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‘Ele falou que está só esperando a sorte dele chegar’, diz brasileira sobre amigo afegão


Raisa Jorge vive na Jordânia e passou 8 meses no Afeganistão em 2015. Após a tomada do Talibã, tentou entrar em contato com amigos e conhecidos no país: ‘Alguns simplesmente desapareceram das redes sociais’. ‘Ele falou que está só esperando a sorte dele chegar’, diz brasileira sobre amigo afegão
Morando na Jordânia há mais de 8 anos, a brasileira Raisa Jorge, de 30 anos, passou 8 meses no Afeganistão, em 2015, antes de voltar para o país do Oriente Médio. Com a retomada do Talibã, ela se diz preocupada com o futuro das pessoas que vivem lá.
Em entrevista ao G1, ela contou que trabalhou com projetos de mídia promovidos por uma ONG no Afeganistão e que seu dia a dia precisava ser imprevisível para evitar sequestros. Durante esse tempo, ela fez amigos afegãos, que hoje temem pela própria vida.
Desde o último domingo (15), a população afegã tem vivido cenas de horror no país, que agora está sob domínio do Talibã. Na capital Cabul, milhares de pessoas desesperadas tentaram embarcar em aviões. Muitos se agarraram do lado de fora das aeronaves e ao menos uma pessoa despencou durante a decolagem. Veja no vídeo abaixo:
VÍDEO: Pessoa cai de avião ao tentar fugir no Afeganistão
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Raisa conta que tem tentado entrar em contato com essas pessoas, mas nem todos estão ativos nas redes sociais.
“Eu saí perguntando para todo mundo que eu conheço o que está acontecendo. Para quem eu pude, porque alguns simplesmente desapareceram das redes sociais. Não sei se é porque eles estão escondidos, porque já foram pegos, não sei o motivo e isso também me deixa apavorada”, conta.
Um afegão que trabalhou com Raisa relatou o cenário dos primeiros dias da presença do Talibã na capital Cabul.
“Ele falou está esperando a sorte dele chegar, porque eles [o Talibã] estão batendo de porta em porta desde que chegaram, procurando por jornalistas, ativistas e pessoas que trabalharam em ONGs”, diz.
“Esse menino falou para mim: ‘eu simplesmente não sei o que fazer, não tem voo, o aeroporto está fechado e mesmo se tiver voo eu não tenho dinheiro para tirar minha família inteira daqui”, completa.
Combatente do Talibã revista pertences de pessoas saindo do aeroporto de Cabul, no Afeganistão, na segunda-feira (16)
Wakil Kohsar/AFP
Nesta terça-feira (17), o Talibã anunciou uma “anistia geral” em todo o país, em uma tentativa de convencer a população de que o grupo mudou.
Outros líderes talibãs já disseram que não buscarão vingança contra aqueles que trabalharam para o governo afegão ou países estrangeiros. Mas algumas pessoas dizem que os extremistas têm listas de pessoas que cooperaram com o governo e estão procurando-as em Cabul.
Rupert Colville, porta-voz do alto comissário das Nações Unidas para direitos humanos (Acnur), afirmou em um comunicado que “essas promessas precisarão ser honradas” e que, por enquanto, “foram recebidas com algum ceticismo”.
Na primeira entrevista coletiva do Talibã desde que voltou ao poder, o porta-voz Zabihullah Mujahid afirmou que o grupo vai respeitar o direitos das mulheres, desde que dentro das normas da lei islâmica.
Mas muitos afegãos (e a comunidade internacional) continuam céticos. Os mais velhos se lembram das visões islâmicas ultraconservadoras que também incluíam apedrejamentos, amputações e execuções públicas.
Brasileira no Afeganistão
Raisa Jorge viveu por 8 meses no Afeganistão, em 2015
Arquivo pessoal
Raisa morava na Jordânia antes de ir para o Afeganistão. Insatisfeita com o trabalho, ela começou a procurar por outras oportunidades e acabou encontrando uma vaga que a interessou no país que foi retomado pelo grupo extremista neste final de semana.
“Eu me candidatei sem muitas pretensões e acabou que deu certo. Quando deu certo, aí eu falei ‘eu estou indo para Afeganistão é isso mesmo?'”, relembra.
A brasileira dividiu uma casa com outros estrangeiros e conta que sua segurança era reforçada, pelo fato de ser estrangeira. O Talibã realiza com frequência sequestros, especialmente de pessoas de outros países.
“Depois das eleições de 2014, o Talibã começou uma ofensiva muito maior. Eles começaram a fazer ataques muito maiores, em alvos muito mais específicos”, conta Raisa.
“Eu tinha um motorista que me buscava todo dia para ir para o trabalho. E todo dia em horários diferentes para eu não ter uma rotina para ninguém poder me rastrear. Eu não podia sair sozinha para absolutamente nada”, completa.
Raisa era a única mulher e estrangeira na empresa que trabalhou, que funcionava como uma porta de entrada para jovens que tinham acabado de sair da faculdade. Ela ocupava um cargo de chefia e conta que a aceitação não foi simples.
“Eram todos homens muito jovens que não tinham nenhum ou muito pouco contato com o estrangeiro. Com mulheres, [ainda menos]”, diz.
“Quando eu chegava para pedir alguma coisa por mais tranquila que eu fosse, era muito fácil de eles levarem isso em para um lado ruim. De não aceitar que eu estivesse mandando neles”, conta.
Como ficam mulheres afegãs
A brasileira conta que realizou projetos no Afeganistão nos quais encontrou mulheres que tinham grande importância em suas comunidades.
“Foram só 8 meses, mas foram 8 meses bastante intensos em questão de trabalho, em questão pessoal”, conta.
“Encontrei mulheres em lugares que você nem imagina a diferença que elas fazem. Porque por muito tempo a mulher não podia nem ir para escola no Afeganistão, depois da queda do Talibã você começa a ver mais mulheres na escola”, relembra.
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As restrições dos direitos e liberdades das mulheres são um dos maiores temores com o retorno do Talibã.
“Então eu temo muito por essas mulheres que têm tanto potencial, que trazem tanto potencial para o país e não vão mais ter essa oportunidade, pelo menos não lá, pelo menos não agora”, diz Raisa.
Na primeira entrevista coletiva do Talibã desde que voltou ao poder, o porta-voz Zabihullah Mujahid afirmou que o grupo vai respeitar o direitos das mulheres, desde que dentro das normas da lei islâmica.
Mas muitos afegãos (e a comunidade internacional) continuam céticos. Os mais velhos se lembram das visões islâmicas ultraconservadoras que também incluíam apedrejamentos, amputações e execuções públicas.
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Futuro do país
Ainda no domingo (15), o presidente afegão Ashraf Ghani fugiu do país, e o palácio presidencial foi tomado pelo grupo extremista. Ele disse que deixou o Afeganistão para “evitar um banho de sangue” e admitiu a vitória do grupo.
Combatentes do Talibã assumem o controle do palácio presidencial afegão em Cabul, capital do Afeganistão, após o presidente Ashraf Ghani fugir do país em 15 de agosto de 2021
Zabi Karimi/AP
A maior parte das forças lideradas pelos EUA deixaram o Afeganistão em julho, e o Talibã se aproveitou da retirada e avançou rapidamente pelo país, conquistando todas as províncias e a capital Cabul em menos de duas semanas. Na segunda-feira (16), o presidente dos EUA Joe Biden fez um pronunciamento oficial e reiterou a decisão de retirar os militares americanos do país.
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Para a brasileira Raisa, este é um tempo de incertezas para o povo afegão.
“Eu temo pelo futuro não sei quanto tempo isso vai durar, como que isso vai desenvolver. É tudo muito incerto, quando converso com as pessoas de lá, ninguém sabe o que vai acontecer, ninguém sabe o que está acontecendo”, diz.
Veja vídeos do avanço do Talibã no Afeganistão:

Fonte: G1 Mundo