Disputa entre grupos extremistas rivais torna a crise do Afeganistão ainda pior. Voluntários e equipes médicas retiram corpos de uma caminhonete em frente a um hospital após duas fortes explosões fora do aeroporto de Cabul, no Afeganistão, nesta quinta (26)
Wakil Kohsar/AFP
No que diz respeito à condição atual do Afeganistão, não há nada de tão ruim que não possa piorar. A retirada das tropas americanas após 20 anos de ocupação e a rápida reconquista do Talibã representavam por si só a expressão mais fiel da catástrofe para a população.
Havia mais: a ascensão do grupo extremista acirrou também o conflito com o ramo afegão do Estado Islâmico, considerado o principal suspeito dos atentados desta quinta-feira no aeroporto de Cabul.
A disputa e o ódio mútuo entre os dois grupos jihadistas de orientação sunita transformam em velocidade aterradora o país na sucursal do inferno. O EI-K, abreviatura para Estado Islâmico-Província de Khorasan, despreza os talibãs por não aplicarem a sua versão radical da lei islâmica com rigor suficiente.
Esta tensão ficou clara no primeiro comunicado do grupo terrorista após a vitória talibã sobre as forças afegãs. Seus adversários foram tachados de apóstatas e maus muçulmanos, sobretudo por terem negociado com os EUA — atitude inconcebível para os jihadistas do Estado Islâmico.
Explosão no Aeroporto de Cabul deixa feridos
O EI-K (ou Isis-K na sigla em inglês) surgiu em 2015, formado também por desertores do Talibã e perpetrou pelo menos 50 atentados no último ano. Está presente na região leste do país e, de acordo com relatos de contra inteligência, ganhou a adesão de cem combatentes que fugiram de duas prisões de Cabul antes da queda da capital, há dez dias.
A ameaça aguda e persistente do Estado Islâmico no Afeganistão, nas palavras de Jake Sullivan, conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, deixou o presidente Joe Biden irredutível a não estender o prazo final para a retirada das tropas do país, apesar da pressão dos países aliados.
“Cada dia que estamos no solo é mais um dia em que sabemos que o Isis-K busca atingir o aeroporto e atacar as forças dos EUA e aliadas e civis inocentes”, conforme admitiu, na terça-feira, o presidente americano. Dois dias depois, a despeito da corrida desenfreada para retirar americanos e afegãos em situação vulnerável do país, a tragédia mais do que anunciada se concretizou.
Fonte: G1 Mundo