalhas.
1940 — Tóquio e Helsinque
Poster dos Jogos Olímpicos de Tóquio em 1940, cancelados por causa das guerras
By Wada Sanzō – The Organizing Committee of the XIIth Olympiad, Report of the Organizing Committee on its Work for the XIIth Olympic Games of 1940 in Tokyo until the Relinquishment, Tokio 1940, p. 114., Domínio público
Em 1932, o Japão foi o primeiro país asiático eleito a receber os Jogos Olímpicos: receberia as competições de inverno em Sapporo e as de verão em Tóquio, ambas em 1940. O governo japonês pretendia fazer grandes festividades para exibir o país como uma potência emergente na Ásia e celebrar o aniversário de 2.600 anos da criação do Império Japonês.
As ideias foram engavetadas em 1938, um ano depois de eclodir a Segunda Guerra Sino-Japonesa — um conflito sangrento entre a China e o Japão que se estenderia até 1945. O governo ainda tentou manter os planos de organizar as Olimpíadas, mas acabou cedendo com o acirramento dos confrontos.
O Comitê Olímpico Internacional (COI), então, transferiu os Jogos de 1940 da seguinte forma: Garmisch-Partenkirchen, no sul da Alemanha, substituiria Sapporo na edição de inverno, enquanto Helsinque, capital da Finlândia, tomaria o lugar de Tóquio.
Leia também: Fukushima recebe 1ª competição dos Jogos Olímpicos; entenda segurança do local
VÍDEO: veja Fukushima e Miyagi, subsedes das Olimpíadas, antes e depois do tsunami de 2011
Não deu certo. Em 1939, com a invasão alemã à Polônia, a Europa entrou em guerra mais uma vez, dando início à Segunda Guerra Mundial. Com os países europeus mobilizados — inclusive a sede Finlândia em pleno conflito com a União Soviética — o COI decidiu pelo cancelamento dos Jogos Olímpicos.
1944 — Londres
Artilharia durante a batalha de Stalingrado
Reprodução
O COI ainda tinha esperança de organizar os Jogos Olímpicos de Londres, em 1944, cidade eleita cinco anos antes. A edição de inverno ocorreria em Cortina d’Ampezzo, na Itália.
A Segunda Guerra Mundial, entretanto, continuou. Londres, inclusive, ainda se recompunha dos bombardeios nazistas em 1940 e 1941. Com os confrontos longe de um fim aparente no mundo inteiro, os organizadores sequer cogitaram levar adiante o evento.
Para compensar, Londres obteve o direito de receber os primeiros Jogos Olímpicos do pós-guerra, em 1948, com o mundo ainda em reconstrução. A edição de inverno foi levada para St. Moritz, na Suíça.
África do Sul: apartheid, exclusão e boicote
Oficializadas em 1948, as políticas de segregação racial da África do Sul — o apartheid — geraram uma série de pressões da comunidade internacional. Num primeiro momento, porém, o COI não se envolveu e permitiu que os sul-africanos participassem dos Jogos Olímpicos entre aquele ano e 1960. Apenas atletas brancos eram inscritos para as competições.
A pressão subiu em março de 1960, com o assassinato de 69 manifestantes no massacre em Sharpeville. A Organização das Nações Unidas (ONU), então, adotou resoluções para dificultar as relações dos países com o governo sul-africano enquanto durasse o apartheid.
Bandeira antiga da África do Sul ficou associada ao apartheid
Reprodução/Southern African Vexillological Association
Essas primeiras pressões tiveram efeito limitado, mas foram suficientes para que o COI desse um ultimato ao Comitê Olímpico Sul-Africano: ou eles se colocariam contrários às políticas de apartheid, que afetava também o esporte, ou estariam fora dos Jogos Olímpicos de 1964.
Sem uma manifestação contrária ao regime segregacionista, então, o COI retirou o convite à África do Sul. O país ficaria banido das Olimpíadas até 1992, quando competiu com uma bandeira especial após o início da saída do apartheid.
Até o fim do apartheid, as pressões internacionais contra o governo sul-africano continuaram e trouxeram outras consequências aos Jogos Olímpicos: em 1976, o time de rúgbi da Nova Zelândia visitou a África do Sul apesar das pressões contrárias da ONU.
A excursão neozelandesa revoltou um grupo de países africanos, que pediram para que a Nova Zelândia fosse excluída dos Jogos Olímpicos de Montreal por desrespeitar o rompimento do mundo esportivo com a África do Sul.
O COI se negou a expulsar os neozelandeses, argumentando, entre outras coisas, que o rúgbi não era esporte olímpico à época. Então, 29 países, a maioria africanos, anunciaram um boicote aos Jogos Olímpicos de Montreal — o primeiro boicote em larga escala na história das Olimpíadas.
Guerra Fria e boicotes
Esportivamente, Estados Unidos e União Soviética rivalizaram a liderança no quadro de medalhas na segunda metade do século XX. Porém, o ápice da polarização no período da Guerra Fria (1945-1991) para os Jogos Olímpicos ocorreu em 1980 e 1984, na chamada era dos boicotes. Veja abaixo:
1980 — EUA boicotam Jogos de Moscou
Olimpíada de Moscou (1980): Abertura
Após anos de distensão e acordos nucleares, as hostilidades entre os EUA e a URSS voltaram ao fim da década de 1970. Um dos episódios que reacendeu as tensões Washington-Moscou foi a invasão soviética ao Afeganistão, no fim de 1979. Assim como os conflitos no Vietnã e na Coreia, aquela era mais uma das “guerras por procuração” que envolviam forças apoiadas pelas duas potências militares.
Quando a guerra no Afeganistão eclodiu, a organização dos Jogos Olímpicos de Moscou, que ocorreriam sete meses depois, estava a todo vapor. Para pressionar a retirada das tropas soviéticas em solo afegão, o então presidente americano, o democrata Jimmy Carter, determinou que os atletas dos EUA não poderiam viajar à URSS para competir nem sob bandeira neutra, sob pena de cassação de seus passaportes.
Webdoc esporte – Olimpíada de Moscou (1980)
A Casa Branca ainda pressionou aliados ocidentais e outros parceiros mais próximos a esvaziaram os Jogos de Moscou. Outras potências olímpicas como a Alemanha Ocidental, o Japão, a China — que recém havia rompido com a URSS — se retiraram dos Jogos. Alguns países, como a Austrália, competiram sob bandeira neutra, e outros, como Espanha e Portugal, adotaram a bandeira de seus comitês olímpicos nacionais.
Ao fim, os Jogos Olímpicos de Moscou foram um dos mais esvaziados da história. Somente 80 delegações participaram, incluindo o Brasil, contra 121 em 1972 — última edição sem boicotes até então.
1984 — URSS boicota Jogos de Los Angeles
Olimpíada de Los Angeles (1984)
Como esperado, a União Soviética retribuiu o boicote liderado pelos EUA quatro anos depois. No entanto, o anúncio da desistência em participar do evento em Los Angeles só foi feito pelo Kremlin poucos meses antes da cerimônia de abertura.
A URSS não diz que tenha se retirado dos Jogos Olímpicos de 1984 por causa do boicote americano de quatro anos antes. Oficialmente, os líderes soviéticos disseram que temiam “sentimentos chauvinistas” que pudessem colocar em risco a segurança dos atletas.
O boicote do bloco comunista foi menos bem sucedido em esvaziar as Olimpíadas de Los Angeles: só 17 países desistiram de participar do evento. No entanto, vários desses eram potências olímpicas importantes da época, como Alemanha Oriental, Polônia e Cuba.
O único participante do Pacto de Varsóvia — aliança militar do Leste Europeu em oposição à Otan — foi a Romênia, que se beneficiou da ausência dos demais e terminou os Jogos de 1984 em segundo lugar no quadro de medalhas, atrás apenas dos EUA.
Massacre em Munique
Olimpíada de Munique (1972)
A Alemanha buscava em 1972 mostrar uma imagem positiva de um país desenvolvido e sem mais ligações com os crimes cometidos três décadas antes no regime nazista. Saíram as cores nacionais e entraram tons em azul, verde e laranja para simbolizar uma Munique moderna e aberta.
Entretanto, os Jogos Olímpicos daquele ano acabaram marcados por um massacre: terroristas da facção palestina Setembro Negro invadiram a Vila Olímpica e fizeram reféns um grupo de atletas e técnicos da delegação de Israel.
Os criminosos exigiam a libertação de 200 palestinos presos em solo israelenses e pediam um avião para fugir de Munique. O governo de Israel não cedeu, e autoridades alemãs ofereceram dinheiro para resgate e outras saídas diplomáticas, mas nada surtia efeito. Durante as negociações, um dos reféns foi morto.
Em uma tentativa de emboscada, a polícia alemã atraiu os sequestradores até o aeroporto, com a promessa de dar a eles um avião. Com os terroristas já na pista, as forças de segurança abriram fogo, mas os criminosos devolveram os tiros e mataram os reféns. No fim, a ação resultou na morte de 11 reféns israelenses, um policial alemão e cinco sequestradores.
A possibilidade de interromper ali os Jogos de Munique chegou a circular pelos organizadores, mas o COI decidiu seguir adiante após um dia inteiro sem nenhuma competição. Uma cerimônia no Estádio Olímpico homenageou os atletas mortos no massacre, as bandeiras foram colocadas a meio mastro, e as competições foram retomadas no dia seguinte.
Iugoslávia banida
Webdoc jornalismo – Guerra Civil na Iugoslávia (1991)
Os anos 1980 colocaram em xeque a unidade da Iugoslávia após a morte do marechal Josip Tito, as crises econômicas, e as disputas políticas nacionalistas das repúblicas que formavam o país. Nesse cenário, em 1991, começaram as guerras de independência, com Eslovênia, Croácia e Bósnia-Herzegovina.
Pressionado pelos crimes de guerra que começavam a aparecer ao mundo e pela comunidade internacional, sobretudo os países ocidentais da Europa, o Conselho de Segurança da ONU estabeleceu em 1991 uma série de sanções e embargos contra o governo iugoslavo. Entre as medidas, estava o impedimento da participação da Iugoslávia em competições esportivas.
Isso afetou diretamente o esporte local em um ano de grandes competições. Classificada para a Eurocopa de 1992, a seleção iugoslava de futebol teve de ceder seu lugar à Dinamarca — que acabaria campeã do torneio, contra os prognósticos. Além disso, a Iugoslávia acabou completamente banida dos Jogos Olímpicos daquele ano.
O COI, porém, arranjou uma solução para que atletas classificados pudessem competir: eles foram às Olimpíadas de Barcelona com a bandeira olímpica e com o nome “Participantes Olímpicos Independentes”. Conseguiram apenas três medalhas, uma de prata e duas de bronze, contra 12 obtidas em Seul quatro anos antes.
Se, por um lado, a Iugoslávia competiu sem bandeira e só com um grupo pequeno de atletas, os países recém independentes do regime iugoslavo fizeram em 1992 sua estreia em Jogos Olímpicos:
Bósnia-Herzegovina — levou somente 10 atletas e saiu sem medalhas, mas a delegação foi ovacionada ao entrar no estádio na abertura.
Croácia — conseguiu três medalhas, inclusive a prata no basquete masculino, conquistada após a derrota para o Dream Team, o “Time dos Sonhos” dos Estados Unidos.
Eslovênia — obteve duas medalhas, ambas de bronze e no remo
Coreia do Norte: das bandeiras unidas à desistência por Covid
Coreias desfilam juntas sob a mesma bandeira
Doze anos após boicotar os Jogos Olímpicos de Seul por rusgas políticas com os vizinhos, a Coreia do Norte concordou em desfilar em conjunto com a Coreia do Sul na cerimônia de abertura de Sydney-2000.
As duas delegações representando países teoricamente em guerra — há apenas um cessar-fogo em vigor, mas ambos têm seus exércitos mobilizados — foram ovacionadas ao entrar no Estádio Olímpico segurando uma bandeira neutra com o desenho da Península Coreana em azul. Positiva, a experiência se repetiu nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, e nas Olimpíadas de Inverno de Turim, em 2006. E só.
LEIA TAMBÉM: Presidente da Coreia do Sul desiste de ir a Tóquio após incidente diplomático
Nos primeiros dias de 2018, havia uma incerteza sobre a participação dos norte-coreanos nos Jogos de Inverno de PyeongChang, que fica na Coreia do Sul. Principalmente porque semanas antes da abertura as tensões entre o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, só aumentaram — inclusive com trocas de insultos e ameaças nucleares.
Porém, autoridades sul-coreanas solicitaram um encontro em alto nível com o norte em janeiro de 2018 e concordaram — juntamente a Trump — em interromper momentaneamente os exercícios militares na península. Só aí a Coreia do Norte confirmou o envio de atletas ao Sul, diferentemente do que ocorreu em 1988, nos Jogos de Seul.
O líder da delegação norte-coreana, Kim Yong Chol, participa da cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Inverno de Pyeongchang
Yonhap via REUTERS
As conversas entre os vizinhos avançaram a ponto de Kim Yo-jong, irmã mais nova do ditador norte-coreano e possível sucessora, comparecer à cerimônia. Além disso, finalmente depois de 12 anos, as duas Coreias voltaram a desfilar conjuntamente na cerimônia de abertura.
E houve um fato inédito: as duas Coreias competiram unidas no hóquei no gelo feminino, na primeira participação de um time unificado coreano desde o início da guerra. No restante das modalidades, Sul e Norte jogaram separadamente.
A boa fase nas conversas entre os dois países melhorou a atmosfera para que, em junho daquele mesmo 2018, ocorresse o primeiro encontro entre um presidente americano e um ditador norte-coreano: Trump e Kim apertaram as mãos em uma reunião histórica em Singapura, que terminou na assinatura de um acordo de desnuclearização da Coreia do Norte.
Essa fase positiva, porém, terminou no ano seguinte. As negociações avançaram pouco, a ponto de um segundo encontro entre Kim e Trump terminar sem nenhum novo acordo. E os testes com mísseis e outros projéteis na Coreia do Norte voltaram a fazer parte do noticiário.
Foto de junho de 2018 mostra reunião entre Trump e Kim em Singapura.
Evan Vucci/AP
Havia, ao fim, a expectativa de como seria a participação norte-coreana em Tóquio, uma vez que o Japão é um inimigo histórico da Coreia do Norte. Em abril de 2021, porém, o governo norte-coreano anunciou que não participará dos Jogos Olímpicos adiados para este ano, citando temores relacionados à pandemia do coronavírus.
É a primeira desistência desde 1988, quando a mesma Coreia do Norte e outros países — incluindo Cuba, aliada do regime Kim à época — decidiram não ir a Seul.
China: disputa com Taiwan e futuro incerto
Evento de 100 anos de fundação do Partido Comunista da China reúne milhares de participantes em Pequim nesta quinta (1º))
Carlos Garcia Rawlins/Reuters
A Revolução Comunista Chinesa de 1949 terminou da seguinte forma: os comunistas, liderados por Mao Tsé-Tung, dominaram todo o território continental e proclamaram a República Popular da China — nome completo do país que conhecemos hoje por China. Os nacionalistas, confinados na ilha de Taiwan, mantiveram lá a República da China — como um governo em exílio.
Entre os anos 1950 e 1960, a ONU e o Ocidente consideravam Taiwan o verdadeiro representante da China. Atletas da ilha competiam sob o nome República da China nos Jogos Olímpicos.
Mas a situação mudou em 1971, quando a ONU deixou de reconhecer Taiwan como a representação legal dos chineses e transferiu a vaga para os comunistas de Pequim.
Isso ocorreu em meio ao congelamento das relações da China comunista com a União Soviética e a consequente aproximação de Pequim com os EUA. Os novos laços entre chineses e americanos levaram até à desistência da China em participar das Olimpíadas de Moscou, como parte do boicote ocidental aos soviéticos em 1980.
A solução encontrada para Taiwan, que não poderia usar mais o nome China, foi passar a competir com a nomenclatura “Taipé Chinesa” a partir de 1984 não só nos Jogos Olímpicos, mas também em outros eventos.
Um manifestante pró-democracia discute com a polícia em Hong Kong em outubro de 2020, antes de um protesto pela libertação de doze ativistas presos no mar enquanto tentavam fugir para Taiwan
Tyrone Siu/Reuters
A questão taiwanesa se juntaria à de Hong Kong a partir de Sydney-2000: como o território semi-autônomo passou do controle britânico para o chinês em 1997, a delegação local passaria a adotar o nome “Hong Kong, China” para frisar que a área é dependente de Pequim.
Pequim, aliás, sediará os Jogos Olímpicos de Inverno em fevereiro de 2022 em um momento de pressão internacional sobre a China por diversas razões, que incluem a repressão violenta aos manifestantes de Hong Kong e as disputas militares no mar territorial chinês perto de Taiwan.
Funcionários da organização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno de 2022 trabalham no Cubo de Água, em Pequim, na China, em foto de 1º de abril
Tingshu Wang/Arquivo/Reuters
Além disso, congressistas dos EUA pediram um boicote diplomático aos Jogos de 2022 em repúdio ao massacre de muçulmanos da etnia uigur na província de Xinjiang. As disputas sobre o início da pandemia do coronavírus entre o Ocidente e a China formam outro polo de tensão com o país sede das próximas Olimpíadas de Inverno.
Se essas pressões vão se converter em novos episódios de boicote e desistências, o cenário ainda é incerto.

Fonte: G1 Mundo

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Diretor da OMS pede cumprimento das medidas contra a Covid nos Jogos Olímpicos: ‘Na vida, não existe risco zero’


Tedros Adhanom elogiou protocolos e disse que competição pode servir para provar ao mundo a importância da prevenção ao coronavírus. Diretor-chefe da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante reunião em Genebra em 24 de maio
Laurent Gillieron/Pool via Reuters/Arquivp
O diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, manifestou nesta quarta-feira (21) (noite de quarta no Brasil) apoio aos Jogos Olímpicos de Tóquio e disse que o evento é a oportunidade para mostrar ao mundo a importância da adoção das medidas para prevenir o espalhamento da Covid-19.
“Espero que sejam bem sucedidos, como uma demonstração do que é possível quando se adotam os planos corretos e medidas corretas”, disse, em discurso a integrantes do Comitê Olímpico Internacional (COI) em Tóquio. “Esses planos e precauções serão colocados em testes”, completou.
“Na vida, não existe risco zero. Só existe risco maior ou risco menor”, alertou Tedros. “As escolhas que fazemos diminuem ou aumentam os riscos, mas não eliminam”.
Adiados em um ano por causa da pandemia do coronavírus, os Jogos Olímpicos de Tóquio vão ocorrer sem público na maior parte das competições por causa do contágio em alta no Japão — o que levou a pedidos de cancelamento por parte da opinião pública japonesa. A Cerimônia de Abertura está marcada para esta sexta-feira (23), mas os primeiros eventos começaram já nesta quarta.
Reportagem em atualização

Fonte: G1 Mundo

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Chuva causa alagamentos e deixa mortos em província na região central da China


Em apenas uma hora moradores ficaram ilhados em escolas e locais de trabalho na província de Henan; ao menos 12 pessoas morreram e 100 mil foram levadas para locais mais seguros. Estações de metrô foram inundadas e bairros inteiros ficaram cobertos de água. Veículos presos após forte chuva em Zhengzhou, capital da província de Henan, na China, na terça-feira (20)
Chinatopix Via AP
Ao menos 12 pessoas morreram e 100 mil tiveram que ser levadas para locais mais seguros devido a graves enchentes na capital da província de Henan, na região central China, nesta terça-feira (20). Alagamentos deixaram pessoas presas em metrôs, escolas e locais de trabalho durante toda a noite em Zhengshou.
Segundo a agência oficial de notícias chinesa Xinhua, com dados da agência meteorológica de Henan, apenas entre as 16h e às 17 horas, foram 20 centímetros de chuva, que transformaram as ruas em riachos de forte correnteza, prendendo carros e inundando estações de metrô.
Vídeos postados online mostravam bairros inteiros cobertos de água na altura da cintura e veículos flutuando na água lamacenta.
Ao norte, o famoso Templo Shaolin, conhecido pelo domínio das artes marciais de seus monges budistas, foi duramente atingido. A província de Henan abriga muitos locais culturais e uma importante base para a indústria e agricultura.
Pessoas tentam atravessar ruas alagadas após forte chuva em Zhengzhou, capital da província de Henan, na China, na terça-feira (20)
Chinatopix Via AP
Pessoas ilhadas passaram a noite em seus locais de trabalho ou se hospedaram em hotéis próximos, sem conseguir chegar em suas casas.
Wang Guirong, uma gerente de restaurante de 56 anos, disse que planejava dormir no sofá de seu restaurante após ser informada de que não havia eletricidade em seu bairro. A State Grid Zhengzhou Power Supply Co. disse que uma subestação no centro da cidade foi forçada a fechar por causa da chuva.
“Vivi em Zhengzhou toda a minha vida e nunca vi uma tempestade tão forte como hoje”, disse Wang.
A China sofre inundações regulares durante os meses de verão, mas o crescimento das cidades e a conversão de terras agrícolas em subdivisões aumentaram o impacto de tais eventos.

Fonte: G1 Mundo

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China nega estar por trás de ataque cibernético contra Microsoft

Grupo de países ocidentais acusou hackers patrocinados pelo Estado chinês estariam envolvidos no incidente, que afetou pelo menos 30 mil empresas. EUA acusam China de hackear a Microsoft
A China criticou afirmações “infundadas” de que realizou um grande ataque cibernético contra a gigante da tecnologia Microsoft.
Um grupo de países ocidentais acusou a China de hackear o Microsoft Exchange — uma plataforma de email popular usada por empresas em todo o mundo.
A declaração conjunta acusou o Ministério de Segurança da China de minar a estabilidade e a segurança globais. A China sempre afirmou que se opõe a todas as formas de crimes cibernéticos.
Na segunda-feira (19/7), a Nova Zelândia se juntou ao grupo de países, incluindo Reino Unido, Estados Unidos e Austrália, ao culpar atores patrocinados pelo Estado chinês por “atividades cibernéticas maliciosas” no país, incluindo o ataque à Microsoft.
A embaixada chinesa em Wellington classificou as acusações de “infundadas e irresponsáveis”. “O governo chinês é um defensor ferrenho da segurança cibernética”, informou um comunicado publicado pela embaixada em resposta a um questionamento de repórteres. “Fazer acusações sem (provas) é malicioso.”
A embaixada chinesa na Austrália reafirmou essas observações, descrevendo Washington como “o campeão mundial de ataques cibernéticos maliciosos”.
Ataque em larga escala
O ataque contra a Microsoft afetou pelo menos 30 mil organizações em todo o mundo. O Exchange é uma plataforma de email usada por grandes corporações, pequenas empresas e órgãos públicos em todo o mundo.
A Microsoft culpou um grupo chinês de espionagem cibernética de explorar uma vulnerabilidade no Microsoft Exchange — que permitia a hackers acessarem remotamente as caixas de entrada de emails.
O grupo, conhecido como Hafnium, foi descoberto pelo Centro de Inteligência de Ameaças da Microsoft como patrocinado pelo Estado e operando na China.
Fontes de segurança ocidentais acreditam que o Hafnium obteve conhecimento prévio de que a Microsoft pretendia corrigir ou eliminar a vulnerabilidade e, portanto, a compartilhou com outros grupos baseados na China para maximizar o ataque antes de ela ser solucionada.
“Acreditamos que ciberoperadores trabalhando sob o controle da inteligência chinesa aprenderam sobre a vulnerabilidade da Microsoft no início de janeiro e estavam correndo para explorá-la antes que ela fosse amplamente identificada no domínio público”, disse uma fonte de segurança à BBC.
O ataque sinalizou uma mudança de uma campanha de espionagem direcionada para uma ação destrutiva, levando a preocupações de uma escalada do comportamento cibernético chinês, de acordo com os serviços de segurança ocidentais.
O Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido disse que o governo chinês “ignorou repetidos apelos para encerrar sua campanha imprudente, permitindo que atores apoiados pelo Estado aumentem a escala de seus ataques e ajam de forma imprudente quando pegos”.
A Casa Branca disse que se reserva o direito de tomar medidas adicionais contra a China por causa de suas atividades cibernéticas. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, disse a jornalistas que o governo chinês pode não ter executado os ataques, mas sim “protegendo aqueles que os estão cometendo. E talvez até os abrigando ao serem capazes de fazê-los”.
O Departamento de Justiça dos Estados Unidos também anunciou acusações criminais contra quatro hackers supostamente ligados ao Ministério de Segurança chinês que, segundo o governo americano, estavam vinculados a uma campanha de longo prazo cujo alvo era governos estrangeiros e entidades em setores-chave em pelo menos uma dúzia de países.
Saiba como se proteger na internet

Fonte: G1 Mundo

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Chumbo: como metal pesado tóxico afeta crianças no Brasil e no mundo décadas após proibição


A contaminação por chumbo pode ter consequências ao longo da vida no desenvolvimento físico e cognitivo, mas milhões de crianças e adultos estão vulneráveis e nem mesmo sabem disso. Parques e praças onde as crianças brincam podem ser uma fonte de envenenamento por chumbo, de acordo com especialistas em Nova Orleans
Getty Images via BBC
Ele é tão tóxico que pode danificar o cérebro das crianças pelo resto da vida. Tão persistente que fica no ar por décadas. E tão onipresente que afeta um terço das crianças do planeta.
A intoxicação por chumbo é um problema sério e global. Estima-se que até 800 milhões tenham níveis deste metal pesado no sangue iguais ou superiores a 5 microgramas por decilitro (µg/dL), o nível em que uma intervenção é necessária, de acordo com um relatório conjunto de 2020 da Unicef, o braço da Organização das Nações Unidas (ONU) para a infância e adolescência, e da ONG internacional Pure Earth.
O chumbo é tão tóxico que a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que “nenhum nível no sangue é seguro”.
Um estudo recente em Londres descobriu que o chumbo usado no passado na gasolina persiste no ar da capital britânica, embora o metal tenha sido proibido nos combustíveis no Reino Unido há mais de 20 anos. E estudos em outras cidades como Xangai e São Paulo encontraram resultados semelhantes.
Outras fontes de contaminação incluem desde tintas até a reciclagem insegura de baterias, passando por temperos.
Cerâmica sem chumbo produzida por iniciativa da Pure Earth em Puebla, no México
PURE EARTH MÉXICO via BBC
A Unicef e a Pure Earth destacam especialmente o caso do México, onde a principal fonte de envenenamento é muito diferente: o uso de esmaltes na cerâmica. “Nunca esquecerei uma criança de 2 anos que tinha níveis de mais de 65 microgramas por decilitro”, diz Daniel Estrada, CEO da Pure Earth no México.
“É muito triste saber que uma tradição tão bela provocou a intoxicação dessa criança e que ela não pode desenvolver suas capacidades ao máximo por causa disso.”
As fontes de chumbo podem ser muito diferentes. O que não varia é seu impacto devastador nas crianças.
O efeito do chumbo na saúde
Chumbo, que pode vir de tintas à base de chumbo, é uma neurotoxina poderosa que pode causar danos irreparáveis ao cérebro das crianças
Getty Images via BBC
O chumbo pode causar danos irreparáveis aos cérebros das crianças, segundo o relatório da Unicef e da Pure Earth “A verdade tóxica: a exposição das crianças à contaminação por chumbo prejudica o potencial de uma geração”.
É particularmente destrutivo para bebês e crianças menores de cinco anos, porque danifica seus cérebros antes que tenham a oportunidade de se desenvolver plenamente, causando prejuízos neurológicos, cognitivos e físicos para toda a vida, de acordo com o informe.
Vários estudos revelam que níveis de chumbo no sangue superiores a 5 mg/dL estão associados a uma perda irreversível de capacidade intelectual. E o envenenamento por chumbo na infância também foi relacionado ao comportamento criminoso de adolescentes e adultos.
A OMS destaca que o chumbo também causa danos permanentes em adultos, por exemplo, aumentando o risco de hipertensão e danos renais.
Como o chumbo atua no corpo
Chumbo, que pode vir de tintas à base de chumbo, é uma neurotoxina poderosa que pode causar danos irreparáveis ao cérebro das crianças
Getty Images via BBC
O chumbo pode prejudicar a saúde fundamentalmente por meio de dois mecanismos, explica à BBC News Mundo Howard Mielke, professor da Escola de Medicina da Tulane University em Nova Orleans, nos Estados Unidos.
Mielke pesquisa o impacto do chumbo na saúde das crianças há mais de 40 anos. Um desses mecanismos é que o chumbo é quimicamente semelhante ao cálcio e “rouba” seu lugar.
“O cálcio é essencial nas sinapses das células nervosas. Se o chumbo ocupar o lugar do cálcio, os sinais não são transmitidos, e as células nervosas morrem. O resultado é um encolhimento do cérebro”, explica o especialista.
Uma segunda maneira pela qual o chumbo prejudica a saúde é que ele se deposita nos dentes e nos ossos, onde se acumula com o tempo.
Mielke fala de um “legado multigeracional de chumbo”. “Se a mãe foi exposta ao chumbo quando criança, seus ossos contêm chumbo. Durante a gravidez, o cálcio nos ossos da mãe é importante para o desenvolvimento do feto. Mas, se os ossos da mãe contiverem chumbo, esse chumbo passará para o feto em vez do cálcio. ”
O dano é sempre irreversível?
Chumbo é particularmente destrutivo para bebês e crianças menores de 5 anos,
Getty Images via BBC
Se as crianças foram expostas de forma crônica e excessiva ao chumbo por longos períodos na infância, as consequências são irreversíveis, diz Mielke. “Se a exposição foi por um período curto e não de forma intensa, e a fonte de chumbo é rapidamente reduzida, então, o dano pode ser limitado e pode haver uma recuperação.”
“As crianças são resilientes. No entanto, o principal tratamento é a prevenção primária, ou seja, prevenir a exposição ao pó de chumbo em primeiro lugar.”
Daniel Estrada explica que “os danos às crianças são permanentes se a fonte de exposição não for eliminada após os 4 anos de idade. Se o chumbo for eliminado mais cedo, o dano é reversível”.
Chumbo da gasolina em Londres
Chumbo da gasolina persiste no ar de Londres mais de 20 anos depois que seu uso como combustível foi proibido
Getty Images via BBC
Em Londres, o chumbo da gasolina persiste no ar mais de 20 anos depois que seu uso foi proibido, segundo estudo da Universidade Imperial College. O chumbo começou a ser usado como um antidetonante na gasolina no Reino Unido na década de 1930 e foi eliminado desse combustível até sua proibição total em 1999.
“As análises químicas realizadas em amostras de partículas atmosféricas coletadas em Londres indicam que o teor de chumbo é muito alto em relação ao padrão de referência para este elemento na crosta terrestre (ou nível de fundo)”, diz Raquel Ochoa González, uma das autoras do estudo, doutora em Química e pesquisadora do Departamento de Ciências da Terra e Engenharia da Imperial College.
“Esses dados nos permitem dizer com precisão que as partículas que analisamos são claramente enriquecidas em chumbo em comparação com os níveis de fundo e que existem fontes que vêm da atividade humana.”
Cientistas da Imperial College determinaram com análise isotópica que até 40% do chumbo no ar de Londres hoje vem do legado da gasolina com chumbo. Isótopos são átomos do mesmo elemento cujos núcleos atômicos têm o mesmo número de prótons, mas diferentes números de nêutrons.
Antigo posto de gasolina nos Estados Unidos que vendia gasolina com chumbo, “lead” em inglês. O Tetraetilchumbo (chumbo tetraetila) foi adicionado à gasolina como um antidetonante
Getty Images via BBC
“O chumbo é um elemento que possui vários isótopos dos quais apenas aqueles com massas 204, 206, 207 e 208 são estáveis. A análise das razões isotópicas do chumbo nos fornece informações muito valiosas sobre a origem desse elemento, para que possamos obter ‘impressões digitais’ características para cada fonte de chumbo”, explica González.
O chumbo da gasolina que foi depositada ao longo de décadas em superfícies e solos urbanos pode ser “ressuspenso” no ar pelo vento, tráfego ou durante obras. “A ressuspensão de partículas poluentes inaláveis é uma fonte muito importante de poluição atmosférica em áreas urbanas”, acrescenta a pesquisadora.
E no Brasil?
Processo de eliminação do chumbo da gasolina foi concluído no Brasil em 1992, quando etanol começou a ser misturado a esse combustível
Getty Images via BBC
Embora o uso do chumbo na gasolina tenha sido abandonado, seu legado continua principalmente nas grandes cidades.
No caso do Brasil, estudos de 2017, 2018 e 2019 confirmaram a presença de chumbo da gasolina no ar, conforme dois dos autores desses estudos, Carlos Eduardo Souto de Oliveira, pesquisador do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP), e Marly Babinski, professora e pesquisadora do Centro de Geocronologia e Geoquímica Isotópica da USP.
O Brasil foi “um dos primeiros países do mundo a eliminar o chumbo da gasolina”, assinalam os pesquisadores.
“A fase de eliminação do chumbo adicionado à gasolina para atuar como antidetonante começou no Brasil em 1989 e terminou em 1992, quando o etanol passou a ser misturado à gasolina.”
O estudo de 2017 mostrou em São Paulo uma redução da ordem de 50 vezes entre 1970 e 2005 nas concentrações de chumbo no material particulado atmosférico (mistura de partículas sólidas e gotas de líquidos encontrados na atmosfera ) coletado em 24 horas na fração de partículas entre 2,5 micrômetros ou menos de diâmetro e partículas de 10 mícrons de diâmetro ou menos (a título de comparação, um fio de cabelo humano tem cerca de 70 mícrons).
As principais fontes de chumbo foram o tráfego de veículos e o cimento da construção ou de uma empresa de mistura de cimento nas proximidades. Uma terceira fonte de chumbo foi a região industrial de Cubatão, localizada a cerca de 50 km da cidade de São Paulo.
O estudo de 2019 comparou o material particulado em São Paulo e Londres e encontrou maior contribuição do chumbo da gasolina na capital britânica.
Outras fontes
Reciclagem informal e perigosa de baterias de chumbo é um dos principais contribuintes para envenenamento por chumbo em crianças em países de baixa e média renda
Getty Images via BBC
Além do legado de chumbo na gasolina, a reciclagem informal e inadequada de baterias de chumbo é um dos principais contribuintes para o envenenamento por chumbo em crianças em países de baixa e média renda, onde o número de veículos triplicou desde 2000, de acordo com o relatório da Unicef e da Pure Earth.
“Trabalhadores em pequenas empresas de reciclagem, de forma perigosa e muitas vezes ilegal, quebram caixas de baterias, derramam ácido de chumbo e poeira no chão, e derretem esse material recuperado em fornalhas externas rudimentares que emitem gases tóxicos que envenenam a comunidade ao redor”, diz o relatório.
Outras fontes de exposição infantil incluem chumbo na água de canos, tintas, soldas em latas de comida e especiarias, cosméticos, brinquedos e outros produtos de consumo. “Pais cujas ocupações envolvem trabalho com chumbo muitas vezes trazem pó de chumbo para casa em suas roupas, cabelos, mãos e sapatos, inadvertidamente expondo seus filhos a este produto tóxico.”
No caso das especiarias, um estudo do Departamento de Saúde da Cidade de Nova York, nos Estados Unidos, analisou mais de 1,4 mil amostras de especiarias importadas de países como Paquistão e Bangladesh, vendidas em embalagens sem marcas ou rótulos. Mais de 30% dessas amostras apresentaram concentrações de chumbo superiores a 2 ppm ou partes por milhão, nível máximo que é considerado seguro.
Especiarias também podem ter concentrações de chumbo
Getty Images via BBC
O caso do México
O problema do envenenamento por chumbo na infância no México “é realmente sério”, de acordo com Daniel Estrada. “Em média, 2 em cada 10 crianças mexicanas têm envenenamento por chumbo. Em Puebla, quase metade das crianças tem envenenamento por chumbo. Isso se traduz em uma diminuição das capacidades neurológicas e danos a diferentes órgãos”, acrescenta.
O relatório da Unicef e da Pure Earth cita um levantamento conduzido pelo Instituto Nacional de Saúde Pública (INSP) do México, segundo o qual 1,4 milhão de crianças menores de 5 anos no México tinham níveis de chumbo no sangue acima de 5 µg/dL.
“O chumbo é usado para produzir o esmalte que recobre as peças de barro”, explica Estrada.
No México, ONG Pure Earth ajuda trabalhadores da cerâmica a fazer a transição para esmaltes sem chumbo
PURE EARTH MÉXICO via BBC
“Para a produção de barro esmaltado, a peça é feita primeiro e levada ao forno para produzir a primeira queima, conhecida como sancocho ou jahuete. Para a esmaltação, o sancocho é coberto com óxido de chumbo e levado ao forno pela segunda vez. Ao sair do forno, a peça já tem um esmalte que ajuda a impermeabilizá-la. Hoje, existem esmaltes sem chumbo que dão um acabamento semelhante ao dado pelo óxido de chumbo, mas sem serem tóxicos.”
“Quando o óxido de chumbo é usado, o chumbo do esmalte passa para os líquidos ou alimentos quando são ácidos ou quentes. É assim que o chumbo passa para o arroz, suco ou outro alimento servido ou preparado em cerâmica esmaltada com chumbo”, assinala Estrada.
Ceramistas participando de programa Barro Aprobado no México, da ONG Pure Earth
PURE EARTH MÉXICO via BBC
A Pure Earth promove um programa no México para ajudar ceramistas a fazer a transição para esmaltes sem chumbo.
“O programa ‘Barro Aprobado’ consiste em dar aos ceramistas selos personalizados na produção de cerâmicas sem chumbo, bem como promover lojas de olarias e restaurantes sem chumbo. Até agora, temos mais de 40 ceramistas no programa, mas há cada vez mais interesse na indústria para ser livre de chumbo. ”
O caso de Nova Orleans
Uma das vias de envenenamento por chumbo é que as crianças costumam colocar as mãos ou brinquedos que estavam em contato com o solo em suas bocas, diz Mielke
Getty Images via BBC
Em Nova Orleans, Howard Mielke conduziu estudos que relacionam o chumbo no solo ou chão de parques ou praças com os níveis de chumbo no sangue de crianças. Em primeiro lugar, “muitas vezes, as crianças colocam as mãos ou os brinquedos que estavam em contato com o solo na boca”, enumera o pesquisador.
“Em segundo lugar, o chumbo do solo entra na casa das crianças pelos sapatos (tirar os sapatos na porta limita esse movimento).”
“Terceiro, o chumbo no solo é ressuspenso no ar (como mostrou um estudo recente de Londres) durante os períodos de seca do ano e entra em sua casa pela janela.”
“Quarto, o pó ressuspenso é inalado, e as nanopartículas entram nos pulmões e são absorvidas diretamente na corrente sanguínea.”
Em Nova Orleans, Mielke supervisionou a limpeza de locais de jogos contaminados com chumbo
Howard Mielke via BBC
Mielke supervisionou projetos de limpeza de solo e sujeira em 30 praças e áreas recreativas em Nova Orleans, sobre os quais uma malha de fibra sintética chamada geotêxtil foi colocada. “Um geotêxtil permeável de cor laranja é colocado no topo do solo contaminado. E, então, uma camada de 6 cm de solo com baixos níveis de chumbo (menos de 10-20 ppm) é espalhada.”
Dessa forma, “a superfície onde as crianças brincam passou de níveis de chumbo de 700 ppm para níveis abaixo de 20 ppm”. Além dos projetos de Mielke, o pesquisador observa que a cidade de New Orleans também fez trabalhos de remediação em 13 parques locais.
Mas o cientista garantiu que “o interior de Nova Orleans continua muito poluído para as crianças. Seus níveis de chumbo no sangue continuam excessivamente altos”.
Justiça ambiental
Após limpeza, “superfície onde crianças brincavam passou de níveis de chumbo de 700 ppm para níveis inferiores a 20 ppm”
Howard Mielke via BBC
A intoxicação por chumbo afeta desproporcionalmente crianças em países de baixa e média renda, de acordo com a Unicef e a Pure Earth. E, dentro de cada país, os mais afetados tendem a ser crianças de comunidades mais pobres.
As ações para reduzir a exposição ao chumbo têm um elemento de “justiça ambiental”, de acordo com Mielke. “Pessoas de baixa renda vivem em comunidades onde a moradia é mais acessível”, diz ele.
“Infelizmente, esses imóveis mais acessíveis são geralmente encontrados em áreas urbanas pobres com congestionamento de tráfego e, possivelmente, com casas que têm pintura à base de chumbo antiga. Quando o chumbo era usado na gasolina, o meio ambiente nessas comunidades ficava contaminado com nanopartículas de chumbo (partículas da combustão).”
Essas partículas são ressuspensas no ar e se tornam uma fonte de envenenamento para crianças, o que pode resultar em sérias deficiências e consequências para a vida toda.
“Essas disparidades prejudicam a sociedade. “A indústria do chumbo promoveu um padrão de 400 ppm nos solos. Mas vimos que esse nível é muito alto. Comunidades com níveis de 40 ppm nos solos são mais seguras para a maioria das crianças.”
Prevenção
Protestos em Newark em 2019 por causa dos altos níveis de chumbo na água de canos de chumbo
Getty Images via BBC
A Unicef e a Pure Earth recomendam ações coordenadas para os países afetados em diferentes áreas, incluindo monitoramento por meio de testes de chumbo no sangue e prevenção da exposição das crianças a produtos que contenham chumbo, como brinquedos e tintas, bem como a reciclagem segura de baterias e lixo eletrônico.
Raquel Ochoa González cita como exemplo a vigilância da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos. “Como medidas para prevenir a exposição ao chumbo, podemos apontar a inspeção de canos em casas construídas antes dos anos 1980, evitar o contato com pinturas danificadas, lavar as mãos antes de comer alimentos e evitar o uso de objetos de metal e brinquedos velhos.”
Para Daniel Estrada, na América Latina, deve haver “políticas adequadas e, acima de tudo, mecanismos de vigilância, tanto para a indústria quanto para os níveis de chumbo no sangue de crianças vulneráveis”.
Exame de sangue em um bebê em Flint, Michigan, para verificar os níveis de chumbo
Getty Images via BBC
Então, qual a principal mensagem que Estrada daria ao público? “Monitorar seus níveis de chumbo no sangue, porque os da mãe podem ser semelhantes aos das crianças. Se encontrarem níveis elevados, busquem a fonte para eliminá-los.” E a mensagem para os compradores de cerâmica esmaltada “é comprar cerâmica esmaltada sem chumbo”.
O envenenamento de crianças por chumbo, com seu impacto devastador ao longo da vida, é uma tragédia. Mas existem medidas que podem ser tomadas para reduzir a exposição das crianças a essa toxina.
“As crianças são extraordinariamente sensíveis ao ambiente”, diz Mielke. “São os adultos que devem assumir a responsabilidade de tornar esses ambientes os mais seguros possíveis em termos de níveis de chumbo.”

Fonte: G1 Mundo

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Censo anual dos cisnes da rainha Elizabeth II acontece na Inglaterra


Tradição é mantida desde o século XII. Por lei, todos os cisnes do país pertencem à rainha. Contagem dura cinco dias e é atualmente usada para ajudar na preservação da espécie. Censo dos cisnes da rainha Elizabeth II na Inglaterra em 20 de julho de 2021
Família Real Britânica
A contagem anual dos cisnes que pertencem à rainha Elizabeth II começou nesta terça-feira (20) na Inglaterra.
O evento, com duração de cinco dias, data do século XII e começou como um ritual para garantir que haveria cisnes suficientes para banquetes.
Atualmente, porém, ele está relacionado à conservação: os dados do censo são usados para conferir o crescimento da população das aves.
Censo anual dos cisnes da rainha no Reino Unido em 20 de julho de 2021
Família Real Britânica
Pela lei britânica, todos os Cisnes Mudos – uma espécie de cisnes com bico cor de laranja – em águas abertas do país são propriedade da monarquia.
Uma equipe de dedicados contadores oficiais é encarregada de encontrar os cisnes em um trecho específico do rio Tâmisa e catalogá-los.

Fonte: G1 Mundo

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Forte calor e incêndios florestais no estado do Oregon preocupam autoridades, que pedem ajuda


Incêndio atingiu área maior do que 1 mil quilômetros quadrados. Desastre não foi pior porque região é pouco habitada. Incêndio Bootleg, em Oregon, nos EUA, é um dos maiores da história do estado. Foto de 17 de julho
Bootleg Fire Incident Command via AP
Altas temperaturas e incêndios florestais preocupam autoridades no oeste dos Estados Unidos. No Oregon, o governo local pediu na segunda-feira (19) ajuda a outras partes do país para obter mais recursos para o combate às chamas.
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Uma das situações mais preocupantes é o chamado Incêndio Bootleg, na região da Floresta Nacional Fremont-Winema. Estima-se que as chamas cheguem a uma extensão de 1.474 quilômetros quadrados.
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Além disso, a chegada das chuvas se torna outra preocupação: apesar de a água poder minimizar alguns focos de incêndio, raios podem gerar mais fogo em uma região cheia de folhas e galhos secos.
Avião despeja material de combate às chamas no sul do estado de Oregon, nos EUA, em 15 de julho
Bootleg Fire Incident Command via AP
Entre os recursos pedidos pelas autoridades de Oregon, estão equipamentos de combate às chamas de outros estados como Arkansas, Nevada e Alasca.
Em entrevista à agência Associated Press, o pesquisador James Johnston, da Universidade do Estado de Oregon, disse que o desastre só não foi pior porque o incêndio abrange uma área muito pouco habitada dos EUA.
“Se fosse nas partes mais populosas, teria destruído milhares de casas”, alerta o cientista.
Verão muito quente na América do Norte
Homem se refresca em totem de vapor de água em Vancouver, no Canadá, neste domingo (27), dia de recorde de calor no país
Jennifer Gauthier/Reuters
Embora incêndios florestais sejam relativamente comuns nesta época do ano, a intensidade preocupa: aliás, este tem sido um dos verões mais quentes da história na América do Norte.
VÍDEO: Imagens mostram queimada que devasta vilarejo no Canadá
O Canadá registrou em meados de junho as maiores temperaturas da história do país, com temperaturas se aproximando dos 50°C. Um incêndio florestal de enormes proporções chegou a devastar um vilarejo inteiro. Relembre no VÍDEO acima.
Também na região do Pacífico, os estados de Oregon e Washington, nos EUA, também assistiram às temperaturas subirem como jamais visto na história.

Fonte: G1 Mundo