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Ibiza e Barcelona reabrem baladas para visitantes vacinados contra a Covid-19 – e máscaras seguem obrigatórias


Duas das regiões mais turísticas da Espanha vão reabrir as suas portas a partir desta sexta-feira (8) para quem apresentar o passe de saúde, atestando a vacinação. O uso de máscaras seguirá obrigatório. Dançarinos se apresentam para uma multidão durante festa em Ibiza, foto de 2012
Enrique Calvo/Reuters/Arquivo
A tradicional vida noturna de Barcelona e Ibiza, na Espanha, volta lentamente à normalidade com a reabertura de baladas para visitantes completamente vacinados contra a Covid-19, informaram nesta quinta-feira (7) as autoridades regionais.
Os estabelecimentos da Catalunha (cuja capital é Barcelona) e das Ilhas Baleares (onde fica Ibiza), duas das regiões mais turísticas do país, vão reabrir as suas portas a partir desta sexta-feira (8) para quem apresentar o passe de saúde (leia mais sobre o documento adiante).
A reabertura, no entanto, está vinculada a algumas normas:
capacidade máxima de 75% (nas Baleares) e 70% (na Catalunha)
uso obrigatório de máscara, exceto para comer e beber
apresentação do passe sanitário
bebida não será permitida na pista de dança
Club Hi Ibiza
Divulgação/Hi Ibiza
Passe sanitário
Na Espanha, cada região autônoma – parecida com um estado no Brasil – tem leis específicas para o controle e combate à pandemia, e pode decidir por emitir ou não passes sanitários.
Tanto na Catalunha como nas Baleares, o governo regional emite o documento para pessoas que já tomaram duas doses da vacina ou para pessoas que apresentarem teste negativo para a doença.
O passe sanitário deve ser apresentado na entrada da balada – e é exigido para bares e karaokês, por exemplo – e pode ser usada tanto sua versão impressa, como digital.
Vacinação na Espanha
A Espanha tem despontado como um dos países mais avançados em sua campanha de vacinação, com 87,4% de sua população maior de 12 anos com o esquema completo.
Em comparação com a população total do país, com cerca de 47 milhões de habitantes, cerca de 79,6% pessoas receberam ao menos uma dose e 77,6% as duas ou dose única.
O país europeu chegou a ser considerado o epicentro da doença durante a primeira onda da pandemia, em março e abril de 2020, registrando quase mil mortes diárias por semanas.
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Fonte: G1 Mundo

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Nazista em julgamento: o ex-guarda de campo de concentração que enfrenta tribunais aos 100 anos


Ele é acusado de ter contribuído para o assassinato de 3.518 prisioneiros em Sachsenhausen, perto de Berlim, na Alemanha. Josef S, que tinha 21 anos quando começou a trabalhar como guarda no campo de Sachsenhausen em 1942, comparece a tribunal
Reuters
Setenta e seis anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, um ex-guarda de campo de concentração vai a julgamento por ter contribuído para o assassinato de 3.518 prisioneiros em Sachsenhausen, perto de Berlim, na Alemanha.
Identificado como Josef S, por causa das leis de privacidade alemãs, ele é acusado de ser cúmplice no fuzilamento de prisioneiros de guerra soviéticos e no assassinato de outros com gás.
A justiça alemã corre contra o tempo para julgar criminosos da era nazista — e ele é o réu mais velho a ser julgado até agora. Somente nos últimos anos que os nazistas de baixa patente foram levados ao banco dos réus.
Há dez anos, a condenação do ex-guarda da SS John Demjanjuk abriu um precedente que permitiu aos promotores acusarem aqueles que contribuíram e foram cúmplices de crimes nazistas na Segunda Guerra Mundial.
Até então, a participação direta no assassinato tinha que ser comprovada.
O réu Josef S foi conduzido nesta quinta-feira (7) a um ginásio esportivo especialmente adaptado em uma prisão na cidade de Brandenburg an der Havel, onde o julgamento começou em meio a um esquema de forte segurança.
Ele chegou em uma cadeira de rodas e segurando uma pasta.
Antigo campo de concentração de Sachsenhausen, na Alemanha, em foto de arquivo
MandyM/CC BY SA 3.0
Josef S vive na área de Brandemburgo há anos, supostamente como chaveiro, e não falou publicamente sobre o julgamento.
Seu advogado, Stefan Waterkamp, ​​disse ao tribunal que o réu não faria comentários durante o julgamento sobre as acusações contra ele. Ele falaria, no entanto, sobre suas circunstâncias pessoais na audiência desta sexta-feira.
Josef S tinha 21 anos quando começou a trabalhar como guarda no campo de concentração de Sachsenhausen em 1942.
Agora, com quase 101 anos, ele é considerado capaz de comparecer ao tribunal por até duas horas e meia por dia.
A previsão é de que o julgamento continue até janeiro.
O promotor público Cyrill Klement falou perante a corte sobre os assassinatos sistemáticos que ocorreram em Sachsenhausen entre 1941 e 1945.
“O réu apoiou isso de forma consciente e voluntária — pelo menos ao cumprir conscienciosamente seu dever de guarda, que estava perfeitamente integrado ao regime de assassinato.”
Dezenas de milhares de pessoas morreram no campo de Sachsenhausen, incluindo combatentes da resistência, judeus, adversários políticos, homossexuais e prisioneiros de guerra.
Uma câmara de gás foi instalada no complexo em 1943 — e 3 mil pessoas foram massacradas no campo quando a guerra se aproximava do fim porque estavam “incapazes de marchar”.
O julgamento que começou nesta quinta-feira é especialmente importante para 17 coautores dos processos, incluindo sobreviventes de Sachsenhausen.
Christoffel Heijer tinha seis anos quando viu seu pai pela última vez: Johan Hendrik Heijer foi um dos 71 combatentes da resistência holandesa mortos a tiros no campo.
“Assassinato não é destino, não é um crime que pode ser legalmente apagado com o tempo”, disse ele ao jornal Berliner Zeitung.
Aos 100 anos, Leon Schwarzenbaum, um sobrevivente de Sachsenhausen, disse que este era “o último julgamento para meus amigos e conhecidos e meus entes queridos que foram assassinados” — e ele disse que esperava que terminasse em uma condenação definitiva.
A maioria dos guardas do campo nazista não será julgada.
Havia 3 mil guardas no campo de concentração de Stutthof, na Polônia — e apenas 50 foram condenados.
No ano passado, o ex-guarda nazista Bruno Dey foi condenado por ser cúmplice no assassinato de mais de 5 mil prisioneiros. Ele foi condenado a dois anos de prisão, mas obteve suspensão condicional da pena.
Na semana passada, uma ex-secretária nazista do campo de Stutthof, Irmgard Furchner, de 96 anos, deveria comparecer ao tribunal para ser julgada no norte de Hamburgo, mas fugiu da casa de repouso horas antes. Ela acabou sendo capturada em Hamburgo, e seu julgamento foi remarcado para 19 de outubro. Ela foi liberada da custódia no início desta semana.
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Novas letras: conheça a sigla 2SLGBTQQIA+, que Justin Trudeau, do Canadá, usa em seus textos


Sigla com 11 caracteres é usada para incluir o termo Dois Espíritos, uma forma como algumas populações indígenas da América do Norte se referem a pessoas LGBTQI+. Imagens da parada do orgulho de Toronto, no Canadá, em 2015
Chris Young/The Canadian Press via AP
Depois de usar a sigla 2SLGBTQQIA+ em um texto em uma rede social no dia 4 de outubro, o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, foi criticado pela oposição de seu país e também por canais de TV conservadores.
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Trudeau usou 2SLGBTQQIA+ para falar sobre um dia de memória das vítimas de pessoas incluídas nesses grupos que desapareceram ou foram assassinadas.
Mais que uma letra: entenda o que significa a sigla LGBTQIA+
Mas o que é a sigla inteira? O que é 2S? Veja abaixo o que significa cada um dos caracteres:
2S: Dois espíritos
L: Lésbicas
G: Gays
B: Bissexuais
T: Transexuais
Q: Pessoas se questionando
Q: Queer (Estranho, na tradução literal)
I: Intersexo
+: Outros
Dois espíritos é uma expressão que alguns grupos indígenas da América do Norte usam para se referir à população LGBT.
“Eles dizem que os LGBT têm dois espíritos, o espírito de homem e o de mulher; isso não é algo que foi discutido pela comunidade, é algo local”, diz Renato Viterbo – vice-presidente da Associação Parada LGBT+ de São Paulo.
Seis políticos que se identificam dessa forma foram eleitos para o Parlamento do Canadá na semana passada.
Mais que uma letra: membros da comunidade LGBTQIA+ explicam o significado de cada letra e falam sobre descobertas e desafios
Onze caracteres
A ideia de ter tantos caracteres na sigla é para que cada um dos diferentes grupos se sinta representado. No entanto, diz Viterbo, as adições de letras à sigla deveriam ser discutidas em encontros e convenções.
Grosso modo, as letras da sigla se dividem em duas categorias:
Identidade de gênero é a forma como a pessoa se apresenta na sociedade, seja mulher, homem, ou uma pessoa que não se encaixe no padrão de binaridade da sociedade, ou até mesmo sem gênero.
Orientação sexual é a característica da pessoa preferida para relacionamento: se com pessoas do mesmo gênero ou não.
Há quem use a letra A, de assexual, na sigla, mas essa é uma letra que causa alguma controvérsia, pois não se trata de identidade de gênero e nem de orientação sexual (uma vez que a pessoa assexuada pode ter relações amorosas com qualquer gênero).
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Abdulrazak Gurnah é a quarta pessoa negra a ganhar Nobel de Literatura


Romancista tanzaniano também é o primeiro não europeu ou americano a receber a distinção desde 2012. Abdulrazak Gurnah posa para foto em sua casa em Canterbury, Inglaterra, nesta quinta-feira (7)
Frank Augstein/AP
O Nobel de Literatura foi atribuído nesta quinta-feira (7) ao escritor Abdulrazak Gurnah, da Tanzânia. Ele é o primeiro não europeu ou americano a receber a distinção desde 2012 e a quarta pessoa negra da história da premiação. 
Segundo o jurado, o autor foi recompensado por sua narrativa “empática e sem compromisso dos efeitos do colonialismo e o destino de refugiados presos entre culturas e continentes”. 
Gurnah nasceu em 1948, no arquipélago de Zanzibar, e chegou ao Reino Unido como refugiado no final dos anos 1960, fugindo da perseguição à minoria muçulmana na Tanzânia. 
Ele é autor de 10 livros, publicados em inglês, além de contos. Entre as obras mais conhecidas do autor estão “Paradise” e “Desertion”, não publicados no Brasil. O último livro de Gurnah, “Afterlives”, foi publicado em 2020.
Sua obra se afasta das “descrições estereotipadas e abre nosso olhar para uma uma África Oriental diversa culturalmente, desconhecida em diversas partes do mundo”, explicou o júri. 
O escritor vive em Brighton e é professor aposentado da universidade de Kent. 
Mérito literário
No ano passado, a poetisa americana Louise Glück recebeu o prêmio por sua obra “de beleza austera”. 
Este ano, as conjecturas giravam em torno da promessa da Academia de ampliar seus horizontes geográficos –ainda que o presidente do comitê Nobel, Anders Olsson, tenha tido o cuidado de reafirmar, no começo da semana, que o “mérito literário” continuava sendo “o critério absoluto e único”. 
Entre os 117 premiados em literatura desde a criação dos prêmios, em 1901, 95 – o que representa mais de 80% –são europeus e norte-americanos. 
Nobel de Literatura 2021 vai para Abdulrazak Gurnah

Fonte: G1 Mundo

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Governo da França quer que a Igreja quebre o sigilo da confissão e relate à Justiça os casos de abuso sexual cometidos na instituição


Desde 1950, mais de 216 mil crianças foram vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica no país. Um relatório sobre os números foi publicado nesta semana. Papa diz estar envergonhado dos milhares de casos de pedofilia cometidos por religiosos e colaboradores da Igreja Católica na França
O governo da França anunciou, nesta quinta-feira (7), que convocará o presidente da Conferência Episcopal (CEF), monsenhor Éric de Moulins-Beaufort, para pedir explicações sobre sua defesa do “direito da confissão”, mesmo em casos de abusos de crianças.
Na terça-feira, a Igreja Católica da França publicou um relatório que aponta que, desde 1950, mais de 216 mil crianças foram vítimas de abusos sexuais em instituições católicas (o número é até maior se forem considerados os casos em que laicos ligados à Igreja cometeram os abusos).
O líder dos bispos da França declarou na quarta-feira, dia seguinte à publicação do relatório que o sigilo da confissão é “mais forte que as leis”.
“Nada é mais forte que as leis da República em nosso país”, disse nesta quinta-feira o porta-voz do governo Gabriel Attal. Ele afirmou também que foi o presidente Emmanuel Macron que deu a ordem para convocar o monsenhor.
O monsenhor De Moulins-Beaufort deverá ser recebido para para dar explicações sobre suas declarações na semana que vem.
Sol se põe atrás de uma igreja católica em Saint-Fiacre-sur-Maine, no oeste da França
Loic Venance/AFP
Comissão Independente Sobre Abusos Sexuais
A Comissão Independente sobre Abusos Sexuais na Igreja recomendou que a Igreja deixe claro que o sigilo da confissão não cobre estes crimes, que devem ser denunciados à Justiça, entre outras propostas.
O Papa Francisco expressou sua vergonha pelos abusos contra crianças na França e já havia transformado o combate ao assédio em uma prioridade da Igreja, mas ele sempre estabeleceu uma linha vermelha: o sigilo da confissão.
“Uma informação de ‘delictum gravius’ que tenha sido mencionada em uma confissão está sob o sigilo sacramental mais rígido”, afirma um manual de 2020 do Vaticano para administrar esses casos.
O respeito ao direito da confissão, um dos sete sacramentos na doutrina católica junto ao batismo e ao casamento, exclui qualquer acusação a partir de uma admissão feita no confessionário.
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Fonte: G1 Mundo

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O drama das crianças brasileiras deportadas dos EUA para o Haiti


Parte dos haitianos deportados do Texas são crianças nascidas no Brasil – e têm direito, portanto, de serem assistidas pelo governo brasileiro. Haitianos que foram deportados dos Estados Unidos chegam ao Aeroporto Internacional Toussaint Louverture, em Porto Príncipe, capital do Haiti, em 19 de setembro
Rodrigo Abd/AP
Mais de 7 mil migrantes que se encontravam embaixo da Ponte Internacional, na cidade fronteiriça texana de Del Rio, já foram deportados para o Haiti, segundo dados publicados pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) na segunda-feira (4).
Entre elas, estavam 381 crianças nascidas no Chile e 85 no Brasil. Estas são, portanto, brasileiras natas, ainda que de pais haitianos. Elas têm o direito de ser assistidas pelo governo brasileiro e de ser repatriadas.
Mas, ao chegarem ao aeroporto de Porto Príncipe ou de Cabo Haitiano (cidade no norte do Haiti que também recebe os voos vindos do sul dos Estados Unidos), essas crianças e seus pais estão jogados no meio de um país à beira do colapso, em meio a uma violência quase generalizada pelas gangues que dominam, hoje em dia, grandes partes da região.
Cada pessoa recebe US$ 120 da OIM (cerca de R$ 660), o salário mínimo haitiano, suficiente apenas para sobreviver os primeiros dias em um país que suas famílias, na maioria das vezes, tinham abandonado há muitos anos.
Na mídia, diz-se que o governo brasileiro, através da embaixada em Porto Príncipe, já está fornecendo ajuda a essas crianças. Estive no aeroporto da capital haitiana na ocasião da chegada de alguns voos, mas não encontrei nenhum representante do governo brasileiro. Por outro lado, encontrei haitianos que, durante anos e anos, tinham vivido e trabalhado no Brasil, onde seus filhos haviam nascido.
Alguns deles não sabiam que o governo brasileiro tem obrigação de ajudá-los; outros não sabiam como acionar tal ajuda. Assim, acabam se espalhando pelo Haiti, uns com a ajuda de familiares, outros se refugiando em favelas, na busca de uma moradia barata.
Muitos carregam traumas pelos acontecimentos em tais viagens. Afinal, para se chegar do Chile ou do Brasil até a fronteira com os Estados Unidos, leva-se de um a dois meses. Neste percurso, eles gastam milhares de dólares com os “coyotes” – os facilitadores na travessia de um país para o outro.
Caos e miséria da América Latina
Há relatos chocantes de passagens de migrantes pelas selvas do Peru e, principalmente, pelo região de Darién, no Panamá, com sua selva densa e perigosa de atravessar. Lá, na região que liga o país à Colômbia, eles são vítimas de gangues que roubam e matam. O mesmo perigo espera os migrantes no México, onde regiões inteiras estão sobre o domínio de bandos criminosos.
Além de haitianos e migrantes hispano-americanos, há também muitos brasileiros tentando entrar nos Estados Unidos de forma ilegal. Nos últimos tempos, houve inclusive notícias de crimes contra eles. Estão à busca de uma vida melhor, já que a situação econômica de muitos países – como o Brasil e o Chile – tem se deteriorado ultimamente. Assim, os EUA se transformam, cada vez mais, na “terra prometida” para muitos latinos. E também na única opção.
Cheguei ao Brasil no começo do século, quando o otimismo com o futuro era palpável. Havia uma onda de governos “progressistas” na região, que ensaiavam iniciativas de mais inclusão social. Hoje, olhando para o caos e a miséria que ronda o Haiti, encontro muitas similaridades com cidades brasileiras. A falta de comprometimento das administrações públicas com a melhoria das vidas dos cidadãos se reflete numa negligência com as cidades e seus habitantes.
Pergunto-me o que será dessas crianças haitiano-brasileiras, que, com pouca idade, já sentiram na pele as veias abertas da América Latina. Uma região cada vez mais fragilizada pela fragmentação das instituições governamentais e dominada pelas gangues do tráfico de drogas, de armas e humano. A América Latina se encontra num estado lamentável, numa emergência humanitária. E, aparentemente, sem governantes responsáveis e com visão de futuro para dar uma esperança à população. Dar uma perspectiva às crianças brasileiras que chegaram, sem querer, no caos haitiano, já seria um começo. Pelo menos isso.
Thomas Milz saiu da casa de seus pais protestantes há quase 20 anos e se mudou para o país mais católico do mundo. Tem mestrado em Ciências Políticas e História da América Latina e, há 15 anos, trabalha como jornalista e fotógrafo para veículos como o Bayerischer Rundfunk, a agência de notícias KNA e o jornal Neue Zürcher Zeitung. É pai de uma menina nascida em 2012 em Salvador. Depois de uma década em São Paulo, mora no Rio de Janeiro há quatro anos.
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Fonte: G1 Mundo

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Terremoto de magnitude 5,9 atinge a região de Tóquio

Tremor foi sentido com mais força na cidade de Chiba, a cerca de 40 quilômetros a sudeste da capital japonesa. Não há alerta para tsunami. Um terremoto de magnitude 5,9 atingiu a cidade de Chiba, na região de Tóquio, nesta quinta-feira (7), segundo o serviço geológico americano (USGS, da sigla em inglês).
O epicentro do tremor foi registrado a 62 quilômetros de profundidade nesta cidade costeira do Japão, e não há alerta para tsunami até a última atualização desta reportagem.
Segundo o sistema de alertas sísmicos japonês, chamado shindo, o terremoto atingiu a escala 6,1 – medida na superfície – o que aponta risco de desmoronamentos.
No ocidente, a magnitude de um terremoto é medida no epicentro, por isso há diferença entre as duas medições.
Reportagem em atualização.

Fonte: G1 Mundo

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Partido de extrema-direita da Dinamarca quer projeto de lei para expulsar milhares de imigrantes


Projeto de lei chamado “fora imigrantes não-integrados” pode permitir a deportação de imigrantes considerados não adaptados aos costumes e leis do país até 2030. Para ser aprovado, projeto precisa de 90 dos 179 votos dos parlamentares dinamarqueses. Bandeira da Dinamarca
torben7400/Pixabay
O Partido Popular Dinamarquês e a ex-ministra da Imigração e Integração da Dinamarca, a parlamentar sem partido Inger Støjberg, uniram forças e apresentaram na terça-feira (5), uma proposta de lei para endurecer as regras de imigração do país.
O projeto propõe deportar imigrantes e refugiados condenados a penas superiores a três meses, ou que não passaram no teste de proficiência da língua dinamarquesa no nível intermediário ou superior e os que estão desempregados há mais de 12 meses consecutivos ou dependem exclusivamente de benefícios sociais do Governo.
A medida pode afetar a vida de 50 mil pessoas. De acordo com o presidente do Partido Popular Dinamarquês Kristian Dahl e Inger Støjberg.
Inger Støjberg, em foto de 2016, quando foi Ministra da Imigração e Integração da Dinamarca
Mathias Loevgreen Bojesen/Scanpix/Reuters
Ao serem questionados por um jornal dinamarquês se a lei respeitaria as convenções internacionais das quais a Dinamarca é participante, nem Dahl ou Støjberg souberam responder.
“O projeto requer um exame mais atento. Não há dúvida de que estamos à margem do que pode ser feito”, disse a ex-ministra da Imigração ao jornal “Jyllands-Posten”.
Ainda de acordo com representante do Partido do povo dinamarquês, a Dinamarca pode, em princípio, expulsar pessoas de origem estrangeira, sem entrar em conflito com as convenções.
“Aprendemos com a história que você pode fazer mais dentro das convenções do que normalmente se pensa. Se conseguirmos os 90 votos no Parlamento, podemos escolher o que é ou não convencional ou correto”, enfatizou Dahl.
Aprovação depende de votos e tem efeito retroativo
Atualmente, os partidos considerados de extrema-direita na Dinamarca têm 21 das 179 cadeiras do Parlamento. Para que um projeto lei seja votado e aprovado são necessários 90 votos de maioria simples. Antes da votação, qualquer proposta no país é colocada em discussão por pelo menos três vezes. No caso de aprovada, a lei pode entrar em vigor com efeito imediato e retroativo.
A Dinamarca é um país onde as leis são rígidas para imigrantes e refugiados. No mês passado a primeira-ministra Mette Frederiksen, do partido Social-Democrata, um partido considerado de centro-esquerda, apresentou um plano econômico onde mulheres vindas de países de maioria muçulmana, que vivem na Dinamarca e não têm ocupação remunerada, teriam que contribuir com 37 horas semanais de trabalho voluntário para continuarem a receber os benefícios sociais pagos pelo Estado.
Analistas de política na Dinamarca veem o projeto de lei como uma tentativa da extrema-direita de recuperar parte dos seus eleitores. Inclusive a proposta foi divulgada amplamente nas redes sociais tanto do Partido do Povo Dinamarquês quanto da ex-ministra da imigração.
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Separação de casais requerentes de asilo
Støjberg está sendo julgada desde setembro pela Suprema Corte da Dinamarca em um processo histórico. Ela é acusada de ordenar ilegalmente a separação de todos os casais em busca de asilo em 2016, onde um ou os dois cônjuges fossem menores de idade.
Entre 2015 e 2019, a ex-ministra da Imigração e Integração foi parte do governo de centro-direita, do então Primeiro-Ministro Lars Rasmussen, do Partido Liberal da Dinamarca. O governo era apoiado pelo populista Partido Popular Dinamarquês.
Durante o período que Inger Støjberg esteve no cargo, mais de 100 novas restrições para imigrantes e refugiados foram introduzidas, e até mesmo anúncios em jornais libaneses foram publicados no idioma árabe para desencorajar os refugiados a irem para a Dinamarca.
No entanto, a maior polêmica tinha sido uma foto onde Inger posava com um bolo celebrando a emenda 50, que dificultava ainda mais a reunificação de famílias de imigrantes e refugiados no país em março de 2017. A imagem causou indignação por parte da Agência de refugiados da ONU.
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Vídeo: morador de rua diz a mulher de movimento antivacina que está vivo porque foi vacinado

Em Los Angeles, durante um protesto contra a vacina, uma mulher faz uma pergunta retórica sobre a sobrevivência de moradores de rua. Um deles, que passava pelo local, afirma que está vivo justamente por ter sido vacinado. Morador de rua diz que não morreu de Covid-19 porque foi vacinado
Um incidente que envolveu uma pequena manifestação contra a vacina da Covid-19 em Los Angeles, nos Estados Unidos, foi publicada em uma rede social e visualizada cerca de 3,5 milhões de vezes.
Uma manifestante caminha pelo centro da cidade, onde há moradores de rua, e pergunta no megafone: “Vocês veem todos esses moradores de rua em volta, eles estão mortos na rua com Covid? Claro que não? Por quê?”, ela grita.
Um homem que não aparece na gravação responde: “Porque estou vacinado, sua burra”. Aparece então na imagem do homem, que está empurrando um carrinho de supermercado.
O usuário do Twitter que publicou a cena é o dono da conta Film the Police. Em entrevista à revista “Newsweek”, ele contou que estava no local porque havia tido um incidente lá perto com a polícia.
A mulher que protestava contra a vacina continuou com sua pregação, mesmo com a resposta do morador de rua. Ela afirmou que “é a hora de acordar”.
Nas redes sociais, ela virou objeto de chacota: outros usuários fazem piadas parodiando a retórica dela.
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O refugiado que passou 7 meses sem poder sair de aeroporto


O sírio Hassan Al Kontar ganhou as manchetes ao redor do mundo em 2018 depois que começou a usar o wi-fi do aeroporto para documentar sua saga nas redes sociais. Hassan Al Kontar viveu 7 meses na área de desembarque de aeroporto na Malásia
Hassan Al Kontar via BBC
O refugiado sírio Hassan Al Kontar viveu sete meses na área de desembarque do Aeroporto Internacional de Kuala Lumpur, na Malásia — sem dinheiro, sem passaporte, sem saída.
O ano era 2018, e ele ganhou as manchetes dos jornais ao redor do mundo depois que começou a usar o wi-fi do aeroporto para documentar sua saga nas redes sociais.
Mas seu périplo havia começado anos antes, quando ele morava nos Emirados Árabes Unidos, e a guerra na Síria estourou, em 2011.
Decidido a não voltar a seu país, onde seria obrigado a se alistar ao serviço militar e lutar no conflito, ele enfrentou as consequências de sua decisão — quando seu visto de trabalho expirou, ele perdeu o emprego e viveu cinco anos ilegalmente em Abu Dhabi como sem-teto.
Em entrevista à jornalista Emily Webb, do programa de rádio Outlook, da BBC, Hassan conta como foi parar na Malásia e finalmente conseguiu asilo no Canadá, onde mora atualmente.
Hassan Al Kontar é de uma cidade chamada Al-Suweida, no sul da Síria, onde cresceu junto aos dois irmãos em uma família drusa (minoria religiosa).
Ele acredita que o pai, um engenheiro mecânico “viciado em política”, nas suas palavras, teve grande importância na sua formação.
“Ele pegava um livro e lia para mim, e começávamos a discutir política, história, cultura, qualquer coisa.”
“Acho que ele sabia de alguma forma quando eu era criança que a vida seria dura comigo e que eu iria enfrentar algumas situações difíceis. E por isso ele me preparou desde pequeno.”
“Ele era minha janela para o mundo”, resume.
Após cursar três anos de direito na Universidade de Damasco, Hassan decidiu expandir seus horizontes.
“Sentia que minhas opções eram limitadas na Síria. Meu sonho sempre foi fazer jornalismo, escrever. Mas sabia que esse tipo de coisa não tinha futuro na Síria.”
Além disso, ele não queria se alistar no serviço militar. E há uma lei na Síria que determina que se você terminar os estudos e não for o único filho da família, é obrigado a se alistar.
A única maneira de escapar do serviço militar obrigatório é se você estiver fora do país — neste caso, você precisa enviar um documento para comprovar, além de pagar uma quantia fixa ao governo sírio.
Vida nova
Hassan embarcou então para os Emirados Árabes Unidos em 2006 com um visto de trabalho e conseguiu emprego em uma companhia de seguros de Abu Dhabi.
De lá, ele assistiu pela televisão ao início dos protestos na Síria, em março de 2011, repreendidos com violência pelo regime de Bashar al-Assad, que culminaram na guerra civil que já dura mais de 10 anos no país.
“Eu ligava para minha família de hora em hora. Ligava para meus amigos na Síria. Eu sei que uma vez que o sangue começa (a ser derramado), é muito difícil parar.”
O irmão que estava com ele nos Emirados Árabes decidiu voltar um mês antes da guerra começar — e foi convocado para o Exército.
“Estávamos todos preocupados com meu irmão, com o que iria acontecer.”
“Tudo o que a gente podia fazer era continuar assistindo ao noticiário, continuar checando o Facebook, e às vezes ler as listas de mortos, rezando por dentro para que o nome do meu irmão não estivesse entre eles. Chegava a suar e tremer”, relembra.
Diante de tudo isso, Hassan estava decidido a não voltar mais para a Síria.
“Eu sabia que não tinha nascido para isso. Não quero matar ninguém. Não estou aqui para destruir. E não queria fazer parte de uma máquina de matar”, explica.
Além disso, ele decidiu que não financiaria o conflito, deixando de pagar a taxa devida pela não prestação do serviço militar — que havia sido reajustada de US$ 3,5 mil para US$ 8 mil quando a guerra começou.
“Eu não tinha esse dinheiro de qualquer maneira. Mas mesmo se tivesse, não financiaria esse regime.”
Com esta decisão, seu destino estava sacramentado.
“A partir daquele momento, eu estava na lista de procurados. O que significa que se eu botasse o pé no aeroporto de Damasco, não seria capaz de chegar em casa. Eles iriam me deter no aeroporto e me mandariam para a linha de frente (do conflito) após algum treinamento.”
Sem visto e sem-teto
Não demorou muito para Hassan começar a sentir as consequências de sua decisão — ele não conseguiu renovar seu passaporte, e seu visto de trabalho expirou. Por causa disso, perdeu o emprego e ficou sem condições de pagar o aluguel.
Em poucos meses, estava vagando sem-teto pelas ruas, se escondendo das autoridades porque estava ilegal no país.
“Eu tinha uma boa carreira, estava crescendo na carreira, meus sonhos eram grandes. De 2006 a 2011, eu dava ingenuamente as coisas como certas”, diz ele. “De repente, me vi com minha mala na rua, no meio da noite, fazia 45 graus, sem lugar para ir, me escondendo da polícia e da imigração, sem visto de trabalho válido, sem passaporte válido, sem ter para onde ir…”
“Lembro que naquela noite fui a uma das torres, e havia as escadas. Naquele tipo de prédio, ninguém usa escada, porque tem os elevadores, e eu vi aquilo como um santuário. Dormi por uma hora ou duas. E foi aí que minha tragédia começou”, revela.
Esta escada se tornaria um refúgio habitual para Hassan. Mas sempre que ouvia um barulho ou alguém se aproximando durante a noite, ele se levantava rapidamente e fingia estar a caminho de algum lugar.
“Perdi a sensação de estar seguro, e essa é a coisa mais preciosa. As pessoas que estão seguras em suas casas agora não pensam nisso, dão como algo certo, e não é.”
Houve momentos em que ele conseguia dormir na casa de um amigo ou arranjar algum tipo de trabalho. Mas sem visto, era arriscado para ele e para os empregadores — por isso, não conseguia trabalhar com frequência.
Por volta de 2013, Hassan conseguiu um carro por meio de um amigo que trabalhava em uma locadora. E começou a viver nele.
“Para mim, um carro não é um meio de transporte de A para B. Para mim, é um caixão de ferro. Você não tem ideia de como é a sensação de estar dentro de um carro fazendo 50 graus durante a noite.”
“Às vezes, eu me deitava à noite em frente à porta de uma mesquita porque a fresta da porta deixava passar um pouco de ar fresco no verão”, relembra.
Fim da fuga
Até que em 2016, após mais de cinco anos nesta situação, se escondendo da polícia e da imigração, Hassan foi detido.
“Era 1h da manhã. E eu estava estacionando em frente a um supermercado porque tinha wi-fi grátis e queria mandar mensagem para minha família. Até então era apenas mais um dia normal, quando começaram a bater na minha janela. E eu sabia que o que estava me esperando, finalmente tinha acontecido.”
“Dei a eles minhas mãos e foi a primeira vez que fui algemado. Eles me escoltaram, e eu sabia que era o começo do fim, que eu seria deportado.”
No centro de detenção, ele conta que passou “um dos períodos mais assustadores” da sua vida — já que um provável desfecho era ser deportado de volta para a Síria.
“Eu sabia que havia uma pequena esperança, que me recusava a perder, de me deportarem para outro lugar.”
“(Mas) lembro de mim no centro de detenção de Abu Dhabi, andando o tempo todo até não sentir mais meus pés, porque não conseguia dormir, porque temia que me mandassem de volta para a Síria.”
Ao mesmo tempo, Hassan estava preocupado com o pai, que havia sido diagnosticado recentemente com câncer. E, enquanto estava sob custódia, descobriu que ele havia falecido.
“Algo dentro de mim se partiu, e não vai voltar (ao normal) depois disso. É um tipo de tristeza que você sabe que nunca vai te deixar”, desabafa. “Só eu sabia o quanto queria que ele fosse feliz, o quanto eu estava lutando por um futuro diferente para todos nós, e havia fracassado nisso tudo.”
Mas a sorte acabou se voltando a seu favor. Hassan conseguiu um novo passaporte, e acabou convencendo as autoridades dos Emirados Árabes a deportá-lo para a Malásia, em vez da Síria.
A Malásia é um dos poucos lugares do mundo que permite que os sírios entrem no país sem visto, mas limita sua permanência a 90 dias.
Ele desembarcou em Kuala Lumpur em 2017, e começou a pesquisar que países poderiam aceitar seu pedido de asilo, o que não era o caso da Malásia.
Depois que o prazo de 90 dias expirou, ele tentou ir para o Equador — sua mãe e irmã venderam os cordões de ouro que tinham para ele poder comprar a passagem. Mas o funcionário da companhia aérea não deixou que ele embarcasse.
“Ele não disse por quê. E foi aí que todo o meu mundo começou a desmoronar.”
O outro país que poderia aceitá-lo era o Camboja. E com o dinheiro que havia sobrado, Hassan conseguiu comprar uma passagem e embarcar para Phnom Penh.
No entanto, ao desembarcar no aeroporto, não foi autorizado a entrar no país, e o enviaram de volta para a Malásia no mesmo voo. Ele tampouco sabe por quê.
“Esse também foi um dos momentos mais difíceis da minha vida.”
“Eu sabia que estava sem opções. Na Malásia, eu estava na ‘lista proibida’, e eles não iam me permitir entrar”, conta Hassan, se referindo à sanção por ter permanecido no país além do prazo de 90 dias.
“E essa foi a última vez que vi meu passaporte pelos próximos nove meses. Depois disso, meu passaporte ficou sob controle deles. As autoridades do Camboja entregaram meu passaporte às autoridades da Malásia, e fiquei sem passaporte e apátrida.”
A vida no aeroporto
Hassan desembarcou de volta no Aeroporto de Kuala Lumpur derrotado. E se viu sem ter para onde ir, confinado à área de desembarque.
“Eu não sabia naquele momento que aquela área seria minha casa pelos próximos sete meses.”
Logo que chegou, contou com a ajuda de dois egípcios que estavam numa situação parecida. Eles apresentaram o local para ele, mas pouco tempo depois partiram — e Hassan ficou sozinho.
Inicialmente, ele dormia nas cadeiras do aeroporto. “Eu tirava umas sonecas nas cadeiras, às vezes de meia hora, uma hora, depois acordava, dormia mais meia hora…”
“Depois encontrei um lugar embaixo da escada rolante, que tinha um pouco de privacidade. Mas por causa da segurança lá, eles vinham me acordar, para conduzir uma investigação ou para me tirar de lá e voltar para as cadeiras.”
Mas o desconforto das cadeiras era só uma parte do problema na hora de dormir.
“Era muito desagradável, porque tinha anúncio de voo (nos alto-falantes) o tempo todo. E, de alguma forma, durante a história, o ser humano decidiu fazer aeroportos muito frios. Fazia muito frio. E as luzes ficavam acesas o tempo todo”, relembra.
A alimentação ficava por conta da Air Asia (tecnicamente ele ainda era seu passageiro), que fornecia a ele três refeições por dia. Mas o prato era sempre o mesmo: frango com arroz.
“Mesmo que você coma no melhor restaurante de Londres, Paris ou Nova York a mesma refeição três vezes ao dia, durante sete meses, você vai ficar enjoado.”
Para tomar banho, ele usava o banheiro para pessoas com deficiência na madrugada. Ele conta que os funcionários da limpeza eram seus únicos amigos no aeroporto, e o ajudaram numa missão importante: comprar café.
“Um deles falava um pouco de inglês, os outros não, e ele não tinha ideia do que significava Starbucks, porque eles tomam o café local. Então entrei no Google, baixei a logo do Starbucks, mandei para ele no Whatsapp e escrevi em um pedaço de papel o nome do café que eu gosto. Mostrei no Google Maps onde ficava, que era um andar acima do meu, e ele encontrou.”
O poder das redes sociais
Hassan estava ficando sem dinheiro e precisava de assistência jurídica, então decidiu usar as únicas armas que estavam a seu alcance — seu telefone celular, o wi-fi do aeroporto e sua história.
Ele começou enviando e-mails para ONGs, depois para embaixadas estrangeiras em Kuala Lumpur e figuras públicas. Mas, segundo ele, não estava funcionando.
“Foi quando eu disse: Agora, vou adotar o estilo americano, vou fazer um pouco de barulho.”
Hassan mal havia usado rede social antes — até então, ele tinha postado apenas um tuíte e nenhuma presença no Instagram.
Mas, após 20 dias confinado na área de desembarque, ele resolveu postar um vídeo sobre sua situação no Twitter, que viria a ser o primeiro de uma série.
“Minha história se resume a perguntas e encontrar as respostas para essas perguntas. Uma das principais perguntas que fiz foi: Será que fariam o mesmo se eu tivesse um passaporte dos EUA, Canadá, Europa ou Austrália? Eu sabia naquela época que não.”
“Eu não era mais Hassan, o indivíduo, era Hassan, o refugiado sírio. E daquele ponto em diante, não era uma história pessoal. Era a história do meu povo.”
Desde o início, seus diários em vídeo ajudaram a conectar sua situação pessoal à crise mais ampla que até hoje afeta milhões de refugiados sírios.
“Eu só quero explicar ao mundo como é ser sírio — ser solitário, fraco, indesejado, rejeitado, odiado. Ninguém está nos aceitando”, disse ele em um dos vídeos.
Inicialmente, as postagens não tiveram muita repercussão. Mas, aos poucos, começou a despertar o interesse das pessoas e também da imprensa.
“No 35º dia, eu dei um Google no meu nome e encontrei três resultados, dois deles estavam linkados aos meus próprios tuítes. Até que no 38º dia, eu dei uma busca novamente, e apareceram 27 mil resultados”, relembra.
A história de Hassan havia ganhado as manchetes dos principais jornais ao redor do mundo.
“Foi quando minha família soube que eu estava preso no aeroporto. Eles ficaram sabendo pelo noticiário.”
Hassan havia se tornado uma figura conhecida no terminal, e não era raro receber pedidos de selfies de passageiros que desembarcavam no aeroporto.
“Até as autoridades diziam: ‘Ah, você é uma celebridade agora.’ E eu respondia: ‘Não sou uma celebridade, sou mais um animal de zoológico’. As celebridades têm seus próprios jatos, não ficam presas no aeroporto.”
“Eu não estava fazendo piada. Algumas pessoas tiravam fotos minhas sem sequer se aproximar de mim para dizer oi. Eu via ambos os lados do ser humano, o bom e o mau, o que é fascinante.”
Até que sua história chamou a atenção de um pequeno grupo no Canadá, que se empenhou em buscar asilo para ele no país.
“Até aquele momento, eu não era capaz de sonhar com o Canadá nem no meu sonho mais louco, não podia ousar sonhar com o Canadá. Então o advogado canadense estendeu a mão para mim, reuniu voluntários e comecei a voltar a ter esperança, porque eu sabia que era o que precisava para vencer o sistema.”
Mas, após sete meses vivendo no terminal, seu pior pesadelo se tornou realidade. Hassan foi preso pela polícia malaia e levado a um centro de detenção.
Sem o celular e os óculos, de que ele precisa para enxergar qualquer coisa a meio metro à sua frente, ele ficou completamente isolado do resto do mundo por dois meses.
Até que um guarda informou que ele seria enviado para casa na semana seguinte — e Hassan supôs que ele estava se referindo à Síria.
“Eu fiquei apavorado naquele momento”, diz ele.
Mas para seu alívio, acabou sendo esclarecido que seu destino seria, na verdade, o Canadá.
“Eu podia sentir minha alma dançando dentro de mim”, recorda.”Fiquei de pé ao lado da barra de ferro a manhã inteira, esperando que chamassem meu nome para me escoltar até o aeroporto.”
A bordo do avião com destino ao Canadá, Hassan conseguiu finalmente tomar uma xícara de café sem percalços — ainda sem acreditar que estava realmente naquele voo.
“Foi quando olhei pela janela do avião e vi meu pai pela primeira vez. Ele finalmente estava orgulhoso do que eu estava fazendo, de quem havia me tornado, de quem me tornei depois da temporada no aeroporto.”
“Não é uma história única, todos os sírios, milhões de sírios estão passando por situação semelhante, mas a forma como lidei com isso é o que me deixa orgulhoso. Representar meu povo, falar sobre eles serem capazes de desafiar o sistema, um sistema falido, foi o que me deixou orgulhoso.”
Hassan hoje vive em Vancouver, no Canadá, onde trabalha para a Cruz Vermelha. Ele escreveu um livro sobre sua experiência chamado Man at the Airport (“Homem no aeroporto”, em tradução literal).
Ouça aqui a entrevista na íntegra (em inglês) de Hassan Al Kontar ao programa Outlook da BBC.
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Fonte: G1 Mundo