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Papa Francisco faz apelos a grupos de tecnologia e diversos setores; mensagens viralizam na internet


Pedidos foram endereçados aos gigantes da tecnologia, aos grandes laboratórios, aos fabricantes e traficantes de armas, entre outros. O papa Francisco gesticula ao final da sua audiência geral semanal, em 13 de outubro de 2021, no salão Paulo VI no Vaticano
Tiziana Fabi/AFP
O papa Francisco fez um apelo nas redes sociais neste sábado (16) a diversos setores, incluindo os grandes grupos de saúde, tecnologia, alimentação, armamento, entre outros. Segundo ele, o mundo precisa dar “um rosto humano” aos “nossos modelos socioeconômicos”.
Ele pediu para a vacina ser acessível a todo mundo, para a natureza não ser destruída, para não haver incentivo a guerras e violência, para não explorarem a fragilidade humana etc. As mensagens do pontífice foram muito compartilhadas na internet.
Em setembro deste ano, o papa Francisco já havia manifestado preocupações com os avanços tecnológicos e solicitado aos gigantes do Vale do Silício para evitar um nova forma de “barbárie”. Novamente, o papa mencionou as gigantes de tecnologia e outros grupos poderosos.
Leia abaixo a íntegra do que o papa Francisco escreveu:
“Devemos dar aos nossos modelos socioeconômicos um rosto humano, porque muitos modelos o perderam. Pensando nestas situações, quero pedir em nome de Deus:
Aos grandes laboratórios, que quebrem as patentes. Realizem um gesto de humanidade e permitam que todo ser humano tenha acesso à vacina.
Aos grupos financeiros e aos organismos internacionais de crédito, que permitam aos países pobres garantir as necessidades de seu povo e perdoar aquelas dívidas que muitas vezes contraíram contra os interesses daqueles mesmos povos.
Às grandes empresas de mineração, petrolíferas, florestais, imobiliárias, agroalimentares, que deixem de destruir a natureza, de poluir, de intoxicar os povos e os alimentos.
Às grandes empresas de alimentos, que deixem de impor estruturas de monopólio de produção e distribuição que inflacionam os preços e acabam por impedir o pão ao faminto.
Aos fabricantes e traficantes de armas, que cessem totalmente suas atividades que fomentam a violência e a guerra, muitas vezes no tabuleiro de jogos geopolíticos, cujo custo são milhões de vidas e deslocamentos.
Aos gigantes da tecnologia, que parem de explorar a fragilidade humana, as vulnerabilidades das pessoas, para obter lucros.
Aos gigantes das telecomunicações, que liberem o acesso a conteúdos educacionais e o intercâmbio com os professores através da internet, para que as crianças pobres possam receber uma educação em contextos de quarentena.
Aos meios de comunicação, que acabem com a lógica da pós-verdade, com a desinformação, a difamação, a calúnia e com aquela atração doentia pelo escândalo e o túrbido; que busquem contribuir à fraternidade humana.
Aos países poderosos, que parem com as agressões, os bloqueios e as sanções unilaterais contra qualquer país em qualquer parte da terra. Os conflitos devem ser resolvidos em instâncias multilaterais, como as Nações Unidas.
Aos governos e a todos os políticos, que trabalhem pelo bem comum. Não ouçam somente as elites econômicas e estejam a serviço dos povos que pedem terra, casa, trabalho e uma vida digna em harmonia com toda a humanidade e com a criação.
A todos nós, líderes religiosos, que jamais usemos o nome de Deus para fomentar guerras. Estejamos ao lado dos povos, dos trabalhadores, dos humildes e lutemos juntos para que o desenvolvimento humano integral seja uma realidade. Construamos pontes de amor.”

Fonte: G1 Mundo

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Sem fim à vista, erupção nas Canárias está prestes a completar um mês sem mortos ou feridos; veja dados


Vulcão Cumbre Vieja entrou em erupção no dia 19 de setembro, deixando um rastro de destruição com rios de lava, cinzas e terremotos. Mais de 7.000 pessoas foram evacuadas e quase 2.000 prédios destruídos. Prestes a completar um mês, a erupção do vulcão Cumbre Vieja na ilha espanhola de La Palma, localizada no arquipélago das Canárias, na Espanha, continua sem previsão de término.
Neste domingo (17), o chefe do governo regional das Canárias, Angel Victor Torres, disse que não há sinais de que o fim da erupção seja iminente.
Desde que o vulcão entrou em atividade no dia 19 de setembro, cinzas, barulhos de explosões, rios de lava e terremotos passaram a fazer parte da realidade de La Palma, que tem cerca de 83 mil habitantes.
Só neste domingo, foram 42 tremores, o maior deles com magnitude de 4.3, segundo o Instituto Geográfico Nacional da Espanha, informa a agência Reuters.
Integrantes da Unidade de Emergência Militar Espanhola monitoram a evolução de um novo fluxo de lava do vulcão Cumbre Vieja, em La Palma
Luismi Oritz/UME/AFP
Pelo segundo dia consecutivo, aviões não puderam voar na região da ilha por causa das cinzas vulcânicas.
As companhias aéreas cancelaram os 38 voos programados para este domingo (17), muitos deles vindos de outras ilhas do arquipélago situado no Oceano Atlântico. Apenas quatro dos 34 voos programados para sábado (16) puderam ocorrer como estava planejado.
Ao longo deste quase um mês de atividade vulcânica, milhares de pessoas tiveram que ser evacuadas de suas residências e centenas de hectares foram arrasados. Até o momento, não há registros de mortos ou feridos.
Veja a seguir um balanço dos principais números da erupção:
0 mortos ou feridos
Apesar do rastro de destruição provocado pelo vulcão, os esforços de emergência foram bem sucedidos e nenhuma pessoa se feriu ou morreu.
Moradores olham de uma colina enquanto a lava flui do vulcão em erupção na ilha de La Palma , na Espanha, em 24 de setembro de 2021. O vulcão nas Ilhas Canárias, um território espanhola no Oceano Atlântico, continua a produzir explosões e a expelir lava cinco dias após entrar em atividade.
Emilio Morenatti/AP
7.000 pessoas evacuadas
Segundo a agência EFE, uma de cada cinco pessoas dos três municípios situados na área soterrada pelos fluxos de lava e dentro do perímetro de risco para gases tóxicos e queda de outros materiais tiveram que deixar suas casas. Cerca de 3 mil pessoas que vivem nos arredores entraram em lockdown por causa do risco de inalar gases tóxicos, de acordo com a BBC.
Imagem de drone de uma casa solitária poupada do fluxo de lava nas ilhas Canárias de La Palma, Espanha. Foto do dia 21 de setembro de 2021
Alfonso Escalero/I Love The World/via REUTERS

742 hectares arrasados
O equivalente a cerca de 1% da superfície da ilha foi soterrado pela lava do Cumbre Vieja, segundo o satélite Copernicus. Ainda de acordo com a agência EFE, 202 hectares de plantações de banana, uvas e abacates foram danificados pela erupção.
Imagem aérea mostra avanço rio de lava da erupção do vulcão Cumbre Vieja, em La Palma
IGME/AFP
Quase 2.000 prédios destruídos
Edificações de todo o tipo foram danificadas, entre casas, escolas, igrejas e prédios comerciais. Segundo a BBC, uma fábrica de cimento e outros galpões industriais foram varridos do mapa.
Integrantes da Unidade Militar de Emergência da Espanha usam equipamentos de proteção para limpar as cinzas de telhados em La Palma
Luismi Ortiz/UME/AFP
Magnitude máxima de 4.6
Segundo a EFE, já são mais de 2.700 terremotos desde que a erupção começou. O mais forte deles até agora registrou 4.6 de magnitude.

7.000 metros
Esta foi a altitude atingida pela coluna de cinzas, ou pluma vulcânica, emitida pelo cone principal do vulcão em 28 de setembro.
Imagem de satélite mostra nuvem de cinzas saindo do vulcão em La Palma, uma das ilhas Canárias, em 4 de outubro de 2021 na Espanha
Observatório da Terra da Nasa via Reuters

1.240 graus celsius
Foi a temperatura alcançada por alguns dos fluxos de lava que cruzaram La Palma.
Lava do vulcão atinge o mar na ilha espanhola de La Palma, nas Canárias, em 29 de setembro de 2021
Borja Suarez/Reuters
8 erupções registradas
Esta é a oitava erupção que se tem registro em La Palma. Segundo a EFE, cinco erupções ocorreram entre os séculos 15 e 18. Mais recentemente, houve uma erupção em 1949 e outra em 1971. Por volume de material vulcânico emitido, a atual já é a terceira erupção mais importante da história das Canárias, segundo a agência.
Nuvem de gases formada quando a lava do vulcão entra em contato com a água do mar em La Palma, nas Ilhas Canárias, em 30 de setembro de 2021 na Espanha
Daniel Roca/AP
10,5 milhões de euros (cerca de R$ 67 milhões)

É o valor destinado pelo governo da Espanha para medidas urgentes de moradia e ajuda aos desalojados. O presidente de governo da Espanha, Pedro Sánchez, afirmou na última quinta-feira (14) à emissora privada La Sexta que alocará “todo o dinheiro que for necessário para reconstruir esta ilha maravilhosa”. Segundo a AFP, Sánchez também disse que o governo se fará presente “até reconstruirmos 100% de tudo o que o vulcão destruiu”.
Lava do vulcão destrói tudo pelo caminho na ilha de La Palma, na Espanha, em 23 de setembro de 2021. O vulcão entrou em erupção no domingo (19) nas Canárias, um arquipélago espanhol formado por 8 ilhas no Oceano Atlântico, e forçou a evacuação de milhares de pessoas.
Emilio Morenatti/Pool via Reuters

Fonte: G1 Mundo

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Após 12 dias gravando filme pioneiro no espaço, equipe de cinema da Rússia volta à Terra


Diretor, atriz e astronauta pousaram no Cazaquistão neste domingo. Filme deve contar a história de médica que precisa viajar ao espaço para operar um astronauta que não pode ser tratado na Terra. Equipe de cinema da Rússia volta à Terra após 12 dias no espaço
Uma equipe de cinema da Rússia voltou à Terra neste domingo (17) após encerrar as gravações do primeiro filme no espaço. Eles passaram 12 dias no local para gravar um filme pioneiro.
O diretor e produtor Klim Shipenko, a atriz Yulia Peresild e o astronauta Oleg Novitskiy deixaram a Estação Espacial Internacional (ISS) e pousaram no Cazaquistão, país vizinho à Rússia.
Yulia Peresild, a atriz que interpreta o papel principal no filme e que foi escolhida entre 3.000 candidatas, foi retirada do aparelho entre aplausos
Handout/Russian Space Agency Roscomos/AFP
Durante os trabalhos, um imprevisto surpreendeu a equipe na sexta-feira, quando a estação espacial se inclinou de maneira inesperada e causou as interrupções dos trabalhos.
O filme deve contar a história de uma médica que precisa viajar ao espaço para operar um astronauta que não pode ser tratado na Terra.
No ano passado, a Nasa anunciou planos de lançar o ator Tom Cruise para gravar um filme no espaço em colaboração com a SpaceX de Elon Musk.

Fonte: G1 Mundo

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‘Crianças comiam em cochos’: os últimos relatos em vida de americanos escravizados


Após crise de 1929, governo dos EUA pagou escritores desempregados para entrevistar os últimos negros que haviam passado pela escravidão. Brasil não tem memória semelhante. Após crise de 1929, governo dos EUA pagou escritores desempregados para entrevistar os últimos negros que haviam passado pela escravidão. Brasil não tem memória semelhante
BIBLIOTECA DO CONGRESSO AMERICANO via BBC
“Meu Deus, minha senhora, nunca ninguém lhe contou que era contra a lei ensinar um negro a ler e a escrever nos tempos da escravidão? Os brancos lhe cortavam a mão fora por essas mais do que por quase qualquer outra coisa.”
“Isso é só jeito de dizer, cortar a mão fora. Ora, senhora, um negro sem mão não ia ter como trabalhar muito, e o dono não ia conseguir vendê-lo por um preço nem parecido com o que ganharia por um escravo com mãos boas. Eles só espancavam ele a valer quando o pegava estudando como se faz para ler e escrever.”
O relato é de William McWhorter, homem negro americano que viveu a experiência da escravidão no Estado sulista da Geórgia. As memórias dele foram colhidas em 1938, quando tinha 78 anos, pelo Projeto Federal de Escritores (Federal Writers’ Project).
Esse projeto foi criado durante a presidência de Franklin D. Roosevelt (1933-1945), como parte de uma série de iniciativas de sua administração para tentar reviver a economia americana após a Grande Depressão, iniciada em 1929. Nesta ação, escritores profissionais e aspirantes foram contratados pelo governo dos Estados Unidos para entrevistar ex-escravizados idosos.
Entre 1936 e 1938, esses entrevistadores percorreram 17 Estados ouvindo homens e mulheres já próximos da morte e que, em sua maioria, haviam vivido a escravidão quando crianças. As conversas resultaram em mais de 2 mil narrativas datilografadas, enviadas para Washington.
Esse material só viria a ser publicado na década de 1970, quando o fortalecimento do Movimentos dos Direitos Civis — que lutava pela igualdade para a comunidade negra nos Estados Unidos — trouxe um anseio por entender melhor o passado racista do país.
Atualmente, o material está todo disponível no site da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. No Brasil, uma seleção desses relatos foi publicada no ano passado, no livro Nascidos na escravidão: Depoimentos norte-americanos, lançado pela editora Hedra.
Nascidos na escravidão: Depoimentos norte-americanos
BIBLIOTECA DO CONGRESSO AMERICANO via BBC
Mudando o quadro pintado pelos senhores
“Até a metade do século 20, os historiadores americanos entendiam o cativeiro como uma ‘escola da civilização’, uma instituição que elevava o negro da vida supostamente bárbara na África, para uma vida civilizada nos Estados Unidos. Nesse sentido, eles entendiam que o cativeiro era resignadamente aceito pelos cativos”, diz Tâmis Parron, organizador da edição brasileira e professor do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense (UFF).
O historiador, especialista em escravidão, geopolítica e economia do século 19, conta que as narrativas colhidas pelo Projeto Federal de Escritores ajudaram a mudar essa visão.
“Com os depoimentos dos escravizados diante dos olhos, os historiadores revisaram esse quadro róseo da vida escrava, pintado com o pincel dos senhores”, afirma.
“De um lado, os historiadores passaram a ter relatos em primeira mão das práticas de tortura na plantation, do que a escravidão tinha de pior e de mais desumanizador”, diz Parron — plantation era o sistema agrícola baseado na monocultura de exportação, latifúndio e mão de obra escrava.
“Do outro lado, eles começaram a entender as estratégias pelas quais os escravos, mesmo numa posição subordinada, lutavam por manter sua dignidade na família, nas práticas culturais e religiosas e na resistência.”
O pesquisador lembra que o recolhimento de relatos em primeira pessoa de escravizados tem uma origem mais antiga nos Estados Unidos. A prática foi uma estratégia editorial do ativismo abolicionista americano, como forma de desmentir a ideia de que os escravos eram felizes no cativeiro.
Para Parron, a ausência dessa tradição talvez explique por que, no Brasil, não foram colhidos relatos dos um dia escravizados quando essas pessoas ainda estavam vivas para contar suas histórias.
“O abolicionismo brasileiro não sentiu a necessidade de colher esses relatos porque, sendo o Brasil uma nação escravista de Norte a Sul [diferentemente dos Estados Unidos, onde a escravidão estava concentrada no Sul e o movimento abolicionista no Norte do país], todo mundo tinha contato direto com a escravidão”, avalia o pesquisador.
“Por aqui, a publicação da voz do escravizado não produzia o mesmo efeito de escândalo que produzia numa sociedade sem escravidão [como o Norte dos Estados Unidos]”, afirma.
“Então não encontramos um recolhimento em massa de depoimentos dos escravizados. Encontramos suas vozes aqui e acolá, em cartas de ex-escravizados. E temos, por exemplo, o relato do [africano escravizado no Brasil Mahommah] Baquaqua, que conseguiu se livrar da escravidão e foi parar nos Estados Unidos. Por isso temos o relato dele.”
Para o professor da UFF, a ausência desses relatos no Brasil tem consequências até hoje.
“Essas escolhas vão se acumulando no tempo e acabam produzindo uma naturalização das desigualdades socio-raciais”, diz Parron. “Cada vez que uma voz dessas é silenciada, há uma despolitização da raça como um fator de construção da desigualdade humana.”
Confira uma seleção de alguns dos relatos mais impactantes dos últimos americanos um dia escravizados, reunidos no livro Nascidos na escravidão: Depoimentos norte-americanos.
Os trechos entre colchetes — […] — foram acrescentados pela BBC News Brasil para dar clareza a alguns termos que podem não ser tão conhecidos hoje em dia.
Comida em cocho
“As crianças mais jovens eram alimentadas de um cocho [comedouro para rebanho] de seis metros de comprimento. Sempre na hora das refeições, o senhor vinha supervisionar a cozinheira cujo dever era encher o cocho de comida.
No desjejum, o leite e o pão eram misturados no cocho pelo senhor, que usava sua própria bengala. No almoço e no jantar, as crianças recebiam caldo de vegetais e pão, e às vezes leite misturado da mesma maneira.
Todos se mantinham afastados até o senhor terminar de misturar a comida e, dado o sinal, corriam para o cocho, onde começavam a comer com as mãos. Alguns até mergulhavam suas bocas no cocho para comer.
Algumas vezes, os cães e alguns dos porcos do senhor que corriam soltos no pátio se dirigiam ao cocho para participar da refeição. (…) eles não tinham permissão para bater em nenhum desses animais de modo a afastá-los, então colocavam as mãos nos lados do rosto enquanto comiam para protegê-los das línguas dos intrusos.
Durante a refeição, o senhor caminhava de uma ponta à outra do cocho para garantir que a situação estava como deveria.”
— George Womble. Nascido em 1843, viveu em situação de escravidão no Alabama e foi entrevistado na Geórgia, aproximadamente aos 93 anos.
Ama de leite
“Quando o assunto era trabalho, nunca se tinha folga nenhuma.
Quando os escravos voltavam do eito [roçado] depois do pôr do sol e cuidavam do gado e da janta, os homens ainda tinham que debulhar milho, consertar canga de cavalo [objeto de couro usado no pescoço do animal para ligá-lo a uma carroça ou arado], cortar madeira e coisas assim; as mulheres costuravam, fiavam, teciam e algumas tinham que ir para a casa grande e dar de mamar para os bebês dos brancos.
Uma noite, minha mãe tinha dado de mamar para um dos bebês brancos e depois que ele pegou no sono, ela foi colocar ele na caminha.
O pé da criança se prendeu nos suspensórios do senhor Joe, que ele tinha pendurado no pé da cama, e quando ele escutou o bebezinho chorando, o senhor Joe acordou, agarrou um pedaço de pau e bateu na cabeça da minha mãe até que quase matou ela.
Minha mãe nunca ficou bem de verdade depois disso, e quando morreu ainda tinha um calombo enorme na cabeça.”
— William McWhorter. Viveu em situação de escravidão na Geórgia e foi entrevistado no mesmo Estado, aos 78 anos.
Filhos do senhor
“Uma vez, o senhor foi a Baton Rouge [capital da Louisiana] e trouxe de volta uma moça mulata vestida toda elegante. Era uma negra costureira. Ele construiu uma casa para ela longe da senzala e ela fazia a costura fina para os brancos.
Os negros sabiam que o doutor pegava uma negra como pegava uma branca e pegava quem bem entendia nas suas terras, e pegava bastante.
Mas quase todas as crianças que nasciam por lá pareciam negras. Tia Cheyney sempre disse que quatro dos dela eram do senhor, mas ele não dava bola para eles.”
— Mary Reynolds. Viveu em situação de escravidão na Geórgia e foi entrevistada no Texas, aos 105 anos.
Mary Reynolds, 105 anos
BIBLIOTECA DO CONGRESSO AMERICANO via BBC
Banho de salmoura
“Querida, eu não gosto de falar daquela época, porque minha mãe sofreu uma miséria. Tinha um feitor que costumava amarrar minha mãe no celeiro, com uma corda que passava ao redor dos braços e por cima da cabeça, com ela de pé por cima de um bloco. Assim que terminavam de amarrar, puxavam o bloco e os pés dela ficavam no ar. Não encostavam no chão, entende?
Esse velho batia nela pelada até o sangue correr pelas costas até o calcanhar. Eu vi os vergões e cicatrizes eu mesma, com esses dois olhos aqui.
Esse chicote era um relho, igual àqueles que usa nos cavalos, um pedaço de couro largo como a minha mão do mindinho até o dedão.
Depois que batiam na minha mãe, outro feitor… Meu Deus, meu Deus, eu odeio os brancos e a enchente ainda vai levar mais deles.
Bem, querida, esse outro homem dava um banho de salmoura nela. Você nem imagina como aqueles pedaços doíam. Arrã.
Perguntei à minha mãe o que ela tinha feito para baterem nela e fazerem tudo aquilo. E ela disse que nada, só que se recusou a ser esposa daquele homem.”
— Minnie Fulkes. Nascida em 25 de dezembro de 1859, viveu em situação de escravidão na Carolina do Sul e foi entrevistada na Virgínia, aos 77 anos.
Prato quebrado
“‘Se eu fui castigada? Não, senhora, eu não fui’.
(Aqui a filha, formada pela Universidade de Cornell, que estava na sala escutando se aproximou. ‘Abre a camisa, mamãe, e deixa a senhora decidir ela mesma’. Os olhos da velha senhora se arregalaram e ela se empertigou. Ela parecia envergonhada, mas a filha tirou sua camisa, expondo as marcas nas costas e nos ombros, que pareciam ter sido feitas por um chicote de couro trançado. Não havia dúvida alguma disso.)
‘Eu fui açoitada em público’, ela disse sem alterar a voz, ‘por quebrar pratos e por ser lenta. Eu estava com a senhora Carrington naquela época, logo antes do fim da guerra [a Guerra de Secessão, entre o Norte dos Estados Unidos e o Sul escravista, que culminaria no fim da escravidão].
Eu estava na cozinha, lavando os pratos, e deixei um cair. A senhora chamou o Sr. Blount King, um patrulheiro [homens que trabalhavam na captura de escravos fugitivos], e ele me deu o castigo que deixou essas marcas que a senhora vê em mim’.”
— Cornella Andrews. Viveu em situação de escravidão na Geórgia e foi entrevistada na Carolina do Norte, aos 87 anos.
Descalços na neve
“Chefe, eu nasci na Geórgia, em Norcross, e estou com noventa anos. O nome do meu pai era Rogert Stielszen e o da minha mãe era Betty. O senhor Earl Stielszen os capturou na África e levou para a Geórgia. Ele foi morto, então minha mãe e eu fomos para o seu filho.
O filho dele era um assassino. Ele se encrencou lá na Geórgia, então arranjou dois cavalos bem rápidos e uma carroça coberta, acorrentou todos os seus escravos e fez eles caminharem até o Texas.
Minha mãe e minha irmã tiveram que caminhar. Emma era a minha irmã.
No meio da estrada começou a nevar, mas o senhor não deixou a gente amarrar nada ao redor dos nossos pés. A gente tinha que dormir no chão também, com toda aquela neve.
O senhor tinha um chicote de couro cru trançado, bem grande e comprido, e quando um dos negros ficava para trás ou caía, ele atacava com aquele chicote. Tirava carne todas as vezes que ele acertava um negro.
Minha mãe não aguentou mais no caminho, mais ou menos na fronteira do Texas. Os pés delas ficaram sangrando em carne viva e as pernas se incharam até perder a forma. O senhor só puxou a arma e atirou nela, e enquanto estava morrendo no chão ele chutou duas, três vezes, dizendo: ‘Maldita negra, não aguentou nada’.
Chefe, pois sabe que aquele homem não enterrou mamãe, só deixou ela atirada lá onde matou ela. Naquela época não tinha lei nenhuma contra matar negros escravos.”
— Ben Simpson. Viveu em situação e escravidão no Alabama e foi entrevistado no Texas, aos 90 anos.
Casamento de negros
“Eu casei antes da guerra, com a cerimônia da vassoura [sem direito ao casamento legal, os casais de escravos se comprometiam em cerimônias informais, em que, diante de testemunhas, pulavam sobre um cabo de vassoura, marcando a união de suas vidas], que nem todo o resto dos escravos, mas venderam minha mulher antes da gente fazer um ano de casados, e então veio a guerra.”
— Clay Bobbit. Viveu em situação de escravidão no Texas e foi entrevistado na Carolina do Norte, aos 100 anos.
Clay Bobbit, 100 anos
BIBLIOTECA DO CONGRESSO AMERICANO via BBC
Doze filhos
“Além de mim, tinha mais outros 11 filhos na minha família. Quando eu tinha seis anos de idade, todos nós fomos tirados dos meus pais, porque meu senhor morreu e o seu espólio precisou ser liquidado.
Nós escravos fomos divididos pelo seguinte método. Três pessoas desinteressadas foram escolhidas para ir à fazenda, e juntas elas escreveram os nomes dos vários herdeiros em alguns pedaços de papel. Cada um tirou um papel e o nome no papel era o novo dono.
Por acaso eu tirei o nome de uma parente do meu senhor que era viúva. Não consigo descrever a angústia e o horror daquela separação.
Eu tinha só seis anos de idade e foi a última vez que vi minha mãe por mais que uma noite. Doze filhos tirados de minha mãe no mesmo dia.”
— John W. Fields. Nascido em 27 de março de 1848, viveu em situação de escravidão no Arkansas e foi entrevistado na Indiana, aos 89 anos.
John W. Fields, 89 anos
BIBLIOTECA DO CONGRESSO AMERICANO via BBC
Sermão
“Aos domingos, o Sr. House obrigava todos os seus escravos a irem à igreja branca, onde sentavam-se ao fundo ou na sacada interior.
Após pregar para o público branco, o pastor voltava sua atenção para os escravos. O sermão geralmente se conformava à seguinte linha: ‘Obedeçam seus senhores e senhoras e Deus vai amá-los’.
Às vezes, um pastor negro tinha permissão para pregar do mesmo púlpito após o pastor branco terminar. Seu sermão seguia uma linha semelhante, pois era isso que ele havia sido instruído a dizer.
Nenhum dos escravos acreditava nos sermões, mas eles fingiam acreditar.”
— Henry Wright. Viveu em situação de escravidão no Alabama e Mississipi e foi entrevistado na Geórgia, aos 99 anos.
‘Mamou nessas tetas negras e agora vem bater em mim’
“Ela (minha mãe) não trabalhava no eito. Ela trabalhava no tear, por tanto tempo e tantas vezes que uma vez pegou no sono.
O filho do senhor viu e contou para a mãe. A mãe mandou ele pegar o chicote e lhe dar uma lição. Ele pegou um pedaço de pau e foi acordá-la a pancadas. Ele bateu na minha mãe até acordá-la.
Quando acordou, ela puxou uma vara do tear e bateu nele de volta até quase matá-lo.
‘Não me bate mais, eu não vou deixar eles açoitarem você’, ele gritava. E ela respondeu: ‘Eu vou te matar. Mamou nessas tetas negras e agora vem aqui bater em mim’. E quando ela saiu, ele não conseguia mais caminhar.
E foi a última vez que a vi até a liberdade. Ela saiu e subiu em uma vaca velha que costumava ordenhar. Dolly, era assim que chamava. Ela foi-se embora da fazenda, porque sabia que iriam matá-la se ficasse”.
— Ellen Cragin. Viveu em situação de escravidão na Carolina do Sul e foi entrevistada no Arkansas, aos 80 anos.
Brancos ainda lincham e perseguem
“Os brancos sempre mantiveram os escravos em semiescravidão e ainda praticam as mesmas coisas com eles de formas diferentes. Os brancos ainda lincham, queimam e perseguem a raça negra na América e há pouco que estejam fazendo para ajudá-la.
[O presidente americano Abraham] Lincoln levou a fama por nos libertar, mas foi o que ele fez? Ele nos deu liberdade sem nos dar a chance de viver por conta e ainda precisávamos depender dos brancos sulistas para trabalho, comida e vestuário, e eles usaram nossa necessidade e privação para nos manter em um estado de servidão.
Lincoln não fez quase nada pela raça negra, e nada do ponto de vista dos vivos. Os brancos não vão fazer nada pelos negros além de mantê-los subjugados.
(…)
Você está andando por aí para ouvir a história das condições de escravidão e as perseguições dos negros antes da Guerra Civil e as condições econômicas deles desde a guerra. Após tanto tempo, você já devia saber tudo isso. Você vai nos ajudar? Não! Vai só ajudar a si mesmo.
Você diz que a minha história pode aparecer em um livro, que é do Projeto Federal dos Escritores. Harriet Beecher Stowe escreveu A cabana do pai Tomás [romance abolicionista americano do século 19, repudiado pela comunidade negra no século 20 por seus personagens considerados passivos e subservientes]. Não gostei do livro e odeio ela.
Não me importa de onde você é, não quero que escreva a minha história porque os brancos foram, são hoje e sempre vão ser contra os negros.”
— Thomas Hall. Viveu em situação de escravidão na Carolina do Sul e foi entrevistado na Carolina do Norte, aos 81 anos.
Liberdade
“Foi um dia feliz para nós escravos quando chegou a notícia que a guerra acabara e os brancos tinham que nos soltar. O senhor chamou seus negros até o pátio da casa grande, mas eu não fiquei por lá para ver o que ele tinha a dizer. Saí correndo daquele lugar, gritando o mais alto que podia.”
— Ed McCree. Viveu em situação de escravidão na Geórgia e foi entrevistado no mesmo Estado, aos 76 anos.
“Sim, senhor, eu fico contente que a escravidão acabou.”
— Milly Henry. Viveu em situação de escravidão no Mississipi e foi entrevistada na Carolina do Norte, aos 82 anos.

Fonte: G1 Mundo

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Inundações e deslizamentos de terra deixam ao menos 25 mortos na Índia


Socorristas continuam procurando sobreviventes e o Exército transporta equipes de resgate pelo ar. Equipes de resgate carregam o corpo de uma vítima em deslizamento de terra em Kokkayar, no estado do Kerala
AFP
Pelo menos 25 pessoas morreram em deslizamentos de terra e inundações provocadas por chuvas torrenciais no sudoeste da Índia, anunciaram as autoridades neste domingo (17).
Os socorristas continuam procurando sobreviventes e o Exército transporta equipes de resgate pelo ar.
No estado costeiro de Kerala, muitos habitantes ficaram ilhados pelas chuvas que se intensificaram na sexta-feira (15) à noite.
Até o momento, foram encontrados 11 corpos no distrito de Idukki e outros 14 no de Kottayam, ambos afetados por deslizamentos e inundações repentinas, afirmaram as autoridades à AFP.
Milhares de pessoas foram evacuadas e ao menos 100 acampamentos humanitários foram montados, declarou neste domingo o chefe de governo de Kerala, Pinarayi Vijayan.
O Exército, a Marinha e a Aviação participam das operações de resgate. Até o momento, não se sabe o número de desaparecidos.
Equipes de resgate empurram veículo capotado na lama e nos escombros em Kokkayar, no estado indiano de Kerala
AFP
“Era meu sustento. Tudo foi levado”, declarou um homem desesperado ao canal de televisão Manorama TV na cidade de Koottickal, em Kerala.
O primeiro-ministro indiano Narendra Modi deu seus pêsames no Twitter e afirmou que as autoridades ajudariam as famílias prejudicadas pelo dilúvio.
O departamento indiano de meteorologia prevê que as chuvas torrenciais devem diminuir na segunda-feira, mas no norte da Índia alguns estados, como as regiões himalaias de Uttarakhand e Himachal Pradesh, sofrerão “chuvas fortes ou muito fortes” nos próximos dois ou três dias.
Em 2018, quase 500 pessoas morreram em Kerala nas piores inundações em quase um século.

Fonte: G1 Mundo

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Vacinados não precisarão mais fazer distanciamento social em Meca


Lugares públicos, como o transporte, os restaurantes e os cinemas, também poderão funcionar com a capacidade máxima em toda Arábia Saudita. Peregrinos fazem oração sem distanciamento social
Saudi Press Agency/Handout via REUTERS
Os fiéis vacinados puderam rezar juntos neste domingo (17) na Grande Mesquita de Meca pela primeira vez desde o começo da pandemia de Covid-19, depois que as autoridades sauditas levantaram as medidas de distanciamento social.
A mesquita de Meca (oeste), principal lugar sagrado do Islã, recebia milhões de muçulmanos antes da propagação da doença no final de 2019.
No entanto, a epidemia obrigou a imposição de restrições de acesso que foram sendo flexibilizadas paulatinamente durante os últimos meses, especialmente para os peregrinos vacinados.
A partir de agora, “a Grande Mesquita pode ser usada em sua capacidade máxima, com a obrigação de que os funcionários e visitantes usem máscara a todo momento”, anunciou o ministério do Interior, em um comunicado publicado pela agência de notícias oficial SPA.
A decisão se aplica a partir deste domingo para as pessoas completamente vacinadas contra o coronavírus, disse.
Os lugares públicos, como o transporte, os restaurantes e os cinemas, também poderão funcionar com a capacidade máxima em todo o país e não é mais obrigatório usar máscara ao ar livre, segundo o comunicado.
Em tempos normais, o hach e a umrah (pequena peregrinação) mobilizam cerca de 12 bilhões de dólares por ano na Arábia Saudita, que tenta diversificar sua economia, muito dependente do petróleo.
A Arábia Saudita registrou oficialmente quase 548.000 casos de infecção e 8.760 mortes.

Fonte: G1 Mundo

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‘Capitalismo da sardinha’: como Portugal foi de país falido a exemplo na Europa


Pequeno país de pouco mais de 10 milhões de habitantes superou com sucesso crise econômica de 2008 e, mais recentemente, pandemia de covid-19. Portugal superou com relativo sucesso crise econômica de 2008 e, mais recentemente, pandemia de covid-19.
Getty Images via BBC
Que Portugal está na moda não é novidade. Suas cidades e zonas costeiras estão repletas de turistas, atraídos pela história e cultura de um país de onde surgiram grandes exploradores, pelo bom tempo, pela excelente gastronomia e pelos preços mais acessíveis do que os de outros destinos europeus.
Além disso, essa pequena nação de pouco mais de 10 milhões de habitantes também se tornou um exemplo de como superar com sucesso a crise econômica que começou em 2008 e, mais recentemente, a pandemia de coronavírus.
Foi o que o autor americano Michael Moran chamou em um artigo recente da revista Foreign Policy de “capitalismo da sardinha”. A publicação define Portugal como “um modelo de crescimento para as pequenas economias europeias, que tiveram dificuldade em equilibrar suas tradições culturais e valores políticos com as demandas de economias maiores, como Alemanha, França e Itália, com as quais compartilham (a moeda) euro”. E elogia o país por ter conseguido combinar coesão social com crescimento econômico e qualidade de vida.
Mas o que é esse “capitalismo sardinha”?
Projetado para fora
A portuguesa Patrícia Lisa, analista do centro de estudos Real Instituto Elcano, em Madri, na Espanha, diz que “capitalismo da sardinha” reflete os valores de seu país.
“Não só a sardinha, mas também tudo o que se relaciona com o turismo, com a reconversão industrial, calçado, vinhos, moda… e uma forte aposta na chamada diplomacia econômica, que anda de mãos dadas com a internacionalização da economia”, enumera ela à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.
Na verdade, destaca Lisa, a diplomacia de Portugal é conhecida por ser extremamente intervencionista.
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“Isso se dá pela forma como o país consegue se projetar no exterior: apesar de ser uma economia pequena, continua com uma projeção internacional maior do que se esperaria dele”, diz.
Esse é, segundo Lisa, um dos principais eixos estruturantes de Portugal: a sua forte aposta na internacionalização. Devido à posição geográfica, o país sempre esteve voltado ao exterior. Algo que historicamente pôde ser visto no compromisso com o mar e com a economia marítima e que agora também está ligado às novas tecnologias e à agenda das energias renováveis.
Claro que nem sempre foi assim e houve anos em que Portugal teve de olhar para dentro e ocupou o noticiário internacional por razões muito menos otimistas.
Da ‘troika’ ao milagre português
Após a crise econômica global de 2008, Portugal mergulhou numa grave depressão.
Em 2011, à beira da falência, o governo português solicitou um pacote de resgate no valor de 78 bilhões de euros à União Europeia e ao Fundo Monetário Internacional (FMI). O desembolso foi autorizado, sob a condição de que o país implementasse medidas de austeridade.
Foram os anos da “troika”, como são popularmente conhecidas as imposições da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu (BCE) e do FMI.
O período foi caracterizado por um corte significativo das despesas públicas – o que afetou principalmente os salários dos funcionários públicos e as aposentadorias. Já os impostos foram aumentados.
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Mas o desemprego não parou de aumentar — atingiu a cifra recorde de 17,7% em 2013 — nem a pobreza e o descontentamento social. Por outro lado, o consumo e a moral dos portugueses despencaram.
Após as reformas realizadas por um governo de centro-direita sob a supervisão da troika, Portugal se libertou dos credores internacionais em junho de 2014, embora não houvesse motivo para muitas comemorações: a taxa de desemprego rondava os 12%, 20% da população viviam abaixo da linha da pobreza e 485 mil portugueses emigraram do país entre 2011 e 2014.
Após as eleições de 2015, foi formado um novo governo de centro-esquerda liderado pelo socialista António Costa, atualmente no cargo.
O governo Costa — com seu aclamado ministro da Fazenda, Mário Centeno — começou a reverter as medidas de austeridade, mas sem descuidar da responsabilidade fiscal.
“Eles (governo) passaram a gastar um pouco mais, por exemplo, em termos de salários, e isso teve um efeito multiplicador na economia. As despesas aumentaram, mas não demasiadamente, e isso teve um impacto positivo no PIB (Produto Interno Bruto, a soma das riquezas de um país), e na arrecadação”, explica António Afonso, professor da Escola de Economia de Lisboa e ex-economista-chefe do Banco Central Europeu (BCE).
A política anti-austeridade acabou marcando um ponto de inflexão desde os momentos mais difíceis da crise financeira e rendeu frutos.
“O modelo de Costa baseava-se no incentivo ao consumo mais gastos públicos estruturais, ou seja, investimentos públicos em educação e infraestrutura”, explica Lisa.
“Não se pode pensar em revolução ou ruptura”, ressalva. “Os indicadores econômicos de 2014, antes do governo Costa, já davam sinais de retomada”, acrescenta, mas “é óbvio que em 2015 houve uma reversão da política econômica”.
A recuperação foi muito perceptível em 2017. Naquele ano, o PIB português cresceu 2,7%, a taxa mais elevada do país desde o início do novo milênio enquanto a taxa de desemprego caiu para níveis pré-crise.
Centeno foi apontado como o “Ronaldo das finanças”, em alusão ao atacante português Cristiano Ronaldo, pelo surpreendente desempenho da economia portuguesa.
“2017 foi o ano de todas as vitórias para Portugal, ficou na moda em todas as dimensões, nas dimensões econômica, política e social”, afirma Lisa. “Ganhamos até o Eurovision (competição internacional de canções que conta principalmente com participantes europeus)”, brinca.
Foi o que ficou conhecido como o “milagre da economia portuguesa”.
Exportações e turismo
Turismo sempre foi fonte de arrecadação de recursos para Portugal.
Getty Images via BBC
Do lado financeiro, há um fator crucial que explica o sucesso da economia portuguesa.
“O que aconteceu notavelmente em Portugal é que a taxa de poupança aumentou drasticamente em 2011, 2012 e 2013”, explica Afonso. “As pessoas basicamente não estavam consumindo, o que significa que as importações caíram. Quando as importações caem, o saldo em conta corrente (diferença entre exportações e importações) melhora.”
Em relação ao bom desempenho das exportações, segundo o economista, isso se deveu a dois fatores.
Por um lado, a transformação da indústria portuguesa nos últimos 20 anos, que passou a produzir e exportar produtos tecnologicamente avançados.
“Houve muitas exportações no setor têxtil, mas como desde os anos 2000 há muita concorrência da China, da Ásia em geral, as pessoas passaram a apostar mais na qualidade, na diferenciação”, diz o economista. “Isso implica que as exportações aumentaram estrategicamente.”
Por outro lado, um contexto de contração fiscal no período 2011-2012 “tem impacto nos preços, então é possível aumentar a produtividade”. “Se você ganha produtividade, ganha competitividade lá fora, se ganha competitividade, consegue exportar mais a um bom preço.”
“É o que vimos nos últimos 10 anos ou mais”, acrescenta Afonso.
Soma-se a isso o boom do turismo, e ano após ano Portugal tem batido o recorde de visitantes ao país. Antes da pandemia, o turismo representava quase 15% do PIB e o setor era responsável por 10% do emprego.
E, segundo especialistas, outro programa que ajudou a dinamizar a economia foi o denominado Golden Visa, por meio do qual os investidores estrangeiros que comprassem um imóvel de mais de 500 mil euros no país obtinham um visto de residência.
O esquema foi introduzido em 2012 e continuou sob governos socialistas, embora não sem controvérsia.
Cenário pós-pandemia
A boa saúde da economia portuguesa foi duramente atingida pela pandemia do coronavírus e o PIB despencou 8,4% em 2020, a pior recessão desde 1936.
Os visitantes estrangeiros caíram 76% no ano passado.
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No entanto, segundo especialistas, as medidas promovidas durante os anos anteriores à pandemia permitiram a Portugal resistir melhor à crise, e o país é um dos que apresentam melhor desempenho na recuperação.
No segundo trimestre deste ano, o país liderou a retomada da zona euro e registrou a maior taxa de crescimento (4,9%) entre os Estados-membros da União Europeia, mais do que Alemanha (1,5%), Espanha (2,8%) ou Itália (2,7).
Do ponto de vista da saúde, por exemplo, Portugal é o que tem a maior taxa do mundo de população completamente vacinada contra covid-19 (86,38%), segundo dados da plataforma Our World in Data, da Universidade de Oxford. Por causa disso, por todo o território, postos de vacinação estão sendo fechados devido à baixa demanda.
Agora, novamente aberto ao turismo e com um cenário praticamente normal, o Banco Central de Portugal espera que o país encerre o ano com um crescimento de 4,8%, enquanto a taxa de desemprego se situa em 6,7%, muito abaixo das nações vizinhas e também dependentes de turismo como Espanha (15%) e Itália (10%).
Desafios
Claro que nem tudo é perfeito para Portugal, e a economia portuguesa ainda tem grandes desafios.
O principal, na opinião de Patrícia Lisa, é reformar o mercado de trabalho.
“É verdade que o desemprego tem permanecido baixo”, afirma, “mas o mercado de trabalho português é caracterizado por baixos salários. É um grande desafio para Portugal”.
Além disso, há os efeitos colaterais do boom turístico e do Golden Visa, que, para além dos milhões que injetou na economia portuguesa, provocou também um aumento significativo dos preços de moradia, principalmente na capital, Lisboa, e no Porto, a segunda maior cidade do país.
“Esse modelo gerou consequências, o que fez explodir os preços de moradia, especialmente em Lisboa, Porto e Algarve”, afirma Lisa.
Em função dos protestos, o governo socialista reformulou a política do Golden Visa, excluindo essas regiões. O objetivo agora é incentivar a compra de imóveis nas ilhas de Madeira e Açores, assim como no interior do país. As mudanças, há muito adiadas, passam a valer a partir de 1º de janeiro de 2022.
Nem mesmo a pandemia travou a alta dos preços de moradia em Portugal — a taxa foi de 8,4% em 2020, de acordo com o Índice de Preços publicado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE, o IBGE português), menos 1,2 ponto porcentual do que em 2019.
Das associações de defesa do direito à habitação digna, como o Morar em Lisboa ou Habita! denunciam que o mesmo acontece com os aluguéis e que em regiões como Lisboa, Porto ou Algarve eles são, em muitos casos, superiores aos salários. Essas entidades argumentam que mais moradias públicas são necessárias.
Com o plano de Recuperação e Resiliência — dotado de fundos europeus para a retomada pós-pandemia — o governo português prevê construir 26 mil casas até 2026.
Com as suas conquistas e desafios, e considerando o artigo da Foreign Policy mencionado no início dessa reportagem, Portugal é realmente um exemplo para outras economias pequenas?
Lisa se mostra cautelosa e diz que é cedo para determinar modelos a seguir.
“Há outros países europeus, também pequenos, que aderiram à UE depois de Portugal e estão tendo trajetórias extraordinariamente positivas, como é o caso da Eslovênia.”
“É verdade que Portugal marcou o ponto de inflexão das políticas de austeridade em termos simbólicos, mas a partir daí tomá-lo como modelo me parece um pouco precipitado”, opina.
Moran, por sua vez, argumenta, em seu texto na Foreign Policy, que “os portugueses, com muito menos poder de compra nos mercados globais e ainda uma sardinha entre os salmões no ambiente monetário claustrofóbico da zona do euro, estão mostrando aos pequenos países europeus que, com um mix hábil de medidas políticas e fiscais e um pouco de sorte, você consegue levar uma vida boa e ainda fazer a economia crescer”.

Fonte: G1 Mundo

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Bill Clinton deixa hospital na Califórnia após uma semana de internação


Ex-presidente dos EUA foi internado na terça-feira (12) para tratamar uma infecçã urinária. O ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton deixa hospital na Califórnia
David Swanson/Reuters
O ex-presidente dos EUA, Bill Clinton, saiu de um hospital na cidade de Irvine, na Califórnia, neste domingo (17) depois de ser internado na semana passada por uma infecção urinária.
Clinton, de 75 anos, retornará a Nova York e continuará tomando antibióticos, disse Alpesh Amin, que supervisionava seus cuidados no hospital, em um comunicado divulgado pelo porta-voz de Clinton.
“Sua febre e contagem de glóbulos brancos normalizaram”, acrescentou Amin.
Bill Clinton
Bill Clinton foi o 42º presidente dos Estados Unidos por dois mandatos, entre 1993 e 2001, interrompendo uma sequência de três mandatos consecutivos do Partido Republicano.
O ex-presidente é casado com Hillary Clinton, secretária de Estado no governo de Barack Obama entre 2009 e 2013 e que tentou, como o marido, se eleger presidente — mas não conseguiu e foi derrotada por Donald Trump em 2016.

Fonte: G1 Mundo

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Brasileiro que invadiu Capitólio dos EUA é condenado a pagar multa e prestar serviços comunitários

Eliel Rosa fez parte do grupo de apoiadores de Donald Trump que entrou á força no Congresso americano durante contagem dos votos, que tornou Joe Biden presidente. Um brasileiro que participou da invasão ao Capitólio, sede do Poder Legislativo dos Estados Unidos, foi condenado pela Justiça americana a cumprir um ano de liberdade condicional, pagar multa de US$ 500 e prestar 100 horas de serviços comunitários. A sentença foi publicada na última terça-feira (12).
Eliel Rosa fez parte do grupo de apoiadores do ex-presidente Donald Trump, que entrou à força no Congresso em 6 de janeiro, durante a contagem dos votos da eleição presidencial, que deu vitória ao democrata Joe Biden. Cinco pessoas morreram no tumulto.
De acordo com a investigação, Rosa viajou do Texas para Washington, motivado por um post de Trump no Twitter, em que o republicano convocava apoiadores a uma manifestação, alegando fraude nas eleições. Ele teve a companhia de uma amiga, Jenny Cudd, que também participou da invasão.
Os dois entraram no Capitólio por volta das 14h35. À polícia, o brasileiro contou que ouviu tiros, estrondos e sentiu cheiro de gás lacrimogêneo.
O brasileiro foi fotografado dentro da sede do Legislativo e também aparece em imagens de câmeras de segurança.

Fonte: G1 Mundo

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China testa míssil hipersônico capaz de circular a Terra


O teste, que ocorreu em agosto, foi mantido em segredo e surpreendeu autoridades americanas, segundo jornal. Foguete Long March 5B decolando do Centro de Lançamentos de Wenchang, na China, em 29 de abril
STR/AFP
A China chamou a atenção de autoridades americanas ao testar um míssil hipersônico com capacidade nuclear que circulou a Terra. O teste, que ocorreu em agosto, foi mantido em segredo, de acordo com informações do jornal Financial Times.
Ainda segundo o jornal, o planador hipersónico estava armado com uma ogiva nuclear e foi lançado por um foguete do tipo Long Marche, desenvolvida pela China. O míssil circulou a Terra em órbita baixa antes de descer em direção a um alvo, mas errou a meta em cerca de 38 quilômetros. Mesmo assim, o teste surpreendeu autoridades dos Estados Unidos..
Além de Pequim, os Estados Unidos e a Rússia também trabalham no desenvolvimento de tecnologia hipersónica.
Imagem do teste de míssil hipersônico da Rússia, em 7 de outubro de 2020
Dilvulgação/Ministério de Defesa da Rússia/Via Reuters
Difíceis de serem rastreadas, as armas hipersônicas em desenvolvimento por estes países são lançadas por um foguete ao espaço – a exemplo das naves utilizadas em missões espaciais. Elas voam a cinco vezes a velocidade do som, orbitam a Terra com o próprio impulso e são manobráveis, podendo desviar a rota inicial.

Fonte: G1 Mundo