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Voos aeroporto Cabul Afeganistão

Os voos de evacuação foram retomados nesta terça-feira (17) no aeroporto internacional de Cabul, no Afeganistão, um dia após as cenas de caos registradas no local durante a fuga de estrangeiros e afegãos do Talibã.

Fonte: G1 Mundo

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Afegão que vive no Brasil há 6 anos diz que está preocupado com família após domínio do Talibã: ‘Queremos paz’


Sayed Abdul Rahman Hashimi, de 30 anos, saiu do Afeganistão em 2015 para estudar no Brasil. Hoje vive com esposa e filho, que nasceu brasileiro, mas já teve que trabalhar até como camelô para se sustentar. Sayed na época em que morava no Afeganistão.
Sayed Abdul Rahman Hashimi/ Arquivo pessoal
“Estou chocado, tenho irmãs, sobrinhos e cunhados vivendo em Cabul”.
Esse é o sentimento do engenheiro civil Sayed Abdul Rahman Hashimi, de 30 anos, a respeito da invasão do Talibã no Afeganistão, local onde nasceu e foi criado. Ele contou que falou com os parentes e, “por enquanto”, estão em segurança, em casa.
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Ele saiu de Cabul, capital do país, em 2015, para morar e estudar no Brasil. Ele cursou uma especialização em engenharia, em 2019, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
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Em conversa ao G1, Sayed disse que, mesmo depois de ter conseguido conversar com seus parentes que moram em Cabul, ele está preocupado com a segurança deles no local.
“Eles estão juntos, em casa, em segurança, mas contaram que nada funciona lá, tudo fechado, aeroporto com aglomeração e voos cancelados, não tem polícia, não tem governo, até nossa bandeira, eles tiraram e colocaram outra no lugar. Me preocupo com eles, apesar de saber que, por enquanto, estão bem”, contou.
Sayed na faculdade de engenharia no Afeganistão, em 2013
Arquivo pessoal
Sayed disse que a família ainda não pensa em sair de lá para vir para o Brasil. “Ainda é muito complicado para eles saírem de lá”.
Os pais, o irmão, sobrinhos e uma cunhada de Sayed moram em São Paulo desde 2009. “Meu irmão estava correndo perigo em Cabul e por isso saíram de lá”, disse o engenheiro, sem dar detalhes.
Ele se formou e se casou no Afeganistão. Devido às dificuldades em conseguir um emprego “melhor”, ele e a esposa decidiram vir para o Brasil para estudar e tentar “mudar de vida”.
“Lá eu trabalhava na construção dos projetos que militares dos Estados Unidos estavam fazendo para militares do Afeganistão, as coisas estavam difíceis e, quando cheguei no Brasil, comecei a trabalhar até como camelô”, contou.
Sayed conseguiu a naturalização brasileira em 2019. Atualmente, ele trabalha como autônomo e mora com a esposa e o filho, que nasceu no Brasil.
“Minha vida está melhorando aqui e estou muito feliz. Desejo paz no Afeganistão, não importa quem fique no governo, queremos paz, eles sofrem há 50 anos, que a situação melhore por lá”, deseja Sayed.
Sayed e amigos em Cabul, no Afeganistão.
Arquivo pessoal
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Fonte: G1 Mundo

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Otan se diz preocupada com ataques a civis e abusos graves dos direitos humanos

O secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Jens Stoltenberg, informou em nota que o conselho do organismo está reunido nesta terça-feira (17) para discutir a crise no Afeganistão.
“Continuamos a avaliar os desenvolvimentos no terreno e estamos em contato constante com as autoridades afegãs e o resto da comunidade internacional. Nosso objetivo continua sendo apoiar o governo e as forças de segurança afegãs tanto quanto possível. A segurança do nosso pessoal é primordial. A Otan manterá presença diplomática em Cabul e continuará a se ajustar conforme necessário”, informou a Otan em comunicado.
Segundo Stoltenberg, “os aliados da Otan estão profundamente preocupados com os altos níveis de violência causados pela ofensiva do Talibã, incluindo ataques a civis, assassinatos seletivos e relatos de outros abusos graves dos direitos humanos”.
O comunicado diz ainda que “o Talibã precisa entender que não será reconhecido pela comunidade internacional se tomar o país à força” e que a Otan “continua empenhada em apoiar uma solução política para o conflito”
Líderes mundiais se manifestaram na segunda-feira (16) sobre a chegada do Talibã ao poder no Afeganistão, um dia depois de o grupo extremista tomar a capital, Cabul, e de o presidente Ashraf Ghani deixar o país.
A preocupação com a retomada do terrorismo foi mencionada pelo presidente da França, Emmanuel Macron, e também pelo Conselho de Segurança da ONU, que se reuniu de forma emergencial.
“A comunidade internacional deve se unir para garantir que o Afeganistão nunca mais seja usado como plataforma ou refúgio de organizações terroristas”, disse o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres.
Os 15 membros do Conselho emitiram uma declaração na qual pedem o fim imediato da violência e “uma solução pacífica por meio de um processo de reconciliação nacional liderado e pertencente aos afegãos” e com um novo governo “que seja unido, inclusivo e representativo, incluindo a participação plena, igual e significativa das mulheres”.
Dever da França
Segundo o presidente francês, grupos terroristas existentes naquele país tentarão se aproveitar da instabilidade deste momento.
Macron negou, porém, a possibilidade de intervenção, mesmo dizendo que fará de tudo para que a “Rússia, os Estados Unidos e a Europa cooperem de maneira eficaz” na luta contra o terrorismo. Segundo ele, o Afeganistão “tem seu destino em suas mãos”.
Em um discurso transmitido pela TV, Macron lembrou os 13 anos em que o Exército francês esteve no Afeganistão ao lado dos norte-americanos (entre 2001 e 2014), e disse que a França vai continuar a repatriar afegãos que trabalharam para o país durante esse período.
Ele afirmou que cerca de 800 deles já teriam chegado ao país e que dois aviões e forças especiais continuam empenhados na retirada de mais pessoas.
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Alemanha repatria 10 mil
A primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, chamou a situação de “amarga, dramática e aterrorizante” e enfatizou que é preciso focar no resgate de estrangeiros e também de afegãos que ajudaram as forças aliadas da Otan.
Ela disse ainda que esforços serão feitos para oferecer apoio e refúgio, especialmente para a equipe de apoio afegã que ajudou os militares alemães.
A Alemanha deve repatriar 10 mil pessoas no total, incluindo mais de 2,5 mil afegãos que ajudaram as forças da OTAN durante o período de combate ao Talibã, além de advogados e militantes de direitos humanos.
Merkel ressaltou também que é preciso garantir ajuda aos países vizinhos que devem receber muitos afegãos em fuga para evitar uma nova crise de refugiados.
“Não devemos repetir o erro do passado quando não demos fundos suficientes para o ACNUR e outros programas de ajuda humanitária e as pessoas deixaram a Jordânia e o Líbano em direção à Europa”, lembrou.
Reino Unido não consegue retirar todos
Nesta segunda-feira, o secretário de Defesa do Reino Unido, Ben Wallace, admitiu que “algumas pessoas não conseguirão sair”, ao dizer que o país não conseguirá retirar do país todos os seus aliados afegãos.
Contendo as lágrimas, ele estimou que ainda existem 4 mil pessoas, entre britânicos e afegãos que prestaram serviços ao Reino Unido, como tradutores, por exemplo, que precisam ser retirados do Afeganistão, e disse que a expectativa é de que as forças britânicas consigam remover mil por dia.
Ele acrescentou que alguns dos afegãos terão que fazer pedidos de asilo, possivelmente para outros países.
Um porta-voz do premiê Boris Johnson negou que tenha havido falhas no sistema de inteligência, que subestimou o prazo para a retirada do pessoal, acreditando que a queda de Cabul levaria mais tempo.
“Eu não descreveria dessa forma. Obviamente, trabalhamos em estreita colaboração com o governo anterior do Afeganistão para apoiá-lo em várias frentes diferentes e temos monitorado a situação de perto”, disse o porta-voz. “É evidente que o Talibã se moveu rapidamente por todo o país”.
No domingo, após o grupo extremista assumir o controle da capital Cabul, Johnson afirmou que nenhum país deverá reconhecer o Talibã como governo do Afeganistão. “Queremos uma posição unida entre os que pensam da mesma forma, o tanto quanto pudermos”, disse, em um pronunciamento em vídeo.
China e Rússia
Nesta segunda, porém, a China afirmou que deseja manter “relações amistosas” com o Talibã. China e Afeganistão são países vizinhos e têm 76 km de fronteiras comum.
A China “respeita o direito do povo afegão a decidir seu próprio destino e futuro e deseja seguir mantendo relações amistosas e de cooperação com o Afeganistão”, afirmou à imprensa a porta-voz da diplomacia chinesa, Hua Chunying.
Já o encarregado russo para o Afeganistão, Zamir Kabulov, afirmou nesta segunda-feira que o embaixador de seu país em Cabul se reunirá na terça-feira (17) com os talibãs e que a Rússia decidirá se reconhece ou não o governo do Talibã de acordo com as ações do grupo.

Fonte: G1 Mundo

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O Assunto #518: Afeganistão na mão do Talibã


“As meninas estão com muito medo”, relata a jornalista Adriana Carranca sobre a situação de mulheres afegãs em pânico depois da tomada de poder pelo Talibã. Adriana é uma das convidadas de Natuza Nery neste episódio – autora do livro “O Afeganistão depois do Talibã”, ela viajou ao país quatro vezes e diz que a sensação ao chegar lá é de “voltar 2 mil anos” no tempo. Participa também Daniel Wiedemann, coordenador da redação da TV Globo em NY. É ele quem explica como os EUA perderam a mais longa guerra de sua história. Você pode ouvir O Assunto no G1, no GloboPlay, no Spotify, no Castbox, no Google Podcasts, no Apple Podcasts, no Deezer, na Amazon Music, no Hello You ou no sua plataforma de áudio preferida. Assine ou siga O Assunto, para ser avisado sempre que tiver novo episódio.
“As meninas estão com muito medo”, relata a jornalista Adriana Carranca sobre a situação de mulheres afegãs em pânico depois da tomada de poder pelo Talibã. Adriana é uma das convidadas de Natuza Nery neste episódio – autora do livro “O Afeganistão depois do Talibã”, ela viajou ao país quatro vezes e diz que a sensação ao chegar lá é de “voltar 2 mil anos” no tempo. Segundo Adriana, em sua última visita (2014) já era possível notar como o grupo estava perto de Cabul. A jornalista narra como afegãos estão “sitiados em casa” e relembra como os extremistas adotaram a tática de “saída estratégica” durante a invasão norte-americana 20 anos atrás. É Adriana quem explica as origens do grupo – cujo nome significa “estudante”. “Os talibãs eram jovens e crianças que foram treinados para devolver a paz ao Afeganistão na guerra contra os soviéticos”. Participa também Daniel Wiedemann, coordenador da redação da TV Globo em Nova York. Ele pontua como a retomada de poder por parte dos talibãs já era esperada: “a grande surpresa é a velocidade dessa tomada”, diz. Daniel fala que esta não é apenas uma derrota de Joe Biden, mas sim “de quatro presidentes americanos, na mais longa guerra da história dos EUA”, que começou com os ataques às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001. Para ele, agora Biden terá que lidar com o risco de o Afeganistão se tornar um “paraíso para terroristas”.
O que você precisa saber:
ENTENDA: O que e o Talibã?
MULHERES COM MEDO: O drama das afegãs diante do Talibã
SAÍDA DOS EUA: Retirar tropas do Afeganistão foi pior decisão de Biden?
REAÇÃO: Biden defende saída das tropas e culpa governo afegão
AFEGÃOS EM FUGA: tumulto no aeroporto de Cabul deixa mortos
ENTENDA: Do 11 de setembro à volta do Talibã
VÍDEO: Pessoa cai de avião ao tentar fugir no Afeganistão
O podcast O Assunto é produzido por: Mônica Mariotti, Isabel Seta, Arthur Stabile, Luiz Felipe Silva, Thiago Kaczuroski e Giovanni Reginato. Neste episódio colaboraram também: Gabriel de Campos, Laís Modelli e Ana Flávia Paula. Apresentação: Renata Lo Prete. Nesta semana na apresentação: Natuza Nery.

Comunicação/Globo
O que são podcasts?
Um podcast é como se fosse um programa de rádio, mas não é: em vez de ter uma hora certa para ir ao ar, pode ser ouvido quando e onde a gente quiser. E em vez de sintonizar numa estação de rádio, a gente acha na internet. De graça.
Dá para escutar num site, numa plataforma de música ou num aplicativo só de podcast no celular, para ir ouvindo quando a gente preferir: no trânsito, lavando louça, na praia, na academia…
Os podcasts podem ser temáticos, contar uma história única, trazer debates ou simplesmente conversas sobre os mais diversos assuntos. É possível ouvir episódios avulsos ou assinar um podcast – de graça – e, assim, ser avisado sempre que um novo episódio for publicado.

Fonte: G1 Mundo

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Ciclone tropical Grace atinge o Haiti após terremoto devastador


Centro meteorológico do país alertou para possíveis inundações repentinas e possíveis deslizamentos de terra nas próximas horas. Moradores observam casas que desabaram com o terremoto em Les Cayes, no Haiti
Ralph Tedy Erol/Reuters
Ciclone tropical Grace atinge o Haiti com ventos de até 75 km/h
O ciclone tropical Grace atingiu o Haiti na noite desta segunda-feira (16), tornando ainda mais grave a situação humanitária no país. De acordo com o Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC), tempestades severas, com ventos de até 75 km/h, poderão provocar inundações e deslizamentos de terra na região, que ainda contabiliza as perdas humanas e materiais provocadas pelo terremoto de magnitude 7,2 ocorrido no sábado (14).
O desastre natural deixou ao menos 1.419 pessoas mortas, mais de 6,9 mil ficaram feridas e milhares de moradores desabrigados. As fortes chuvas tendem a aumentar a tragédia no país.
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Segundo o NHC, o ciclone leva chuvas entre 127mm e 254 mm ao sul do país e, também, na República Dominicana.
“Essas fortes chuvas podem produzir inundações repentinas e urbanas e possíveis deslizamentos de terra”, alertou o centro meteorológico.
O NHC destacou que o centro do ciclone passará perto da costa sul de São Domingos, ilha compartilhada pelo Haiti e a República Dominicana.
Ele também deve passar pela Jamaica, Cuba e Ilhas Cayman entre terça (17) e quarta-feira (18), segundo a trajetória prevista pelo serviço meteorológico.
O terremoto de sábado foi o terceiro grande desastre natural ocorrido no Haiti em 11 anos. Em 2010, pelo menos 200 mil pessoas morreram e outras 300 mil ficaram feridas em um terremoto que devastou completamente o país. Cinco anos depois, em 2016, um furacão, batizado Matthew, deixou centenas de pessoas mortas e dezenas de milhares desabrigadas.
Número de mortos em terremoto no Haiti passa de 1,2 mil
Terremotos são frequentes na história do pequeno país, que é um dos mais pobres do mundo e afundado em crises. Antes de 2010, os haitianos enfrentaram grandes tragédias com tremores de terra ocorridos em 1887, 1842, 1770 e 1751.
O que explica esse histórico é um vasto sistema de falhas geológicas que resultam do movimento da placa caribenha e da enorme placa norte-americana. em meio do qual está o Haiti.
SAIBA MAIS: Por que ocorrem tantos terremotos no Haiti?
VÍDEO: Veja imagens da destruição causada por terremoto no Haiti
Crise política e humanitária
O terremoto atinge o Haiti em um momento de forte crise política, que é anterior até mesmo ao assassinato do presidente Jovenel Moïse, em julho deste ano.
Moïse dissolveu o Parlamento e governava por decreto havia mais de um ano, após o país não conseguir realizar eleições legislativas, e queria promover uma polêmica reforma constitucional.
Após o assassinato do presidente por um grupo de mercenários, um governo interino assumiu o controle do país até a realização de novas eleições.
A nação mais pobre das Américas tem um longo histórico de ditaduras e golpes de Estado.
Nos últimos meses, o Haiti enfrentava também uma crescente crise humanitária, com escassez de alimentos e aumento nas taxas de violência.
O PIB per capita do país é de US$ 1,6 mil por ano (cerca de R$ 8,5 mil), e cerca de 60% da população vive com menos de US$ 2 por dia (pouco mais de R$ 10).
O Haiti tem 11,3 milhões de habitantes, faz fronteira com a República Dominicana na ilha Hispaniola, no Caribe, e tem um dos menores IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) do mundo: 0,51.
Colonizado em 1492, após a chegada de Cristóvão Colombo à América, o Haiti foi o primeiro país do continente a conquistar a sua independência e a primeira república a ser liderada por negros, quando derrubou o domínio francês no começo do século XIX.

Fonte: G1 Mundo

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Como o filme ‘Rambo 3’ ajuda a explicar a origem do Talibã


No terceiro filme da franquia, Rambo se une aos rebeldes na luta contra os soviéticos — os mesmos rebeldes que depois travariam uma guerra civil que culminaria na chegada do grupo extremista ao poder. Rambo 3 foi o filme mais caro feito até então
Reprodução
Uma das cenas mais lembradas de Rambo 3 (1988) mostra o herói removendo um projétil de seu abdômen com a própria mão e depois cauterizando a ferida com pólvora. Mas foi outro trecho, bem mais discreto, que ganhou uma inesperada relevância à luz dos últimos acontecimentos no Afeganistão.
O filme se passa em meio à guerra travada por grupos rebeldes contra a União Soviética (URSS), que tinha invadido o país. Rambo (Sylvester Stallone) vai até lá para resgatar seu antigo mentor, o coronel Trautman, que havia sido capturado pelos soviéticos durante uma missão.
Rambo está na fronteira com o Paquistão. Ao seu lado, o afegão que o ajuda a entrar no território afegão explica que muitos já haviam tentado conquistar o país e falhado: Alexandre, o Grande, Gengis Khan, o Reino Unido — e, agora, era a vez dos soviéticos.
Ele comenta então que os afegãos são um povo que luta bravamente e que nunca será derrotado: “Um antigo inimigo fez uma oração. Ela diz: ‘Meu Deus, livrai-nos dos venenos das cobras, do dente do tigre e da vingança dos afegãos’. Entendeu o que significa?”.
Rambo responde: “Que vocês não se rendem por nada”.
Três décadas depois, o mundo assiste ao avanço do Talibã após a retirada das Forças Armadas dos Estados Unidos. O grupo extremista voltou ao comando do Afeganistão 20 anos depois da invasão americana.
As sementes dessa derrota histórica da maior potência militar do mundo foram plantadas na época que é retratada pelo terceiro Rambo.
Foi com o apoio dos Estados Unidos que os rebeldes, conhecidos como mujahideen, venceram os soviéticos, mas a insurgência contra os invasores desaguaria na formação do Talibã em meados dos anos 1990.
Sidney Ferreira Leite, doutor em História Social e professor de Relações Internacionais das Faculdades Rio Branco, explica que os americanos deixaram a região em segundo plano depois de vencer os soviéticos e não contribuíram para tornar o Afeganistão uma nação. Os diferentes clãs e tribos do país travaram uma guerra civil até os talibãs chegarem ao poder, em 1996.
“Neste sentido, Rambo 3 é um documento histórico do fracasso da política externa dos Estados Unidos e do projeto americano de ser um farol para o mundo”, diz Leite.
As 7 imagens mais marcantes da tomada do Afeganistão pelo Talibã
Uma história de invasões e conflitos
O Afeganistão é um palco histórico de conflitos. Seja por causa da geografia — está no encontro entre a Ásia e o Oriente Médio — seja pela importância econômica — com suas rotas comerciais, campos de papoula e, hoje, oleodutos.
A história afegã é uma história de invasões. Seu território foi dominado por diferentes povos e impérios, como a Babilônia e os macedônios. As invasões árabes a partir do século 7 levaram o Islã à região.
As disputas geopolíticas foram marcadas pelas invasões e o domínio britânico, de meados do século 19 até o início do século 20. Décadas mais tarde, vieram os soviéticos, em dezembro de 1979, a pretexto de combater guerrilheiros que ameaçavam levar à URSS a luta em nome do Islã.
Rambo 3 mostra os esforços dos americanos contra os soviéticos no Afeganistão, “um país que muitos nem conseguem encontrar no mapa”, como diz o coronel Trautman.
No filme, que é uma peça clássica da tentativa dos Estados Unidos de exercer influência sobre o mundo com Hollywood, os americanos vão até lá para ajudar a defender os afegãos de um massacre soviético. Os rebeldes, por sua vez, são apresentados como guerreiros que lutam a favor da liberdade.
“Para nós, essa guerra é sagrada, e não há morte verdadeira para os mujahideen, porque nós já fizemos nossos últimos ritos. Já nos consideramos mortos”, diz um líder rebelde ao explicar o conflito no país para Rambo. “Para nós, a morte por nossa terra e por nosso Deus é uma honra. Portanto, meu amigo, o que devemos fazer é parar com a matança de nossas mulheres e crianças.”
Os Estados Unidos deram um apoio declarado a estes grupos e ajudaram os insurgentes com equipamentos e armas militares, diz Carlos Gustavo Poggio, professor de Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). “O (presidente Ronald) Reagan chegou a receber eles na Casa Branca e os chamou de guerreiros da liberdade”, recorda.
A volta do Talibã
Afeganistão: entenda os riscos para as mulheres sob o regime talibã
Poggio avalia que o erro cometido pelos americanos foi, assim como em outras partes do mundo, olhar para tudo sob a lente da disputa entre capitalismo e comunismo em meio àquele contexto da Guerra Fria.
“Os Estados Unidos cometeram um equívoco e acharam que o inimigo do seu inimigo era seu amigo, e houve grupos que se aproveitaram dessa visão americana um pouco ingênua”, diz Poggio. “Não levaram em conta que o país tem uma lógica tribal e não a de um Estado nacional, organizado segundo o modelo ocidental. Os códigos são distintos.”
Foi no vácuo de poder criado pela retirada soviética que os rebeldes travaram uma guerra civil que terminaria com o Talibã no poder. “Ninguém deu muita bola ao que estava acontecendo ali até que dois aviões se chocaram contra as Torres Gêmeas”, diz Poggio.
O Talibã foi derrubado por forças americanas que invadiram o Afeganistão após os ataques da Al-Qaeda aos Estados Unidos em 11 de setembro, sob a alegação de que o país dava apoio e abrigo ao líder da organização, Osama Bin Laden, mentor dos ataques de 11 de setembro.
Mas agora voltou rapidamente ao governo depois que os Estados Unidos, o Reino Unido e outros países que formavam a aliança militar que interveio no país retiraram suas tropas.
“Quando olhamos não só para o Afeganistão, que continua tão caótico quanto há 20 anos, mas também para Iraque, Síria e Líbia, vemos o fracasso desse modelo americano de fazer valer sua democracia sobre sociedades que têm forma de organização completamente diferente”, diz Sidney Ferreira Leite.
Ele avalia que, tanto no final dos anos 1980 quanto agora, os Estados Unidos foram ao Afeganistão para expulsar seu inimigo e não conseguiram construir as bases de uma estabilidade para o país. “Tinham que ter dados passos além de uma ação estritamente militar que acabou fomentando grupos terroristas que já existiam”, diz Leite.
Finais alternativos
Rambo 3 foi considerado em seu lançamento o filme mais caro já feito até então, com um orçamento estimado em US$ 63 milhões.
“O filme fecha a era Reagan e reconstitui no imaginário coletivo, depois da derrota na Guerra do Vietnã, um Estados Unidos vitorioso, o amanhecer de um país que retoma seu lugar como uma potência”, diz Leite.
O longa faturou US$ 189 milhões em bilheteria, mas foi um fracasso de crítica — é de longe o pior avaliado dos cinco filmes da franquia no site Rotten Tomatoes, com a aprovação de só 45% dos espectadores.
Uma polêmica frequente em torno dele costuma ressurgir sempre que os conflitos no Afeganistão vão parar nas manchetes como agora. Ela diz respeito a uma homenagem no fim do filme. Circula em fóruns e nas redes sociais uma suposta imagem da última cena.
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A mensagem seria: “Esse filme é dedicado aos corajosos combatentes mujahideen do Afeganistão”. E, segundo esta versão, ela teria sido trocada só depois de 11 de setembro para algo inofensivo: “Esse filme é dedicado ao valente povo do Afeganistão”.
Mas isso é uma mentira, como mostra uma crítica publicada pelo jornal The New York Times e outros registros da época. Só a segunda mensagem é verdadeira — a outra é uma montagem.
O que não é uma lenda urbana é o fato de que o filme poderia ter um final bem diferente (que pode ser visto no YouTube).
No original, Rambo conclui sua missão e volta aos Estados Unidos. No fim alternativo, ele finalmente aceita seu papel de guerreiro e decide ficar com os mujahideen.
“Você me disse que, quando meu ciclo se fechasse, eu saberia meu lugar”, diz o herói ao coronel Trautman. “Por hora, acho que aqui é meu lugar.”
Rambo então desce do jipe, monta em um cavalo, se despede do coronel com um aceno e vai embora, se unindo de vez à luta dos rebeldes no Afeganistão.
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Fonte: G1 Mundo

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EUA declaram escassez histórica de água no sudoeste e decretam cortes e racionamento


A escassez irá reduzir a distribuição de água para o Arizona, Nevada e o México para o ano que começa em outubro, informou o governo norte-americano. Situação de escassez no Lago Mead, nos EUA
John Locher/AP Photo
Autoridades dos Estados Unidos emitiram nesta segunda-feira (16) uma declaração oficial de escassez para o imenso reservatório do Lago Mead, no oeste do país, pela primeira vez, provocando cortes de água para a região sudoeste, atingida pela seca.
A escassez irá reduzir a distribuição de água para o Arizona, Nevada e o México para o ano que começa em outubro, informou o governo norte-americano em nota.
Julho de 2021 foi o mais quente já registrado na história, diz agência americana
Mudanças recentes no clima causadas pelo homem não têm precedentes, aponta relatório da ONU
O Arizona perderá 18% de seu fornecimento anual, enquanto Nevada terá um corte de 7%. Os repasses para o México serão reduzidos em 5%.
O Lago Mead, formado nos anos 1930 com o represamento do Rio Colorado na divisa entre Nevada e Arizona, é o maior reservatório dos Estados Unidos e é crucial para o fornecimento de água a 25 milhões de pessoas nas cidades de Los Angeles, San Diego, Phoenix, Tucson e Las Vegas.
A seca grave na Região Oeste dos Estados Unidos levou os lagos Mead e Powell, primeiro e segundo reservatórios do país, a mínimas históricas. O total de armazenamento de água no sistema do Rio Colorado está em 40% da capacidade, uma queda em relação aos 49% do ano passado, segundo o órgão federal.
Os repasses de água em um determinado ano são definidos por um estudo anual que antecipa os níveis de água dos reservatórios no inverno. Em janeiro, o Lago Mead deve estar a 324,9 metros, cerca de 3 metros abaixo do nível oficial que determina a escassez.
Mudanças climáticas provocadas pelo homem são irreversíveis e sem precedentes, diz relatório da ONU

Fonte: G1 Mundo

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Quem foi o padre Kolbe, franciscano herói morto há 80 anos em Auschwitz e considerado ‘santo do Holocausto’


Para a Igreja Católica, ele é um santo, um mártir da fé. Para os judeus, um herói da Segunda Guerra. Maximiliano Kolbe ‘tinha consciência de que a ideologia do nazismo era totalmente contrária àquela de Cristo’, diz vaticanista
Domínio público/BBC
Para a Igreja Católica, ele é um santo, um mártir da fé. Para os judeus, um herói da Segunda Guerra, um dos 25.685 reconhecidos pelo Estado de Israel como “justo entre as nações”.
O papa João Paulo 2º (1920-2005) se referia a ele como “santo de nosso século difícil”. Sargento do exército e integrante da resistência judaica na Polônia, Franciszek Gajowniczek (1901-1995) repetiu até o fim da vida que era graças a ele que havia sido poupado entre as vítimas do Holocausto.
Estamos falando do padre católico Maximiliano Maria Kolbe, um franciscano polonês que foi morto no famigerado campo de concentração de Auschwitz há 80 anos, em 14 de agosto de 1941.
Como punição por uma fuga ocorrida, Gajowniczek foi um dos prisioneiros escolhidos pelos nazistas para morrer de fome. Kolbe apresentou-se, voluntariamente, para o castigo fatal — no lugar do sargento. Os nazistas aceitaram.
“Ele cumpriu o preceito cristão de dar a vida pelos que ama”, avalia o pesquisador e estudioso da vida de santos José Luís Lira, fundador da Academia Brasileira de Hagiologia e professor da Universidade Estadual Vale do Aracaú, do Ceará.
Para o historiador, filósofo e teólogo Gerson Leite de Moraes, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, relembrar a trajetória e a morte de Kolbe tem uma carga ecumênica e política.
Primeiro porque sua memória está presente tanto no catolicismo quanto no judaísmo. Segundo porque seu extermínio é o lembrete do que são capazes regimes autoritários.
“Mostra como as religiões podem ser vitimadas por esses regimes. Morreram muitos judeus, muitos católicos, muitos protestantes, testemunhas de Jeová… A morte de alguém tão importante no campo de concentração demonstra como mesmo as religiões que às vezes fazem pactos com regimes totalitários também podem ser vitimadas por esses regimes”, comenta ele.
“Regimes totalitários não poupam ninguém. A perspectiva nazista é a de um contradiscurso, da eliminação do outro. É uma fábrica de cadáveres, que vai eliminando todos aqueles que por ventura ofereçam qualquer tipo de resistência”, acrescenta ele.
O papa João Paulo 2º se referia a Kolbe (foto) como ‘santo de nosso século difícil’
Domínio público/BBC
Biografia
Nascido em 1894 na cidade polonesa de Zduńska Wola, Kolbe foi batizado como Rajmund. Entrou para a Ordem dos Frades Menores Conventuais em 1907. Cinco anos mais tarde, mudou-se para Roma.
Foi lá que, em 1914, assumiu o nome religioso de Maximiliano Maria Kolbe. Graduou-se em filosofia na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, mas também estudou seriamente matemática, física, química, diversos idiomas e teologia.
Foi ordenado padre em 1918. Na época, já tinha saúde frágil — um ano antes, havia sido diagnosticado com turberculose e episódios de pneumonia passaram a lhe ser recorrentes.
Nesse período em que viveu na Itália, fundou junto a outros jovens religiosos, um movimento chamado de Milícia da Imaculada. A ideia era propagar a fé católica, sobretudo por meio de Nossa Senhora, através de orações e da divulgação de uma medalhinha considerada milagrosa.
Em 1919, Kolbe obteve autorização de seus superiores para retornar à sua Polônia natal. Iria se fixar em Cracóvia, como professor no seminário franciscano. E, ao mesmo tempo, atuaria como divulgador do movimento do qual havia sido um dos criadores.
Entre idas e vindas ao hospital para tratar problemas decorrentes de seu quadro de tuberculose, Kolbe fundou uma revista chamada Rycerz Niepoklanej — algo como Cavaleiro da Imaculada, em português. A publicação alcançou tiragens de mais de 60 mil cópias.
“Chegou a ser a maior publicação da Polônia na época. Abordava temas cristãos mas também trazia notícias em geral”, afirma o vaticanista Filipe Domingues, doutor em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Em 2014 e 2016, ele atuou como voluntário em um centro de espiritualidade dedicado à memória de padre Kolbe, que acolhe peregrinos na Polônia.
Niepokalanów — em português, ‘Cidade da Imaculada’ —, convento e comunidade religiosa em Teresin, próxima a Varsóvia, foi criada por Kolbe em 1927. O religioso passou uma temporada como missionário no Japão, nos anos 1930, e, na volta à Polônia, foi um dos fundadores de uma estação de rádio, a Polonesa 3 Rádio Niepokalanów.
Quando a ocupação nazista chegou à Polônia, em 1939, Kolbe era um influente formador de opinião. Padre e dono de veículos de comunicação, com espírito crítico e alma solidária. Isso deixou-o no radar dos alemães, é claro.
“Com a chegada dos nazistas à Polônia, a Igreja foi perseguida. Era um momento em que as pessoas buscavam na Igreja, nos padres, fontes de orientação, de alguma esperança naquele período de trevas. E muitos padres foram perseguidos”, contextualiza Domingues.
A Polônia tinha 10.217 padres, dos quais 3.646 acabaram presos e levados para campos de concentração — 2.647 foram mortos pelos nazistas. “Isso sem contar religiosos e religiosas que não eram sacerdotes e outras pessoas católicas que acabaram presos”, acrescenta o vaticanista.
Os relatos da época dão conta que muitos padres abrigavam judeus em suas casas paroquiais, o que os transformava também em alvos da polícia nazista. No caso de Kolbe, havia o agravante: as opiniões publicadas em suas mídias também desagradavam aos alemães.
“Mesmo sabendo de tudo isso, ele tratava muito bem os soldados nazistas. Dava a eles a medalha milagrosa [de Nossa Senhora], tinha esperança que eles pudessem se converter”, afirma Domingues. “Queria de alguma forma tocá-los, mesmo sabendo dos riscos.”
“Ele acolheu muitas pessoas na própria Niepokalanów, dava comida, abrigo. Ele e outros franciscanos lideravam ali uma boa parte da iniciativa [da resistência polonesa aos nazistas]”, ressalta. “Padre Kolbe tinha consciência de que a ideologia do nazismo era totalmente contrária àquela de Cristo, ao cristianismo.”
De acordo com depoimentos antigos, Kolbe dizia a quem o visitava que não se importava em perder tudo — desde que as almas fossem salvas, desde que ele conseguisse levar essa imagem de Cristo e da Imaculada Nossa Senhora.
A jornalista Patricia Treece traz, em seu livro ‘A Man for Others: Maximilian Kolbe The Saint of Auschwitz’, a história de uma mulher que vivia próxima à comunidade e estava preocupada com o fato de que os judeus passavam de porta em porta pedindo ajuda frente à perseguição nazista.
Ela não sabia se devia ou não assistí-los e foi se consultar com Kolbe. O padre respondeu que sim, era preciso ajudá-los “porque todo ser humano é nosso irmão”. “Ou seja: mesmo que ele não fizesse nada publicamente que afrontasse a ideologia nazista, pelo simples fato de ser cristão e de pregar a mensagem de Cristo, de viver isso, influenciar as pessoas, ele passou a ser visto como um inimigo”, salienta Domingues. “Padre Kolbe tinha isso muito forte, essa clareza, algo típico dos santos.”
Auschwitz
Depois de muitos interrogatórios, Kolbe acabou preso pela Gestapo — a polícia secreta dos nazistas — em 17 de fevereiro de 1941. Ficou encarcerado em Pawiak, famosa prisão construída em 1835 em Varsóvia. Em 28 de maio, na companhia de outros 320 prisioneiros, foi levado até o campo de concentração de Auschwitz.
“Ele foi preso não por ser padre, não por ser católico. Foi um prisioneiro político, porque era considerado formador de opinião, quase como um membro da inteligência da resistência polonesa, dono de publicação, líder espiritual, um símbolo, de certa forma, da identidade polonesa”, contextualiza Domingues. “Toda essa bagagem.”
Conforme relata a jornalista Treece em seu livro, Kolbe entrou em Auschwitz encarando aquilo como uma missão de fé. Ele dizia aos companheiros que era preciso ter compaixão e rezar pelos nazistas.
Naquela época, o campo de concentração ainda não tinha se estruturado, nem como um espaço organizado de trabalhos forçados, nem como um local para assassinatos em massa. Assim, não havia ainda ali uma organização laboral para explorar a mão de obra dos prisioneiros, tampouco o horripilante uso da câmara de gás.
Segundo Treece, era comum que um prisioneiro, nessa fase, morresse em poucas semanas — devido às parcas refeições, somadas às rotina de castigos e trabalhos braçais inglórios, como cavar buracos para tapá-los em seguida. No entendimento dos nazistas, cada morto significava a vantagem de liberar espaço para um novo prisioneiro.
Kolbe recebeu o número 16.670. Era uma época em que viviam cerca de 8 mil prisioneiros no campo, o que permite concluir que a outra metade já não havia sobrevivido ao horror nazista.
Há diversos registros, inclusive com depoimentos de testemunhas que sobreviveram ao Holocausto, sobre a passagem do padre pelo campo de concentração. Domingues ressalta que é visto como impressionante que ele tenha sobrevivido por tanto tempo, considerando que já não era jovem — tinha 47 anos — e tinha a saúde debilitada.
Treece conta que os quadros de pneumonia do padre se agravavam devido aos banhos frios e à pouca disponibilidade de vestes. “Além disso, como ele era padre, apanhava muito e os nazistas davam a ele os piores serviços”, relata Domingues. “Quem sobreviveu a Auschwitz diz que a única forma de ele ter resistido por tanto tempo foi por conta de sua vida espiritual, de sua união tão profunda com Deus.”
O sacerdote cantava, rezava e nunca deixava de atender, mesmo sob as piores condições, a quem o procurava para uma confissão ou conselhos.
Há também relatos de que ele por várias vezes deixava de comer, repassando sua ração para aqueles que tivessem mais fome. De acordo com registros históricos, as refeições no campo de concentração eram compostas de um “café” matinal — feito com cereais e ervas — e uma sopa rala no almoço. No total, as pessoas ingeriam menos da metade das calorias necessárias ao dia a dia de um trabalhador braçal.
“Há também depoimentos sobre pessoas que pensavam em se suicidar, jogando-se contra a cerca elétrica para abreviar o sofrimento. E padre Kolbe conversava com essas pessoas, convencendo-as a suportar. Alguns sobreviventes de Auschwitz diziam que só não haviam se matado por causa do conforto das palavras de Kolbe”, diz Domingues.
Em julho daquele ano de 1941, houve uma fuga e três prisioneiros conseguiram escapar. O oficial nazista Karl Fritzsch (1903-1945), responsável pelo campo, determinou que dez pessoas escolhidas aleatoriamente entre os encarcerados fossem condenadas à morte — como represália, um recado para que aquilo não se repetisse.
Os dez bodes expiatórios seriam levados para uma cela subterrânea, onde ficariam sem luz, sem água e sem comida até à morte. Durante o dia, os nazistas obrigaram que todos os prisioneiros ficassem em pé, em fila, sob o sol, até que as vítimas fossem selecionadas.
Então começaram a separar os que iriam para a morte. Um dos selecionado, o judeu Franciszcek Gajowniczek, começou a gritar, aos prantos: “Minha pobre mulher! Meus filhos! Jamais tornarei a vê-los!”. Foi quando Kolbe se ofereceu para morrer no lugar do homem.
Foi uma situação, por si só, muito sui generis. E, segundo relatos de quem testemunhou, já ganhavam contornos milagrosos. Kolbe saiu da fila onde estavam os prisioneiros e foi andando até o comandante Fritzsch, sob a mira de oficiais nazistas. Ninguém atirou.
Encarou Fritzsch nos olhos e argumentou, em alemão perfeito, que gostaria de fazer um pedido, que gostaria de morrer no lugar daquele homem que chorava pela família.
“Estranhamente, ninguém atirou. Estranhamente, ninguém interveio. E o Fritzsch o ouviu, o que também era um fato estranho: um oficial conversando com um prisioneiro. Isso ia contra a estratégia dos nazistas de desumanizar os prisioneiros”, pontua Domingues.
Segundo os relatos da época, num primeiro momento Fritzsch ficou irritado e ensaiou colocar o padre junto aos demais condenados sem liberar Gajowniczek. Em seguida, refletiu e acabou tirando o judeu do grupo — com um pontapé violento. “Quem presenciou diz que foi um fato milagroso mesmo”, diz Domingues.
Anos mais tarde, Gajowniczek disse que só “poderia tentar agradecê-lo com meus olhos”. “Fiquei atordoado e mal conseguia entender o que estava acontecendo”, comentou. “A imensidade disso tudo: eu, condenado, devia viver porque outra pessoa, voluntariamente, oferecia sua vida por mim. Um estranho. Era um sonho ou realidade?”
Na derradeira prisão, padre Kolbe e os outros dez prisioneiros ficariam até a morte. O religioso seguiu cantando e buscando confortar os demais até o último minuto. Rezava e celebrava missas. Havia a expectativa de que ele não sobrevivesse por muito tempo, já que tinha a saúde frágil, certa idade e, claro, já estava há dois meses enfrentando a precariedade do campo de concentração. “Mas ele não morria”, conta Domingues.
Foram duas semanas de desidratação e fome. Restaram vivos apenas Kolbe e outros três companheiros. “Então, em 14 de agosto de 1941, os nazistas deram a ele [e aos outros três] uma injeção letal. Em seguida, incineraram o corpo dele.”
Herói de duas religiões
Postumamente, a importância de Kolbe acabou sendo reconhecida por judeus e por católicos. Sobretudo na Polônia, sua vida seguiu sendo celebrada e rememorada. Em 1971, o papa Paulo 6º (1897-1978) o beatificou. Coube ao também polonês João Paulo 2º (1920-2005) finalizar o processo de canonização, em 1982, inserindo-o no rol dos santos da Igreja Católica.
“Jesus Cristo disse que ‘ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos’. Dependendo da tradução, podemos ver ‘pelos que ama’. Então um frade católico que de origem judaica se oferece para dar a sua vida pela vida de um pai de família que no campo de concentração estava em sua mesma condição, é ato de amor-cristão que merece ser lembrando sempre”, comenta o hagiólogo Lira. “Por isso, o testemunho de São Maximiliano Kolbe é dos mais belos e nos faz voltar ao tempo em Jesus Cristo estava, humanamente, entre nós.”
Os judeus também reconheceram a grandeza espiritual de Kolbe. Por meio do Memorial do Holocausto, o Estado de Israel incluiu o padre entre os chamados “justos entre as nações” — trata-se do prêmio conferido a todos os não judeus que correram riscos para proteger ou salvar judeus da perseguição nazista.
“Na condição de santo, ele passa a receber a veneração pelos seus atos, acaba sendo alguém que recebe esse reconhecimento dentro da tradição católica”, explica Moraes. “Já o judaísmo, desde muito cedo, se posiciona contra qualquer tipo de valorização do homem que pode desembocar em idolatria — e há uma linha muito tênue entre venerar um santo e adorar um santo, na perspectiva católica.”
“Mas essa honraria recebida por Kolbe, como ‘justo entre as nações’, é na verdade um reconhecimento a todos aqueles que de alguma forma arriscaram ou deram suas vidas, no processo daquilo que ficou conhecido como Holocausto, para salvar judeus”, contextualiza o professor. “Trata-se de uma homenagem pelos atos de bravura, de coragem, de sacrifício, em prol do combate à violência praticada contra os judeus.”
Moraes explica que, na tradição judaica, “justo” precisa ser entendido sob a perspectiva do Antigo Testamento. “Seria aquele cidadão cumpridor dos deveres, fiel seguidor dos preceitos. Portanto, alguém digno, alguém reto”, define. “Alguém declarado justo é alguém que segue os preceitos éticos, morais, comportamentais. Quando se vê uma pessoa abnegada, a ponto de se sacrificar, correr riscos, dar sua vida para salvar um judeu no contexto do Holocausto, há o merecimento dessa honraria.”
Em outras palavras, o teólogo afirma que seria o mesmo que dizer que se trata de “uma pessoa sobre quem não se pode dizer absolutamente nada que macule sua trajetória e, ao mesmo tempo, seja alguém capaz de fazer o bem, em prol de judeus perseguidos pelo nazismo”.
Já a canonização de padre Kolbe pela Igreja Católica pode ser vista como um gesto político e ecumênico de João Paulo 2º — um pontífice hábil, que sabia usar a comunicação como poucos.
“João Paulo 2º foi um papa oriundo da chamada cortina de ferro [em um contexto de Guerra Fria], também polonês. E uma das principais missões de seu pontificado foi combater o comunismo. Nesse sentido, ao canonizar Kolbe, ele denunciou as atrocidades dos regimes totalitários, de uma maneira geral, tanto o nazismo, à direita, quanto o comunismo real, à esquerda”, diz Moraes. “Nos anos 1980 havia um desejo enorme de combatê-los, segundo o ideal da liberdade.”
O vaticanista Domingues lembra que João Paulo 2º, como conterrâneo de Kolbe, já conhecia bem a história do franciscano. Na cerimônia de canonização, ocorrida na Praça São Pedro, no Vaticano, com a presença de Franciszek Gajowniczek, o papa disse que “a morte sofrida por amor, em lugar do irmão, é um ato heroico do homem mediante o qual, juntamente com o novo santo, glorificamos a Deus”.
“A canonização de Kolbe lembra que um regime totalitário como o nazismo não pode se perder da memória coletiva devido ao perigo que representa. João Paulo 2º deu o recado de que regimes totalitários, sejam de direita, sejam de esquerda, são muito perigosos”, acrescenta Moraes.
E também foi um sinal de ecumenismo, de aproximação ao judaísmo. “Tornar Kolbe santo foi uma maneira de mostrar que a Igreja Católica também sofreu junto aos judeus. Se por um lado há inúmeros exemplos de associações da religião com regimes totalitários, a própria religiosidade cristã também contou suas vítimas e teve seus mártires”, afirma Moraes.
Lira explica que São Maximiliano Kolbe é reconhecido como patrono da imprensa, por causa da criação da revista Cavaleiro da Imaculada. “Ele se fez jornalista, um mensageiro da boa-nova de Deus por meio da Imaculada Conceição”, comenta. “A revista traz não só a devoção a Nossa Senhora, mas também reflexões pertinentes à vida cristã.”
“Pelas razões do seu martírio é patrono das famílias em dificuldade, dos que lutam pela vida, da luta contra os vícios, da recuperação das drogas e do alcoolismo e, até, dos presos comuns, visto que foi preso, e presos políticos, já que não é preciso muito esforço para entender que sua prisão e morte se deram por questões políticas”, acrescenta o hagiólogo.
Domingues defende que a mensagem de Kolbe precisa estar presente nos tempos atuais, em que a extrema-direita avança em várias partes do mundo. “Ser católico e vítima do Holocausto demonstra que o cristianismo é incompatível com o autoritarismo, com qualquer regime que esvazie a identidade de cada pessoa, que tire a liberdade individual e que impeça a gente de manifestar a fé”, argumenta ele. “Padre Kolbe deixou isso bem claro, ao demonstrar que qualquer ser humano é nosso irmão. Qualquer regime que nos coloque uns contra os outros ou que diga que este grupo está acima de outro grupo, ou que, enfim, deixe de lado uma parte da população, isso não é cristão.”
“A religião é só um elemento que pode ser usado inicialmente por regimes totalitários de maneira instrumental para conquistar mentes e corações. Mas quando integrantes dessas religiões se tornam obstáculos para os regimes totalitários como o nazismo, não há a menor dúvida: essas pessoas vão ser vitimadas”, conclui Moraes.
“Padre Kolbe deixou isso claro para que também lembremos hoje, quando vemos em diferentes partes do mundo, inclusive no Brasil, uma tentativa de retorno de algumas ideias desse período — mas um retorno estranho, porque usando dos símbolos e, às vezes, da linguagem do cristianismo”, diz Domingues. “O amor de Cristo não distingue as pessoas, não é exclusivo. Ele é inclusivo. Padre Kolbe é um mártir do amor, e se a gente tivesse de escolher um santo para representar isto [este contexto geopolítico atual], seria ele mesmo.”
Afinal, como gostava de dizer esse religioso franciscano, “o ódio não é uma força criativa: só o amor o é”.
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Fonte: G1 Mundo

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Primeiro-ministro da Malásia renuncia após governo de 17 meses


Muhyiddin Yassin chegou ao poder sem eleições em março 2020 e liderava um governo de coalizão. Ele adiou a organização de eleições durante meses e impôs um estado de emergência motivado pela pandemia de Covid; ainda não há um sucessor claro para o cargo. O primeiro-ministro da Malásia, Muhyiddin Yassin, em foto de 13 de julho de 2020
AP Photo/Vincent Thian
O primeiro-ministro da Malásia, Muhyiddin Yassin, renunciou nesta segunda-feira (16) e seu governo chegou ao fim depois de passar apenas 17 meses no poder, o que abre um período de instabilidade política no país, em plena luta contra a pandemia de Covid-19.
“O governo apresentou sua renúncia ao rei”, afirmou o ministro da Ciência, Khairy Jamaluddin, em sua conta no Instagram.
O palácio nacional confirmou que o monarca, o sultão Abdullah Sultan Ahmad Shah – que designa formalmente o primeiro-ministro – aceitou a renúncia de Muhyiddin.
O primeiro-ministro chegou ao poder sem eleições em março 2020 e liderava um governo de coalizão, em substituição ao Executivo de Mahathir Mohamad, peso pesado da política local.
Muhyiddin Yassin adiou a organização de eleições durante meses e impôs um estado de emergência motivado pela pandemia.
O primeiro-ministro, de 74 anos, tentou permanecer no poder na sexta-feira ao propor, sem sucesso, que a oposição o apoiasse em troca de várias reformas.
Após o fracasso de sua tentativa, ele participou nesta segunda-feira no último conselho de ministros e seguiu para o palácio, onde apresentou sua renúncia.
No momento não há um sucessor claro para o cargo, o que pode levar o país, que já registrou batalhas políticas violentas, a um cenário de instabilidade.
A Malásia, com 32 milhões de habitantes, também passa por um momento difícil do ponto de vista sanitário. As autoridades não conseguem conter os contágios por Covid-19.
Os novos casos passam de milhares por dia e a economia sofreu o duro impacto dos confinamentos e das restrições em vigor pela pandemia. De acordo com o balanço oficial, o país registra até o momento 1,1 milhão de contágios e 12 mil mortes provocadas pelo coronavírus.
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Fonte: G1 Mundo

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Maduro planeja ‘diálogo direto’ com EUA que inclua volta de encarregados de negócios


Países romperam relações há dois anos, depois que administração de Donald Trump reconheceu o líder opositor Juan Guaidó como presidente. Governo venezuelano retomou processo de negociação com oposição no México. O presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, durante entrevista coletiva no Palácio Miraflores, em Caracas, na segunda-feira (16)
Reuters/Leonardo Fernandez Viloria
O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, disse nesta segunda-feira (16) que planeja a “abertura do diálogo direto” com o governo dos Estados Unidos, após os dois países romperem relações há dois anos, dentro do processo de negociação que sustenta com a oposição venezuelana no México.
“Vamos planejar na mesa do México a abertura do diálogo direto com o governo dos Estados Unidos para atender todos os assuntos bilaterais (…) Se colocássemos uma agenda sobre a mesa, poderíamos trazer de volta os encarregados de negócios”, disse o presidente em coletiva com a imprensa internacional.
“Se estamos preparados para diálogo direto com o governo dos Estados Unidos? Eu lhes digo: estamos preparados sempre, mas eles têm que ceder em sua arrogância, em seu ódio e em seu desprezo. E se puséssemos uma agenda sobre a mesa, poderíamos pôr a volta dos encarregados de negócios”, continuou.
Maduro rompeu relações diplomáticas com Washington em janeiro de 2019, depois que o governo de Donald Trump reconheceu o líder opositor Juan Guaidó como presidente encarregado, juntamente com meia centena de países.
O governo Trump manteve sempre um enfrentamento frontal com Maduro, a quem tachou de “ditador”, bombardeou com sanções – inclusive um embargo petroleiro – e não reconheceu como presidente desde sua reeleição em 2018, em eleições consideradas fraudulentas.
Então, “nós tivemos diálogo indireto e diálogo de diversas modalidades com o governo de Donald Trump”, admitiu Maduro.
Com a chegada de Joe Biden ao poder, o presidente venezuelano mostrou-se aberto a retomar diálogos com os Estados Unidos.
“Tomara depois desta mesa de diálogo seja possível abrir níveis e vias de contato, de diálogo, de negociação com o governo dos Estados Unidos”, expressou.
O governo e a oposição venezuelana empreenderam na sexta-feira passada, no México, uma nova negociação para pôr fim à profunda crise política e econômica do país, apontando à suspensão de sanções dos Estados Unidos e garantias eleitorais.
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Fonte: G1 Mundo