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“O que o mundo está vendo de Cuba é uma mentira”, diz Díaz-Canel sobre protestos no país


Em comício em Havana, ao lado de Raúl Castro, presidente cubano disse que foram veículadas “imagens falsas” das manifestações contra o governo nas redes sociais O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, participou neste sábado (17), em Havana, de um comício ao lado do aliado e ex-presidente do país, Raúl Castro, e de milhares de apoiadores do regime cubano. Em discurso, Díaz-Canel acusou que as manifestações que tomaram as ruas do país foram alvo de desinformação.
Miguel Díaz-Canel participa de comício com apoiadores em Havana, capital do país
Alexandre Meneghini/Reuters
“O que o mundo está vendo é uma mentira”, afirmou o presidente, ao falar que imagens falsas foram atribuídas aos protestos contra o governo cubano. Díaz-Canel ainda criticou as redes sociais, por onde essas imagens estariam sendo veículadas. “Imagens falsas encorajam e glorificam o ultraje e a destruição de propriedade”.
Ex-presidente cubano Raúl Castro (à esq.) e Miguel Díaz-Canel, atual presidente, participam de comício de apoio ao governo em Havana
Alexandre Meneghini/Reuters
O discurso aconteceu poucos dias depois de manifestantes irem às ruas de 40 cidades cubanas protestar contra o governo de Díaz-Canel e a crise econômica que assola o país. Houve confronto entre policiais e manifestantes. Uma pessoa morreu e outras 100 ficaram feridas nos atos.

Fonte: G1 Mundo

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Bashar Al-Assad toma posse para quarto mandato na Síria após reeleição criticada


Presidente sírio está no poder desde 2000. Em maio, obteve 95% dos votos em um pleito marcado por boicotes e condenado por parte da comunidade internacional. Em uma foto de divulgação da presidência da Síria, Bashar Al-Assad discursa na cerimônia de posse para seu quarto mandato.
Página do Facebook da Presidência síria/AFP
O presidente sírio, Bashar al Assad, prestou juramento neste sábado (17) para um quarto mandato em uma cerimônia na capital Damasco, depois de obter 95,1% dos votos nas eleições de 26 de maio, criticadas pela oposição síria e por parte da comunidade internacional.
Assad, que está no poder desde 2000, jurou sobre a Constituição e o Corão na presença de 600 convidados, entre eles ministros, empresários, acadêmicos e jornalistas, segundo os organizadores.
A cerimônia coincidiu com os bombardeios que o governo promove na região de Idlib, no noroeste da Síria, que provocaram a morte de seis civis, três deles menores de idade, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos.
Leia mais: 10 anos de guerra na Síria deixaram quase 500 mil mortos, afirma ONG
ENTENDA: Por que a Guerra da Síria continua após 10 anos?
As eleições presidenciais “mostraram a força da legitimidade popular dada ao Estado pelo povo e tiraram credibilidade das declarações dos líderes ocidentais sobre a legitimidade do Estado, da Constituição e da pátria”, declarou Assad, em seu discurso de posse.
O pleito foi marcado por boicotes e visto por opositores como ilegítimo. Havia apenas dois outros candidatos, que juntos não conseguiram nem 5% dos votos. França, Alemanha, Itália, Reino Unido e Estados Unidos condenaram em maio as eleições, classificando-as como “nem livres nem justas”.
A vitória de Assad é a segunda desde o início da guerra, que explodiu em 2011, após a repressão das manifestações pró-democracia. O conflito, no qual se envolveram também interesses estrangeiros, já deixou mais de 500.000 mortos e provocou o exílio forçado de milhões de pessoas.
“Liberar o território”
Assad quer se apresentar como o homem da reconstrução, depois de acumular vitórias militares desde 2015 com o apoio de seus aliados, Rússia e Irã, pelas quais conseguiu tomar novamente o controle de dois terços do território.
“Durante mais de 10 anos de guerra, nossas preocupações foram muitas e a segurança e o medo dominavam tudo. Mas hoje se trata principalmente de libertar o restante do território e enfrentar as repercussões econômicas da guerra”, disse ele em seu discurso.
Uma parte da região de Idlib, dominada por grupos rebeldes, escapa ao controle do governo de Assad, assim como áreas sob o domínio curdo no norte e nordeste do país.
Biden defende ataque contra milícias pró-Irã na Síria e no Iraque: ‘EUA estão prontos para novas ações, se necessário’
Pouco antes do discurso, o governo lançou dois mísseis sobre o povo de Sarja, no sul de Idlib, causando a morte de seis civis e vários feridos, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos.
A trégua imposta por Rússia e Turquia em Idlib e a presença dos EUA em áreas curdas e turcas do norte da Síria impediram até agora a opção militar por parte do governo de Assad.

Fonte: G1 Mundo

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Tribunal dos EUA declara ilegal o programa que protege os ‘Dreamers’


Biden disse que o Departamento de Justiça vai recorrer da decisão de juiz do Texas, e acrescentou que ‘somente o Congresso pode garantir uma solução permanente ao conceder um caminho para a cidadania aos Dreamers’, migrantes sem documentos que chegaram ao país quando eram crianças. Foto de arquivo de 18 de junho de 2020 mostra estudantes do programa Ação Diferida para Chegadas na Infância (Daca, na sigla em inglês) em frente à Suprema Corte dos EUA em Washington
Manuel Balce Ceneta/AP/Arquivo
Um juiz federal dos Estados Unidos declarou ilegal, na sexta-feira (16), o programa que protegia os migrantes sem documentos que chegaram ao país quando eram crianças, e bloqueou a inscrição de novos solicitantes.
O presidente Joe Biden considerou a decisão “profundamente decepcionante”. Em um comunicado da Casa Branca, Biden disse que o Departamento de Justiça vai recorrer da decisão do juiz Andrew Hannan do Texas, e acrescentou que “somente o Congresso pode garantir uma solução permanente ao conceder um caminho para a cidadania aos Dreamers”.
Implementado pelo ex-presidente Barack Obama em 2012, o programa de Ação Diferida para Chegadas na Infância (Daca) cobre cerca de 700.000 pessoas conhecidas como “Dreamers”. Para muitos, os Estados Unidos são o único país que conhecem.
“Por mais de nove anos, os Dreamers viram os tribunais e os políticos debaterem se permitiriam que eles permanecessem no único país que muitos deles conhecem. Já é hora do Congresso agir e dar a eles a proteção e a certeza que merecem”, disse Obama em sua conta do Twitter.
Em sua decisão, o juiz Andrew Hanen do Tribunal Federal de Distrito em Houston disse que Obama excedeu sua autoridade quando instituiu o Daca por meio de uma ordem executiva. Ele afirmou que o governo deve parar de aceitar pessoas no programa, embora ainda possa receber solicitações.
Hanen afirmou que sua decisão não exige que o Departamento de Segurança Nacional ou o Departamento de Justiça “tomem alguma ação de imigração, deportação ou criminal contra qualquer destinatário, solicitante ou qualquer outra pessoa do Daca que não tomaria de outra forma”.
A decisão também não afetou de imediato a situação das pessoas que já foram aprovadas no programa.
Para solicitar a proteção do Daca, que também permite o direito ao trabalho, os solicitantes devem ter chegado aos Estados Unidos antes dos 16 anos.
Além disso, devem frequentar a escola ou serem formados no ensino médio ou equivalente, ou terem sido dispensados com honra do exército e não ter antecedentes criminais.
Em 2017, o então presidente Donald Trump tentou desmantelar o Daca alegando que era inconstitucional, o que provocou uma longa batalha judicial.
Desde que assumiu o cargo, o presidente Joe Biden buscou fortalecer o programa, assim como iniciar uma reforma migratória mais ampla.
Depois da decisão de sexta-feira, a presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, disse: “Os democratas pedem aos republicanos no Congresso que se juntem a nós para respeitar a vontade do povo americano e a lei, para garantir que os Dreamers tenham um caminho permanente para a cidadania”.
Como funciona o programa
O Daca, que é a sigla em inglês do programa Ação Diferida para Chegadas na Infância (“Deferred Action for Childhood Arrivals”), evita a deportação temporariamente, mas não garante cidadania futura, nem residência permanente. Os vistos de estada e de trabalho são concedidos por dois anos e podem ser renovados.
O Daca protege cerca de 690 mil imigrantes da deportação. A estimativa é que 5.780 brasileiros estejam inscritos no programa.
Foi criado por decreto em 15 de junho de 2012 pelo então presidente democrata Barack Obama, diante da impossibilidade de aprovar – em um Congresso dominado pelos republicanos – a Lei DREAM (“Development, Relief and Education for Alien Minors Act”), ou Lei de Desenvolvimento, Alívio e Educação para Menores Estrangeiros.
Por isso, os imigrantes levados quando crianças para os Estados Unidos passaram a ser chamados de “Dreamers” (sonhadores), em referência à lei, mas também ao sonho de conseguir uma vida melhor nos EUA.
A maioria dos “Dreamers” nasceu no México e em países centro-americanos e vive na Califórnia e no Texas, mas também em Nova York, Illinois e Flórida.

Fonte: G1 Mundo

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Os espiões adolescentes recrutados pela polícia secreta alemã na Guerra Fria


Durante 40 anos, polícia secreta da Alemanha Oriental construiu rede de espionagem com 189 mil colaboradores informais, incluindo milhares de adolescentes. Torre de vigilância da Stasi: polícia secreta era temida na Alemanha Oriental
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O primeiro encontro oficial de Shenja, então uma estudante de 17 anos, com um agente da polícia secreta da Alemanha Oriental ocorreu em fevereiro de 1981.
Documentos do antigo Ministério para a Segurança do Estado (MfS), popularmente conhecido como Stasi, ilustram um evento planejado em detalhes e um lado pouco debatido da temida organização: o aliciamento de menores de idade como colaboradores informais.
Naquela reunião, a Stasi recrutou a adolescente. Vinda de uma família “disfuncional” na visão da ditadura do Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED), Shenja era um alvo interessante. Sua mãe, a senhora Beden, constava nos arquivos da Stasi desde 1961 como uma “fugitiva da República” por ter se mudado de Rostock para Hamburgo antes da construção do muro de Berlim.
Em 1981, as duas estavam separadas pelo regime havia cerca de oito anos. Esse desfecho começou quando Beden foi proibida de voltar a Hamburgo após uma viagem a Rostock. Ao longo de alguns anos, ela tentou deixar o país socialista novamente, inclusive pedindo um visto de saída. Seu comportamento, considerado um risco para ordem social, rendeu-lhe 10 meses na prisão, em 1973, e a perda da guarda da filha, enviada a um orfanato.
Beden foi deportada para a Alemanha Ocidental em 1975, sem Shenja e o filho nascido cerca de um ano antes. Do exterior, ela tentou resgatar as crianças, enquanto a Stasi reduziu ao máximo o seu contato com a garota. Até que, em 1980, o nome de Shenja apareceu em um panfleto sobre violações de direitos humanos em uma reunião da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) em Madri, o que levou a Stasi a contatar a estudante.
Shenja não era uma raridade na estrutura da Stasi. Pelo contrário, em seus 40 anos de existência, a polícia secreta aliciou informalmente milhares de adolescentes para se infiltrar em áreas hostis ao regime do SED, como grupos punks ou com religiosos oposicionistas. Esses jovens, por outro lado, só poderiam ser recrutados de forma oficial quando adultos. Logo, termos de compromisso assinados por menores não eram legais.
A maioria deles tinha por volta de 16 e 17 anos. Há poucos estudos específicos sobre a quantidade de menores aliciados, mas o historiador Helmut Müller-Enbergs compartilha a hipótese de que tratavam-se de 0,8% dos colaboradores não oficiais. Ou seja, cerca de 1,3 mil em 1989.
“Jovens de 17 anos eram frequentemente recrutados antes do serviço militar para obterem informações de soldados no quartel. Os de 15/16 anos costumavam estar em ambientes alternativos (góticos, punks, skinheads etc.), então a Stasi queria dados sobre essas redes”, explica à BBC News Brasil Müller-Enbergs, professor-adjunto do Departamento de História da Universidade do Sul da Dinamarca (SDU) em Odense, na Dinamarca.
Cidadãos ainda mais jovens chegaram a ser recrutados. Em alguns casos, a Stasi queria testá-los para carreiras oficiais na entidade. Primeiro, explica Jens Gieseke, chefe do departamento de Comunismo e Sociedade no Centro Leibniz para História Contemporânea, em Potsdam, a organização buscava estabelecer “uma base de confiança” entre o oficial de cada caso e os candidatos para “convencê-los (ou pressioná-los)” a cooperar e influenciá-los politicamente. “Mas não havia lavagem cerebral. Eles não usavam técnicas psicológicas tão avançadas.”
O caso de Shenja é uma das milhares de histórias preservadas pelo Arquivo de Registros da Stasi, agência que foi responsável durante 31 anos por manter os documentos da polícia secreta e abri-los ao público. Desde 21 de junho, o acervo passou a integrar os arquivos federais, mas os cidadãos continuam a ter acesso aos dados.
Arquivos da Stasi foram tornados públicos após a reunificação da Alemanha
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Prática restrita
Dissolvida em janeiro de 1990 durante a reunificação da Alemanha, a Stasi foi construída sob orientação direta da União Soviética para controlar a vida dos alemães orientais, oprimir opositores e dar suporte ao SED. Na época de seu seu fechamento, tinha 189 mil informantes não oficiais (1 para cada 90 habitantes da Alemanha Oriental) e 91 mil funcionários em tempo integral.
O alto escalão da polícia secreta, segundo os especialistas, não apenas sabia do aliciamento de menores, como o promovia até certo ponto. Por outro lado, não parecia existir uma estratégia ampla ou, como afirma Gieseke, menores denunciando pais e parentes.
“Ao contrário dessa imagem de penetração total de famílias como unidades sociais básicas, alimentadas por fantasias orwellianas, as famílias eram portos intactos de relações de confiança na Alemanha Oriental, ao menos no período pós-década de 1950”, diz.
Apesar de não ser insignificante, o uso de menores pela Stasi nunca se tornou amplo. Entre os motivos estariam a falta de popularidade da prática entre os funcionários (muitos dos quais tinham filhos), a ilegalidade desse tipo de conduta, e o fato de que os informantes precisavam coletar informações políticas complexas, um tipo de compreensão sofisticada que adolescentes ainda não haviam desenvolvido por completo.
Não há, ao menos por hora, muitos detalhes sobre a percepção dos alemães orientais a respeito dessa prática. O cenário mais provável é que seriam limitadas as chances de a população saber sobre os aliciamentos. Segundo Gieseke, ainda que houvesse esse conhecimento, discussões sobre o tema ficariam restritas a ambientes privados.
Antiga sede da Stasi em Berlim é hoje um centro visitação e pesquisa chamado ‘campus para a democracia’
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Espiões adolescentes
Ao infiltrar-se em uma demografia mais jovem, a polícia secreta queria uma porta a grupos aos quais teria dificuldade de acessar de outras formas. O foco, em geral, era obter dados sobre as atividades políticas de colegas de classe uma vez que colaboradores adolescentes teriam melhores condições de interagir com esses alvos do que professores ou adultos.
A Stasi utilizava diversas estratégias para abordar esses jovens, incluindo a manipulação de candidatos de “famílias instáveis” ou se estabeleciam como “amigos” mais velhos e “solidários”. Antes dos recrutamentos, a organização também avaliava os possíveis pontos fracos de informantes e considerava se os alvos estavam prontos para trabalhar com a polícia secreta. Eles ainda focavam em fãs de espionagem e jovens envolvidos em crimes, que poderiam ser forçados a colaborar para evitar punições.
Depois de recrutados, esses jovens não eram pressionados ao extremo. Os informantes geralmente se reuniam com seus oficiais em uma base regular para relatar e receber instruções. “Mas a cooperação era ‘bem frágil’. Em um grande número de casos, os agentes não conseguiram estabelecer um contato estável e os supostos informantes tentaram escapar da pressão ou compartilharam seu segredo com familiares ou amigos. Nesse caso, a Stasi geralmente precisava encerrar a cooperação e encerrar o processo”, diz Gieseke.
Construção do muro de Berlim: a Stasi existiu por quatro décadas, quando a Alemanha era dividida em Oriental, de influência comunista, e Ocidental, capitalista
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Registros falhos
Hoje, é difícil identificar esses menores colaboradores com base nos arquivos da Stasi. Como a organização não definiu uma provisão especial para registrá-los, havia diferentes formas de fazê-lo internamente entre as burocracias locais. Alguns se referiram a esses indivíduos como “pessoas de contato”, outros como “menores precursores”.
Ambas as nomenclaturas borram as estáticas oficiais, pois esses registros não podem ser conclusivamente estabelecidos como de menores colaboradores. Para Gieseke, essa prática pode ter sido adotada para turvar os dados, mas “não há indícios de que o número ‘real’ de informantes menores seja significativamente maior”.
Na Alemanha reunificada, o acesso a esses casos depende da permissão do ex-informante. Por outro lado, os arquivos podem ser acessados se os colaboradores tiverem cooperado com a polícia secreta depois dos 18 anos.
Em alguns casos, ex-informantes menores de idade vieram a público com suas histórias. Angela Marquardt, uma ativista política de esquerda e punk na Alemanha unificada, escreveu um livro sobre como a Stasi a abordou ainda adolescente.
No caso de Shenja, a sua colaboração com a polícia secreta durou até 1987. Como estudante em Dresden e Jena, passou informações sobre colegas de universidade para a Stasi. Mas sua colaboração foi encerrada após seu marido tornar-se um funcionário em tempo integral do MfS.
Os documentos mostram que Shenja ficou surpresa e triste com seu o destino. No último encontro com a Stasi, ganhou apenas 200 marcos como agradecimento.

Fonte: G1 Mundo

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O mistério da casa que desapareceu em uma ilha da Irlanda


Premiado documentarista Neville Presho perdeu tudo quando seu refúgio na costa de Donegal desapareceu. Quando Neville Presho voltou para Tory, havia apenas um espaço vazio no lugar onde ficava sua casa
BBC
Imagine um lindo dia de verão. Um homem olha de um barco no Atlântico a costa distante da remota ilha irlandesa de Tory.
Ele está à procura de sua casa, um refúgio que tem na ilha e que não vê há oito anos.
A construção era uma das mais antigas do local, logo acima do porto com vista panorâmica para o mar.
Ele a tinha pintado de branco antes de deixar a Irlanda rumo à Nova Zelândia.
Mas a casa não estava mais ali — somente um espaço vazio.
Ele esfrega os olhos e espera descobrir que tudo não passa de um sonho.
Em vez disso, é um pesadelo que para o engenheiro civil Neville Presho começou em julho de 1994.
Neville Presho fotografado em julho de 2009
TREVOR MCBRIDE
Quando Presho saiu de barco naquele dia de verão e se dirigiu ao local onde antes estava sua casa, não pôde acreditar no que viu, diz.
“Tudo o que vi foram 15 centímetros de um tubo de plástico saindo do solo, que era meu encanamento de água”.
“Havia grandes rochas de cerca de 2,5 por 0,5 metros no que antes era o perímetro (da casa).
“Minha banheira estava de cabeça para baixo na praia.”
‘Muro de silêncio’
“Neville começou a fazer perguntas e, curiosamente, não obteve respostas. Deparou-se com um muro de silêncio”, diz Conor McKay, que, com Michael Shannon, produziu o docudrama da BBC “The House That Disappeared” (“A Casa Que Desapareceu”, em tradução livre para o português).
“As pessoas disseram que ela foi levada por um redemoinho. Alguém falou que era melhor não perguntar, e outro mencionou um brilho estranho no céu”.
“Houve um momento em que ninguém mais acreditava nele. Um psiquiatra achou que Neville havia fantasiado tudo aquilo”.
É uma história com muitas reviravoltas, diz McKay, e que impactou profundamente Prescho.
“Ele nunca mais foi o mesmo”, diz McKay.
“Além de engenheiro civil, Neville era um cineasta muito respeitado. Seus documentários ganharam muitos prêmios internacionais, mas ao descobrir que sua casa havia desaparecido, ele não fez mais filmes”.
“Infelizmente, desenvolveu uma doença mental muito séria. E passou anos tentando obter respostas”.
“Ele finalmente conseguiu um pouco de justiça, mas demorou muito.”
Correram rumores de incêndio criminoso e, mais tarde, de que a casa havia sofrido consideráveis ​​danos causados por tempestade
NEVILLE PRESHO
Uma tempestade ou uma escavadeira?
Neville tentou em vão conseguir que um advogado assumisse o caso.
Ele pediu ajuda à polícia, mas quando um detetive visitou a ilha, também se deparou com um muro de silêncio.
Um juiz diria mais tarde que a ausência de declarações de muitas pessoas “sobre o que deveria ser óbvio para todos é significativa”.
Correram rumores de incêndio criminoso e, mais tarde, de que a casa havia sofrido danos consideráveis pela tempestade.
A razão pela qual Neville voltou para a ilha em primeiro lugar foi porque ele recebeu uma carta do conselho local avisando-o de que sua casa havia sido danificada durante uma tempestade.
Mas um engenheiro, como explicou em um relatório, descobriu que ela foi provavelmente derrubada por meios mecânicos.
Mais tarde, um construtor que trabalhava na ilha alegou que recebera uma oferta em dinheiro para demolir a casa, mas que a recusou.
Corriam boatos de que a casa havia sido destruída em um incêndio criminoso, mas Neville não conseguiu encontrar nenhuma prova disso.
A casa foi pintada de branco antes de Neville deixar a Irlanda rumo à Nova Zelândia
NEVILLE PRESHO
No entanto, um encontro casual dele com o jornalista e escritor Anton McCabe no barco em direção a Tory em 2003 deu gás a essa versão.
McCabe o colocou em contato com um advogado disposto a assumir seu caso.
Ele abriu um processo civil, acusando Patrick Doohan, morador local e empresário do setor hoteleiro, de ter destruído a casa de Neville, por bloquear sua vista para o oceano.
‘Para onde foi minha casa?’
Em 2009, após um dramático processo legal, um juiz decidiu que não havia evidências de que Doohan ou qualquer pessoa que agiu em seu nome tenha posto fogo na casa de Neville.
No entanto, o juiz determinou que o réu teria muito a ganhar com o desaparecimento da casa e que sua escavadeira, dirigida por ele ou não, provavelmente estaria envolvida na destruição.
O juiz concedeu a Neville US$ 55 mil (R$ 281 mil, em valores atuais) em danos por invasão e interferência em sua propriedade.
Anton McCabe lembra-se vividamente do primeiro dia daquele julgamento no Tribunal Superior em Letterkenny em 2009.
“Fui o único jornalista presente durante toda a audiência”, diz ele.
Em seguida, o jornal irlandês Daily Star publicou a história com o título “Onde está minha casa?” Na manhã seguinte, havia duas mesas repletas de jornalistas”, lembra McCabe.
O interesse internacional por sua história encorajou Neville: ele se sentiu apoiado.
“Ele ganhou vida com a publicidade em jornais”, diz o repórter.
Mas o dano pessoal já havia sido feito.
“Não é exagero dizer que (o episódio) destruiu sua vida e afetou seriamente a de sua família”, diz McCabe.
“Nem que ele tivesse recebido dez vezes mais do que recebeu, nada compensaria o que aconteceu com ele. Neville sofreu episódios de doença mental e seu casamento desmoronou.”
Pelo menos, a Justiça foi feita. Mas a um grande custo pessoal.

Fonte: G1 Mundo

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A revolta causada pela seca que enfraqueceu um dos impérios mais poderosos do mundo


Assim como no caso do Império Otomano, mudanças climáticas agem como ‘multiplicador de ameaças’ — quando agitação social coincide com condições meteorológicas extremas, pode haver consequências devastadoras. Mudanças climáticas agem como ‘multiplicador de ameaças’ — quando agitação social coincide com condições meteorológicas extremas, pode haver consequências devastadoras
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No fim do século 16, centenas de bandidos invadiram os campos rurais da Anatólia a cavalo, saqueando vilas, incitando a violência e desestabilizando o poder do sultão.
Quatrocentos anos depois e a algumas centenas de quilômetros de distância, onde hoje é a Síria, uma série de protestos generalizados se transformou em 2011 em uma sangrenta guerra civil que perdura até hoje.
Esses episódios sombrios da história do Mediterrâneo compartilham características-chave que servem de alerta para o futuro: ambos os eventos forçaram muitas pessoas a deixar suas casas. Da mesma forma, ambos tiveram origem na política e resultaram em consequências políticas dramáticas.
E ambos foram impulsionados por temperaturas extremas que costumam ser associadas às mudanças climáticas.
Como historiadora ambiental, pesquisei e escrevi extensivamente sobre conflitos e pressões ambientais na região do Mediterrâneo Oriental.
Embora secas severas, furacões, aumento do nível dos oceanos e migração climática possam parecer fenômenos novos e únicos do nosso tempo, crises passadas como a que acabei de mencionar, assim como outras, oferecem lições importantes sobre como as mudanças climáticas podem desestabilizar as sociedades humanas.
Vamos analisar isso mais de perto.
Seca no coração de um império
Vivemos em uma era de aquecimento global devido em grande parte às práticas humanas insustentáveis.
Geralmente conhecida como Antropoceno, esta era é amplamente considerada como tendo surgido no século 19, na esteira de outro período de grande mudança climática global chamado de Pequena Era do Gelo.
A Pequena Era do Gelo levou temperaturas mais frias do que a média, assim como um clima extremo, a várias partes do mundo.
Diferentemente do aquecimento antropogênico atual, provavelmente foi causada por fatores naturais, como a atividade vulcânica, e afetou diferentes regiões em momentos distintos, em diferentes graus e de maneiras bastante distintas.
Seu início no fim do século 16 foi particularmente notável na Anatólia, uma região predominantemente rural que chegou a ser o coração do Império Otomano e cujos limites são aproximadamente os da atual Turquia.
Tradicionalmente, grande parte de suas terras se destinava ao cultivo de grãos ou ao pasto de ovelhas e cabras. Eram uma importante fonte de alimento para a população rural, assim como para os moradores da movimentada capital otomana, Istambul (antes chamada de Constantinopla).
As duas décadas em torno do ano 1600 foram especialmente difíceis.
A Anatólia passou por alguns de seus anos mais frios e secos da história, sugerem os anéis das árvores e outros dados paleoclimatológicos.
Esse período também teve secas frequentes, assim como geadas e inundações. Ao mesmo tempo, os habitantes da região sofreram devido a uma praga animal e políticas estatais opressivas, incluindo a apreensão de grãos e carnes para enfrentar uma guerra custosa na Hungria.
As rebeliões Celali
As fracas colheitas prolongadas, a guerra e as dificuldades expuseram deficiências importantes do sistema de abastecimento otomano.
As intempéries paralisaram os esforços do Estado para distribuir suprimentos limitados de alimentos, a fome se espalhou pelo zona rural até Istambul, acompanhada por uma epidemia mortal.
Em 1596, uma série de levantes coletivos conhecidos como rebeliões Celali estouraram, se convertendo na ameaça interna mais duradoura ao poder do Estado nos seis séculos de existência do Império Otomano.
Camponeses, grupos seminômades e líderes provincianos contribuíram para esse movimento com uma onda de violência, vandalismo e instabilidade que durou até o século 17.
Com a persistência da seca, das doenças e do derramamento de sangue, o povo abandonou as fazendas e vilarejos, fugindo da Anatólia em busca de áreas mais estáveis, enquanto a fome matava muitos que não tinham recursos para partir.
O enfraquecimento do Império Otomano
Antes desse ponto, o Império Otomano havia sido um dos regimes mais poderosos do início da era moderna.
Abrangia grandes territórios na Europa, Norte da África, Oriente Médio e controlava os lugares mais sagrados do Islã, do Cristianismo e do Judaísmo.
Durante o século anterior, as tropas otomanas haviam entrado na Ásia Central para anexar grande parte da Hungria. Também avançaram para o Império dos Habsburgo, ameaçando Viena em 1529.
As rebeliões Celali deixaram consequências políticas importantes.
O governo otomano conseguiu restaurar a relativa calma nas zonas rurais da Anatólia em 1611, mas a um custo.
O controle do sultão sobre as províncias enfraqueceu irreversivelmente, e o controle interno sobre a autoridade otomana ajudou a conter seu movimento de expansão.
As rebeliões Celali fecharam a porta da “Era de Ouro” otomana, colocando este império monumental em uma espiral de descentralização, reveses militares e fraqueza administrativa que atormentaria o Estado otomano durante os três séculos restantes de sua existência.
Mudanças climáticas: um multiplicador de ameaças
Quatrocentos anos depois, o estresse ambiental voltou a coincidir com a agitação social e lançou a Síria em uma duradoura e devastadora guerra civil.
Este conflito surgiu no contexto de opressão política e do movimento da Primavera Árabe, e no final de uma das piores secas da Síria na história moderna.
A magnitude do papel do meio ambiente na guerra civil síria é difícil de se medir porque, como nas rebeliões Celali, seu impacto esteve indelevelmente ligado a pressões sociais e políticas.
Mas a combinação brutal dessas forças não pode ser ignorada. É por isso que especialistas militares hoje falam da mudança climática como um “multiplicador de ameaças”.
Entrando agora em sua segunda década, a guerra da Síria expulsou mais de 13 milhões de sírios de suas casas.
Anatólia chegou a ser o coração do Império Otomano
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Cerca de metade se deslocou internamente, enquanto o restante buscou refúgio em países vizinhos, na Europa e mais além, intensificando consideravelmente a crise global de refugiados.
Lições para hoje e para o futuro
A região do Mediterrâneo pode ser particularmente propensa aos efeitos negativos do aquecimento global, mas essas duas histórias estão longe de ser casos isolados.
À medida que as temperaturas do planeta sobem, o clima vai dificultar cada vez mais as questões humanas, exacerbando os conflitos e impulsionando a migração.
Nos últimos anos, países de baixa altitude como Bangladesh foram devastados por enchentes, enquanto a seca afetou vidas no Chifre da África e na América Central, enviando um grande número de migrantes para outros países.
A história do Mediterrâneo oferece três lições importantes para abordar os atuais problemas ambientais globais:
Em primeiro lugar, os efeitos negativos das mudanças climáticas recaem desproporcionalmente sobre indivíduos pobres e marginalizados, que têm menos capacidade de reagir e se adaptar;
Em segundo lugar, os desafios ambientais tendem a afetar mais quando combinados com movimentos sociais, e os dois estão frequentemente indistintamente conectados;
Terceiro, a mudança climática tem o potencial de impulsionar a migração e o reassentamento, estimular a violência, derrubar regimes e transformar dramaticamente as sociedades humanas em todo o mundo.
Em última análise, a mudança climática afetará a todos nós, de maneiras dramáticas, angustiantes e imprevistas. Mas, à medida que contemplamos o futuro, podemos aprender muito com nosso passado.
* Andrea Duffy é diretora de Estudos Internacionais da Universidade do Estado do Colorado, nos EUA.

Fonte: G1 Mundo

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Exposição retrata passado de violência colonial da Holanda que inclui Brasil


Uma nova exposição no Rijksmuseum, o museu nacional, foca na história social da escravidão, abordando relatos pessoais do período que ficou conhecido como Idade de Ouro Holandesa. Pieter Cnoll com a família e seus criados escravizados — pintura de Jacob Coeman
RIJKSMUSEUM
Os magníficos retratos de corpo inteiro de Oopjen Coppit e seu marido Marten Soolmans, de autoria de Rembrandt (1606-1669), são dois dos bens mais preciosos do Rijksmuseum em Amsterdã — o renomado museu nacional de arte e história da Holanda.
Vestidos com elegância requintada e pintados da forma que apenas os mais ricos poderiam pagar, o casal é a personificação da era de prosperidade econômica e florescimento artístico conhecida como “a Idade de Ouro Holandesa”.
Mas estes retratos também contam uma história mais complexa e perturbadora, uma vez que a riqueza dos Soolmans era proveniente do refino do açúcar produzido por uma mão de obra escrava em plantações de cana de açúcar no Brasil.
Por mais de 250 anos, a Holanda teve vastas colônias nas regiões que hoje são conhecidas como Indonésia, África do Sul, Curaçao, Nova Guiné — para citar algumas —, onde homens, mulheres e crianças escravizadas eram tratados de forma desumana.
Muitas vezes pensada como algo que foi perpetrado por uma minoria no exterior, a escravidão permeou todos os níveis da sociedade, tanto nas colônias quanto em território nacional, e deixou um legado que ainda está presente no país hoje.
É o que revela uma nova exposição no Rijksmuseum.
“Não era apenas a elite, mas também artesãos que ganhavam a vida como subcontratantes ou fornecedores, como ferreiros e carpinteiros trabalhando nos cais ou escrivães fazendo contratos. Se você olhar para toda a cadeia, então (a escravidão) está muito mais entremeada na sociedade holandesa do que costumávamos dizer”, afirma Eveline Sint Nicolaas, curadora de história do Rijksmuseum, à BBC Culture.
“Acho que é importante dizer aos nossos visitantes que não é apenas a história que aconteceu lá longe nas colônias, é na verdade a nossa história nacional e envolve todos nós.”
Os protestantes holandeses inicialmente relutaram em se envolver no tráfico de pessoas escravizadas, com um pastor se referindo a isso como uma “aberração papal” perpetrada por espanhóis e portugueses.
Mas as atitudes começaram a mudar à medida que os holandeses expandiam suas operações internacionalmente.
“Ficou claro que se queríamos competir e tomar o lugar dos portugueses, os holandeses teriam que participar do tráfico negreiro e isso provocou uma mudança na mensagem difundida pela Igreja”, diz Sint Nicolaas.
“Eles procuraram histórias na Bíblia para legitimar a escravidão e argumentaram que o Antigo Testamento dizia que a escravidão era aceitável por causa da história em que Noé amaldiçoa os descendentes de Cam como escravos”, explica.
Apesar de não haver nenhuma menção explícita na Bíblia de que Cam era negro.
“É um argumento tão complicado que sempre acho difícil entender que seja possível… mas apenas alguns clérigos questionaram, e aí começa a desumanização do ‘outro'”, diz Sint Nicolaas.
“Acho importante ressaltar que o racismo não é algo que sempre existiu”, acrescenta Valika Smeulders, chefe de história do Rijksmuseum.
“A discriminação é universal, mas legalizá-la como um sistema em que um determinado grupo de pessoas estava destinado a servir à outra metade do mundo, isso é algo que foi instalado pelo colonialismo, e que no fim do colonialismo foi reforçado por meio de ideias racistas ‘científicas’. O racismo respaldava o colonialismo, não o contrário.”
Marten Soolmans — cujo retrato feito por Rembrandt é um dos bens mais valiosos do Rijksmuseum — fez sua fortuna a partir da mão de obra escravizada no Brasil
RIJKSMUSEUM
Lidar com essa história envolve enfrentar algumas verdades incômodas para uma nação que há muito tempo se vê como tolerante, e o próprio Rijksmuseum reconhece que demorou a contar essas narrativas.
“Achávamos que não havia objetos para contar essa história, e isso foi um grande obstáculo para começar”, explica Sint Nicolaas.
Uma história pessoal
A exposição levou anos de planejamento e envolveu a contratação de novos funcionários com experiências profissionais e pessoais relevantes.
Entre eles, está Smeulders, que nasceu em Curaçao e migrou da Holanda para o Suriname em 1976, quando havia acabado de se tornar independente.
“Meus ancestrais são europeus, africanos e asiáticos. Eles eram escravizadores, escravizados e trabalhadores migrantes. Essa intrincada história colonial foi abraçada no Caribe em um ritmo mais rápido do que está acontecendo na Europa, mas agora estamos seguindo o exemplo”, diz ela.
Para isso, o museu decidiu se concentrar nas histórias de pessoas envolvidas no sistema — aquelas que se beneficiaram dele, sofreram com ele e acabaram se rebelando contra ele.
Focar na história social da escravidão, em vez da econômica, foi particularmente importante quando se tratou de contar as histórias daqueles que haviam sido escravizados, “pessoas com nomes e histórias, em vez de ‘escravizados’ anônimos que você encontra mencionados como ‘carga’ no arquivos”, diz Sint Nicolaas.
Testemunhos diretos de pessoas escravizadas são raros, uma vez que a leitura e a escrita foram proibidas na maioria das colônias, então a equipe teve que reexaminar criticamente os objetos de sua coleção, interpretar cuidadosamente as fontes escritas contemporâneas e usar a história oral para contar suas histórias.
A aquisição de novos objetos como “troncos”, contenção para os pés usada para evitar fugas, e uma “kappa”, caldeira de ferro fundido usada nas plantações de cana de açúcar, ajudou a tornar mais tangíveis as experiências dos escravos.
A “kappa” está ligada à história de Wally, um homem escravizado que foi forçado a trabalhar em uma plantação de cana de açúcar no Suriname.
As tensões aumentaram quando um novo proprietário acabou com o precioso sábado de folga — que permitia à força de trabalho socializar e cultivar suas próprias lavouras — e insistiu que era necessário uma autorização para deixar a plantação.
Toda a força de trabalho acabou fugindo em massa para a floresta nos arredores. Quando foram capturados, 19 cúmplices foram perdoados, mas os líderes, incluindo Wally, foram condenados a uma tortura terrível e uma morte lenta.
O horror da história se torna, sem dúvida, ainda mais visceral por sua natureza pessoal e pela consciência de que Wally e seus companheiros foram tratados de forma tão bárbara com base em um argumento religioso espúrio criado tenuemente para justificar ganhos econômicos.
Como Marten Soolmans comprou seu açúcar bruto de um intermediário, será que ele sabia da brutalidade do sistema que o produziu?
Até que ponto as pessoas na República Holandesa estavam cientes dos abusos no exterior é algo que Smeulders diz que precisa ser mais estudado.
“Para começar, as pessoas sabiam das coisas por meio da família. Aqueles das classes mais altas que iam para as colônias podiam ver a escravidão com seus próprios olhos, e as tripulações dos navios podiam ver a escravidão de perto, então as pessoas não estavam alheias ao que estava acontecendo”, diz ela.
Objetos como uma ‘kappa’ (caldeira de ferro fundido) e ‘troncos’ (contenção para os pés) ajudam a tornar mais tangíveis as experiências dos escravos
RIJKSMUSEUM
Mesmo que ele e Oopjen não soubessem da realidade brutal da escravidão, certamente estariam cientes da população que escapou dela, pois teriam visto a caminho do estúdio de Rembrandt, localizado na área com a maior concentração populacional negra em Amsterdã no século 17.
O fato de haver uma população negra provavelmente surpreende muitos.
Oficialmente, a escravidão era ilegal e não existia na República Holandesa, mas isso não impedia que as pessoas comprassem escravizados nas colônias e trouxessem de volta com elas.
Um criado de pele escura era sinal de pertencer a um grupo seleto com influência global.
É provável que um desses homens tenha sido Paulus Maurus, cuja história se desenrola por meio de uma coleira de latão que remonta à casa em que ele trabalhava.
Originalmente catalogada como uma coleira de cachorro quando entrou no acervo em 1881, a descrição nunca foi examinada criticamente, apesar de coleiras semelhantes serem vistas no pescoço de criados de origem africana em pinturas, e o museu agora se pergunta se ela poderia ter sido usada por Paulus.
Como teria sido a vida de um negro livre na sociedade holandesa?
“Muito mais complicada do que poderíamos pensar”, diz Smeulders.
“Eles foram aceitos por um lado, tinham famílias e filhos… ao mesmo tempo, se você fosse uma minoria e visse representações estereotipadas ao seu redor, devia ter sido muito desconfortável.”
O próprio Paulus se casou e teve filhos, e seus descendentes podem muito bem estar morando em Amsterdã hoje, embora seja improvável que saibam disso.
“Depois de algumas gerações, mal era visível que as pessoas tinham DNA africano”, diz Smeulders.
Homens negros geralmente se casavam com mulheres brancas, outro fato que pode causar surpresa, mas não havia restrições ao casamento inter-racial na época, e só podemos presumir que o preconceito era menos prevalente entre as classes menos abastadas.
Smeulders se pergunta qual seria o resultado se fossem coletadas amostras de DNA de uma grande parcela de holandeses.
“O que mais tenho curiosidade é sobre o que isso faz com a sociedade quando as pessoas percebem que estão pessoalmente relacionadas aos dois lados da história”, diz ela.
A vista do navio
As atitudes da sociedade poderiam muito bem mudar se diferentes áreas da história holandesa também fossem estudadas com mais detalhes.
Relatos históricos sobre o fim da escravidão frequentemente atribuem papéis de destaque aos abolicionistas europeus, mas os membros da resistência dentro do sistema recebem muito menos atenção.
História de Paulus Maurus se desenrola por meio de uma coleira de latão que foi originalmente catalogada em 1881 como uma coleira de cachorro
RIJKSMUSEUM
Isso é particularmente relevante na história holandesa, dada a relutância do país em seguir seus vizinhos europeus na abolição da escravidão.
Embora a Grã-Bretanha tenha abolido a escravidão em 1833 e a França em 1848 (ela foi proibida pela primeira vez em 1794, mas Napoleão Bonaparte revogou o decreto em 1802), a Holdanda só seguiu o mesmo exemplo em 1863.
A exposição destaca a história de Tula, um defensor da liberdade em Curaçao, inspirado nas ideias da Revolução Francesa.
Quando a República Holandesa ficou sob domínio francês em 1795, tornando-se a República Batava, ele argumentou que o domínio francês se aplicava às colônias holandesas e que aqueles anteriormente escravizados estavam legalmente livres.
No entanto, sua história é praticamente desconhecida na Holanda, já que o período bataviano é pouco estudado na história holandesa.
“Para nós, o período bataviano é um período de domínio francês… ele não se tornou parte de quem somos em nosso imaginário, e o papel que os afro-caribenhos desempenharam naquela era revolucionária também nunca se tornou parte de nossa narrativa, então pessoas como Tula desapareceram completamente”, diz Smeulders.
Essa mentalidade histórica estreita é o que o historiador colonial Alex van Stipriaan chama de “visão do navio”, história que dominou a academia até os anos 1980.
“Era a história de quem ficava em um navio, olhando para baixo, literalmente, para os países colonizados e os povos colonizados, sem nenhuma palavra do povo que foi colonizado”, diz.
Embora o mundo acadêmico tenha se distanciado desse ponto de vista, ele ainda está muito presente na consciência coletiva, já que os poucos historiadores que ainda defendem essas opiniões são amados pela mídia.
“Eles são citados o tempo todo”, diz Van Stipriaan com indiferença.
Ele vê isso como parte do nacionalismo populista que é evidente em toda a Europa, “a ideia de que ‘eles’ estão tentando tirar ‘nossa’ história e ‘nossa’ tolerância”, afirma.
Augustus van Bengalen segurando o cachimbo de Hendrik Cloete — a exposição foca no lado social da escravidão para contar histórias de pessoas reais
RIJKSMUSEUM
Os museus também tiveram um impacto indevido no que Van Stipriian chama de “nossa herança mental”.
“Todas essas coleções são representativas de uma visão da história muito eurocêntrica e tendenciosa, uma história de ‘superioridade’ branca e ‘inferioridade’ negra.”
Para entender a influência insidiosa dessas narrativas, basta olhar para as celebrações anuais do Dia de São Nicolau, em que homens e mulheres brancos aparecem com o rosto pintado de preto como Zwarte Piet (Pedro negro, ajudante de São Nicolau).
De acordo com Van Stipriian, durante décadas os holandeses se convenceram de que “não podemos ser racistas porque somos tolerantes (…) é apenas uma piada, é nossa tradição”, observa.
Mas as atitudes estão começando a mudar.
Começou um debate nacional sobre Zwarte Piet em 2011, depois que dois jovens artistas/ativistas afro-holandeses, Quinsy Gario e Jerry Afriye, usaram camisetas com os dizeres “Zwarte Piet é racismo” durante o desfile em Dordrecht, e no ano passado uma pesquisa mostrou que 50% das pessoas eram a favor de mudar o personagem para algo totalmente diferente.
“Mudar a visão de metade da população em 10 anos (…) nas condições holandesas, é rápido”, diz Van Stipriaan.
Para que as atitudes realmente mudem, Van Stipriaan acredita que a história da escravidão e do colonialismo precisa fazer parte da história nacional.
Ele atualmente faz parte da equipe que trabalha no projeto de um Museu Nacional Holandês da Escravidão Transatlântica, que ele acredita que vai ser “um marco na Holanda”, embora é improvável que seja inaugurado antes de 2030.
No entanto, ele faz questão de frisar que “há muito movimento, as coisas estão mudando, talvez não muito rápido, mas estão mudando”.
Ele vê a nomeação de Smeulders — de quem foi orientador no doutorado — como chefe de história no Rijksmuseum como parte dessa mudança.
Sua formação faz dela, sem dúvida, sintonizada de forma única com os desafios.
Pintura de uma plantação de 1707, de autoria de Dirk Valkenburg — o museu espera que esta exposição mude as narrativas sobre o passado colonial da Holanda
RIJKSMUSEUM
“Abraçando o que foi e abrindo o diálogo sobre isso é a única maneira de seguir em frente. Não há como desfazer o passado, mas nós estamos no comando do aqui e agora: cabe a nós fazer melhor, reconhecendo que isso é a história nacional e, portanto, algo que diz respeito a todos nós”, afirma.
“Os museus em geral têm uma tarefa muito importante — apresentar o conhecimento de uma forma que toque as pessoas, tornando-o tão pessoal que as pessoas se coloquem no lugar de quem viveu naquela época”, diz ela.
“O que eu sinceramente espero que possamos fazer com esta exposição e nosso trabalho é mostrar que qualquer história tem todos esses lados diferentes. Nós, como um museu, precisamos apresentar uma história mais complexa que reúna todas essas vozes.”
“Slavery” está em exibição no Rijksmuseum até 29 de agosto de 2021.

Fonte: G1 Mundo

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Jovenel Moïse: 4 incógnitas sobre o assassinato do presidente do Haiti


Mais de uma semana depois do crime que abalou o país caribenho, há mais dúvidas do que certezas. Mais de uma semana depois do crime que abalou o país caribenho, há mais dúvidas do que certezas
EPA/BBC
Mais de uma semana após o crime, ainda há muito mais dúvidas do que certezas em torno do assassinato do presidente do Haiti, Jovenel Moïse.
O presidente foi encontrado morto em sua residência nos arredores de Porto Príncipe, capital do Haiti, em 7 de julho, depois que um grupo de homens fortemente armados invadiu a casa ao amanhecer.
Sua esposa, Martine, ficou ferida no atentado e foi levada a um hospital em Miami, nos Estados Unidos, onde está se recuperando.
Imediatamente, as autoridades haitianas iniciaram uma perseguição contra o grupo que supostamente perpetrou o assassinato.
A polícia informou que, após um confronto que durou até a noite, conseguiu prender 18 ex-militares colombianos, os quais acusou de cometer o assassinato de Moïse.
Três outros supostos mercenários colombianos foram mortos, enquanto cinco conseguiram escapar e ainda foragidos.
Papel de ex-militares colombianos é uma das chaves do caso
STR/BBC
O chefe da Polícia Nacional do Haiti, Léon Charles, anunciou que o médico haitiano radicado na Flórida Christian Emmanuel Sanon também foi preso como suposto mentor da conspiração, na qual o senador John Joel Joseph, atualmente foragido, teria tido papel crucial.
O chefe de segurança de Moïse, Dimitri Herard, e outro haitiano-americano, James Solages, também foram presos.
Leia mais: Suspeitos de assassinato tiveram relação com forças de segurança dos EUA, diz fonte
Por sua vez, a Polícia colombiana identificou na sexta-feira um ex-funcionário do Ministério da Justiça do Haiti como a pessoa que deu a ordem para que os mercenários cometessem o assassinato.
A morte de Moïse chocou o Haiti, um dos países mais pobres da América Latina e cronicamente instável.
O crime agrava sua crise política e o deixa mergulhado em incertezas, enquanto o mundo se pergunta o que realmente aconteceu no dia 7 de julho e quem está por trás do assassinato.
Ainda existem muitas incógnitas. Confira quatro delas.
1. Como os assassinos não encontraram resistência ao invadir a casa?
Um dos aspectos mais surpreendentes do assassinato foi a facilidade com que o grupo de agressores conseguiu entrar na residência presidencial sem encontrar resistência. Segundo a versão oficial, nenhum deles ficou ferido.
O embaixador do Haiti nos Estados Unidos, Bocchit Edmond, disse que os agressores usavam coletes e capuzes da DEA, a agência antidrogas dos Estados Unidos.
Supostamente, eles invadiram o local gritando que se tratava de uma operação daquela agência, que negou qualquer ligação com o assassinato.
Os olhos se voltaram para Dimitri Herard, o chefe de segurança do presidente, preso após o crime.
Autoridades querem entender por que nem ele nem ninguém de sua equipe interveio para proteger Moïse.
É difícil explicar que um grupo de homens armados conseguiu invadir a casa, atirar 12 vezes no presidente, ferir gravemente sua esposa e sair do local sem ser interceptado.
O promotor haitiano Bedford Claude, que está investigando o possível envolvimento de Herard no crime, fez as seguintes perguntas à imprensa: “Se você é o responsável pela segurança do presidente, onde estava (no momento do crime)? O que você fez para evitar o que aconteceu?”
A polícia haitiana anunciou dias depois a prisão de três outros membros da equipe de segurança de Moïse.
2. Do que os ex-militares colombianos sabiam?
Tampouco está totalmente claro o papel do grupo de ex-militares colombianos que são considerados os autores do assassinato de Moïse.
De acordo com a imprensa colombiana, todos eram especialistas militares aposentados, e o ministro da Defesa da Colômbia, Diego Molano, confirmou que os homens fizeram parte das Forças Armadas.
O Pentágono confirmou na quinta-feira (15/7) que alguns receberam treinamento militar dos Estados Unidos no âmbito de programas de cooperação em segurança com o Exército colombiano.
Mas os detalhes de sua jornada até o assassinato de Moïse ainda não foram completamente esclarecidos.
Antes de entrar no Haiti, os ex-militares colombianos passaram alguns dias como turistas na vizinha República Dominicana — alguns deles não hesitaram em compartilhar imagens da viagem em suas redes sociais.
É esse o comportamento de quem pretende assassinar o presidente de um país? Por que escolheram se refugiar na embaixada de Taiwan, a poucos metros da casa de Moïse? Eles não tinham um plano de fuga?
O governo colombiano disse que seus parentes reforçaram que eram pessoas decentes. O presidente Iván Duque declarou à Rádio FM que a maioria deles viajou ao Haiti enganados, mas alguns sabiam do plano criminoso que iam executar.
“Tudo aponta para o fato de que um importante grupo de pessoas que chegou ao Haiti foram enganados, levados com uma suposta missão de proteção, e outros, um pequeno grupo, aparentemente tinha conhecimento detalhado da operação criminosa e da intenção de matar o presidente de Haiti”, disse Duque.
Além disso, a Polícia colombiana informou nesta sexta-feira que os acusados e detidos pelo assassinato receberam a ordem de assassinar Moïse após um encontro com o ex-funcionário do Ministério da Justiça haitiano Joseph Felix Badio três dias antes do crime.
“Vários dias antes, aparentemente três dias, Joseph Felix Badio, que era um ex-funcionário do Ministério da Justiça que trabalhava na comissão de combate à corrupção do Serviço de Inteligência Geral, diz a Capador e Rivera que o que eles têm que fazer é matar o Presidente do Haiti”, garantiu o diretor da Polícia colombiana, general Jorge Luis Vargas, em comunicado público.
Vargas disse que a informação provém de uma investigação do governo haitiano e da comissão formada pela Direção Nacional de Inteligência e pela polícia colombiana junto com a Interpol, a polícia internacional.
3. Quem é o mentor do assassinato?
As autoridades prenderam o médico haitiano-americano Christian Emmanuel Sanon, de 63 anos, que mora na Flórida. Ele é acusado de ter contratado mercenários para derrubar e substituir o presidente Moïse, que já havia alertado em entrevista ao jornal espanhol El País sobre a existência de um plano para acabar com sua vida.
Segundo a investigação, Sanon voou para o Haiti acompanhado de seus guarda-costas no início de junho com a intenção de assumir a presidência do país.
Mas é plausível que o próprio médico desconhecido tenha perpetrado um plano de tal magnitude e aspirado conquistar o poder graças a ele?
O senador John Joel Joseph, que não tem paradeiro conhecido, foi acusado de fornecer as armas com as quais o assassinato foi cometido e de organizar as reuniões para seu planejamento.
Nos últimos dias, mais detalhes foram conhecidos.
O delegado Léon Charles contou que o assassinato do presidente foi planejado na vizinha República Dominicana, em uma reunião na qual participaram o médico Sanon, James Solages, outro haitiano-americano que foi preso, e o senador Joseph.
“Eles se encontraram em um hotel em Santo Domingo. À mesa estavam os arquitetos do complô, uma equipe técnica de recrutamento e um grupo financeiro”, disse o delegado.
Investigadores haitianos acreditam que o crime foi perpetrado em coordenação com a CTU, uma empresa de serviços de segurança com sede em Miami liderada pelo venezuelano Antonio Emmanuel Intriago, que está foragido.
Joseph era primeiro-ministro quando Moïse morreu, mas presidente acabara de nomear um substituto para ele
Getty Images/BBC
O papel exato que ele desempenhou na conspiração para matar Moïse ainda não foi revelado.
Jorge Rodríguez, ex-vice-presidente da Venezuela e atualmente presidente da Assembleia Nacional daquele país, disse ter “indícios” que vinculam Intriago ao ataque com drones perpetrado contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro em agosto de 2018, mas não apresentou nenhuma prova.
Quem é realmente Intriago e qual foi sua participação no assassinato será a chave para o esclarecimento do caso.
No entanto, a especulação continua.
Em sua entrevista ao El País, Moïse apontou os setores econômicos insatisfeitos com suas políticas como os interessados em acabar com sua vida e na quinta-feira (15/7) a emissora colombiana Caracol Radio apontou o primeiro-ministro Claude Joseph como o mentor por trás do assassinato. Mas a emissora não apresentou evidências para apoiar essa versão.
Um dia antes de seu assassinato, Moïse havia nomeado um novo primeiro-ministro que não chegou a ser empossado.
A isso se soma o que foi afirmado pelo general Vargas, da Polícia colombiana, sobre o papel fundamental desempenhado pelo ex-funcionário do Ministério da Justiça haitiano Joseph Felix Badio.
4. Como a luta pelo poder será resolvida?
Jovenel Moïse tinha 53 anos e era presidente do Haiti desde 2017
Getty Images/BBC
A morte de Moïse agrava a crise institucional em que o Haiti está imerso.
A oposição haitiana alegou que o mandato de Moïse deveria ter terminado em 7 de fevereiro, cinco anos após a renúncia de seu antecessor, Michel Martelly.
Mas a saída deste último foi adiada por um ano e Moïse insistia que deveria permanecer no poder até 2022 porque só tomou posse em fevereiro de 2017.
O país deveria ter realizado as eleições parlamentares em outubro de 2019, mas a falta de acordo as atrasou e Moïse passou a governar por decreto.
Em seus quatro anos de mandato, o presidente Moïse teve seis primeiros-ministros. Um dia antes de morrer, ele nomeou o sétimo, Ariel Henry.
Mas Henry não teve tempo de tomar posse e Claude Joseph permanece no cargo em meio à incerteza sobre quem vai governar o país.
Joseph declarou que permanecerá no controle até que novas eleições possam ser realizadas, mas Henry repetiu em uma entrevista ao jornal haitiano Le Nouvelliste na quarta-feira (14/7) que ele é o primeiro-ministro.
A Constituição haitiana estabelece que, na ausência do presidente, é o presidente do Supremo Tribunal Federal quem assume temporariamente o comando do país, mas, para complicar ainda mais as coisas, o juiz René Sylvestre morreu de covid-19 há algumas semanas.
Os Estados Unidos defendem eleições ‘neste ano que permitam uma transição pacífica no poder, mas não está claro se isso acontecerá.

Fonte: G1 Mundo

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‘Como escapei de um assassino em série’


Aos 15 anos, americana Kara Chamberlain foi sequestrada, drogada e estuprada por um homem que também estava ligado ao assassinato de outras pessoas nos Estados Unidos. Ela conseguiu fugir e, desde então, tenta ajudar outras pessoas a processar e superar experiências traumáticas. Kara Chamberlain tinha 15 anos quando foi sequestrada e estuprada por um assassino em série.
Kara Chamberlain
Em 2002, uma adolescente de 15 anos foi sequestrada por um homem armado na Carolina do Sul, Estados Unidos.
Kara Chamberlain foi mantida em cativeiro por 18 horas, período durante o qual foi drogada e abusada sexualmente.
Mas ela conseguiu escapar de seu sequestrador que — descobriu a polícia mais tarde — estava ligado ao assassinato de pelo menos três outras pessoas no estado da Virgínia.
Hoje, Kara é mãe de dois filhos. Ela dá palestras e usa as redes sociais para educar outras pessoas sobre sua experiência. Também ajuda a entender o trauma que situações como a dela podem causar.
Antecipando-se ao lançamento de um documentário sobre sua história neste ano, Kara falou à BBC sobre seu sequestro e por que deseja mudar a forma como processamos e lidamos com os baques emocionais que todos experimentamos em nossas vidas.
Plano de fuga
Em junho de 2002, Kara Chamberlain estava na casa de uma amiga em Columbia, Carolina do Sul. “Estávamos nos preparando para passar o dia em um lago. Eu me ofereci para regar as flores da minha amiga enquanto ela estava tomando banho”, disse Chamberlain à BBC.
Quando estava no jardim, viu um homem estacionar seu carro na entrada da casa.
Ele saiu do veículo e se aproximou dela.
O homem disse que tinha alguns folhetos que gostaria de distribuir e perguntou se Kara poderia dá-los a seus pais, ou aos pais de sua amiga, neste caso.
Era Richard Evonitz, um ex-marinheiro de 38 anos que se mudou para a Carolina do Sul alguns anos antes. Ele puxou uma arma e a apontou para a jovem.
“Quando me vi naquela situação, tinha um plano de fuga”, disse Kara à BBC. “No minuto em que senti o cano da arma no meu pescoço, disse a mim mesma: ‘Sou uma menina pequenina de 15 anos, este é um homem adulto, não posso me defender dele. Qual é a minha melhor alternativa?’
Ele a obrigou a entrar no carro e se esconder dentro de uma caixa que tinha no banco traseiro.
A partir daí, começou o pesadelo de Kara.
Uma vez em seu apartamento, Evonitz amarrou Kara a uma cama, deu-lhe drogas e a estuprou. Ele a manteve em cativeiro por 18 horas até que ela finalmente conseguiu escapar na manhã seguinte, enquanto seu sequestrador dormia.
“Afrouxei as algemas em volta dos meus pulsos e consegui escapar da cama em que ele estava dormindo ao meu lado e saí pela porta de entrada”, contou.
“Corri em direção a um carro que passava pelo estacionamento do complexo de apartamentos e mostrei as algemas ainda penduradas em um dos meus pulsos.”
Ela disse aos homens no carro que havia sido sequestrada e pediu que a levassem às autoridades.
Após a denúncia e descrição dos fatos por Kara, a polícia foi ao apartamento do suspeito, mas ele já havia escapado.
Kara Chamberlain descreveu à BBC como conseguiu escapar de seu sequestrador
Kara Chamberlain
Eles lançaram uma operação de busca e alguns dias depois descobriram seu paradeiro: Saratosa, Flórida. Ali, Evonitz foi cercado. Ele acabou se suicidando.
No entanto, quando iniciaram uma investigação sobre o assunto, as autoridades constataram entre seus pertences evidências que indicavam que o caso pode ter ido muito mais longe do que imaginavam.
Para começar, Evonitz tinha um histórico de violência sexual. Após vários testes de DNA em itens encontrados em seu apartamento, o homem foi associado a pelo menos três assassinatos no estado da Virgínia que seguiram um padrão semelhante.
Um foi em setembro de 1996, quando Sofía Silva, de 16 anos, foi sequestrada do jardim da frente de sua casa em Spotsylvania, Virgínia. Um mês depois, seu corpo, já em estado de decomposição, foi encontrado em um condado vizinho perto de um barranco.
Então, em maio de 1997, Evonitz sequestrou as irmãs Kristin e Kati Lisk, de 15 e 12 anos, em frente ao jardim da escola delas. Após estuprá-las, ele as estrangulou e jogou seus corpos em um rio. Os cadáveres foram encontrados cinco dias depois.
Em agosto de 2002, o Gabinete do Xerife de Spotsylvania associou Evonitz às mortes dessas mulheres. Mas autoridades têm certeza de que ele foi culpado de vários outros casos de estupro, abuso sexual e assassinato.
Recuperação, motivação e dedicação
Um ano depois de sua fuga, Kara (à direita) trabalhou para o Departamento do Xerife de seu condado ajudando vítimas de abuso
Kara Chamberlain
Sobreviver a um assassino em série motivou Kara não apenas a se recuperar emocionalmente das consequências de sua provação, mas a ajudar outras pessoas que sofreram traumas semelhantes.
Em 2003, ela começou a trabalhar na assistência às vítimas e no laboratório de DNA do Departamento do Xerife do condado onde morava, trabalho que continuou durante seus anos de faculdade.
Após a formatura, ingressou na academia de polícia, onde se dedicou a investigar casos de violência sexual e abuso infantil.
Mais tarde, com dois filhos, Kara Chamberlain decidiu seguir carreira como palestrante motivacional com a ideia de compartilhar sua história e inspirar outros sobreviventes.
“Tenho grandes aspirações do que posso fazer com conversas sobre emoções e traumas e o que é essa experiência humana de passar por momentos difíceis”, explicou ela à BBC.
Por meio das redes sociais, em particular de suas contas no TikTok e Instagram (@kararobinsonchamberlain), ela encontrou uma forma de atingir centenas de milhares de pessoas com mensagens educacionais, informativas e motivacionais.
Kara pergunta o que pode ser melhorado para evitar o assédio e o abuso sexual, como apoiar as vítimas, capacitar os sobreviventes, lidar com o que ele chama de “trauma secundário” que afeta famílias, amigos e outras pessoas que estão ligadas às vítimas.
“As estatísticas mostram que estupro, sequestro ou agressão por um estranho são casos raros”, observa Kara.
Segundo ela, normalmente se trata de alguém que a vítima conhece, por isso defende prestar atenção ao ambiente e a situações desconfortáveis, bem como impor limites que podem ser muito benéficos para a proteção pessoal.
“Odeio que tenhamos que impor a responsabilidade de nos proteger, mas até que a sociedade mude, é assim que as coisas são”, frisa.
Suas mensagens nas redes incluem conselhos sobre alimentação, moda e exercícios como formas de terapia, também sobre a educação dos filhos e a vida de casal, mas o tema principal é enfrentar de forma direta, sem rodeios, as emoções produzidas por uma experiência traumática, sem se importar que sejam “negativas”.
Entre as muitas postagens de Kara nas redes sociais estão mensagens de incentivo para seus seguidores no TikTok
KARA CHAMBERLAIN TIKTOK
“Acredito piamente em abrir espaço para todos os sentimentos. É normal dizer ‘Estou tendo um dia ruim’. Isso não significa que você não seja grato pelas coisas maravilhosas que você tem”, filosofa Kara.
“Felicidade e gratidão e ter um dia ruim ou ficar com raiva podem coexistir”, acrescenta.
Com suas palestras e mensagens motivacionais nas redes sociais, Kara busca mudar a forma como falamos sobre experiências traumáticas.
“Coisas difíceis vão acontecer com você em sua vida. Coisas difíceis acontecem com todos nós”, diz ela, mas você precisa “saber que só porque coisas ruins acontecem, elas não precisam definir sua vida”.
“Elas podem muito bem definir para onde você está levando sua vida, mas não precisam definir quem você é.”

Fonte: G1 Mundo

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França vai exigir teste negativo de Covid de menos de 24 horas de vários países europeus


Segundo comunicado do primeiro-ministro francês, o país também levantará restrições a viajantes totalmente vacinados. Já a ‘lista vermelha’, da qual o Brasil faz parte e exige um ‘motivo de peso’ para justificar o deslocamento, será ampliada. Funcionária da Proteção Civil Francesa faz teste de Covid-19 em homem na entrada da 108ª edição do Tour da França
Philippe Lopez/AFP
A França vai reforçar restrições a viajantes não vacinados de vários países europeus para conter uma nova alta de casos de Covid-19, anunciou o primeiro-ministro Jean Castex em um comunicado neste sábado (17). Ao mesmo tempo, o país abrirá as portas para viajantes totalmente vacinados.
A partir da meia-noite de domingo (18), a França passará a exigir um teste negativo para a doença feito com menos de 24 horas de antecedência para todas as pessoas não vacinadas procedentes de países como Reino Unido, Espanha, Portugal, Grécia, Holanda e Chipre.
Até agora, os viajantes dos países europeus tinham que apresentar um teste negativo de até 72 horas – para os britânicos, a exigência era de um teste de no máximo 48 horas.
O anúncio francês veio depois da decisão do Reino Unido, na sexta-feira (16), de manter regras de quarentena para viajantes vindos da França.
Lista vermelha
Além disso, o gabinete do primeiro-ministro francês também confirmou que a lista “vermelha” de países se amplia e passa a incluir, a partir de agora, Cuba, Indonésia, Tunísia e Moçambique.
O Brasil faz parte desta lista, que exige que viajantes desses países apresentem um motivo de peso para justificar o deslocamento. Além disso, mesmo os vacinados devem realizar uma quarentena de sete dias ao chegarem na França.
Leia mais: Por causa da Covid, bolsistas brasileiros são impedidos de estudar na França
Viajantes vacinados
Já as restrições que pesam sobre os viajantes totalmente vacinados com imunizantes reconhecidos pela Agência Europeia de Medicamentos – caso das vacinas da Pfizer, Moderna, AstraZeneca e Janssen – serão levantadas a partir desde sábado (17), seja qual for o país de procedência, segundo o comunicado.
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Os novos casos de Covid-19 seguem crescendo na França e já superaram os 10.000 por dia, embora as internações nos hospitais não tenham aumentado, segundo os dados oficiais do governo.
(Com informações das agências de notícias AFP, RFI e Reuters)

Fonte: G1 Mundo