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Vale do Panjshir: conheça a única província que ainda resiste ao Talibã no Afeganistão


Ahmoud Massoud, filho de herói da resistência à invasão soviética, pediu apoio à comunidade internacional. Amrullah Saleh, vice-presidente que diz ser o presidente interino, está na região. VÍDEO: Quem é Ahmad Massoud, que pode se tornar líder da resistência ao Talibã no Afeganistão
Um vale montanhoso a cerca de duas horas de carro da capital Cabul é a única das 34 províncias do Afeganistão que está livre do controle do Talibã. E é no vale do Panjshir, que significa “Cinco leões”, que está se formando o que parece ser uma resistência ao grupo extremista.
A capital de Panjshir é Bazarak, que fica a apenas 120 km a nordeste de Cabul, e a região é um vale íngreme e montanhoso de difícil acesso que nem os soviéticos nem os talibãs conseguiram conquistar (veja mais abaixo).
O Talibã conquistou praticamente todo o Afeganistão em apenas dez dias, mas ainda não tentou invadir a província.
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É lá que estão dois líderes que se levantaram contra a tomada do poder: Ahmad Massoud, filho do lendário comandante Massoud, e Amrullah Saleh, primeiro vice-presidente afegão que diz ser o “legítimo presidente interino” do país.
Também está na região o general Bismillah Mohammadi, ministro da Defesa do governo deposto.
Saleh afirmou na terça-feira (17) que “em hipótese alguma se curvaria” aos “terroristas do Talibã” e pediu: “Junte-se à resistência”.
Massoud tem usado a imprensa ocidental para pedir ajuda para combater o Talibã: nos últimos dias, ele escreveu no jornal americano “The Washington Post” e na revista francesa “La Règle du jeu” (“A regra do jogo”, em tradução livre), fundada pelo escritor Bernard Henri-Lévy.
Resistência à URSS e ao Talibã
Ahmad Massoud é filho do lendário comandante Massoud, herói da resistência anti-soviética no Afeganistão que ganhou o apelido de “Leão de Panjshir”. Seus seguidores até hoje o chamam de Amir Sahib-e Shahid, que significa “nosso amado comandante martirizado”.
Além da União Soviética, na década de 80, o Talibã também não conseguiu conquistar o Vale do Panjshir quando controlaram o país, entre 1996 e 2001.
Vista do vale do rio Panjshir, em foto de 21 de maio de 2011, tirada do ponto de vista da tumba de Ahmad Shah Massoud. Estudante de engenharia da Universidade de Cabul, Massoud se tornou líder militar que desempenhou um importante papel na expulsão do exército soviético do Afeganistão
Master Sgt. Michael O’Connor
Massoud pai foi assassinado pela Al-Qaeda na província de Takhar em 2001, dois dias antes do ataque terrorista do 11 de Setembro que desencadeou a invasão americana ao Afeganistão.
Devido aos inimigos em comum, a província de Panjshir serviu como reduto da Aliança do Norte, grupo armado que se aliou aos EUA durante a invasão de 2001 para tirar o Talibã do poder e expulsar a Al-Qaeda do país.
Pedido de ajuda internacional
Massoud filho escreveu no “Washington Post” que está “pronto para seguir os passos do pai” e fez um apelo por armas e munições, dizendo ter combatentes em número suficiente para se opor ao Talibã (veja mais sobre Ahmad Massoud no vídeo no começo desta reportagem).
Ahmad Massoud, filho do herói da resistência anti-soviética Ahmad Shah Massoud, que foi morto pelo Talibã em 2001, pede ajuda estrangeira para organizar resistência ao grupo extremista a partir da província de Panjshir, no Afeganistão. Foto de 5 de setembro de 2019.
Mohammad Ismail/Reuters
Mahdi, um membro da resistência, afirmou à RFI (Rádio França Internacional) que “se o Talibã assumir o poder de maneira duradoura, formar um governo e impor suas leis, haverá um fluxo ainda maior de pessoas deslocadas do resto do Afeganistão em direção a Panjshir”.
Ele alertou que a província está cercada pelo Talibã. “A qualquer momento podemos nos encontrar sitiados e confrontados com um ataque em grande escala. O Talibã pode fechar estradas a fim de impedir o abastecimento da província, especialmente de ajuda humanitária”.
“O espaço aéreo está aberto”, destacou o rebelde. “Portanto, é possível que aviões de países vizinhos entreguem ajuda. Continuamos com muita esperança, mas não podemos fazer isso sozinhos. Precisamos da ajuda e do apoio de outros países”.
“É uma causa comum, contra a injustiça, contra o mal, contra a opressão. E não se trata apenas do Afeganistão, mas do mundo todo. Precisamos de ajuda urgente”, afirmou Mahdi.
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Fonte: G1 Mundo

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Mais de 18 mil já saíram do Afeganistão; Otan promete acelerar a retirada de pessoas


Segundo a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) , mais de de 18 mil pessoas foram retiradas de avião de Cabul desde que o Talibã tomou a capital do Afeganistão. Bebê é entregue a soldados americanos pelo muro do aeroporto internacional de Cabul, capital do Afeganistão, para que seja evacuado do país em 19 de agosto de 2021
Omar Haidari via Reuters
Mais de 18 mil pessoas foram retiradas de avião de Cabul desde que o Talibã tomou a capital do Afeganistão, disse uma autoridade da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) nesta sexta-feira (20).
Mais de 18 mil pessoas já foram retiradas do Afeganistão, diz Otan
A Otan prometeu dobrar os esforços para retirar gente do país. Há críticas à maneira como o Ocidente tem lidado com a crise.
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Milhares de pessoas desesperadas para deixar o país ainda estão lotando o aeroporto, disse à Reuters a autoridade, que não quis se identificar, embora o Talibã tenha pedido às pessoas sem documentos de viagem que voltem para casa.
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Vácuo de poder
A velocidade com que o Talibã conquistou o Afeganistão enquanto tropas dos Estados Unidos e de outros países finalizavam sua retirada surpreendeu até seus próprios líderes e deixou vácuos de poder em muitos locais.
O Talibã pediu união antes das orações desta sexta-feira, as primeiras desde que tomou o poder, solicitando aos imãs que persuadam as pessoas a não partirem do Afeganistão em meio ao tumulto que reina no aeroporto, aos protestos e aos relatos de violência.
Uma testemunha disse que várias pessoas foram mortas na quinta-feira em Asadabad, uma cidade do leste, quando militantes do Talibã dispararam contra uma multidão que expressava sua lealdade à República afegã derrotada. O Talibã prepara o estabelecimento de um emirado governado por leis islâmicas rigorosas.
Houve demonstrações de desafio semelhantes em outras duas cidades do leste, Jalalabad e Khost. Afegãos aproveitaram a comemoração da independência do controle britânico em 1919 para dar vazão à sua revolta com a tomada de poder pelo Talibã.
Outra testemunha relatou disparos perto de uma manifestação em Cabul, mas parece ter se tratado de membros do Talibã atirando para o alto.
Um porta-voz do grupo não estava disponível de imediato para comentar.
Cabul está essencialmente calma, exceto dentro e nos arredores do aeroporto, onde 12 pessoas foram mortas desde domingo, disseram autoridades da Otan e do Talibã.
Jake Sullivan, conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, disse em uma entrevista à rede NBC News que os EUA estão “focados com laser” no “potencial para um ataque terrorista” de um grupo como o Estado Islâmico durante a retirada.
As críticas à Otan e outras potências ocidentais aumentam com as imagens do caos e do desespero que são compartilhadas em todo o mundo.
O Talibã diz que quer paz, que não se vingará de antigos inimigos e que respeitará os direitos das mulheres nos moldes da lei islâmica, mas um parlamentar norte-americano disse que o grupo está usando arquivos da agência de inteligência do Afeganistão para identificar afegãos que trabalharam para os EUA.
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Fonte: G1 Mundo

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China aprova lei sobre dados pessoais na internet


Objetivo é restringir a coleta de dados pessoais por parte dos gigantes digitais. Regras passam a valer em 1º de novembro Bandeira nacional chinesa vista em Xangai, na China
Aly Song/Reuters
A China aprovou nesta sexta-feira (20) uma lei sobre a proteção da privacidade na internet, que tem como objetivo restringir a coleta de dados pessoais por parte dos gigantes digitais. Segundo a agência de notícias estatal Xinhua, as regras passam a valer em 1º de novembro.
A lei responde ao aumento nos últimos anos das fraudes na internet, mas sobretudo à crescente preocupação dos consumidores chineses com os vazamentos de dados ou o uso de algoritmos.
De acordo com as novas regras, as empresas públicas e privadas terão que reduzir ao mínimo a coleta de informações pessoais dos cidadãos e obter o consentimento prévio.
O Estado não será afetado e poderá continuar com a coleta de uma grande quantidade de dados, por exemplo para rastrear a dissidência política ou aplicar a política de segurança na região de Xinjiang.
As autoridades esperam que a lei sirva para conter gigantes digitais nacionais como Didi (app de transporte individual) e Tencent (videogames), criticadas pelo governo nos últimos meses por coleta indevida de dados.
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O texto pretende impedir “o uso de dados pessoais com o objetivo de elaboração de perfis de usuário”, declarou um porta-voz do Parlamento à agência Xinhua.
Além disso, a medida pretende evitar a “discriminação algorítmica”, uma prática muito comum entre as empresas de venda na internet, que oferecem preços diferentes a a clientes distintos pelo mesmo serviço, com base em seu histórico de compras.
A nova lei chinesa segue o modelo da lei de proteção da privacidade na internet da União Europeia, uma das mais estritas do mundo.
O texto estabelece que a informação pessoal dos cidadãos chineses não deve ser transferida a países com normas inferiores às da China nesta questão, uma proibição que pode afetar empresas estrangeiras. Estados Unidos, por exemplo, não têm uma lei nacional de proteção de dados.
Em caso de descumprimento das novas regras, as empresas ficam expostas a multas que podem chegar a 50 milhões de yuans (7,7 milhões de dólares) ou a até 5% de seu volume de negócios anual.
Para as infrações mais graves, as autoridades podem cassar a licença comercial das empresas ou obrigar o fechamento em definitivo.
O Brasil também conta com uma lei de proteção de dados, conhecida como LGPD. Ela estabelece regras sobre os uso dos dados pessoais dos brasileiros, está em vigor desde setembro de 2020, mas suas sanções administrativas só começaram em agosto de 2021.
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Fonte: G1 Mundo

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Afeganistão: O que aconteceu com 100 refugiados afegãos que Brasil recebeu há quase 20 anos


Após o início da Guerra do Afeganistão, o Brasil implementou um programa de reassentamento e trouxe várias famílias para Porto Alegre. Foi a única vez que diversos afegãos foram transferidos de uma só vez ao país. Nabila (esquerda) estava no grupo de primeiros refugiados afegãos recebidos pelo Brasil. Ela conta que foi difícil aprender português e que as pessoas estranhavam as roupas tradicionais e o véu que usava na cabeça
Arquivo pessoal/Via BBC
Nabila Khazizadah passou os três primeiros meses no Brasil, em 2002, chorando de saudade da família. Ela desembarcou em Porto Alegre aos 25 anos, com o marido e os dois filhos, alguns meses depois do início da Guerra do Afeganistão.
O pai, a mãe e os irmãos ficaram na Índia, país para onde a família buscou refúgio primeiro, fugindo dos talibãs.
“Fiquei três meses fechada dentro de casa chorando, pensando no que eu faria longe da minha família. Depois eu pensei, isso não adianta, chorando dentro de casa eu não vou conseguir fazer nada. Eu tenho que colocar a cara à tapa e aprender português”, contou à BBC News Brasil.
“Saí pelo bairro falando com as vizinhas, tentando fazer amizades.”
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Nas ruas de Porto Alegre, as pessoas estranhavam o véu cobrindo inteiramente o cabelo. Às vezes, reagiam com hostilidade. “Não tinha afegãos lá naquela época, não tinha muçulmanos. As pessoas me viam com o hijab e saíam de perto, não queriam sentar ao meu lado no ônibus. Alguns falavam: sai de perto, é mulher-bomba.”
Mas a afegã, hoje com 43 anos, conta que também encontrou acolhida, principalmente entre as vizinhas, que hoje são como irmãs para ela. “A gente pode construir família de afeto. Tenho pessoas maravilhosas ao meu redor, que me amam como irmã. São minha família”.
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Nabila faz parte do primeiro grupo de refugiados afegãos que o Brasil recebeu, há cerca de 20 anos, no início da Guerra do Afeganistão.
Na ocasião, o presidente Fernando Henrique Cardoso se comprometeu a incluir o Brasil no esforço internacional de acolhimento das pessoas que fugiam do Talibã e do conflito armado no país.
Numa medida inédita para o Brasil, o Ministério da Justiça firmou acordo com a Agência das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), para reassentar cerca de 100 afegãos que estavam em campos de refugiados na Índia e no Paquistão.
Essas pessoas, que não falavam português e que tinham uma ideia muito remota do que era o Brasil, cruzariam o oceano em busca de uma vida nova.
Nabila conta que o marido fez um pedido ao governo indiano para ser reassentado em outro país, onde recebesse auxílio e tivesse mais oportunidades de trabalho. Meses depois, chegou a notícia de que o Brasil os receberia.
“A gente não sabia como era o Brasil, como é a língua e a cultura. Saímos com olhos fechados, no escuro, jogando na sorte. Tudo o que a gente queria era um futuro para nosso filho, mais calmo, mais saudável.”
Ajuda inicial para depois ‘andar com os próprios pés’
Apesar de o Brasil ser um mistério para grande parte dos refugiados que seriam reassentados, a expectativa era grande: as crianças poderiam ir à a escola e os adultos teriam ajuda financeira da Acnur por pelo menos um ano.
Cada adulto receberia R$ 260, mais R$ 13 por criança, além de aluguel, energia, cesta básica, remédios e transporte escolar.
Grande parte dos reassentados foi encaminhada para Porto Alegre. “Essa assistência é temporária, enquanto está ocorrendo a inserção. No médio prazo, o desafio é a inserção econômica, a autonomia financiera”, explica o porta-voz da Acnur no Brasil, Luiz Fernando Godinho.
Parte dos primeiros refugiados a chegar no Brasil decidiu voltar ao Afeganistão alguns anos depois. Foi o caso do marido de Nabila (à direira), que não se adaptou
Arquivo pessoal/Via BBC
Uma ONG chamada Centro de Orientação e Encaminhamento (Cenoe) ficou responsável por coordenar o esforço de integração dos afegãos, providenciando as residências, angariando ofertas de trabalho e aulas de português.
“As famílias estavam muito esperançosas. Elas vinham de situação difícil, sem direitos, vivendo em campos de refugiados. O país deles estava em guerra e eles tinham a oportunidade de recomeçar no Brasil”, disse à BBC News Brasil o advogado Gerson Heeman, que coordenou, como integrante da Cenoe, a recepção aos afegãos.
“Eles tinham muitas expectativas e vontade de recomeçar, mas a minha impressão é a de que pouco sabiam sobre o Brasil.”
Choque de cultural
Pouco tempo depois de desembarcar no país, os refugiados se depararam com um choque de realidade. Para Heeman, no imaginário deles, o Brasil era um país rico, cheio de oportunidades. Mas grande parte das ofertas de emprego disponíveis não oferecia remuneração alta.
Alguns dos refugiados tinham completado cursos de graduação. Um deles era professor universitário, um outro era engenheiro elétrico. Mas sem possibilidade imediata de revalidar seus diplomas no Brasil e sem dominar o português, não conseguiriam trabalhar com a especialização de origem.
Foram oferecidas 277 vagas de emprego aos refugiados, após campanha junto a empresas da cidade, diz Heeman. A maioria, no entanto, pagava o salário mínimo vigente na época.
“Houve uma decepção deles com a realidade do Brasil, além da adaptação cultural. Eles tinham uma expectativa maior de remuneração, já que comparavam com a vida de parentes que haviam sido reassentados no Canadá”, diz Heeman.
Os afegãos também se depararam com uma cultura muito diferente e com a ausência de uma comunidade muçulmana, para se sentirem mais acolhidos.
“Eles eram os primeiros afegãos em Porto Alegre. Países europeus, Canadá e Estados Unidos já estavam mais acostumados a receber imigrantes e refugiados de países da Ásia e do Oriente Médio”, destaca Heeman.
O porta-voz da Acnur no Brasil, Luiz Fernando Godinho, também ressalta que o processo de integração não foi simples.
“Para pessoas vindas de muito longe, de áreas do Oriente Médio e da África, a cultura brasileira é muito diferente. Há um choque cultural. Depois, tem a barreira do idioma, que é preciso transpor para alcançar o mercado de trabalho”, disse à BBC News Brasil.
Uns ficaram, outros foram embora
Alguns anos depois de se mudar para o Brasil, integrantes de três famílias decidiram voltar ao Afeganistão.
O motivo não foi somente a dificuldade de adaptação, mas também a esperança de participar da reconstrução de um Afeganistão sem os talibãs no poder.
“Em 2003, quando a situação estava mais estabilizada, eles decidiram voltar, comentaram que poderiam retomar a vida lá e estavam animados para ajudar na reconstrução do país pós-talibã”, conta Heeman.
Mas outros afegãos do grupo decidiram ficaram no Brasil. Foi o caso de Omar Atbai, de 30 anos, que hoje trabalha na área de informática. A mãe dele, Roqia, e as duas irmãs continuaram no Brasil. Mas o pai decidiu voltar ao Afeganistão em 2005.
“Meu pai viveu aqui por dois anos, mas não se adaptou e resolveu voltar”, diz Omar, que nunca mais retornou ao país natal.
Omar Atbai, de 30 anos, deixou Cabul em 1996, morou na Índia e, há quase 20 anos, mora em Porto Alegre
Arquivo Pessoal
O marido de Nabila também não se adaptou e quis retornar ao Afeganistão em 2007. Ela se recusou a sair do Brasil e não deixou que ele levasse os filhos.
“Ele começou a ficar com ciúmes de mim, não queria me deixar trabalhar e a gente precisava do dinheiro. O Brasil era muito liberado para ele. Eu disse que ia ficar, não ia deixar meus filhos vivendo na guerra. Ele foi e eu fiquei”, conta.
Atualmente, só os filhos mantêm contato com o pai, mas faz três meses que não conseguem notícia.
Heeman, da ONG Cenoe, conta que além das mulheres que decidiram se separar dos maridos e ficar no Brasil, vários jovens se adaptaram rapidamente e não quiseram voltar ao Afeganistão com os pais.
O filho de um casal que voltou ao país em 2003, por exemplo, resolveu ficar no Brasil, onde estava bem posicionado no ramo de venda de tapeçarias persas. Uma outra família assentada em Porto Alegre conseguiu empregos na área de corte de carnes halal que segue os preceitos do islã.
‘Saldo positivo’
Apesar de ter havido repatriação de parcela dos primeiros afegãos que chegaram ao Brasil, Heeman diz considerar que o saldo do programa de reassentamento foi positivo.
O esquema só existiu por um ano. Desde então, a entrada de afegãos passou a se dar por pedido de refúgio – a pessoa entra no Brasil pelos próprios meios e pede para permanecer. De 2016 a 2020, o país concedeu refúgio a 88 afegãos, segundo dados do Ministério da Justiça.
“Eu acho que foi positivo o programa de reassentamento, porque as famílias que voltaram fizeram isso num momento diferente, avaliando que a situação havia melhorado com a queda do Talibã. E as famílias que ficaram conseguiram uma inserção na sociedade.”
Godinho também destaca que é natural que alguns refugiados acabem sendo repatriados ou busquem acolhida num terceiro país com o qual se identifiquem mais.
“Não existe uma cartilha. Não é só seguir um manual que vai funcionar igual para todos. As pessoas tem seus traumas, suas maneiras de lidar com as situações. Algumas resistem à nova realidade. Algumas se adaptam, outras não”, diz o representante da Acnur.
Nabila, hoje com 43 anos, fala português fluentemente e trabalha na casa de uma família, fazendo faxina e cozinhando, além de cuidar de uma idosa às tardes. Os dois filhos, de 27 e 28 anos, estão trabalhando, são independentes financeiramente e, segundo ela, não pensam em deixar o país. Ela não abre mão do hijab, frequenta a mesquita da cidade, e diz que considera o Brasil sua casa.
“O Brasil é um país bom. Se não fossem os roubos, seria o melhor país do mundo. Eu, mesmo se tivesse oportunidade de morar no Canadá ou nos Estados Unidos, ia querer continuar a morar no Brasil. As pessoas aqui são maravilhosas, são acolhedoras, sabem olhar para a dor do outro.”
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Fonte: G1 Mundo

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Talibãs impedem jornalista afegã de trabalhar


Shabnam Dawran, uma apresentadora de telejornal, foi barrada na sede da empresa em Cabul. Afeganistão: apresentadora é proibida de entrar em emissora; filho de comandante pode ser uma esperança contra o Talibã
Uma jornalista do Afeganistão informou, na quinta-feira (19), ter sido impedida de trabalhar em sua emissora de televisão, depois que o Talibã retomou o poder. Shabnam Dawran, a apresentadora, publicou um vídeo em redes sociais no qual pede ajuda.
Após trabalhar durante seis anos como jornalista para a emissora estatal afegã RTA, Dawran afirmou esta semana que teve o acesso negado à redação, enquanto seus colegas homens podiam fazê-lo.
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No vídeo, ela aparece usando um hijab e mostra sua identificação como jornalista. Dawran afirma que sua vida está ameaçada.
Membros do Talibã em um posto de controle em Cabul, no Afeganistão, nesta terça-feira (17)
Stringer/Reuters
“Não me dei por vencida, após a mudança de regime e me dirigi para o meu escritório. Infelizmente, não tive permissão para entrar”, disse.
“Aqueles que estão me ouvindo, se é que o mundo me ouve, ajudem-nos, pois nossas vidas estão ameaçadas”, concluiu.
Sob o governo talibã, entre 1996 e 2001, entretenimentos como televisão e música foram proibidos, as mãos dos ladrões eram cortadas, e assassinos, executados em público. As mulheres ficaram proibidas de trabalhar, ou estudar; e as acusadas de adultério eram açoitadas e apedrejadas até a morte.
VÍDEO: Meninas voltam a frequentar escola em cidade afegã mesmo com volta do Talibã
Talibã mata parentes de jornalista
Nesta sexta-feira, talibãs mataram a tiros o parente de um jornalista que trabalhava para a Deutsche Welle (DW) no Afeganistão e era procurado pelos militantes. Foi o canal público de televisão alemão que revelou a morte.
Um outro familiar do jornalista, que não teve a identidade revelada e atualmente trabalha na Alemanha, ficou gravemente ferido. Vários parentes conseguiram fugir enquanto os talibãs seguiam de porta em porta. A DW não informou a nacionalidade das vítimas.
Alguns jornalistas afegãos dizem que foram espancados e tiveram suas casas invadidas desde que o Talibã tomou a capital Cabul, no domingo (15), e voltou ao poder após 20 anos. A DW diz que os talibãs foram às residências de pelo menos três jornalistas da emissora.
Talibã havia dito que permitiria o trabalho da imprensa
Após a queda de Cabul, os talibãs afirmaram que as mulheres poderão exercer seus direitos, incluindo educação e trabalho, desde que dentro da sharia, a lei islâmica. O grupo também afirmou que a imprensa será livre e independente, mas que os jornalistas não devem trabalhar contra os valores islâmicos.
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Fonte: G1 Mundo

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Talibãs matam parente de jornalista de canal alemão no Afeganistão

Talibãs mataram a tiros o parente de um jornalista que trabalhava para a Deutsche Welle (DW) no Afeganistão e era procurado pelos militantes, informou o canal público de televisão alemão nesta sexta-feira (20).
Um outro familiar do jornalista, que não teve a identidade revelada e agora está na Alemanha, ficou ferido. Vários parentes conseguiram fugir enquanto os talibãs seguiam de porta em porta.
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Apesar da tentativa inicial do Talibã de tentar passar uma imagem menos radical, militantes do grupo extremista têm intensificando a busca por pessoas casa a casa, segundo documento confidencial da ONU (Organização das Nações Unidas).
O jornal “The New York Times” revelou na quinta-feira (19) que o documento apontava ameaças de matar ou prender familiares caso os alvos não fossem encontrados, exatamente como ocorreu com o parente do jornalista.
O documento e a execução contradizem diretamente as garantias públicas do grupo extremista de que não buscaria vingança. Os alvos são pessoas que os talibãs acreditam ter trabalhado para forças de segurança dos Estados Unidos e da Otan e entidades internacionais.
“O assassinato de um parente de um de nossos editores pelos talibãs ontem (quinta-feira) é incrivelmente trágico e ilustra o grave perigo em que se encontram todos os nossos funcionários e suas famílias no Afeganistão”, afirmou Peter Limbourg, diretor geral da DW, em um comunicado.
“Está claro que os talibãs estão executando operações organizadas de busca de jornalistas, tanto em Cabul como nas províncias. O tempo está acabando”, completou.
A DW informou que os talibãs compareceram às residências de pelo menos três jornalistas da emissora.
O canal e outros meios de comunicação da Alemanha pediram ao governo de Berlim que atuem rapidamente para ajudar seus funcionários afegãos.
Depois de tomar o poder no Afeganistão em entrar em Cabul no domingo, os talibãs iniciaram uma campanha de Relações Públicas e prometeram respeitar a liberdade de imprensa, além de perdoar todos os opositores.
Porém, um documento confidencial da ONU, ao qual a AFP teve acesso, afirma que estão intensificando a busca de pessoas que trabalharam com as tropas dos Estados Unidos e da Otan.
Os afegãos não esqueceram o regime islâmico ultraconservador imposto pelos talibãs quando governaram de 1996 a 2001, com castigos brutais, como o apedrejamento até a morte.

Fonte: G1 Mundo

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‘Fui às aulas mesmo após ter visto colegas mortos na minha universidade. Mas agora preciso fugir. Os assassinos estão no poder’, diz estudante afegã


Em novembro de 2020, Hada Hamidi estava na Universidade de Cabul quando a instituição foi atacada por homens armados. Apesar do trauma, ela quis ‘ser forte e continuar estudando’. Nesta semana, no entanto, os planos mudaram com o avanço do Talibã: a jovem teve de abandonar o curso de engenharia para se esconder em outro país. ‘Preciso fugir. Os assassinos estão no poder’, diz afegã após Talibã tomar o Afeganistão
“Há três anos, entrei na Universidade de Cabul, mesmo com todos os problemas do meu país. Sempre fui contrária à ideia de que meninas devem só se casar; nunca quis isso para mim. Tentei estudar, me tornar independente e provar que mulheres não são fracas. Elas têm direito à educação.”
A declaração acima é de Hada Hamidi, de 21 anos, aluna de engenharia de uma das principais instituições de ensino da capital do Afeganistão. Ela terminaria a graduação em dezembro de 2022.
O que a jovem não esperava é que o grupo extremista Talibã tomaria Cabul em agosto de 2021, voltando ao poder.
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As consequências foram imediatas: Hada teve de abandonar a graduação e se trancar em casa com a irmã, de 1 ano, e os pais. Pelo histórico de interpretação radical que os insurgentes fazem do Islã, mulheres costumam ser proibidas de estudar e trabalhar.
Hada preferiu preservar seu rosto nas fotos
Arquivo pessoal
“Meu coração e minha alma sofrem, porque não vai ter jeito: preciso deixar a terra que amo e emigrar. Tenho esperança de um dia voltar e ser um símbolo da coragem da mulher afegã”, conta Hada.
‘Vi os corpos na minha frente’
Quando ela diz que enfrentou obstáculos para continuar estudando, refere-se, por exemplo, ao fato de ter presenciado um ataque terrorista em 2 de novembro de 2020.
Durante uma feira de livros na Universidade de Cabul, homens armados invadiram o local, efetuaram disparos por 5 horas, fizeram reféns e mataram mais de 20 pessoas. No mesmo dia, o Estado Islâmico reivindicou a autoria do atentado.
“Eu estava lá e vi os corpos dos alunos na minha frente: estudantes que morreram com todas as suas aspirações”, diz. “Depois disso, continuei frequentando as aulas, porque falei a mim mesma: ‘sou forte’. Foi essa frase que me fez prosseguir. Só que agora preciso fugir – os assassinos estão no poder”.
Tentativa de sair do país
O pai de Hada foi o único da família que saiu de casa nos últimos dias. De manhã, aproveitava para comprar os mantimentos básicos. “Ele consegue usar as mesmas roupas dos homens do Talibã, então, o risco é menor [em relação ao que as mulheres da família correriam]”.
Mesmo assim, todos ficam tensos. “Meu pai trabalha na indústria de cinema. Então, nossas vidas estão em perigo, porque os radicais são muito hostis a pessoas ligadas à mídia”, diz a jovem.
Na quarta-feira (18), Hada contou ao G1, em entrevista, que o plano era fugir para a Índia e aguardar lá por um visto que autorizasse a ida da família ao Canadá. “Espero poder estudar inglês com meus livros favoritos, ir para a América legalmente e ser aceita em uma universidade.”
No dia seguinte, a jovem estabeleceu um breve contato de dentro do carro que a levava para o aeroporto. “Ligaram para a nossa casa e disseram que conseguimos o visto canadense. Mas não tenho condições de falar mais nada. Estou passando mal depois do que vi nas ruas agora.”
Hada não entrou em detalhes sobre o que havia presenciado. Até a última atualização desta reportagem, também não confirmou se conseguiu embarcar para outro país.
‘Vocês, brasileiras, são muito sortudas’
“Nunca vou esquecer que nosso povo sofreu tanta dor. Como podemos aceitar assassinos como nossos governantes? O Islã a que eles [membros do Talibã] se referem não é o Islã real. Minha querida religião não é opressiva”, afirma Hada.
“Vocês, brasileiras, são muito sortudas, porque vivem em um país sem guerra, em paz. Valorizem sua comunidade e busquem seu melhor. Ninguém deveria jamais pensar que uma mulher é fraca e dependente do homem.”
Feminismo e inspiração
Hada quer se formar em engenharia, mas sem abandonar sua paixão pela literatura.
“Meu desejo é me tornar também uma boa escritora, que lute pelos direitos das mulheres. Quero falar para elas: ‘vocês não são fracas. Por favor, não deixem a sociedade anular vocês.’”
Vídeos sobre o Afeganistão

Fonte: G1 Mundo

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Alemanha estende acesso à cidadania; veja se você tem direito


Nova lei passa a valer a partir desta sexta-feira (20) e facilita que pessoas tenham o direito à cidadania alemã. Prazo para fazer o pedido é até agosto de 2031. Principais beneficiados são pessoas perseguidas pelo nazismo e seus descendentes, e filhos de alemães que ainda não tinham direito à nacionalidade de forma automática. Rastros das luzes do trânsito colorem a frente do Portão de Brandemburgo, em Berlim, em foto feita com longa exposição durante o amanhecer
Michael Probst/AP
A partir desta sexta (20) entra em vigor na Alemanha uma alteração na Lei de Cidadania que facilita a conquista da nacionalidade para perseguidos pelo nazismo e seus descendentes. Também são beneficiados filhos de alemães que não tinham direito à cidadania. Neste caso, havia filhos de alemães que não conseguiam a cidadania por causa do ano de nascimento ou até porque os pais não tinham se casado, entre outros motivos.
A nova lei foi publicada no Diário Oficial alemão nesta quinta-feira (19) e entra em vigor a partir desta sexta. O projeto havia sido aprovado no Parlamento em 25 de junho deste ano.
A lei também determina que os beneficiados pela lei façam o pedido de cidadania em até 10 anos – ou seja, até 19 de agosto de 2031. E que, após esse prazo, não será mais possível pedir a nacionalidade considerando essas regras.
Passaporte Alemão
Christian Horvath/Wikimedia Commons
O advogado Fabio Werlang, fundador da empresa Hannover Cidadania Alemã, afirma que a alteração na Lei de Cidadania faz uma reparação às discriminações históricas que ocorreram mesmo após a entrada em vigor da Lei Fundamental alemã de 1949.
“A nova Lei de Cidadania alemã era um desejo antigo de milhares de pessoas que buscavam a cidadania do país de seus antepassados e eram impedidas pelas leis injustas, discriminatórias e inconstitucionais que a Alemanha aplicava na análise dos pedidos de cidadania. Com certeza, hoje é um dia histórico para todos aqueles que lutaram por esse direito, que finalmente foi reconhecido pelo Parlamento”
Veja na tabela abaixo os principais beneficiados pela mudança na lei:
“É uma grande sorte para o nosso país que as pessoas desejem adquirir a cidadania alemã, embora tenhamos despojado os seus antepassados ​​de tudo o que tinham. Não se trata apenas de uma restituição, mas de pedir perdão com um sentimento profundo de vergonha”, disse Horst Seehofer, ministro do Interior da Alemanha, em março de 2021.
Frank-Walter Steinmeier, presidente da Alemanha, participou em 21 de maio deste ano de uma cerimônia especial de naturalização com seis cidadãos recém-naturalizados em reconhecimento ao 72º aniversário da lei básica do país, ou Grundgesetz, no Palácio Presidencial de Bellevue em Berlim, Alemanha. Os cidadãos alemães naturalizados eram do Egito, Reino Unido, Irã, Israel, Polônia e Turquia.
imago images/IPON via Reuters Connect
Para o Consulado da Alemanha em São Paulo, a nova lei ainda cria “um novo enquadramento legal para a reparação de prejuízos em matéria de lei da nacionalidade para vítimas da perseguição nacional-socialista e seus descendentes”. Esse grupo passa a ter direito à “naturalização reparatória por perseguição”. Nesta situação, não há prazo para solicitar a naturalização.
“A proposta de lei abrange direitos legais à naturalização para pessoas que, por causa de medidas persecutórias nacional-socialistas, tenham perdido ou nem sequer tenham obtido a nacionalidade alemã e que não se encontram abrangidas pelo direito garantido nos termos do número 2 do artigo 116º da Lei Fundamental Alemã. O direito à naturalização assiste também a todos os descendentes das pessoas afetadas.”
Chanceler Angela Merkel participa de sessão do Parlamento alemão em Berlim em 26 de junho de 2021
imago images/Future Image via Reuters Connect
Entre os beneficiados pela nova lei estão os filhos de alemães com uma pessoa estrangeira cujos pais não casaram, quando nascidos antes de 1º de julho de 1993. Para ter a cidadania, os filhos precisavam ter forte ligação com o país e o idioma e passar por um processo chamado “naturalização facilitada”, criado em 2013. Veja outras situações de beneficiados na tabela desta reportagem.
Nesse caso, até agosto de 2019, era necessário comprovar o conhecimento avançado em alemão (nível C1). Depois, o nível caiu para alemão intermediário (B1). A pessoa também precisava passar por uma entrevista no consulado e, ao fim do processo, responder, em alemão, a um questionário múltipla-escolha com perguntas sobre o país (“Einbürgerungstest”).
Alemanha lembra os 60 anos do início da construção do Muro de Berlim

Fonte: G1 Mundo

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Medo de ser linchado como antecessor explica fuga de presidente afegão


Ashraf Ghani pode ter evitado a sina do ex-presidente Mohammad Najibullah, torturado e executado no primeiro governo talibã, mas sai desacreditado por abandonar o país. O presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, durante discurso na conferência de 2021 da Ásia Central e Sul em Tashkent, no Uzbequistão, em 16 de julho
AP
Troféu principal nas guerras do Afeganistão, a capital Cabul finalmente se rendeu neste domingo ao domínio Talibã, na última etapa de uma ofensiva de apenas 10 dias para que o grupo radical retomasse o controle do país. O presidente Ashraf Ghani não esperou a entrada dos militantes e desconfiou da oferta de uma transferência de poder pacífica. Fugiu do país e só reapareceu três dias depois, nos Emirados Árabes Unidos, onde se exilou.
No comando do país desde 2014, Ghani justificou a saída precipitada e muito criticada pelos compatriotas: quis evitar o derramamento de sangue. Mas quem se lembra da primeira tomada de Cabul pelo Talibã, em 1996, entendeu que ele também fugiu do destino que teve outro antecessor — o de ser linchado.
Há 25 anos, enquanto Cabul caía, o ex-presidente Mohammad Najibullah foi retirado à força do complexo da ONU por extremistas do grupo, torturado, castrado e arrastado por um jipe até a morte. Seu corpo e o do irmão ficaram pendurados num poste, expostos à população, numa dura mensagem do que viria pela frente.
Conhecido como Dr. Nagib, o médico Najibullah chefiou o serviço secreto afegão e caiu nas graças dos soviéticos e foi alçado à presidência em 1987. Permaneceu no poder até 1992, abandonado por seus protegidos, depois que o império soviético ruiu. Tentou negociar uma saída para a Índia, mas fracassou. Refugiou-se, então, por quatro anos na sede da ONU na capital afegã de onde foi retirado à força para a morte.
A brutal execução de Najibullah, o último presidente comunista do Afeganistão, pode ter servido de lição para Ghani abandonar o país. Relatos divulgados por uma agência de notícias russa dão conta de que teria fugido com um helicóptero e quatro carros cheios de dinheiro e foram categoricamente desmentidos por ele.
As 7 imagens mais marcantes da tomada do Afeganistão pelo Talibã
O presidente estava enfraquecido politicamente e seu governo, assolado por denúncias de corrupção. No ano passado foi excluído das negociações com o Talibã, promovidas pelo governo Trump.
Quando Biden marcou para 31 de agosto a retirada das tropas americanas, Ghani resistiu aos apelos para renunciar, assegurando que permaneceria no país. “Não vou fugir! Não procurarei porto seguro. Estarei a serviço da população”, garantiu em 4 de agosto, 11 dias antes de o Talibã adentrar a capital.
Sem munição e alimentos, militares afegãos não resistiram ao avanço do grupo extremista. Parte deles se rendeu, a outra mudou para o lado talibã. E Ghani debandou, acelerando a queda do governo, sob críticas de compatriotas e de membros de seu Gabinete.
Assim como garantiu que não deixaria o país, ele agora assegura que retornará ao Afeganistão ainda como presidente. Mas lhe falta credibilidade.
Vídeos: Histórias e relatos sobre o caos no Afeganistão
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Fonte: G1 Mundo

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Novos vídeos e fotos agravam escândalo da festa clandestina do presidente argentino


Nas últimas horas, a divulgação de mais imagens da festa e de uma comemoração política em meio a pandemia aceleraram o desgaste do presidente argentino, a três semanas das eleições primárias. Festa clandestina durante a pandemia na residência oficial da presidência argentina
Reprodução
Três breves vídeos da festa clandestina de aniversário da primeira-dama, Fabiola Yañez, com a participação do presidente Alberto Fernández, foram divulgados nas últimas horas pelo próprio governo argentino como uma estratégia de controlar os danos e de esgotar o assunto rapidamente.
“O mais provável é que o governo tenha ponderado entre duas opções: ou permitir o desgaste da imagem do presidente a conta-gotas ou detonar o desgaste de uma só vez”, avalia o analista político Jorge Giacobbe.
“Optaram por acelerar o assunto agora, difundindo os vídeos antes que caíssem nas mãos da oposição.”
Presidente da Argentina se desculpa por festa clandestina; oposição pede impeachment
A pressa por esgotar o assunto explica-se pelas eleições primárias do próximo 12 de setembro, quando os argentinos irão às urnas para elegerem os candidatos para as eleições legislativas de 14 de novembro. As primárias na Argentina costumam funcionar como um primeiro turno.
Imagem de Alberto Fernández, da Argentina, em 6 de agosto de 2021
Gabriel Bouys/Reuters
Os vídeos são fragmentos da festa do dia 14 de julho de 2020, aniversário da primeira-dama, quando regia um decreto elaborado e assinado pelo próprio presidente, um advogado penalista, através do qual se impunha um isolamento social, a proibição de circulação para pessoas cujos trabalhos não fossem essenciais e a proibição de qualquer reunião social.
Nos vídeos, nenhum dos convidados exibe máscaras nem mantém distanciamento social. Em determinado trecho, ouve-se o próprio presidente a tossir.
As imagens deixam claro que se tratou de um jantar na residência oficial com vinho, bolo de aniversário e champanhe, embora a comunicação oficial na época indicasse que “o aniversário da primeira dama, por ser em plena pandemia, seria por ‘zoom’ e com máscaras de proteção”.
Os vídeos parecem ter sido cuidadosamente editados, com cortes em momentos em que as imagens indicariam beijos e abraços da aniversariante com os convidados.
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Nova festa clandestina
Em outro episódio agora revelado, o presidente aparece também na residência oficial numa comemoração em dezembro do ano passado com mais de 50 convidados, todos legisladores da sua coligação.
A oposição vai pedir nesta quinta-feira (19) uma investigação porque vários dos legisladores que aparecem na festa teriam alegado ser grupo de risco ou contato estreito de contagiados para não participarem, um dia antes, de uma sessão no plenário da Câmara de Deputados.
Segundo uma sondagem da consultora Management & Fit, 76,1% dos entrevistados consideram que o episódio da festa clandestina na residência oficial é um caso “grave ou muito grave”. Além disso, 60,2% consideram que o episódio merece ter consequências.
A Justiça avança com uma investigação para determinar as responsabilidades na violação do isolamento social por parte do casal presidencial e dos seus convidados.
Os artigos 205 e 239 do Código Penal, aos que Alberto Fernández fazia alusão a cada novo anúncio de renovação do confinamento, estabelecem penas de seis meses a dois anos de prisão a quem violar as medidas.
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Consequências políticas
A oposição entrou com um pedido de destituição no qual Alberto Fernández é acusado de mal desempenho e de eventuais delitos durante o exercício das suas funções. As chances de uma destituição avançar são mínimas porque a oposição não conta com os necessários dois terços dos votos tanto na Câmara de Deputados quanto no Senado.
“Se alguns pensam que vou cair por um erro que cometi, saibam que me fortalecem”, esbravejou o presidente nesta semana, depois do pedido de “impeachment”.
“O mais provável é que o sistema político proteja o presidente enquanto o sistema judiciário adie qualquer definição ou encontre uma forma de minimizar as consequências. A única coisa que vai realmente castigar ou não a conduta do presidente é a opinião pública através do voto”, acredita o analista político Jorge Giacobbe.
A consultora D’Alessio IROL/Berensztein detectou que 24% que votariam no governo nas próximas eleições legislativas, agora pensam em votar na oposição.
Desde que surgiram as primeiras informações de uma festa clandestina, o governo mudou o discurso à medida que as provas apareciam. Primeiro, negou qualquer festa clandestina. Quando surgiu a primeira foto, alegaram que se tratava de uma montagem. Quando surgiu a segunda foto, o presidente Alberto Fernández admitiu e classificou o episódio como “um erro” e como “um deslize”.
“Lamento o que aconteceu. Não vai voltar a acontecer”, limitou-se a dizer, quando o país esperava um pedido de desculpas.
Segundo uma pesquisa da consultora Synopsis, 20,3% dos entrevistados consideram que se tratou de “um erro” enquanto 71,7% vê imoralidade e delito no assunto.
A Argentina teve a mais prolongada e estrita quarentena do mundo ao longo de 233 dias em 2020 que, no entanto, não impediu o contágio de 5,106 milhões de pessoas e a morte de 109.652 delas.
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Presidente da Argentina diz que brasileiros “vêm da selva”

Fonte: G1 Mundo