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Onde a escassez de água já provoca guerras no mundo (e quais as áreas sob risco iminente)


Falta de água afeta aproximadamente 40% da população mundial e está causando conflitos e migrações. Uma equipe de especialistas usa inteligência artificial para prever de onde serão os futuros embates por esse recurso vital. Falta de água afeta aproximadamente 40% da população mundial e está causando conflitos e migrações
ASAAD NIAZI/AFP/GETTY IMAGES via BBC
Em entrevista à BBC via Zoom de seu apartamento em Amsterdã, Ali al Sadr faz uma pausa para beber de um copo de água filtrada e limpa.
Percebendo a ironia, ele solta uma risada. “Antes de deixar o Iraque, eu lutava todos os dias para encontrar água potável”, diz ele. Três anos antes, al Sadr participou de protestos de rua em sua cidade natal, Basra. Os manifestantes exigiam ações concretas das autoridades diante da crescente crise de água na cidade.
“Antes da guerra, Basra era um lugar bonito”, acrescenta o jovem de 29 anos. “Eles costumavam nos chamar de Veneza do Oriente.”
Limitada de um lado pelo rio Shatt al Arab, a cidade é cortada por uma rede de canais.
Sadr diz que adorava trabalhar ao lado dos canais como estivador. “Mas quando saí, eles estavam jogando esgoto não tratado nos cursos d’água. Não podíamos nos lavar, o cheiro me deu enxaqueca e, quando finalmente fiquei doente, passei quatro dias na cama.”
No verão de 2018, a água contaminada enviou 120 mil residentes aos hospitais da cidade e, quando a polícia abriu fogo contra os manifestantes, Al Sadr teve sorte de escapar com vida. “Em um mês, fiz as malas e fui para a Europa”, conta.
Histórias como a de Al Sadr estão se tornando muito comuns em todo o mundo. Um quarto da população mundial enfrenta agora uma grave escassez de água por pelo menos um mês por ano e, como no caso de Al Sadr, a crise está levando muitos a buscar uma vida mais segura no exterior.
Protestos em Basra em 2018 por causa da contaminação da água na cidade
HAIDAR MOHAMMED ALI/AFP VIA GETTY IMAGES via BBC
“Se não tem água, as pessoas começam a ir embora”, disse Kitty Van Der Heijden, chefe de cooperação internacional do Ministério de Relações Exteriores dos Países Baixos e especialista em hidropolítica.
A escassez de água afeta aproximadamente 40% da população mundial e, segundo estimativas das Nações Unidas e do Banco Mundial, secas poderiam colocar 700 milhões de pessoas em risco de deslocamento em 2030.
Muitos observadores como Van der Heijden estão preocupados pelo que poderia acontecer. “Se não há água, os políticos vão tentar controlar esse recurso e é possível que comecem a brigar por ele.”
Ao longo do século 20, o uso mundial de água cresceu mais do que o dobro da taxa de crescimento populacional. Essa dissonância está levando atualmente muitas cidades a racionar água, de Roma e Cidade do Cabo a Lima e municípios do Brasil.
A crise da água tem estado todos os anos, desde 2012, entre os cinco maiores perigos na lista de Riscos Globais por Impacto do Foro Econômico Mundial.
Em 2017, secas severas contribuíram para a pior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial, com 20 milhões de pessoas na África e Oriente Médio se vendo obrigadas a abandonar suas casas devido à escassez de alimentos e aos conflitos envolvendo acesso a água.
A relação entre guerra e água
Peter Gleick, diretor do Pacific Institute, com sede em Oakland, Califórnia, passou as últimas três décadas estudando o vínculo entre a escassez de água, guerras e migração. Ele acredita que os conflitos por água estão aumentando. “Com raras exceções, ninguém morre literalmente de sede”, disse Gleick.
“Mas cada vez mais pessoas morrem por causa de água contaminada ou devido a conflitos por acesso a água.”
Represas construídas pela Turquia reduziram o fluxo de água até o Iraque
HAIDAR MOHAMMED ALI/AFP/GETTY IMAGES via BBC
Gleick e sua equipe estão por trás de uma cronologia de conflitos por água chamada Water Conflict Chronology. Trata-se de um registro de 925 conflitos hídricos, grandes e pequenos, que remontam aos dias do rei babilônico Hammurabi. A lista não é exaustiva e os conflitos enumerados variam de guerras a disputas de vizinhos. Mas o que a cronologia revela é que a relação entre água e conflitos é complexa.
“Classificamos os conflitos por água em três grupos”, diz Gleick. “Como um ‘desencadeador’ do conflito, onde a violência se associa a disputas sobre o acesso e o controle da água; como uma ‘arma’ do conflito, onde a água é utilizada como arsenal, inclusive mediante o uso de represas que retêm água ou inundam comunidades rio abaixo; e como um ‘alvo’ de conflitos, onde recursos hídricos ou estações de tratamento ou dutos são alvos de ataque.”
Agricultura é principal foco
No entanto, ao ver os registros que Gleick e seus colegas compilaram, fica claro que a maior parte dos conflitos está relacionada à agricultura. Talvez isso não seja surpreendente já que a agricultura representa 70% do uso da água doce no planeta.
Na região de Sahel, na África, por exemplo, há registros frequentes de violentos enfrentamentos entre pastores e agricultores devido à escassez de água para seus animais e cultivos.
À medida que aumenta a demanda por água, também cresce a escala dos potenciais conflitos. “As últimas pesquisas sobre o tema mostram que a violência relacionada com a água está aumentando com o tempo”, destacou Charles Iceland, diretor global de água do World Resources Institute.
“O crescimento da população e o desenvolvimento econômico estão impulsionando a crescente demanda por água no mundo todo. Ao mesmo tempo, as mudanças climáticas estão diminuindo o abastecimento de água ou fazendo com que as chuvas sejam mais erráticas em muitos lugares.”
Em nenhum lugar o efeito duplo de estresse hídrico e mudança climática é mais evidente do que na ampla bacia dos rios Tigre e Eufrates, que inclui Turquia, Síria, Iraque e oeste do Irã. Segundo imagens de satélite, a região está perdendo água subterrânea mais rápido que quase qualquer outro lugar do mundo.
E enquanto alguns países fazem tentativas desesperadas para garantir seu abastecimento de água, suas ações estão prejudicando seus vizinhos.
A escassez de água afeta aproximadamente 40% da população mundial
ROBYN BECK/AFP VIA GETTY IMAGES via BBC
Durante junho de 2019, quando as cidades iraquianas sofreram uma onda de calor de 50° C, a Turquia disse que começaria a encher o reservatório de sua barragem de Ilisu, nas origens do Tigre.
A represa é parte de um projeto de longa duração da Turquia para construir 22 grandes diques e centrais elétricas ao largo do Tigre e do Eufrates que, segundo um informe da Agência Internacional Francesa de Água, está afetando significativamente o fluxo de água até a Síria, Iraque e Irã.
De acordo com a mesma fonte, esse projeto turco, chamado GAP (Guneydogu Anadolu Projesi), deve incluir a construção de até 90 represas e 60 centrais elétricas quando for finalizado.
Como o nível da água subiu atrás da barragem de Ilisu, de mais de 1,5 km de largura, o fluxo do rio para o Iraque foi cortado pela metade. A milhares de quilômetros de distância, em Basra, no Iraque, al-Sadr e seus vizinhos viram a qualidade da água se deteriorar.
Em agosto de 2018, centenas de pessoas começaram a chegar aos hospitais de Basra com erupções cutâneas, dores abdominais, vômitos, diarreia e até cólera, de acordo com a Human Rights Watch.
“Na verdade, a história de Basra tem duas partes”, destaca Charles Iceland. “Primeiro, há o despejo de esgoto nos cursos d’água locais sem nenhum tratamento. Mas a construção de barragens na fronteira com a Turquia também deve ser considerada: com menos água doce descendo o Tigre e o Eufrates, a água salgada (do Golfo persa) está se infiltrando rio acima. Com o passar do tempo, está arruinando as colheitas e deixando as pessoas doentes.”
Como prever conflitos por água
É um problema complexo, mas essa capacidade de enxergar vínculos entre eventos aparentemente díspares ajudou orientar o trabalho de Charles Island com a associação Água, Paz e Segurança (Water, Peace and Security), uma iniciativa financiada pelo governo holandês e um grupo de seis ONGs americanas e europeias, incluindo o Pacific Institute e o World Resources Institute.
Eles desenvolveram uma Ferramenta Global de Alerta Precoce, que usa inteligência artificial para prever conflitos. O sistema combina dados sobre chuva, safras ruins, densidade populacional, riqueza, produção agrícola, níveis de corrupção, secas e inundações, entre muitas outras fontes de dados, para produzir alertas de conflito.
Os potenciais conflitos são mostrados em uma projeção de Mercator com pontos vermelhos e laranja até o nível do distrito administrativo. Atualmente este sistema alerta para cerca de 2.000 possíveis pontos de conflito, com uma taxa de acerto de 86%.
O rio Indo é fonte vital de água para a Índia e o Paquistão, mas se origina nas montanhas do Tibete, controladas pela China
NADEEM KHAWAR/GETTY IMAGES via BBC
Embora a ferramenta de previsão identifique conflitos em potencial, ela também pode ajudar a entender o que está acontecendo em áreas que já estão enfrentando disputas devido à escassez de água.
As planícies do norte da Índia, por exemplo, são uma das áreas agrícolas mais férteis do mundo. No entanto, essa região é palco de frequentes confrontos entre agricultores devido à escassez de água.
Os dados revelam que o crescimento populacional e os altos níveis de irrigação já ultrapassaram os suprimentos de água subterrânea disponíveis. Apesar das exuberantes terras agrícolas na área, o mapa de Água, Paz e Segurança classifica quase todos os distritos no norte da Índia como “extremamente alto” em termos de estresse hídrico.
Vários rios importantes que alimentam a área, o Indo, o Ganges e o Sutlej, originam-se no lado tibetano da fronteira, mas são vitais para o abastecimento de água na Índia e no Paquistão. Vários conflitos na fronteira eclodiram recentemente entre Índia e China, por reivindicações de áreas de acesso ao rio.
Um violento confronto em maio do ano passado no vale de Galwan, por onde passa um afluente do Indo, deixou 20 soldados indianos mortos. Menos de um mês depois, houve relatos de que a China estava construindo “estruturas” que poderiam reduzir o fluxo do rio para a Índia.
A escassez de água não se deve somente à seca, mas também à contaminação e à poluição; acima, voluntários coletando garrafas de plástico em rio
KHALED DESOUKI/AFP/GETTY IMAGES via BBC
O impacto da coesão social no grau de conflito
Mas os dados capturados pela ferramenta de alerta também revelam tendências surpreendentes, como migração populacional para algumas das áreas com maior estresse hídrico.
Omã, por exemplo, sofre de níveis mais altos de seca do que o Iraque, mas antes da pandemia recebia centenas de milhares de migrantes por ano. Isso porque Omã tem melhor classificação em termos de corrupção, infraestrutura hídrica, fracionamento étnico e tensão hidropolítica.
“A vulnerabilidade de uma comunidade à seca é mais importante que a seca em si”, afirmou Lina Eklund, pesquisadora de Geografia Física na Universidade de Lund, na Suécia.
O vínculo entre escassez de água e conflitos, em outras palavras, não é tão simples como parece. Mesmo quando existe uma seca grave, uma combinação complexa de fatores vai determinar se realmente isso levará a um conflito: a coesão social é um dos mais importantes.
Peguemos a região do Curdistão iraquiano, no norte do Iraque, por exemplo – uma área que sofreu uma seca de cinco anos que empurrou 1,5 milhão de agricultores sírios a centros urbanos em março de 2011. A comunidade curda, com seus vínculos fortes, não passou pelo mesmo êxodo, descontentamento ou lutas internas.
Jessica Hartog, chefe de gestão de recursos naturais e mudanças climáticas da International Alert, uma ONG com sede em Londres, explica que o governo sírio, que aspirava a autossuficiência alimentar, apoiou durante muito tempo a agricultura, com subvenções de combustível, fertilizantes e extração de água subterrânea.
Quando Damasco eliminou abruptamente essas ajudas em meio à seca, as famílias rurais se viram obrigadas a migrar em massa aos centros urbanos. A crise causou desconfiança no regime de Bashir al Assad e isso, por sua vez, impulsionou a guerra civil que tem dizimado o país.
A Arábia Saudita atende 50% das suas necessidades de água com plantas dessalinizadoras
GIUSEPPE CACACE/AFP VIA GETTY IMAGES via BBC
Como impedir confrontos por água
Mas se conflitos potenciais de água podem ser identificados, é possível fazer algo para impedir que eles ocorram?
Infelizmente, não existe uma solução única que possa ser aplicada a várias situações. Em muitos países, a simples redução de vazamentos no encanamento pode fazer uma grande diferença: o Iraque perde até dois terços da água tratada devido à infraestrutura danificada.
O World Resource Institute também sugere abordar a corrupção e reduzir a extração desmedida para agricultura. Charles Iceland propõe até mesmo aumentar o preço da água para refletir o verdadeiro custo de fornecê-la. Em muitas partes do mundo, as pessoas se acostumaram a ver a água como um recurso abundante e barato, e não algo que deveria ser valorizado como um tesouro.
O nível de água disponível também pode ser aumentado por técnicas como a dessalinização da água do mar. Atualmente, a Arábia Saudita atende 50% de suas necessidades de água por meio desse processo.
A reciclagem de águas residuais também pode oferecer uma alternativa de baixo custo e fácil de implementar que pode ajudar as comunidades agrícolas afetadas pelas secas.
Uma avaliação da dessalinização e do tratamento de águas residuais estima que o aumento do uso dessas técnicas poderia reduzir a proporção da população mundial que sofre de severa escassez de água de 40% para 14%.
A agricultura representa 70% do uso de água doce do planeta
GEORGE ROSE/GETTY IMAGES via BBC
Em âmbito internacional, é provável que grandes represas de países a montante aumentem o risco de disputas com pessoas que dependem desses recursos rio abaixo.
No entanto, Susanne Schmeier, professora de Direito e Diplomacia da Água, no instituto IHE Delft para a Educação sobre Água, nos Países Baixos, destaca que os conflitos ribeirinhos entre países são mais fáceis de detectar e menos prováveis de chegar a um ponto crítico.
“Os conflitos locais são muito mais difíceis de controlar e tendem a aumentar rapidamente, diferentemente dos conflitos transfronteiriços, onde as relações entre os Estados muitas vezes limitam a escalada dos conflitos relacionados com a água”, disse Schmeier.
No entanto, existem muitos exemplos em todo o mundo onde as tensões são altas: o conflito do Mar de Aral, envolvendo Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Tadjiquistão e Quirguistão; o conflito do rio Jordão entre os estados levantinos; e a disputa do rio Mekong entre a China e seus vizinhos do sudeste asiático.
Nenhuma dessas discórdias se transformou em conflito, mas Schmeier menciona uma disputa que poderia desencadear um confronto. Egito, Sudão e Etiópia dependem do rio Nilo e, durante muito tempo, trocam acusações sobre o projeto da Grande Represa do Renascimento da Etiópia (Great Ethiopian Renaissance Dam ou GERD)- uma obra de US$5 bilhões e três vezes o tamanho do Lago Tana.
Quando o governo etíope anunciou o plano de seguir adiante com o projeto, Egito e Sudão promoveram exercícios de guerra conjuntos em maio deste ano, que chamaram deliberadamente de “Guardiães do Nilo”.
Essa disputa talvez seja, atualmente, a de maior risco de se converter numa guerra pela água, mas há vários outros locais em estado crítico de tensão.
Funcionários paquistaneses, por exemplo, têm se referido à estratégia de uso das águas que cruzam a fronteira com a Índia de “guerra da quinta geração”, enquanto o ex-presidente do Uzbequistão Islam Karimov advertiu que disputas regionais por água poderiam provocar uma guerra.
“Não vou citar países específicos, mas tudo isso poderia se deteriorar ao ponto de o resultado ser não só um confronto, mas também guerras”, disse Karimov, que governou o país de 1991 até a sua morte em 2016.
Os acordos para compartilhar a água são uma forma comum de acalmar esse tipo de disputa. Foram firmados mais de 200 acordos desse tipo desde o final da Segunda Guerra Mundial, como o Tratado de Águas do Indo de 1960, entre Índia e Paquistão, e o acordo entre Israel e Jordânia firmado antes do tratado de paz.
Dificuldade de negociação
Mas uma tentativa de mais de uma década da ONU de introduzir uma Convenção Global da Água sobre rios e lagos transfronteiriços só conseguiu que 43 países aderissem à iniciativa.
Hartog diz que os tratados modernos provavelmente precisarão incluir protocolos de mitigação de secas para acalmar os temores entre países de que nações vizinhas restrinjam o acesso a rios durante uma crise. Os acordos também devem conter mecanismos de resolução de disputas.
Um exemplo positivo é o de Lesoto, África do Sul, Botswana e Namíbia que, após um aumento perigoso nas tensões por acesso a água no ano 2000, intensificaram a cooperação através da chamada Comissão do Rio Orange-Senqu (Orasecom).
Neste caso, a negociação de acordos, com a consagração dos princípios de uso razoável da água, foi suficiente para aliviar a situação.
Dessalinização é estratégia mais eficiente
Mas, quando se trata de liberar recursos adicionais, os estudos indicam mais uma vez que a dessalinização e o tratamento de águas residuais são as estratégias mais eficientes.
Talvez o Egito esteja prestando atenção a isso. No ano passado, o governo egípcio negociou uma série de acordos para construir até 47 novas plantas de dessalinização, além da maior planta de tratamento de águas residuais do mundo.
No entanto, ainda que autoridades egípcias tenham acelerado a construção das plantas, a maior parte desses projetos só vai ser concluída depois de 2030. Enquanto isso, a situação da água no país continua a se deteriorar.
Hartog acredita que Egito, Etiópia e Sudão podem precisar de ajuda externa se quiserem evitar conflitos.
“Parece improvável que os três países cheguem a um acordo por conta própria e os esforços diplomáticos internacionais devem ser intensificados para evitar uma escalada”, disse ele, acrescentando que a pressão sobre o governo cada vez mais isolacionista de Addis Abeba está aumentando.
“Este poderia ser o melhor ponto de entrada para países como Estados Unidos, Rússia e China unirem forças para ajudar esses países ribeirinhos a garantir um acordo trilateral vinculativo.”
E como resolver conflitos internos
Vários países estão impulsionando iniciativas para administrar melhor a água. O Peru, por exemplo, requer que os provedores de serviços de água revertam parte de seus lucros em pesquisa e uso de infraestrutura verde na gestão de águas pluviais.
O Vietnã está combatendo a poluição industrial ao longo de sua parte do Delta do Mekong e também está integrando infraestrutura para garantir uma distribuição mais justa entre seus residentes urbanos e rurais.
À medida que as mudanças climáticas e o crescimento populacional continuam a agravar o problema das secas em todo o mundo, essas soluções serão cada vez mais necessárias para interromper o conflito e a migração.
Em dezembro do ano passado, mais de dois anos depois de Ali al Sadr abandonar Basra, menos de 11% das casas dessa cidade iraquiana tinham acesso a água potável.
Uma injeção de US$ 6,4 milhões no final de 2020 da Holanda por meio do Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, está ajudando a melhorar a infraestrutura de água da cidade. Mas as quedas de energia no início do verão desligaram muitos dos sistemas de bombeamento de água em meio a altas temperaturas.
É difícil para os residentes de Basra pensar em problemas a nível global quando enfrentam dificuldades para obter água potável diariamente. A cidade voltou a ser palco de agitação nos últimos meses, e Al Sadr acredita que as manifestações vão continuar até que a situação melhore.
“Quando eu estava protestando, não sabia o que estava por trás de toda essa crise”, disse Ali.
“Eu só queria pouco de água para beber.”
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Fonte: G1 Mundo

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Furacão Ida sobe para categoria 3 nos Estados Unidos


Informação é do Serviço Nacional de Meteorologia do país. Moradores de áreas de alto risco deixaram suas casas e fizeram fila para estocar suprimentos. Homens colocam madeira compensada em frente a uma loja em preparação para o furacão Ida, em Nova Orleans
Marco Bello/Reuters
O Serviço Nacional de Meteorologia dos EUA informou neste domingo (29) que o furacão Ida subiu para categoria 3, com ventos que podem passar dos 185 km/h. O fenômeno deve tocar a terra ao sul do país neste fim de semana após atingir o oeste de Cuba.
A previsão é de uma “onda de tempestade potencialmente mortal” quando o furacão atingir a costa da Louisiana e do Mississippi. O alerta é para que as pessoas nas áreas afetadas sigam o conselho das autoridades locais.
Moradores de áreas de alto risco deixaram suas casas e fizeram fila para estocar suprimentos antes da chegada do furacão.
Louisiana declarou estado de emergência em antecipação à tempestade, que atingirá os Estados Unidos no domingo, 16 anos após o devastador furacão Katrina, que causou inundações em 80% de Nova Orleans e matou mais de 1.800 pessoas.
As autoridades já ordenaram evacuações obrigatórias fora das áreas protegidas de Nova Orleans e cidades costeiras sujeitas a inundações, como Grand Isle.
“As pessoas estão fazendo as malas e saindo agora”, disse o chefe da polícia de Grand Isle, Scooter Resweber, à mídia local.
A declaração de estado de emergência, aprovada pelo presidente Joe Biden, canalizará fundos federais suplementares e ajuda ao estado do sul para fortalecer seus esforços de preparação e resposta a emergências.
Passagem por Cuba
O furacão atingiu a costa na noite de sexta-feira no oeste de Cuba com a categoria 1, com ventos máximos sustentados perto de 128 km por hora.
Furacão Ida se aproxima de Cuba
Reuters
Ida atingiu a ilha na província de Pinar del Río, o atual epicentro da pandemia de coronavírus na ilha.
No Twitter, o ministro da Saúde de Cuba, José Ángel Portal, alertou nesta sexta-feira sobre uma “dupla ameaça”: o fenômeno meteorológico em meio ao mais grave momento da pandemia.
Mais de 10.000 pessoas foram evacuadas e a energia foi cortada antes da tempestade, como medida de precaução. Em Havana, o transporte público foi suspenso às 12h.
Na semana passada, uma rara tempestade tropical atingiu a costa nordeste dos Estados Unidos, deixando milhares de residentes sem energia, arrancando árvores e causando chuvas recordes.
VÍDEO: Tempestade tropical Henri chega à costa no nordeste dos EUA
Os cientistas alertaram para um aumento no número de ciclones fortes à medida que a superfície do oceano esquenta devido às mudanças climáticas, o que representa uma ameaça crescente para as comunidades costeiras do mundo.
Vídeos: Últimas notícias de mundo

Fonte: G1 Mundo

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Sedes do partido do presidente Castillo são revistadas no Peru

Promotores peruanos e a polícia revistaram os escritórios Peru Livre neste sábado. O MP iniciou uma investigação preliminar contra o partido de esquerda por suposta lavagem de dinheiro. Pedro Castillo assume oficialmente a presidência do Peru
Promotores peruanos e a polícia revistaram os escritórios do partido de esquerda Peru Livre neste sábado (28) em uma investigação sobre o financiamento da campanha eleitoral que levou Pedro Castillo à Presidência.
As buscas em sete imóveis, incluindo a casa do líder do partido, Vladimir Cerrón, foram autorizadas pelo juiz Carlos Sánchez a pedido do Ministério Público.
O MP iniciou uma investigação preliminar contra o Peru Livre por suposta lavagem de dinheiro, que inclui o novo chefe de gabinete de Castillo, Guido Bellido.
O juiz autorizou a “entrada, busca domiciliar, apreensão de bens e destravamento (que deve incluir a quebra de fechaduras, guarda-roupas, armários, escritórios particulares, cofres de metal, madeira e outros)” nas sete propriedades, segundo um documento judicial.
O promotor Richard Rojas comandou as operações em três imóveis em Lima e quatro na cidade andina de Huancayo, onde mora Cerrón, condenado em 2019 a quatro anos de prisão com suspensão por corrupção enquanto era governador da região (Junín). A sentença o impediu de ser candidato a vice-presidente de Castillo.
A investigação preliminar tem como alvos Bellido e Cerrón, um médico formado em Cuba, além do partido Peru Livre, como pessoa jurídica.
“Os dirigentes do Peru Livre têm que se submeter à justiça como os dirigentes de outros partidos. O fato de ter responsabilidade no governo não os exime da investigação judicial”, disse à AFP o analista político Hugo Otero.
Turbulento primeiro mês
Fundado por Cerrón em 2008 como movimento político com sede em Huancayo, o Peru Livre se define como marxista-leninista.
O partido chegou ao poder com a vitória de Castillo, um professor rural de Cajamarca (norte), sobre a candidata de direita Keiko Fujimori na votação de 6 de junho.
Em abril, conquistou a maior bancada do fragmentado Congresso peruano, 37 de um total de 130, o que o obrigou a buscar alianças.
As batidas se estenderam por várias horas sem contratempos, mas o partido governista expressou em um comunicado seu “estranhamento” com a medida.
Acrescentou estar disposto a “colaborar” com as investigações de financiamento de campanha, mas repudiou “qualquer tentativa de amedrontamento das forças de ordem, Ministério Público e Poder Judiciário, de pretender violar o devido processo”.
As batidas foram realizadas no dia em que Castillo completou um mês no poder, período marcado pelo cerco da oposição e apelos para sua destituição, e no dia seguinte à concessão do voto de confiança do Congresso ao gabinete chefiado por Bellido, que lhe permitiu permanecer no cargo.
A votação no Congresso foi o primeiro teste para o governo de Castillo, que assumiu o cargo em 28 de julho após um confronto de cinco anos entre Executivo e Legislativo, enquanto a incerteza levanta nuvens sobre a economia peruana, que tenta deixar para trás os efeitos nocivos da pandemia.
Disputas entre o novo governo e a oposição custaram o cargo do ministro das Relações Exteriores, Héctor Béjar, em 17 de agosto. Os opositores esperavam novas mudanças de ministros, mas Castillo recusou. Em meio à tensão, o Congresso aprovou um voto de confiança ao gabinete por 73 votos a 50.
Acusações de corrupção e lavagem de dinheiro assombram políticos peruanos há cinco anos, quando estourou o escândalo de pagamentos ilegais pela Odebrecht, que afetou quatro ex-presidentes e Keiko Fujimori. Ela nega as acusações, mas passou 16 meses em prisão preventiva e deve ir a julgamento em breve.

Fonte: G1 Mundo

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Furacão Nora toca o solo no México

O furacão Nora tocou o solo neste sábado no estado mexicano de Jalisco e se mantém perto da costa mexicana do Pacífico. As autoridades mexicanas não reportaram feridos até o momento. O furacão Nora tocou o solo neste sábado (28) no estado mexicano de Jalisco e se mantém perto da costa mexicana do Pacífico, informou o Centro Nacional de Furacões (NHC) dos Estados Unidos.
O olho de Nora, de categoria 1 na escala Saffir-Simpson (de 5) “permanece perto da costa do México depois de tocar o solo no noroeste de Jalisco”, informou o NHC em seu último boletim.
As autoridades mexicanas não reportaram feridos até o momento.
Nora impactou “perto de Vicente Guerrero (Jalisco) e continuou movendo-se perto da costa desde então”, destacou o NHC.
Às 21h de Brasília, o ciclone situava-se 50 km ao sul-sudoeste de Puerto Vallarta (Jalisco) e a 555 km de Cabo San Lucas (Baixa Califórnia), deslocando-se a 22 km/h rumo ao norte com ventos sustentados de 130 km/h, informou o NHC.
O olho do furacão “continuará movendo-se perto da costa do México nas próximas horas” e depois sair ao Golfo do México, “movendo-se em paralelo à costa do México”, acrescentou.
O NHC não descarta que possa virar para a direita, adentrando na terra e dissipando-se.
As autoridades mexicanas tinham habilitado 15 refúgios em Jalisco e enviado socorristas para a zona de impacto.
No último fim de semana, outro furacão, o Grace, atingiu Veracruz (leste) como categoria 3 na escala Saffir-Simpson e causou a morte de pelo menos 11 pessoas no estado e em seu vizinho, Puebla (centro).

Fonte: G1 Mundo

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Reino Unido retira suas tropas do Afeganistão, mas deixa centenas de afegãos para trás

O governo britânico encerrou sua operação de resgate no país – ministro da Defesa diz que até 1.000 afegãos elegíveis não conseguiram embarcar. Um avião fretado para o resgate de cães e gatos é alvo de críticas no Reino Unido. Europa encerra voos para retirar civis do Afeganistão
O Reino Unido concluiu neste sábado (28) sua operação de retirada do Afeganistão após a saída de um voo com seus últimos soldados no país e disse lamentar não ter podido evacuar centenas de colaboradores afegãos.
O ministério da Defesa tuitou que “um voo final transportando o pessoal das Forças Armadas britânicas deixou Cabul”, mensagem acompanhada de uma foto de soldados aparentando cansaço embarcando no avião.
Horas antes, o Reino Unido tinha enviado seu último avião para retirar civis do Afeganistão e destinou seus últimos esforços para a evacuação do pessoal diplomático e militar restante antes da data limite de 31 de agosto para a saída das tropas americanas.
O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, agradeceu a todos os que participaram da operação e destacou que em pelo menos duas semanas foram retiradas 15.000 pessoas.
“Quero agradecer a todos aqueles envolvidos e às milhares que serviram ali nas duas últimas décadas”, disse em mensagem nas redes sociais.
O comandante das forças armadas do Reino Unido, general Nick Carter, disse que a operação de retirada “saiu tão bem quanto possível”, mas que foi “desolador” não ter “podido tirar todos”. Carter calculou que o número de afegãos elegíveis que não foram evacuados era “de umas centenas”.
O ministro da Defesa, Ben Wallace, tinha estimado anteriormente que entre 800 e 1.100 afegãos elegíveis para realocação sob o esquema do Reino Unido “não conseguiram” sair.
Um dos últimos a deixarem Cabul foi o diretor britânico da organização beneficente de animais Nowzad, Paul ou “Pen” Farthing, cuja campanha para retirar 200 gatos e cães em um avião fretado privadamente provocou polêmica no Reino Unido.
“Estamos aliviados em confirmar que Pen e os animais de Nowzad deixaram o Afeganistão à tarde e estão a salvo”, reportou a organização no Twitter.
A insistência de Farthing em tirar os animais enquanto muitos afegãos ficaram para trás, inclusive alguns funcionários da Nowzad, foi amplamente criticada no Reino Unido.
O encarregado do comitê de Assuntos Exteriores da Câmara dos Comuns, Tom Tugendhat, explicou à LBC Radio que um tradutor afegão que trabalhou para o Reino Unido tinha lhe perguntado: “Por que meu filho de cinco anos vale menos que um cão?”.

Fonte: G1 Mundo

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Prefeito de ilha paradisíaca em Honduras é detido acusado de narcotráfico


Jerry Hynds estava supostamente num carro que fazia escolta de um caminhão-pipa que levava drogas escondidas, informou o Ministério Público local. Advogado diz que mandatário caiu em ‘armadilha’ por causa de divergências políticas. Imagem registrada em 28 de agosto de 2021 no aeroporto de Tegucigalpa, capital de Honduras, mostra o policiais escoltando o prefeito da ilha paradisíaca de Roatan, Jerry Hynds (ao centro, de boné vermelho); segundo a polícia, ele foi preso por estar num carro que, supostamente, fazia parte de um comboio que transportava drogas
Orlando Sierra/AFP
O prefeito da ilha paradisíaca de Roatán, em Honduras, Jerry Hynds, foi detido por supostamente escoltar um caminhão-pipa que levava drogas escondidas, informou o Ministério Público local neste sábado (28).
Segundo nota do MP, o prefeito foi detido na noite de sexta-feira com outras três pessoas, durante inspeções a veículos realizadas pela Agência Técnica de Investigação Criminal (ATIC) e a Promotoria Especial contra o Crime Organizado (FESCCO).
Dentro de um caminhão-pipa “foram encontrados 98 sacos de suposta droga”, informou a Promotoria. Segundo a imprensa local, a droga encontrada pesaria duas toneladas. No veículo viajavam duas pessoas.
“Enquanto isso, atrás do caminhão-pipa ia o prefeito Jerry Hynds, a bordo de um veículo da marca Toyota, Land Cruiser, cabine dupla” e mais uma pessoa em um terceiro veículo, explicou a nota.
O prefeito foi levado para a capital, Tegucigalpa, para ser processado por autoridades com jurisdição federal.
Em declarações ao jornal “El Heraldo”, o advogado de Hynds, Norman Reaño, disse que tudo foi uma coincidência planejada. “O prefeito ia para a Prefeitura e quando o caminhão-pipa foi detido, ele vinha atrás e depois disso, foi detido”, explicou.
Para Reaño, o prefeito caiu em uma armadilha por ter sido crítico à criação em sua jurisdição de uma “cidade-modelo”– ou Zona Especial de Desenvolvimento Econômico (Zede). O termo se refere a territórios autônomos que, embora fiquem dentro de Honduras, têm leis e jurisdição próprias, para atrair investimentos.
Em Roatán fica a Zede Próspera, voltada a atividades turísticas. Dias atrás, o próprio Hynds havia dito que queria transformar todo o município em uma Zede, para que os investimentos na ilha não fossem exclusivamente para a Próspera.
Honduras está na mira dos Estados Unidos por acusações de narcotráfico contra suas principais autoridades. Tony Hernández, ex-deputado e irmão do presidente Juan Orlando Hernández, foi sentenciado à prisão perpétua em Nova York por tráfico de drogas.
Nos Estados Unidos, também foi sentenciado por narcotráfico Geovanny Fuentes, a quem a Justiça americana considera sócio do presidente. O promotor Jacob Gutwillig considerou Honduras um narco-Estado.
Hernández negou as acusações e garante que todas as acusações fazem parte de uma vingança de chefes do narcotráfico que seu governo capturou ou ajudou a extraditar aos Estados Unidos.
Honduras terá eleições presidenciais em 28 de novembro e vários candidatos são apontados por corrupção ou narcotráfico.
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Fonte: G1 Mundo

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Islamofobia: ‘o que oprime muçulmanas no Brasil não é o lenço’, diz pesquisadora da USP

A antropóloga Francirosy Campos, que estuda o tema há mais de 20 anos, diz que preconceito e ataques contra fiéis do Islã no Brasil, especialmente contra mulheres, aumentaram após as notícias do Talibã tomando poder no Afeganistão. A tomada do poder pelo Talibã no Afeganistão teve consequências não só para as mulheres que vivem sob o regime, mas também para muçulmanas no Brasil. Isso porque os episódios de islamofobia — preconceito e ataques contra muçulmanos — aumentaram após as notícias sobre as ações do Talibã. O crescimento foi registrado pela pesquisadora Francirosy Campos, que estuda o assunto há mais de 20 anos.
“Tudo o que alguém faz de errado em nome da religião se volta contra a comunidade muçulmana, especialmente contra as mulheres”, diz Campos, que é professora da Universidade de São Paulo, antropóloga com pós-doutorado na Universidade de Oxford, feminista e muçulmana.
A pesquisadora explica que movimentos políticos com teor religioso, como o Talibã, não são a mesma coisa que a religião do Islã. E que há muita diversidade e muitas diferenças no mundo muçulmano. A opressão das mulheres em alguns lugares, diz, não é resultado da religião, mas do “contexto cultural e político de cada lugar”.
“O patriarcado, o machismo estão em todas as sociedades. Os homens são machistas dentro do Islã, fora do Islã, com religião, sem religião. Mas isso não impede que as mulheres construam suas agências, suas formas de luta e suas formas de resistência”, afirma.
Leia a seguir trechos da entrevista de Campos à BBC News Brasil.
BBC News Brasil – Que sentimento vem, para uma pessoa muçulmana, ao ver um grupo fundamentalista como o Talibã oprimir pessoas em nome da religião?
Francirosy Campos – Primeiro é um sentimento de impotência, de tristeza. A gente tem uma religião que nos ensinou a beleza da compreensão, do diálogo, dos valores humanos. Porque se a gente for olhar para os objetivos da Sharia (lei islâmica), eles são a preservação da vida, da consciência, da propriedade, da religião. E, quando você vê situações como essa, essas pessoas não estão nem chegando a 0,01% do objetivo da Sharia. Não adianta rezar dez vezes ao dia, mais do que está prescrito, sendo que você maltrata sua mãe, maltrata um animal, não é um pessoas honesta… Sua oração não vale nada. Isso é ser extremista. E, além de tudo, tudo o que alguém faz de errado (em nome da religião) volta para nós, para a comunidade muçulmana.
BBC News Brasil – O fato do Talibã ter tomando controle do Afeganistão pode criar ou aumentar preconceitos contra muçulmanos?
Campos – Já está acontecendo, aumentou muito. Minha área de pesquisa é justamente sobre islamofobia, e eu não estou dando conta de ver tudo. Porque as pessoas não sabem o que é o Islã, elas não sabem que (a situação no país) é um conflito político, não sabem muitas vezes nem onde fica o Afeganistão. Isso reverbera nos grupos mais frágeis, que são as mulheres que usam lenços, que muitas vezes sofrem ataques verbais e até físicos muito violentos. A gente precisa explicar o que isso representa para as mulheres afegãs, que têm suas lutas e movimentos que não necessariamente são os mesmos daqui, e descolonizar um pouco o olhar sobre esse povo e sobre as próprias mulheres muçulmanas que estão no Brasil. Porque há uma diversidade entre os muçulmanos – eles não são iguais, vêm de culturas diferentes, têm valores diferentes. Eu fiquei vendo várias postagens de mulheres falando sobre o lenço, dizendo para muçulmanas tirarem o lenço… Não é o lenço que é o problema.
BBC News Brasil – O uso do lenço pelas mulheres é um dos aspectos mais reconhecíveis do Islã para muitas pessoas. Essa peça é sinônimo de opressão?
Campos – O uso do hijab é uma obrigação alcorânica, mas existe o livre arbítrio. Tenho várias amigas muçulmanas que não usam — e elas não são mais ou menos muçulmanas, só não estão seguindo um preceito religioso. Existem sociedades e famílias que permitem que suas filhas escolham, e tem sociedades teocráticas, como a Arábia Saudita, o Irã, que obrigam. Se existem sociedades em que as mulheres vivem sem roupas, usam pinturas corporais, porque as mulheres muçulmanas não podem vestir as vestimentas tradicionais? Porque, se algumas questionam, outras não questionam ou escolhem usar. Faz parte da cultura e da individualidade delas.
BBC News Brasil – O que o uso do lenço representa para uma mulher muçulmana que escolhe fazer uso dele?
Campos – Tem vários significados que eu colhi nas minhas pesquisas. Para algumas mulheres, é um empoderamento, para outras é religiosidade, para outras é um ato político. Se você pensar nas opressões contra mulheres muçulmanas que tiveram mais destaque na França, começando em 1989, a partir daí houve uma revolta tão grande das mulheres de origem islâmica que muitas que não usavam o lenço passaram a usar, como um ato político. Eu, por exemplo, sou muçulmana há muitos anos e sou docente da USP há mais de dez anos. E eu sempre tive o desejo de usar, mas eu não tinha coragem. Por medo da islamofobia, ou por medo de intimidar os meus alunos, passavam mil coisas pela minha cabeça. Mas quando eu comecei a ver a quantidade de meninas que não tinham a mesma estabilidade que eu, que estão lutando para usar o lenço e recebem todo tipo de ofensa, eu resolvi usar.
BBC News Brasil – O que é essencial esclarecer sobre o Islã para quem não conhece a religião e só leu ou ouviu sobre ela em notícias sobre grupos fundamentalistas?
Campos – A primeira coisa é tirar essa imagem de que a Sharia é o mal. O que é a Sharia? Sharia significa “caminho”, são as orientações do Corão, os ensinamentos e as atitudes do Profeta Muhammad. Quem é muçulmano pratica a Sharia: os muçulmanos rezam, os muçulmanos fazem jejum, isso faz parte da Sharia. O tipo de casamento islâmico, o tipo de divisão de herança etc. O que acontece é que esses escritos, esse código de conduta, passa por uma interpretação, então quanto mais sábio, mais erudito, quanto mais compreensão da língua árabe (língua do Corão), melhor a interpretação. Existem diversas escolas e formas de interpretação e interpretações literalistas, às vezes aliadas ao analfabetismo, com pessoas que têm pouco conhecimento da língua, podem acabar caindo para o extremismo, como aconteceu com o Talibã de 20 anos atrás.
Outro ponto é em relação aos direitos das mulheres. As mulheres têm direitos no mundo muçulmano desde o século 7, desde o advento do Islã. Isso não quer dizer que em todas as sociedades esses direitos sejam garantidos. É como nós no Brasil — temos direitos, mas nem sempre eles são garantidos. As mulheres têm direito de voto, de escolher o marido, de usar anticoncepcional, direito ao prazer, à herança, ao divórcio, ao conhecimento. É um grande absurdo o Talibã proibir o estudo das mulheres. Não tem nada no Islã que diga que as mulheres não devam estudar, ao contrário: a primeira palavra revelada do Corão é “leia”.
Existe uma diferença entre o Islã religião (que eu escrevo com m, islam) e o islã político, que na academia a gente tecnicamente chama de islamismo. O Talibã está dentro desse islã político, que se apropria da religião para uma ação política. Nessa categoria você pode colocar o Talibã, a Irmandade Muçulmana, e outros movimentos políticos que nascem dentro de uma perspectiva religiosa. E há muitas divisões mesmo nesses movimentos políticos, com formas diferentes de interpretar a religião: mística, tradicionalista, reformista, literalista etc.
Isso tem a ver com o contexto cultural e político de cada lugar, não com a religião. O patriarcado e o machismo estão em todas as sociedades. Os homens são machistas dentro do Islã, fora do Islã, com religião, sem religião. Mas isso não impede que as mulheres construam suas agências, suas formas de luta e suas formas de resistência.
BBC News Brasil – É possível ser feminista e muçulmana?
Campos – Sim, claro! Desde o século 18, as mulheres muçulmanas já tinham movimentos estruturados. Não necessariamente elas chamavam de movimentos feministas, mas há movimentos estruturados de mulheres. O Afeganistão é um exemplo: as meninas, quando o Talibã estava no poder pela primeira vez, elas pegavam as câmeras e colocam embaixo da burca e filmavam todas as atrocidades as violência que elas viam.
BBC News Brasil – Malala Yousafzai, do Paquistão, ficou mundialmente conhecida por querer estudar e ser atacada pelo Talibã.
Campos – Olha, eu não acho que a Malala é um grande exemplo de resistência. Onde ela sofreu o atentado, 80 crianças foram assassinadas pelos Estados Unidos, e ela nunca falou sobre essas crianças. É uma violência, um absurdo o que aconteceu com ela, mas eu não a considero um símbolo. Ela silencia sobre a morte dessas crianças e sobre a morte das mulheres do Afeganistão pela Inglaterra. Ela foi muito usada pelos Estados Unidos para falar o que eles queriam que uma mulher muçulmana falasse. Então, eu acho que o símbolo de resistência são as mulheres do Afeganistão que resistem ao Talibã todos os dias. Considero mais símbolo a Benazir Bhutto (ex-primeira ministra do Paquistão).
BBC News Brasil – Qual o impacto da islamofobia para as mulheres muçulmanas no Brasil?
Campos – O impacto da islamofobia é muito grande. A islamofobia no Brasil é de classe. O que minha pesquisa aponta é que a islamofobia afeta muito mais as mulheres revertidas (convertidas) ao Islã, de classe média baixa, jovens e acima de 40 anos. As mulheres que andam de metrô, de ônibus, que andam a pé, que têm subempregos, são essas que são as mais afetadas. Se você anda de carro, você está mais protegida. Mas vai pegar um metrô às seis da tarde de lenço. É uma vulnerabilidade. As mulheres nascidas no Islã também sofrem intolerância, mas elas têm mais apoio. A mulher que se converte, ela vai sozinha, ela não faz parte de uma comunidade, não tem uma família muçulmana para dar apoio.
A gente achava que as redes sociais teriam a maior parte das agressões, mas muitas das agressões são nas ruas. Desde puxar o lenço, fazer comentários pejorativos até pedradas. Tem mulheres que já sofreram pedradas, foram perseguidas, empurradas.
(No Brasil, entre 800 mil e 1,2 milhão de pessoas são muçulmanas, segundo estimativas da Fambras, a Federação das Associações Muçulmanas do Brasil. Destas, cerca de 100 mil são convertidas, ou seja, não nasceram em famílias islâmicas.)
BBC News Brasil – A preocupação de feministas ocidentais com as mulheres no Afeganistão é legítima?
Campos – A preocupação é legítima. O que não é legítimo é que as mulheres falem pelas outras mulheres. Por exemplo: eu sou uma mulher que sempre vai estar do lado das mulheres, quer sejam muçulmanas ou não, sejam elas negras, brancas, não importa. Mas eu não posso falar por elas. Eu sou uma muçulmana que usa lenço, mas não posso falar por todas as muçulmanas que usam lenço, eu não sou eleita para isso, não sou uma representante. Eu represento o meu lugar, como acadêmica, que fala aquilo que pesquisa há mais de 20 anos.

Fonte: G1 Mundo

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Morte de milhões de peixes por falta de oxigênio comove Espanha


Milhares de pessoas fizeram neste sábado uma corrente humana em torno do Mar Menor, uma laguna de água salgada no sudeste do país; animais morreram devido à poluição causada por dejetos agrícolas. Quantidade de peixes retirados do local chegou a 15 toneladas. Foto de 20 de agosto de 2021 mostra peixes mortos na laguna de Mar Menor, em Murcia, na Espanha
Eva Manez/Reuters
Milhares de pessoas fizeram neste sábado (28) uma corrente humana em torno do mar Menor, uma laguna de água salgada no sudeste da Espanha, em sinal de luto pelos milhões de peixes que morreram no local devido à poluição. Os dejetos agrícolas levaram a um fenômeno que reduziu a oxigenação da água ao ponto de asfixiar os peixes, de acordo com organizadores da manifestação e governantes da região.
Os organizadores avaliam que 70 mil pessoas participaram do ato e se deram as mãos, alinhando-se por centenas de metros. Participaram moradores e turistas frequentadores da praia de Alcazares, que se estende por seis quilômetros nas bordas da laguna, de 73 quilômetros de comprimento. As imagens das toneladas de peixes mortos ou agonizando, tentando respirar, chocam a opinião pública espanhola há quase duas semanas.
“É uma manifestação de luto pela morte dos animais. Queríamos que as pessoas pedissem, de uma maneira ou de outra, perdão pela barbárie que nós causamos”, disse à AFP o militante Jesus Cutillo. “Há dias, assistimos à morte de milhões e milhões de peixes, e ver essas mortes inúteis nos machuca.”
Muitos manifestantes estavam de preto e traziam cartazes dizendo “SOS Mar Menor”. O objetivo do ato era “mostrar a nossa determinação para que isso nunca mais se repita”, explicou Cutillo.
Proliferação de algas
Em foto de 21 de agosto de 2021, funcionários da Prefeitura de Murcia, na Espanha, retiram peixes mortos na laguna do Mar Menor
Eva Manez/Reuters
Cientistas indica que a principal causa da falta de oxigênio é chegada na laguna de centenas de toneladas de nitratos utilizados como fertilizante pela agricultura intensiva, que favorecem à aparição de algas que asfixiam o ecossistema aquático. O fenômeno chama-se eutrofização.
Na segunda-feira (23), sétimo dia do desastre ecológico, governantes da região informaram que de 4,5 a 6 toneladas de peixes já haviam sido retiradas. Neste sábado, a quantidade foi atualizada para 15 toneladas.
“As 15 toneladas de peixes mortos ou de biomassa mostram que é uma verdadeira catástrofe ambiental e uma emergência. Precisamos de ajuda imediata para o ecossistema”, declarou a prefeita da cidade vizinha Cartagena, Noelia Arroyo.
A ministra do Meio Ambiente, a socialista Teresa Ribera, esteve no local na quarta-feira (25). Ela acusou o governo regional, dos conservadores do Partido Popular, de tolerar práticas agrícolas ilegais nos campos de Cartagena, imensa área de cultivo intensivo. Organizações de agricultores, por sua vez, asseguram que respeitam a legislação ambiental em vigor.
Foto de 25 de agosto de 2021 mostra homem pendurando faixa contra a poluição na laguna Mar Menor, na Espanha de onde foram retiradas toneladas de peixes que morreram por causa de poluentes agrícolas
Jose Miguel Fernandez/AFP
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Fonte: G1 Mundo

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Biden diz que novo ataque ao aeroporto de Cabul é ‘muito provável’


“A situação continua extremamente perigosa e a ameaça de um ataque terrorista no aeroporto continua alta”, escreveu o presidente americano em um comunicado. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, alertou neste sábado (28) que um novo ataque ao aeroporto de Cabul é “muito provável” nas “próximas 24 a 36 horas” e que o bombardeio americano que matou dois membros do grupo Estado Islâmico “não será o último”. “A situação no local continua extremamente perigosa e a ameaça de um ataque terrorista no aeroporto continua alta”, escreveu o presidente em um comunicado após se reunir com seus conselheiros militares e de segurança.
EUA se preparam para novo ataque do Estado Islâmico
Ataque com drones
Dois dirigentes do Estado Islâmico-Khorasan, o braço do Estado Islâmico no Afeganistão, foram mortos nos ataques de drone feitos pelos Estados Unidos no sábado (28). Além desses dois, um terceiro dirigente ao grupo terrorista ficou ferido. Segundo os militares dos EUA, os três estiveram envolvidos no planejamento e execução do atentado suicida do lado de fora do aeroporto de Cabul, na quinta-feira.
Pode ser que haja novas operações, de acordo com as agências de notícias. Os bombardeios com drones foram executados na província de Nangarhar, uma região montanhosa do Afeganistão.
Foi uma retaliação, pois menos de 48 horas antes houve um ataque suicida que matou 169 afegãos e 13 militares americanos no aeroporto de Cabul. Esse atentado foi reivindicado pelo Estado Islâmico-Khorasan. No Afeganistão, esse grupo e o Talibã são inimigos.
Ouça ‘O Assunto’

Fonte: G1 Mundo

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Milhares marcham em Washington e outras cidades dos EUA por direitos eleitorais

Objetivo é pressionar parlamentares a aprovarem leis contra onda de restrições em estados governados por republicanos. Com bandeiras do Black Lives Matter, participantes defendem que minorias podem ser prejudicadas por essas medidas. Atos ocorrem no aniversário de 58 anos da histórica marcha em que Martin Luther King fez o discurso do ‘Eu tenho um sonho’. Milhares de manifestantes deram início a marchas em Washington e em outras cidades dos Estados Unidos neste sábado (28) para exigir proteção aos seus direitos eleitorais, tentando pressionar parlamentares a aprovarem leis contra uma onda de restrições em estados governados por republicanos.
No aniversário da histórica marcha de 1963 de Martin Luther King Jr. em Washington, organizadores da Marcha por Washington e Direitos Eleitorais defendem que medidas estaduais para limitar o acesso ao voto podem ter um impacto desproporcional às minorias.
Em Washington, manifestantes com bandeiras do Black Lives Matter e cartazes pedindo legislações federais marcharam da praça McPherson ao último ponto de encontro no National Mall, onde King fez seu famoso discurso “Eu tenho um sonho”, 58 anos atrás.
Carolyn Ruff, ativista de 74 anos, afirmou que viajou de Chicago para Washington para pressionar pela aprovação de uma lei federal que restauraria proteções chave à Lei de Direitos Eleitorais de 1965, que tornou ilegais práticas discriminatórias de votos.
A lei, batizada em homenagem ao falecido herói dos direitos civis John Lewis, foi aprovada na Câmara dos EUA nesta semana, mas encarará um cenário pouco promissor no Senado devido às regras que permitem que a minoria bloqueie legislações.
Após o democrata Joe Biden ter vencido a eleição presidencial de 2020, parlamentares republicanos em muitos estados restringiram o uso de caixas de depósito e a possibilidade de votação pelo correio. A medida entrou em vigor depois de o ex-presidente republicano Donald Trump ter tentado, sem sucesso, reverter o resultado da eleição com base em alegações infundadas de fraude eleitoral generalizada.
Até agora este ano, pelo menos 18 estados sancionaram leis restringindo o acesso do eleitor, segundo o Centro Brennan por Justiça da Universidade de Nova York.
Organizadores esperam cerca de 50 mil manifestantes em Washington. Protestos também foram planejados em Phoenix, Miami e outras cidades.

Fonte: G1 Mundo