Grupo extremista islâmico defende uma rendição pacífica do governo afegão. O Talibã foi expulso da capital Cabul pelos Estados Unidos em 2001, dias após os ataques do 11 de setembro. Foto de 2001 mostra as forças da Aliança do Norte entrando em Cabul, na derrocada do regime Talibã
Shah Marai/AFP
O Talibã voltou, neste domingo (15), à capital do Afeganistão, Cabul, 20 após ser expulso pelas tropas dos Estados Unidos. A retomada da cidade ocorre em meio à retirada dos militares americanos do país.
Em 2001, os norte-americanos agiram contra o Talibã em reação aos ataques de 11 de setembro, se juntando à Aliança do Norte, uma organização desenvolvida pelo Afeganistão para unir a população e combater o grupo extremista.
Naquela época, o Talibã, então liderado por Mohammed Omar, controlava 90% do Afeganistão, embora nunca tenha sido reconhecido como governo pela Organização das Nações Unidas (ONU). Os únicos países que reconheciam a autoridade dos talibãs eram Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Paquistão.
O então presidente americano, George W. Bush, foi quem ordenou a invasão do país depois que o os talibãs se recusaram a entregar Osama bin Laden, o arquiteto do atentado às Torres Gêmeas. Bin Laden morreu em 2011, em uma operação dos Estados Unidos no Paquistão, já no governo de Barack Obama.
O Paquistão e Arábia Saudita se tornaram aliados regionais dos EUA, e os talibãs passaram à luta armada contra os americanos e o novo governo afegão constituído.
Segundo a ONU, mais de 100 mil civis foram mortos ou feridos no conflito apenas na última década. Desde o início dos conflitos, os EUA gastaram mais de US$ 1 trilhão (cerca de R$ 5,2 trilhões) em despesas militares no Afeganistão.
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Omar Sobhani / Reuters
Acordo de trégua
Ainda no governo de Barack Obama, alguns prazos foram estipulados para a retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão.
A princípio, até janeiro de 2017, data da troca de presidentes nos Estados Unidos, o país não teria mais soldados em território afegão. Contudo, na época, Obama declarou que o Afeganistão não estava pronto ainda para a retirada completa das tropas e apenas reduziu o contingente para 9 mil militares.
Sob o governo de Donald Trump, os americanos e o Talibã assinaram em fevereiro de 2020 um acordo que previa a retirada completa, em 14 meses, das tropas americanas e da Otan do território afegão.
Abdul Ghani Baradar, líder da delegação do Talibã, e Zalmay Khalilzad, enviado dos EUA para a paz no Afeganistão, se cumprimentam depois de assinar acordo em Doha, no Catar, em 29/02/2020.
Ibraheem al Omari/Reuters
A retirada das tropas americanas do Afeganistão dependia do cumprimento, pelo Talibã, de compromissos previstos no acordo – como não permitir que a Al-Qaeda ou qualquer outro grupo extremista opere em áreas controladas por ele.
Os talibãs também se comprometeram a não enfrentar tropas estrangeiras, mas seguiu com ações contra o exército afegão durante este período.
Durante a gestão de Joe Biden, o governo americano anunciou uma mudança no cronograma de saída das tropas: a retirada completa das tropas ocorreriam não mais até 1º de maio, mas sim em setembro de 2021.
Em julho deste ano, os soldados dos Estados Unidos deixaram a base aérea de Bagram e entregaram o espaço para a administração do governo afegão.
Apesar de um número não identificado de militares ainda permanecer no país, a ação marcou o fim dos quase 20 anos de guerra desde os atentados de 11 de setembro de 2001.
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14 de abril – O presidente Joe Biden anuncia que as tropas dos EUA se retirarão do Afeganistão a partir de 1º de maio.
4 de maio – os combatentes do Talibã lançam uma grande ofensiva contra as forças afegãs na província de Helmand, no sul. Eles também atacam em pelo menos seis outras províncias.
11 de maio – O Talibã toma o distrito de Nerkh nos arredores da capital, Cabul, enquanto a violência se intensifica em todo o país.
2 de julho – as tropas americanas saem silenciosamente de sua principal base militar no Afeganistão, a base aérea de Bagram, a uma hora de carro de Cabul. Isso efetivamente termina com o envolvimento dos EUA na guerra.
5 de julho – O Talibã afirma que poderia apresentar uma proposta de paz por escrito ao governo afegão já em agosto.
21 de julho – Os insurgentes do Talibã controlam cerca de metade dos distritos do país, de acordo com o general dos EUA, destacando a escala e a velocidade de seu avanço.
14 de agosto – O Talibã toma a maior cidade do norte, Mazar-i-Sharif, e, com pouca resistência, Pul-e-Alam, capital da província de Logar, apenas 70 km ao sul de Cabul.
15 de agosto – O Talibã toma a cidade de Jalalabad, no leste, sem lutar. Os insurgentes cercam a capital Cabul.
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O que é o Talibã?
O Talibã surgiu em um momento de lutas internas dentro do país. Voltando um pouco no tempo: o Afeganistão foi unificado em 1747 e foi motivo de briga entre os impérios britânico e russo até sua completa independência, em 1919.
Após experimentar a democracia, um golpe em 1973 inaugurou um período de conflitos que dura até hoje no país. Em 1978, um contragolpe comunista estabeleceu a República Democrática do Afeganistão.
De olho no país, a ex-União Soviética invadiu o território no ano seguinte, com 30 mil homens e ajudou os comunistas numa luta ferrenha contra os rebeldes tribais muçulmanos. O número de soviéticos no país chegou a 115 mil, e, nessa época, muitos refugiados foram para o Paquistão e para o Irã.
As guerrilhas rebeldes, conhecidas como Mujahideen (‘santos guerreiros’), não estavam unidas, e de nada adiantava a ajuda em armas e dinheiro enviada pelos EUA aos guerreiros, que estavam concentrados em sua maioria no Paquistão.
A saída dos soviéticos ocorreu em 1989, mas as diferenças entre os grupos fizeram com que a guerra civil continuasse. Em 1992, os Mujahideen tomaram o poder, e um acordo permitiu a governança até 1994, quando a crise entre as diferentes facções guerreiras explodiu novamente.
Ao mesmo tempo, no sul do Afeganistão, surgiu um outro grupo militante, liderado por Mullah Mohammed Omar e que envolvia aprendizes do Islã sunita que pegavam em armas: o Talibã.
Ele logo conquistou as cidades de Kandahar e Charasiab.
Com financiamento paquistanês, eles foram derrotados na primeira tentativa de conquistar Cabul, mas continuaram os bombardeios à cidade, tomando-a por completo em setembro de 1996 e impondo um governo islâmico radical no país.
VÍDEO: O avanço do Talibã no Afeganistão
Apogeu e convivência com a al-Qaeda
Num país assolado por anos seguidos de guerras, a rigidez do Talibã trouxe uma certa calmaria à região. A maioria dos líderes tribais havia sido derrotada, e seus líderes foram enforcados. A população foi desarmada, e as ruas foram desbloqueadas, facilitando o comércio.
O grupo aplicou no país uma interpretação rígida da Sharia, a lei islâmica. Logo as escolas de meninas foram fechadas, e as mulheres foram proibidas de deixar suas casas até para fazer compras. Fontes de entretenimento como música, TV e esportes também foram banidas.
O Talibã proíbe música, maquiagem e proíbe que as meninas de 10 anos ou mais vão à escola
Getty Images via BBC
A aproximação com o líder da rede terrorista da al-Qaeda, Osama bin Laden, não tardou. A princípio um opositor do Talibã, Bin Laden mudou de lado após um encontro com Mullah Mohammed Omar em 1996. Com o apoio de Omar, sua al-Qaeda estava segura para agir no Afeganistão.
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Fonte: G1 Mundo