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O mistério da casa que desapareceu em uma ilha da Irlanda


Premiado documentarista Neville Presho perdeu tudo quando seu refúgio na costa de Donegal desapareceu. Quando Neville Presho voltou para Tory, havia apenas um espaço vazio no lugar onde ficava sua casa
BBC
Imagine um lindo dia de verão. Um homem olha de um barco no Atlântico a costa distante da remota ilha irlandesa de Tory.
Ele está à procura de sua casa, um refúgio que tem na ilha e que não vê há oito anos.
A construção era uma das mais antigas do local, logo acima do porto com vista panorâmica para o mar.
Ele a tinha pintado de branco antes de deixar a Irlanda rumo à Nova Zelândia.
Mas a casa não estava mais ali — somente um espaço vazio.
Ele esfrega os olhos e espera descobrir que tudo não passa de um sonho.
Em vez disso, é um pesadelo que para o engenheiro civil Neville Presho começou em julho de 1994.
Neville Presho fotografado em julho de 2009
TREVOR MCBRIDE
Quando Presho saiu de barco naquele dia de verão e se dirigiu ao local onde antes estava sua casa, não pôde acreditar no que viu, diz.
“Tudo o que vi foram 15 centímetros de um tubo de plástico saindo do solo, que era meu encanamento de água”.
“Havia grandes rochas de cerca de 2,5 por 0,5 metros no que antes era o perímetro (da casa).
“Minha banheira estava de cabeça para baixo na praia.”
‘Muro de silêncio’
“Neville começou a fazer perguntas e, curiosamente, não obteve respostas. Deparou-se com um muro de silêncio”, diz Conor McKay, que, com Michael Shannon, produziu o docudrama da BBC “The House That Disappeared” (“A Casa Que Desapareceu”, em tradução livre para o português).
“As pessoas disseram que ela foi levada por um redemoinho. Alguém falou que era melhor não perguntar, e outro mencionou um brilho estranho no céu”.
“Houve um momento em que ninguém mais acreditava nele. Um psiquiatra achou que Neville havia fantasiado tudo aquilo”.
É uma história com muitas reviravoltas, diz McKay, e que impactou profundamente Prescho.
“Ele nunca mais foi o mesmo”, diz McKay.
“Além de engenheiro civil, Neville era um cineasta muito respeitado. Seus documentários ganharam muitos prêmios internacionais, mas ao descobrir que sua casa havia desaparecido, ele não fez mais filmes”.
“Infelizmente, desenvolveu uma doença mental muito séria. E passou anos tentando obter respostas”.
“Ele finalmente conseguiu um pouco de justiça, mas demorou muito.”
Correram rumores de incêndio criminoso e, mais tarde, de que a casa havia sofrido consideráveis ​​danos causados por tempestade
NEVILLE PRESHO
Uma tempestade ou uma escavadeira?
Neville tentou em vão conseguir que um advogado assumisse o caso.
Ele pediu ajuda à polícia, mas quando um detetive visitou a ilha, também se deparou com um muro de silêncio.
Um juiz diria mais tarde que a ausência de declarações de muitas pessoas “sobre o que deveria ser óbvio para todos é significativa”.
Correram rumores de incêndio criminoso e, mais tarde, de que a casa havia sofrido danos consideráveis pela tempestade.
A razão pela qual Neville voltou para a ilha em primeiro lugar foi porque ele recebeu uma carta do conselho local avisando-o de que sua casa havia sido danificada durante uma tempestade.
Mas um engenheiro, como explicou em um relatório, descobriu que ela foi provavelmente derrubada por meios mecânicos.
Mais tarde, um construtor que trabalhava na ilha alegou que recebera uma oferta em dinheiro para demolir a casa, mas que a recusou.
Corriam boatos de que a casa havia sido destruída em um incêndio criminoso, mas Neville não conseguiu encontrar nenhuma prova disso.
A casa foi pintada de branco antes de Neville deixar a Irlanda rumo à Nova Zelândia
NEVILLE PRESHO
No entanto, um encontro casual dele com o jornalista e escritor Anton McCabe no barco em direção a Tory em 2003 deu gás a essa versão.
McCabe o colocou em contato com um advogado disposto a assumir seu caso.
Ele abriu um processo civil, acusando Patrick Doohan, morador local e empresário do setor hoteleiro, de ter destruído a casa de Neville, por bloquear sua vista para o oceano.
‘Para onde foi minha casa?’
Em 2009, após um dramático processo legal, um juiz decidiu que não havia evidências de que Doohan ou qualquer pessoa que agiu em seu nome tenha posto fogo na casa de Neville.
No entanto, o juiz determinou que o réu teria muito a ganhar com o desaparecimento da casa e que sua escavadeira, dirigida por ele ou não, provavelmente estaria envolvida na destruição.
O juiz concedeu a Neville US$ 55 mil (R$ 281 mil, em valores atuais) em danos por invasão e interferência em sua propriedade.
Anton McCabe lembra-se vividamente do primeiro dia daquele julgamento no Tribunal Superior em Letterkenny em 2009.
“Fui o único jornalista presente durante toda a audiência”, diz ele.
Em seguida, o jornal irlandês Daily Star publicou a história com o título “Onde está minha casa?” Na manhã seguinte, havia duas mesas repletas de jornalistas”, lembra McCabe.
O interesse internacional por sua história encorajou Neville: ele se sentiu apoiado.
“Ele ganhou vida com a publicidade em jornais”, diz o repórter.
Mas o dano pessoal já havia sido feito.
“Não é exagero dizer que (o episódio) destruiu sua vida e afetou seriamente a de sua família”, diz McCabe.
“Nem que ele tivesse recebido dez vezes mais do que recebeu, nada compensaria o que aconteceu com ele. Neville sofreu episódios de doença mental e seu casamento desmoronou.”
Pelo menos, a Justiça foi feita. Mas a um grande custo pessoal.

Fonte: G1 Mundo

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A revolta causada pela seca que enfraqueceu um dos impérios mais poderosos do mundo


Assim como no caso do Império Otomano, mudanças climáticas agem como ‘multiplicador de ameaças’ — quando agitação social coincide com condições meteorológicas extremas, pode haver consequências devastadoras. Mudanças climáticas agem como ‘multiplicador de ameaças’ — quando agitação social coincide com condições meteorológicas extremas, pode haver consequências devastadoras
Getty Images
No fim do século 16, centenas de bandidos invadiram os campos rurais da Anatólia a cavalo, saqueando vilas, incitando a violência e desestabilizando o poder do sultão.
Quatrocentos anos depois e a algumas centenas de quilômetros de distância, onde hoje é a Síria, uma série de protestos generalizados se transformou em 2011 em uma sangrenta guerra civil que perdura até hoje.
Esses episódios sombrios da história do Mediterrâneo compartilham características-chave que servem de alerta para o futuro: ambos os eventos forçaram muitas pessoas a deixar suas casas. Da mesma forma, ambos tiveram origem na política e resultaram em consequências políticas dramáticas.
E ambos foram impulsionados por temperaturas extremas que costumam ser associadas às mudanças climáticas.
Como historiadora ambiental, pesquisei e escrevi extensivamente sobre conflitos e pressões ambientais na região do Mediterrâneo Oriental.
Embora secas severas, furacões, aumento do nível dos oceanos e migração climática possam parecer fenômenos novos e únicos do nosso tempo, crises passadas como a que acabei de mencionar, assim como outras, oferecem lições importantes sobre como as mudanças climáticas podem desestabilizar as sociedades humanas.
Vamos analisar isso mais de perto.
Seca no coração de um império
Vivemos em uma era de aquecimento global devido em grande parte às práticas humanas insustentáveis.
Geralmente conhecida como Antropoceno, esta era é amplamente considerada como tendo surgido no século 19, na esteira de outro período de grande mudança climática global chamado de Pequena Era do Gelo.
A Pequena Era do Gelo levou temperaturas mais frias do que a média, assim como um clima extremo, a várias partes do mundo.
Diferentemente do aquecimento antropogênico atual, provavelmente foi causada por fatores naturais, como a atividade vulcânica, e afetou diferentes regiões em momentos distintos, em diferentes graus e de maneiras bastante distintas.
Seu início no fim do século 16 foi particularmente notável na Anatólia, uma região predominantemente rural que chegou a ser o coração do Império Otomano e cujos limites são aproximadamente os da atual Turquia.
Tradicionalmente, grande parte de suas terras se destinava ao cultivo de grãos ou ao pasto de ovelhas e cabras. Eram uma importante fonte de alimento para a população rural, assim como para os moradores da movimentada capital otomana, Istambul (antes chamada de Constantinopla).
As duas décadas em torno do ano 1600 foram especialmente difíceis.
A Anatólia passou por alguns de seus anos mais frios e secos da história, sugerem os anéis das árvores e outros dados paleoclimatológicos.
Esse período também teve secas frequentes, assim como geadas e inundações. Ao mesmo tempo, os habitantes da região sofreram devido a uma praga animal e políticas estatais opressivas, incluindo a apreensão de grãos e carnes para enfrentar uma guerra custosa na Hungria.
As rebeliões Celali
As fracas colheitas prolongadas, a guerra e as dificuldades expuseram deficiências importantes do sistema de abastecimento otomano.
As intempéries paralisaram os esforços do Estado para distribuir suprimentos limitados de alimentos, a fome se espalhou pelo zona rural até Istambul, acompanhada por uma epidemia mortal.
Em 1596, uma série de levantes coletivos conhecidos como rebeliões Celali estouraram, se convertendo na ameaça interna mais duradoura ao poder do Estado nos seis séculos de existência do Império Otomano.
Camponeses, grupos seminômades e líderes provincianos contribuíram para esse movimento com uma onda de violência, vandalismo e instabilidade que durou até o século 17.
Com a persistência da seca, das doenças e do derramamento de sangue, o povo abandonou as fazendas e vilarejos, fugindo da Anatólia em busca de áreas mais estáveis, enquanto a fome matava muitos que não tinham recursos para partir.
O enfraquecimento do Império Otomano
Antes desse ponto, o Império Otomano havia sido um dos regimes mais poderosos do início da era moderna.
Abrangia grandes territórios na Europa, Norte da África, Oriente Médio e controlava os lugares mais sagrados do Islã, do Cristianismo e do Judaísmo.
Durante o século anterior, as tropas otomanas haviam entrado na Ásia Central para anexar grande parte da Hungria. Também avançaram para o Império dos Habsburgo, ameaçando Viena em 1529.
As rebeliões Celali deixaram consequências políticas importantes.
O governo otomano conseguiu restaurar a relativa calma nas zonas rurais da Anatólia em 1611, mas a um custo.
O controle do sultão sobre as províncias enfraqueceu irreversivelmente, e o controle interno sobre a autoridade otomana ajudou a conter seu movimento de expansão.
As rebeliões Celali fecharam a porta da “Era de Ouro” otomana, colocando este império monumental em uma espiral de descentralização, reveses militares e fraqueza administrativa que atormentaria o Estado otomano durante os três séculos restantes de sua existência.
Mudanças climáticas: um multiplicador de ameaças
Quatrocentos anos depois, o estresse ambiental voltou a coincidir com a agitação social e lançou a Síria em uma duradoura e devastadora guerra civil.
Este conflito surgiu no contexto de opressão política e do movimento da Primavera Árabe, e no final de uma das piores secas da Síria na história moderna.
A magnitude do papel do meio ambiente na guerra civil síria é difícil de se medir porque, como nas rebeliões Celali, seu impacto esteve indelevelmente ligado a pressões sociais e políticas.
Mas a combinação brutal dessas forças não pode ser ignorada. É por isso que especialistas militares hoje falam da mudança climática como um “multiplicador de ameaças”.
Entrando agora em sua segunda década, a guerra da Síria expulsou mais de 13 milhões de sírios de suas casas.
Anatólia chegou a ser o coração do Império Otomano
Getty Images
Cerca de metade se deslocou internamente, enquanto o restante buscou refúgio em países vizinhos, na Europa e mais além, intensificando consideravelmente a crise global de refugiados.
Lições para hoje e para o futuro
A região do Mediterrâneo pode ser particularmente propensa aos efeitos negativos do aquecimento global, mas essas duas histórias estão longe de ser casos isolados.
À medida que as temperaturas do planeta sobem, o clima vai dificultar cada vez mais as questões humanas, exacerbando os conflitos e impulsionando a migração.
Nos últimos anos, países de baixa altitude como Bangladesh foram devastados por enchentes, enquanto a seca afetou vidas no Chifre da África e na América Central, enviando um grande número de migrantes para outros países.
A história do Mediterrâneo oferece três lições importantes para abordar os atuais problemas ambientais globais:
Em primeiro lugar, os efeitos negativos das mudanças climáticas recaem desproporcionalmente sobre indivíduos pobres e marginalizados, que têm menos capacidade de reagir e se adaptar;
Em segundo lugar, os desafios ambientais tendem a afetar mais quando combinados com movimentos sociais, e os dois estão frequentemente indistintamente conectados;
Terceiro, a mudança climática tem o potencial de impulsionar a migração e o reassentamento, estimular a violência, derrubar regimes e transformar dramaticamente as sociedades humanas em todo o mundo.
Em última análise, a mudança climática afetará a todos nós, de maneiras dramáticas, angustiantes e imprevistas. Mas, à medida que contemplamos o futuro, podemos aprender muito com nosso passado.
* Andrea Duffy é diretora de Estudos Internacionais da Universidade do Estado do Colorado, nos EUA.

Fonte: G1 Mundo

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Exposição retrata passado de violência colonial da Holanda que inclui Brasil


Uma nova exposição no Rijksmuseum, o museu nacional, foca na história social da escravidão, abordando relatos pessoais do período que ficou conhecido como Idade de Ouro Holandesa. Pieter Cnoll com a família e seus criados escravizados — pintura de Jacob Coeman
RIJKSMUSEUM
Os magníficos retratos de corpo inteiro de Oopjen Coppit e seu marido Marten Soolmans, de autoria de Rembrandt (1606-1669), são dois dos bens mais preciosos do Rijksmuseum em Amsterdã — o renomado museu nacional de arte e história da Holanda.
Vestidos com elegância requintada e pintados da forma que apenas os mais ricos poderiam pagar, o casal é a personificação da era de prosperidade econômica e florescimento artístico conhecida como “a Idade de Ouro Holandesa”.
Mas estes retratos também contam uma história mais complexa e perturbadora, uma vez que a riqueza dos Soolmans era proveniente do refino do açúcar produzido por uma mão de obra escrava em plantações de cana de açúcar no Brasil.
Por mais de 250 anos, a Holanda teve vastas colônias nas regiões que hoje são conhecidas como Indonésia, África do Sul, Curaçao, Nova Guiné — para citar algumas —, onde homens, mulheres e crianças escravizadas eram tratados de forma desumana.
Muitas vezes pensada como algo que foi perpetrado por uma minoria no exterior, a escravidão permeou todos os níveis da sociedade, tanto nas colônias quanto em território nacional, e deixou um legado que ainda está presente no país hoje.
É o que revela uma nova exposição no Rijksmuseum.
“Não era apenas a elite, mas também artesãos que ganhavam a vida como subcontratantes ou fornecedores, como ferreiros e carpinteiros trabalhando nos cais ou escrivães fazendo contratos. Se você olhar para toda a cadeia, então (a escravidão) está muito mais entremeada na sociedade holandesa do que costumávamos dizer”, afirma Eveline Sint Nicolaas, curadora de história do Rijksmuseum, à BBC Culture.
“Acho que é importante dizer aos nossos visitantes que não é apenas a história que aconteceu lá longe nas colônias, é na verdade a nossa história nacional e envolve todos nós.”
Os protestantes holandeses inicialmente relutaram em se envolver no tráfico de pessoas escravizadas, com um pastor se referindo a isso como uma “aberração papal” perpetrada por espanhóis e portugueses.
Mas as atitudes começaram a mudar à medida que os holandeses expandiam suas operações internacionalmente.
“Ficou claro que se queríamos competir e tomar o lugar dos portugueses, os holandeses teriam que participar do tráfico negreiro e isso provocou uma mudança na mensagem difundida pela Igreja”, diz Sint Nicolaas.
“Eles procuraram histórias na Bíblia para legitimar a escravidão e argumentaram que o Antigo Testamento dizia que a escravidão era aceitável por causa da história em que Noé amaldiçoa os descendentes de Cam como escravos”, explica.
Apesar de não haver nenhuma menção explícita na Bíblia de que Cam era negro.
“É um argumento tão complicado que sempre acho difícil entender que seja possível… mas apenas alguns clérigos questionaram, e aí começa a desumanização do ‘outro'”, diz Sint Nicolaas.
“Acho importante ressaltar que o racismo não é algo que sempre existiu”, acrescenta Valika Smeulders, chefe de história do Rijksmuseum.
“A discriminação é universal, mas legalizá-la como um sistema em que um determinado grupo de pessoas estava destinado a servir à outra metade do mundo, isso é algo que foi instalado pelo colonialismo, e que no fim do colonialismo foi reforçado por meio de ideias racistas ‘científicas’. O racismo respaldava o colonialismo, não o contrário.”
Marten Soolmans — cujo retrato feito por Rembrandt é um dos bens mais valiosos do Rijksmuseum — fez sua fortuna a partir da mão de obra escravizada no Brasil
RIJKSMUSEUM
Lidar com essa história envolve enfrentar algumas verdades incômodas para uma nação que há muito tempo se vê como tolerante, e o próprio Rijksmuseum reconhece que demorou a contar essas narrativas.
“Achávamos que não havia objetos para contar essa história, e isso foi um grande obstáculo para começar”, explica Sint Nicolaas.
Uma história pessoal
A exposição levou anos de planejamento e envolveu a contratação de novos funcionários com experiências profissionais e pessoais relevantes.
Entre eles, está Smeulders, que nasceu em Curaçao e migrou da Holanda para o Suriname em 1976, quando havia acabado de se tornar independente.
“Meus ancestrais são europeus, africanos e asiáticos. Eles eram escravizadores, escravizados e trabalhadores migrantes. Essa intrincada história colonial foi abraçada no Caribe em um ritmo mais rápido do que está acontecendo na Europa, mas agora estamos seguindo o exemplo”, diz ela.
Para isso, o museu decidiu se concentrar nas histórias de pessoas envolvidas no sistema — aquelas que se beneficiaram dele, sofreram com ele e acabaram se rebelando contra ele.
Focar na história social da escravidão, em vez da econômica, foi particularmente importante quando se tratou de contar as histórias daqueles que haviam sido escravizados, “pessoas com nomes e histórias, em vez de ‘escravizados’ anônimos que você encontra mencionados como ‘carga’ no arquivos”, diz Sint Nicolaas.
Testemunhos diretos de pessoas escravizadas são raros, uma vez que a leitura e a escrita foram proibidas na maioria das colônias, então a equipe teve que reexaminar criticamente os objetos de sua coleção, interpretar cuidadosamente as fontes escritas contemporâneas e usar a história oral para contar suas histórias.
A aquisição de novos objetos como “troncos”, contenção para os pés usada para evitar fugas, e uma “kappa”, caldeira de ferro fundido usada nas plantações de cana de açúcar, ajudou a tornar mais tangíveis as experiências dos escravos.
A “kappa” está ligada à história de Wally, um homem escravizado que foi forçado a trabalhar em uma plantação de cana de açúcar no Suriname.
As tensões aumentaram quando um novo proprietário acabou com o precioso sábado de folga — que permitia à força de trabalho socializar e cultivar suas próprias lavouras — e insistiu que era necessário uma autorização para deixar a plantação.
Toda a força de trabalho acabou fugindo em massa para a floresta nos arredores. Quando foram capturados, 19 cúmplices foram perdoados, mas os líderes, incluindo Wally, foram condenados a uma tortura terrível e uma morte lenta.
O horror da história se torna, sem dúvida, ainda mais visceral por sua natureza pessoal e pela consciência de que Wally e seus companheiros foram tratados de forma tão bárbara com base em um argumento religioso espúrio criado tenuemente para justificar ganhos econômicos.
Como Marten Soolmans comprou seu açúcar bruto de um intermediário, será que ele sabia da brutalidade do sistema que o produziu?
Até que ponto as pessoas na República Holandesa estavam cientes dos abusos no exterior é algo que Smeulders diz que precisa ser mais estudado.
“Para começar, as pessoas sabiam das coisas por meio da família. Aqueles das classes mais altas que iam para as colônias podiam ver a escravidão com seus próprios olhos, e as tripulações dos navios podiam ver a escravidão de perto, então as pessoas não estavam alheias ao que estava acontecendo”, diz ela.
Objetos como uma ‘kappa’ (caldeira de ferro fundido) e ‘troncos’ (contenção para os pés) ajudam a tornar mais tangíveis as experiências dos escravos
RIJKSMUSEUM
Mesmo que ele e Oopjen não soubessem da realidade brutal da escravidão, certamente estariam cientes da população que escapou dela, pois teriam visto a caminho do estúdio de Rembrandt, localizado na área com a maior concentração populacional negra em Amsterdã no século 17.
O fato de haver uma população negra provavelmente surpreende muitos.
Oficialmente, a escravidão era ilegal e não existia na República Holandesa, mas isso não impedia que as pessoas comprassem escravizados nas colônias e trouxessem de volta com elas.
Um criado de pele escura era sinal de pertencer a um grupo seleto com influência global.
É provável que um desses homens tenha sido Paulus Maurus, cuja história se desenrola por meio de uma coleira de latão que remonta à casa em que ele trabalhava.
Originalmente catalogada como uma coleira de cachorro quando entrou no acervo em 1881, a descrição nunca foi examinada criticamente, apesar de coleiras semelhantes serem vistas no pescoço de criados de origem africana em pinturas, e o museu agora se pergunta se ela poderia ter sido usada por Paulus.
Como teria sido a vida de um negro livre na sociedade holandesa?
“Muito mais complicada do que poderíamos pensar”, diz Smeulders.
“Eles foram aceitos por um lado, tinham famílias e filhos… ao mesmo tempo, se você fosse uma minoria e visse representações estereotipadas ao seu redor, devia ter sido muito desconfortável.”
O próprio Paulus se casou e teve filhos, e seus descendentes podem muito bem estar morando em Amsterdã hoje, embora seja improvável que saibam disso.
“Depois de algumas gerações, mal era visível que as pessoas tinham DNA africano”, diz Smeulders.
Homens negros geralmente se casavam com mulheres brancas, outro fato que pode causar surpresa, mas não havia restrições ao casamento inter-racial na época, e só podemos presumir que o preconceito era menos prevalente entre as classes menos abastadas.
Smeulders se pergunta qual seria o resultado se fossem coletadas amostras de DNA de uma grande parcela de holandeses.
“O que mais tenho curiosidade é sobre o que isso faz com a sociedade quando as pessoas percebem que estão pessoalmente relacionadas aos dois lados da história”, diz ela.
A vista do navio
As atitudes da sociedade poderiam muito bem mudar se diferentes áreas da história holandesa também fossem estudadas com mais detalhes.
Relatos históricos sobre o fim da escravidão frequentemente atribuem papéis de destaque aos abolicionistas europeus, mas os membros da resistência dentro do sistema recebem muito menos atenção.
História de Paulus Maurus se desenrola por meio de uma coleira de latão que foi originalmente catalogada em 1881 como uma coleira de cachorro
RIJKSMUSEUM
Isso é particularmente relevante na história holandesa, dada a relutância do país em seguir seus vizinhos europeus na abolição da escravidão.
Embora a Grã-Bretanha tenha abolido a escravidão em 1833 e a França em 1848 (ela foi proibida pela primeira vez em 1794, mas Napoleão Bonaparte revogou o decreto em 1802), a Holdanda só seguiu o mesmo exemplo em 1863.
A exposição destaca a história de Tula, um defensor da liberdade em Curaçao, inspirado nas ideias da Revolução Francesa.
Quando a República Holandesa ficou sob domínio francês em 1795, tornando-se a República Batava, ele argumentou que o domínio francês se aplicava às colônias holandesas e que aqueles anteriormente escravizados estavam legalmente livres.
No entanto, sua história é praticamente desconhecida na Holanda, já que o período bataviano é pouco estudado na história holandesa.
“Para nós, o período bataviano é um período de domínio francês… ele não se tornou parte de quem somos em nosso imaginário, e o papel que os afro-caribenhos desempenharam naquela era revolucionária também nunca se tornou parte de nossa narrativa, então pessoas como Tula desapareceram completamente”, diz Smeulders.
Essa mentalidade histórica estreita é o que o historiador colonial Alex van Stipriaan chama de “visão do navio”, história que dominou a academia até os anos 1980.
“Era a história de quem ficava em um navio, olhando para baixo, literalmente, para os países colonizados e os povos colonizados, sem nenhuma palavra do povo que foi colonizado”, diz.
Embora o mundo acadêmico tenha se distanciado desse ponto de vista, ele ainda está muito presente na consciência coletiva, já que os poucos historiadores que ainda defendem essas opiniões são amados pela mídia.
“Eles são citados o tempo todo”, diz Van Stipriaan com indiferença.
Ele vê isso como parte do nacionalismo populista que é evidente em toda a Europa, “a ideia de que ‘eles’ estão tentando tirar ‘nossa’ história e ‘nossa’ tolerância”, afirma.
Augustus van Bengalen segurando o cachimbo de Hendrik Cloete — a exposição foca no lado social da escravidão para contar histórias de pessoas reais
RIJKSMUSEUM
Os museus também tiveram um impacto indevido no que Van Stipriian chama de “nossa herança mental”.
“Todas essas coleções são representativas de uma visão da história muito eurocêntrica e tendenciosa, uma história de ‘superioridade’ branca e ‘inferioridade’ negra.”
Para entender a influência insidiosa dessas narrativas, basta olhar para as celebrações anuais do Dia de São Nicolau, em que homens e mulheres brancos aparecem com o rosto pintado de preto como Zwarte Piet (Pedro negro, ajudante de São Nicolau).
De acordo com Van Stipriian, durante décadas os holandeses se convenceram de que “não podemos ser racistas porque somos tolerantes (…) é apenas uma piada, é nossa tradição”, observa.
Mas as atitudes estão começando a mudar.
Começou um debate nacional sobre Zwarte Piet em 2011, depois que dois jovens artistas/ativistas afro-holandeses, Quinsy Gario e Jerry Afriye, usaram camisetas com os dizeres “Zwarte Piet é racismo” durante o desfile em Dordrecht, e no ano passado uma pesquisa mostrou que 50% das pessoas eram a favor de mudar o personagem para algo totalmente diferente.
“Mudar a visão de metade da população em 10 anos (…) nas condições holandesas, é rápido”, diz Van Stipriaan.
Para que as atitudes realmente mudem, Van Stipriaan acredita que a história da escravidão e do colonialismo precisa fazer parte da história nacional.
Ele atualmente faz parte da equipe que trabalha no projeto de um Museu Nacional Holandês da Escravidão Transatlântica, que ele acredita que vai ser “um marco na Holanda”, embora é improvável que seja inaugurado antes de 2030.
No entanto, ele faz questão de frisar que “há muito movimento, as coisas estão mudando, talvez não muito rápido, mas estão mudando”.
Ele vê a nomeação de Smeulders — de quem foi orientador no doutorado — como chefe de história no Rijksmuseum como parte dessa mudança.
Sua formação faz dela, sem dúvida, sintonizada de forma única com os desafios.
Pintura de uma plantação de 1707, de autoria de Dirk Valkenburg — o museu espera que esta exposição mude as narrativas sobre o passado colonial da Holanda
RIJKSMUSEUM
“Abraçando o que foi e abrindo o diálogo sobre isso é a única maneira de seguir em frente. Não há como desfazer o passado, mas nós estamos no comando do aqui e agora: cabe a nós fazer melhor, reconhecendo que isso é a história nacional e, portanto, algo que diz respeito a todos nós”, afirma.
“Os museus em geral têm uma tarefa muito importante — apresentar o conhecimento de uma forma que toque as pessoas, tornando-o tão pessoal que as pessoas se coloquem no lugar de quem viveu naquela época”, diz ela.
“O que eu sinceramente espero que possamos fazer com esta exposição e nosso trabalho é mostrar que qualquer história tem todos esses lados diferentes. Nós, como um museu, precisamos apresentar uma história mais complexa que reúna todas essas vozes.”
“Slavery” está em exibição no Rijksmuseum até 29 de agosto de 2021.

Fonte: G1 Mundo

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Jovenel Moïse: 4 incógnitas sobre o assassinato do presidente do Haiti


Mais de uma semana depois do crime que abalou o país caribenho, há mais dúvidas do que certezas. Mais de uma semana depois do crime que abalou o país caribenho, há mais dúvidas do que certezas
EPA/BBC
Mais de uma semana após o crime, ainda há muito mais dúvidas do que certezas em torno do assassinato do presidente do Haiti, Jovenel Moïse.
O presidente foi encontrado morto em sua residência nos arredores de Porto Príncipe, capital do Haiti, em 7 de julho, depois que um grupo de homens fortemente armados invadiu a casa ao amanhecer.
Sua esposa, Martine, ficou ferida no atentado e foi levada a um hospital em Miami, nos Estados Unidos, onde está se recuperando.
Imediatamente, as autoridades haitianas iniciaram uma perseguição contra o grupo que supostamente perpetrou o assassinato.
A polícia informou que, após um confronto que durou até a noite, conseguiu prender 18 ex-militares colombianos, os quais acusou de cometer o assassinato de Moïse.
Três outros supostos mercenários colombianos foram mortos, enquanto cinco conseguiram escapar e ainda foragidos.
Papel de ex-militares colombianos é uma das chaves do caso
STR/BBC
O chefe da Polícia Nacional do Haiti, Léon Charles, anunciou que o médico haitiano radicado na Flórida Christian Emmanuel Sanon também foi preso como suposto mentor da conspiração, na qual o senador John Joel Joseph, atualmente foragido, teria tido papel crucial.
O chefe de segurança de Moïse, Dimitri Herard, e outro haitiano-americano, James Solages, também foram presos.
Leia mais: Suspeitos de assassinato tiveram relação com forças de segurança dos EUA, diz fonte
Por sua vez, a Polícia colombiana identificou na sexta-feira um ex-funcionário do Ministério da Justiça do Haiti como a pessoa que deu a ordem para que os mercenários cometessem o assassinato.
A morte de Moïse chocou o Haiti, um dos países mais pobres da América Latina e cronicamente instável.
O crime agrava sua crise política e o deixa mergulhado em incertezas, enquanto o mundo se pergunta o que realmente aconteceu no dia 7 de julho e quem está por trás do assassinato.
Ainda existem muitas incógnitas. Confira quatro delas.
1. Como os assassinos não encontraram resistência ao invadir a casa?
Um dos aspectos mais surpreendentes do assassinato foi a facilidade com que o grupo de agressores conseguiu entrar na residência presidencial sem encontrar resistência. Segundo a versão oficial, nenhum deles ficou ferido.
O embaixador do Haiti nos Estados Unidos, Bocchit Edmond, disse que os agressores usavam coletes e capuzes da DEA, a agência antidrogas dos Estados Unidos.
Supostamente, eles invadiram o local gritando que se tratava de uma operação daquela agência, que negou qualquer ligação com o assassinato.
Os olhos se voltaram para Dimitri Herard, o chefe de segurança do presidente, preso após o crime.
Autoridades querem entender por que nem ele nem ninguém de sua equipe interveio para proteger Moïse.
É difícil explicar que um grupo de homens armados conseguiu invadir a casa, atirar 12 vezes no presidente, ferir gravemente sua esposa e sair do local sem ser interceptado.
O promotor haitiano Bedford Claude, que está investigando o possível envolvimento de Herard no crime, fez as seguintes perguntas à imprensa: “Se você é o responsável pela segurança do presidente, onde estava (no momento do crime)? O que você fez para evitar o que aconteceu?”
A polícia haitiana anunciou dias depois a prisão de três outros membros da equipe de segurança de Moïse.
2. Do que os ex-militares colombianos sabiam?
Tampouco está totalmente claro o papel do grupo de ex-militares colombianos que são considerados os autores do assassinato de Moïse.
De acordo com a imprensa colombiana, todos eram especialistas militares aposentados, e o ministro da Defesa da Colômbia, Diego Molano, confirmou que os homens fizeram parte das Forças Armadas.
O Pentágono confirmou na quinta-feira (15/7) que alguns receberam treinamento militar dos Estados Unidos no âmbito de programas de cooperação em segurança com o Exército colombiano.
Mas os detalhes de sua jornada até o assassinato de Moïse ainda não foram completamente esclarecidos.
Antes de entrar no Haiti, os ex-militares colombianos passaram alguns dias como turistas na vizinha República Dominicana — alguns deles não hesitaram em compartilhar imagens da viagem em suas redes sociais.
É esse o comportamento de quem pretende assassinar o presidente de um país? Por que escolheram se refugiar na embaixada de Taiwan, a poucos metros da casa de Moïse? Eles não tinham um plano de fuga?
O governo colombiano disse que seus parentes reforçaram que eram pessoas decentes. O presidente Iván Duque declarou à Rádio FM que a maioria deles viajou ao Haiti enganados, mas alguns sabiam do plano criminoso que iam executar.
“Tudo aponta para o fato de que um importante grupo de pessoas que chegou ao Haiti foram enganados, levados com uma suposta missão de proteção, e outros, um pequeno grupo, aparentemente tinha conhecimento detalhado da operação criminosa e da intenção de matar o presidente de Haiti”, disse Duque.
Além disso, a Polícia colombiana informou nesta sexta-feira que os acusados e detidos pelo assassinato receberam a ordem de assassinar Moïse após um encontro com o ex-funcionário do Ministério da Justiça haitiano Joseph Felix Badio três dias antes do crime.
“Vários dias antes, aparentemente três dias, Joseph Felix Badio, que era um ex-funcionário do Ministério da Justiça que trabalhava na comissão de combate à corrupção do Serviço de Inteligência Geral, diz a Capador e Rivera que o que eles têm que fazer é matar o Presidente do Haiti”, garantiu o diretor da Polícia colombiana, general Jorge Luis Vargas, em comunicado público.
Vargas disse que a informação provém de uma investigação do governo haitiano e da comissão formada pela Direção Nacional de Inteligência e pela polícia colombiana junto com a Interpol, a polícia internacional.
3. Quem é o mentor do assassinato?
As autoridades prenderam o médico haitiano-americano Christian Emmanuel Sanon, de 63 anos, que mora na Flórida. Ele é acusado de ter contratado mercenários para derrubar e substituir o presidente Moïse, que já havia alertado em entrevista ao jornal espanhol El País sobre a existência de um plano para acabar com sua vida.
Segundo a investigação, Sanon voou para o Haiti acompanhado de seus guarda-costas no início de junho com a intenção de assumir a presidência do país.
Mas é plausível que o próprio médico desconhecido tenha perpetrado um plano de tal magnitude e aspirado conquistar o poder graças a ele?
O senador John Joel Joseph, que não tem paradeiro conhecido, foi acusado de fornecer as armas com as quais o assassinato foi cometido e de organizar as reuniões para seu planejamento.
Nos últimos dias, mais detalhes foram conhecidos.
O delegado Léon Charles contou que o assassinato do presidente foi planejado na vizinha República Dominicana, em uma reunião na qual participaram o médico Sanon, James Solages, outro haitiano-americano que foi preso, e o senador Joseph.
“Eles se encontraram em um hotel em Santo Domingo. À mesa estavam os arquitetos do complô, uma equipe técnica de recrutamento e um grupo financeiro”, disse o delegado.
Investigadores haitianos acreditam que o crime foi perpetrado em coordenação com a CTU, uma empresa de serviços de segurança com sede em Miami liderada pelo venezuelano Antonio Emmanuel Intriago, que está foragido.
Joseph era primeiro-ministro quando Moïse morreu, mas presidente acabara de nomear um substituto para ele
Getty Images/BBC
O papel exato que ele desempenhou na conspiração para matar Moïse ainda não foi revelado.
Jorge Rodríguez, ex-vice-presidente da Venezuela e atualmente presidente da Assembleia Nacional daquele país, disse ter “indícios” que vinculam Intriago ao ataque com drones perpetrado contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro em agosto de 2018, mas não apresentou nenhuma prova.
Quem é realmente Intriago e qual foi sua participação no assassinato será a chave para o esclarecimento do caso.
No entanto, a especulação continua.
Em sua entrevista ao El País, Moïse apontou os setores econômicos insatisfeitos com suas políticas como os interessados em acabar com sua vida e na quinta-feira (15/7) a emissora colombiana Caracol Radio apontou o primeiro-ministro Claude Joseph como o mentor por trás do assassinato. Mas a emissora não apresentou evidências para apoiar essa versão.
Um dia antes de seu assassinato, Moïse havia nomeado um novo primeiro-ministro que não chegou a ser empossado.
A isso se soma o que foi afirmado pelo general Vargas, da Polícia colombiana, sobre o papel fundamental desempenhado pelo ex-funcionário do Ministério da Justiça haitiano Joseph Felix Badio.
4. Como a luta pelo poder será resolvida?
Jovenel Moïse tinha 53 anos e era presidente do Haiti desde 2017
Getty Images/BBC
A morte de Moïse agrava a crise institucional em que o Haiti está imerso.
A oposição haitiana alegou que o mandato de Moïse deveria ter terminado em 7 de fevereiro, cinco anos após a renúncia de seu antecessor, Michel Martelly.
Mas a saída deste último foi adiada por um ano e Moïse insistia que deveria permanecer no poder até 2022 porque só tomou posse em fevereiro de 2017.
O país deveria ter realizado as eleições parlamentares em outubro de 2019, mas a falta de acordo as atrasou e Moïse passou a governar por decreto.
Em seus quatro anos de mandato, o presidente Moïse teve seis primeiros-ministros. Um dia antes de morrer, ele nomeou o sétimo, Ariel Henry.
Mas Henry não teve tempo de tomar posse e Claude Joseph permanece no cargo em meio à incerteza sobre quem vai governar o país.
Joseph declarou que permanecerá no controle até que novas eleições possam ser realizadas, mas Henry repetiu em uma entrevista ao jornal haitiano Le Nouvelliste na quarta-feira (14/7) que ele é o primeiro-ministro.
A Constituição haitiana estabelece que, na ausência do presidente, é o presidente do Supremo Tribunal Federal quem assume temporariamente o comando do país, mas, para complicar ainda mais as coisas, o juiz René Sylvestre morreu de covid-19 há algumas semanas.
Os Estados Unidos defendem eleições ‘neste ano que permitam uma transição pacífica no poder, mas não está claro se isso acontecerá.

Fonte: G1 Mundo

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‘Como escapei de um assassino em série’


Aos 15 anos, americana Kara Chamberlain foi sequestrada, drogada e estuprada por um homem que também estava ligado ao assassinato de outras pessoas nos Estados Unidos. Ela conseguiu fugir e, desde então, tenta ajudar outras pessoas a processar e superar experiências traumáticas. Kara Chamberlain tinha 15 anos quando foi sequestrada e estuprada por um assassino em série.
Kara Chamberlain
Em 2002, uma adolescente de 15 anos foi sequestrada por um homem armado na Carolina do Sul, Estados Unidos.
Kara Chamberlain foi mantida em cativeiro por 18 horas, período durante o qual foi drogada e abusada sexualmente.
Mas ela conseguiu escapar de seu sequestrador que — descobriu a polícia mais tarde — estava ligado ao assassinato de pelo menos três outras pessoas no estado da Virgínia.
Hoje, Kara é mãe de dois filhos. Ela dá palestras e usa as redes sociais para educar outras pessoas sobre sua experiência. Também ajuda a entender o trauma que situações como a dela podem causar.
Antecipando-se ao lançamento de um documentário sobre sua história neste ano, Kara falou à BBC sobre seu sequestro e por que deseja mudar a forma como processamos e lidamos com os baques emocionais que todos experimentamos em nossas vidas.
Plano de fuga
Em junho de 2002, Kara Chamberlain estava na casa de uma amiga em Columbia, Carolina do Sul. “Estávamos nos preparando para passar o dia em um lago. Eu me ofereci para regar as flores da minha amiga enquanto ela estava tomando banho”, disse Chamberlain à BBC.
Quando estava no jardim, viu um homem estacionar seu carro na entrada da casa.
Ele saiu do veículo e se aproximou dela.
O homem disse que tinha alguns folhetos que gostaria de distribuir e perguntou se Kara poderia dá-los a seus pais, ou aos pais de sua amiga, neste caso.
Era Richard Evonitz, um ex-marinheiro de 38 anos que se mudou para a Carolina do Sul alguns anos antes. Ele puxou uma arma e a apontou para a jovem.
“Quando me vi naquela situação, tinha um plano de fuga”, disse Kara à BBC. “No minuto em que senti o cano da arma no meu pescoço, disse a mim mesma: ‘Sou uma menina pequenina de 15 anos, este é um homem adulto, não posso me defender dele. Qual é a minha melhor alternativa?’
Ele a obrigou a entrar no carro e se esconder dentro de uma caixa que tinha no banco traseiro.
A partir daí, começou o pesadelo de Kara.
Uma vez em seu apartamento, Evonitz amarrou Kara a uma cama, deu-lhe drogas e a estuprou. Ele a manteve em cativeiro por 18 horas até que ela finalmente conseguiu escapar na manhã seguinte, enquanto seu sequestrador dormia.
“Afrouxei as algemas em volta dos meus pulsos e consegui escapar da cama em que ele estava dormindo ao meu lado e saí pela porta de entrada”, contou.
“Corri em direção a um carro que passava pelo estacionamento do complexo de apartamentos e mostrei as algemas ainda penduradas em um dos meus pulsos.”
Ela disse aos homens no carro que havia sido sequestrada e pediu que a levassem às autoridades.
Após a denúncia e descrição dos fatos por Kara, a polícia foi ao apartamento do suspeito, mas ele já havia escapado.
Kara Chamberlain descreveu à BBC como conseguiu escapar de seu sequestrador
Kara Chamberlain
Eles lançaram uma operação de busca e alguns dias depois descobriram seu paradeiro: Saratosa, Flórida. Ali, Evonitz foi cercado. Ele acabou se suicidando.
No entanto, quando iniciaram uma investigação sobre o assunto, as autoridades constataram entre seus pertences evidências que indicavam que o caso pode ter ido muito mais longe do que imaginavam.
Para começar, Evonitz tinha um histórico de violência sexual. Após vários testes de DNA em itens encontrados em seu apartamento, o homem foi associado a pelo menos três assassinatos no estado da Virgínia que seguiram um padrão semelhante.
Um foi em setembro de 1996, quando Sofía Silva, de 16 anos, foi sequestrada do jardim da frente de sua casa em Spotsylvania, Virgínia. Um mês depois, seu corpo, já em estado de decomposição, foi encontrado em um condado vizinho perto de um barranco.
Então, em maio de 1997, Evonitz sequestrou as irmãs Kristin e Kati Lisk, de 15 e 12 anos, em frente ao jardim da escola delas. Após estuprá-las, ele as estrangulou e jogou seus corpos em um rio. Os cadáveres foram encontrados cinco dias depois.
Em agosto de 2002, o Gabinete do Xerife de Spotsylvania associou Evonitz às mortes dessas mulheres. Mas autoridades têm certeza de que ele foi culpado de vários outros casos de estupro, abuso sexual e assassinato.
Recuperação, motivação e dedicação
Um ano depois de sua fuga, Kara (à direita) trabalhou para o Departamento do Xerife de seu condado ajudando vítimas de abuso
Kara Chamberlain
Sobreviver a um assassino em série motivou Kara não apenas a se recuperar emocionalmente das consequências de sua provação, mas a ajudar outras pessoas que sofreram traumas semelhantes.
Em 2003, ela começou a trabalhar na assistência às vítimas e no laboratório de DNA do Departamento do Xerife do condado onde morava, trabalho que continuou durante seus anos de faculdade.
Após a formatura, ingressou na academia de polícia, onde se dedicou a investigar casos de violência sexual e abuso infantil.
Mais tarde, com dois filhos, Kara Chamberlain decidiu seguir carreira como palestrante motivacional com a ideia de compartilhar sua história e inspirar outros sobreviventes.
“Tenho grandes aspirações do que posso fazer com conversas sobre emoções e traumas e o que é essa experiência humana de passar por momentos difíceis”, explicou ela à BBC.
Por meio das redes sociais, em particular de suas contas no TikTok e Instagram (@kararobinsonchamberlain), ela encontrou uma forma de atingir centenas de milhares de pessoas com mensagens educacionais, informativas e motivacionais.
Kara pergunta o que pode ser melhorado para evitar o assédio e o abuso sexual, como apoiar as vítimas, capacitar os sobreviventes, lidar com o que ele chama de “trauma secundário” que afeta famílias, amigos e outras pessoas que estão ligadas às vítimas.
“As estatísticas mostram que estupro, sequestro ou agressão por um estranho são casos raros”, observa Kara.
Segundo ela, normalmente se trata de alguém que a vítima conhece, por isso defende prestar atenção ao ambiente e a situações desconfortáveis, bem como impor limites que podem ser muito benéficos para a proteção pessoal.
“Odeio que tenhamos que impor a responsabilidade de nos proteger, mas até que a sociedade mude, é assim que as coisas são”, frisa.
Suas mensagens nas redes incluem conselhos sobre alimentação, moda e exercícios como formas de terapia, também sobre a educação dos filhos e a vida de casal, mas o tema principal é enfrentar de forma direta, sem rodeios, as emoções produzidas por uma experiência traumática, sem se importar que sejam “negativas”.
Entre as muitas postagens de Kara nas redes sociais estão mensagens de incentivo para seus seguidores no TikTok
KARA CHAMBERLAIN TIKTOK
“Acredito piamente em abrir espaço para todos os sentimentos. É normal dizer ‘Estou tendo um dia ruim’. Isso não significa que você não seja grato pelas coisas maravilhosas que você tem”, filosofa Kara.
“Felicidade e gratidão e ter um dia ruim ou ficar com raiva podem coexistir”, acrescenta.
Com suas palestras e mensagens motivacionais nas redes sociais, Kara busca mudar a forma como falamos sobre experiências traumáticas.
“Coisas difíceis vão acontecer com você em sua vida. Coisas difíceis acontecem com todos nós”, diz ela, mas você precisa “saber que só porque coisas ruins acontecem, elas não precisam definir sua vida”.
“Elas podem muito bem definir para onde você está levando sua vida, mas não precisam definir quem você é.”

Fonte: G1 Mundo

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França vai exigir teste negativo de Covid de menos de 24 horas de vários países europeus


Segundo comunicado do primeiro-ministro francês, o país também levantará restrições a viajantes totalmente vacinados. Já a ‘lista vermelha’, da qual o Brasil faz parte e exige um ‘motivo de peso’ para justificar o deslocamento, será ampliada. Funcionária da Proteção Civil Francesa faz teste de Covid-19 em homem na entrada da 108ª edição do Tour da França
Philippe Lopez/AFP
A França vai reforçar restrições a viajantes não vacinados de vários países europeus para conter uma nova alta de casos de Covid-19, anunciou o primeiro-ministro Jean Castex em um comunicado neste sábado (17). Ao mesmo tempo, o país abrirá as portas para viajantes totalmente vacinados.
A partir da meia-noite de domingo (18), a França passará a exigir um teste negativo para a doença feito com menos de 24 horas de antecedência para todas as pessoas não vacinadas procedentes de países como Reino Unido, Espanha, Portugal, Grécia, Holanda e Chipre.
Até agora, os viajantes dos países europeus tinham que apresentar um teste negativo de até 72 horas – para os britânicos, a exigência era de um teste de no máximo 48 horas.
O anúncio francês veio depois da decisão do Reino Unido, na sexta-feira (16), de manter regras de quarentena para viajantes vindos da França.
Lista vermelha
Além disso, o gabinete do primeiro-ministro francês também confirmou que a lista “vermelha” de países se amplia e passa a incluir, a partir de agora, Cuba, Indonésia, Tunísia e Moçambique.
O Brasil faz parte desta lista, que exige que viajantes desses países apresentem um motivo de peso para justificar o deslocamento. Além disso, mesmo os vacinados devem realizar uma quarentena de sete dias ao chegarem na França.
Leia mais: Por causa da Covid, bolsistas brasileiros são impedidos de estudar na França
Viajantes vacinados
Já as restrições que pesam sobre os viajantes totalmente vacinados com imunizantes reconhecidos pela Agência Europeia de Medicamentos – caso das vacinas da Pfizer, Moderna, AstraZeneca e Janssen – serão levantadas a partir desde sábado (17), seja qual for o país de procedência, segundo o comunicado.
Leia mais: OMS pede a países que aceitem viajantes imunizados com vacinas contra Covid aprovadas pela entidade
França vê corrida por vacinas contra a Covid-19 após anúncio de restrições aos não imunizados
Torre Eiffel reabre ao público após ficar 8 meses fechada pela pandemia
Os novos casos de Covid-19 seguem crescendo na França e já superaram os 10.000 por dia, embora as internações nos hospitais não tenham aumentado, segundo os dados oficiais do governo.
(Com informações das agências de notícias AFP, RFI e Reuters)

Fonte: G1 Mundo

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Covid: os primeiros resultados da reabertura em seis países


Inglaterra se prepara para suspender restrições contra coronavírus na próxima segunda (19), o que já foi feito por alguns países – com avanços e reveses; veja o que podemos aprender com a experiência deles. Israel havia anunciado fim da obrigatoriedade das máscaras, mas medida foi revogada após aumento nos casos
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O governo britânico suspende na próxima segunda-feira (19) todas as restrições impostas por causa da pandemia de covid-19.
Com isso, deixam de vigorar quase todas as medidas de distanciamento social; não haverá mais exigência de uso de máscaras em grande parte dos espaços públicos; casas noturnas poderão reabrir; e limites a respeito de quantas pessoas podem se encontrar deixarão de vigorar.
A despeito disso, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, recomendou “cautela”, lembrando que a pandemia não acabou.
A previsão do governo é que a atual onda de casos de covid-19 só chegue ao pico no Reino Unido em meados de agosto, causando de mil a 2 mil hospitalizações por dia — mas com o número de novos casos diários podendo chegar a até 100 mil —, o que levou alguns cientistas a criticar a estratégia de reabertura do governo.
O argumento pelo fim das restrições é que a vacinação, bastante adiantada no Reino Unido, criou uma “muralha protetora” que permitirá ao sistema público de saúde (NHS, o SUS britânico) suportar novas ondas, afirmou o secretário de Saúde, Sajid Javid.
De qualquer modo, Johnson afirmou que, para que as restrições sejam abandonadas de vez, “temos de ter uma abordagem cautelosa”. “Não podemos simplesmente voltar instantaneamente, em 19 de julho, para a vida antes da covid-19”, declarou.
Alguns países também reverteram (ou estão em processo de reverter) as restrições da pandemia — e os resultados são variados. Muitos foram forçados a voltar a impor restrições, diante de aumentos expressivos nos casos de covid-19.
Na contramão deles, o Brasil ainda mantém alto número de casos e mortes, em meio a uma vacinação lenta, tendo superado o total de 540 mil óbitos nesta semana.
Confira a experiência de seis deles até o momento:
Israel
Como um dos primeiros a vacinar sua população rapidamente, Israel começou a suspender as medidas restritivas ainda em fevereiro.
Em meados de junho, quando mais da metade dos israelenses adultos já havia tomado as duas doses da vacina, as pessoas foram autorizadas a abandonar o uso de máscara e retomar a vida pré-pandemia — com a abertura total de lojas, restaurantes, hotéis e cinemas.
Israel é um caso de sucesso em vacinação rápida, mas avanço da Delta fez governo recuar em algumas medidas
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No entanto, desde então, os casos diários confirmados de covid-19 têm crescido regularmente, muito por causa da infecciosa variante Delta, altamente infecciosa. Foram 754 novos casos em 13 de julho, número mais alto dos últimos quatro meses (só para efeito comparativo, a média móvel de novos casos diários no Brasil está em torno de 41 mil no momento).
Ao mesmo tempo, autoridades israelenses afirmam que a quantidade de casos graves e hospitalizações tem se mantido baixa, possivelmente graças ao efeito protetor das vacinas.
Mas o aumento nos casos fez o novo governo do premiê israelense Naftali Bennett rever parcialmente a reabertura. Algumas medidas reimpostas incluem o uso obrigatório de máscaras em ambientes internos e a exigência de quarentena para todos os recém-chegados em Israel.
A obrigatoriedade de máscaras foi reanunciada apenas dez dias depois de ter sido suspensa.
Holanda
Quando a vacinação decolava e o número de casos caía, no fim de junho, a Holanda iniciou sua reabertura. O uso de máscaras foi suspenso na maioria dos lugares, e jovens incentivados a voltar à vida cotidiana.
Desde então, o número de casos explodiu, chegando ao nível mais alto desde dezembro — embora essa alta não tenha resultado em um aumento expressivo de hospitalizações.
Holanda precisou voltar a impor restrições à ocupação de restaurantes e bares
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Mas o revés nos números da pandemia — foram 10 mil novos casos diários registrados no sábado passado, quantidade mais alta desde dezembro — fez com que o primeiro-ministro, Mark Rutte, pedisse desculpas pelo “erro” de ter suspendido as medidas de isolamento tão cedo.
Com isso, a Holanda voltou a impor restrições à ocupação de bares, restaurantes e casas noturnas — essas últimas voltaram a ser fechadas.
“Achávamos que seria possível (reabrir), mas na prática isso se mostrou impossível”, afirmou Rutte.
O site do governo prevê que as medidas restritivas continuarão a vigorar ao menos até 13 de agosto.
Coreia do Sul
Apontada como caso de sucesso, desde o início, no controle da pandemia, a Coreia do Sul foi um dos primeiros países a elaborar um plano de reabertura.
Em junho, o país anunciou o projeto de permitir que pessoas vacinadas pudessem ficar sem máscaras em ambientes externos, a autorizar pequenas aglomerações e relaxar nas restrições ao funcionamento de restaurantes.
Especialistas afirmaram, porém, que era arriscado baixar a guarda cedo demais, quando a maioria da população ainda não estava vacinada.
Atualmente, o país está em seu pior momento de toda a pandemia até agora.
Sul-coreanos também voltaram a usar máscaras; país vive seu pior momento da pandemia
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Com recorde em número diário de novos casos, o país voltou a ter medidas de distanciamento social na maior parte de seu território. Na capital, Seul, moradores foram proibidos de realizar encontros com mais de uma pessoa depois das 18h.
Com a variante Delta se espalhando rapidamente e o ritmo da vacinação reduzindo, a confiança da população sobre a habilidade do país em conter o vírus sofreu um baque.
Suécia
Ao contrário do restante do mundo, a Suécia contou principalmente com a adesão voluntária às medidas de contenção da pandemia — o que a levou a ter os piores índices de covid-19 entre os países nórdicos —, embora tenha implementado também limites aos horários de funcionamento de restaurantes e de aglomerações em determinados lugares.
Algumas dessas restrições já foram relaxadas: estádios já permitem torcidas de 3 mil espectadores, e limites aos horários de restaurantes foram suspensos em 1° de julho. Outras restrições deixaram de vigorar nesta quinta (15/7).
Desde a primavera no Hemisfério Norte, os casos têm caído continuamente na Suécia, o que é atribuído ao aumento da vacinação e à chegada do clima quente (quando as pessoas passam mais tempo em ambientes externos).
Com os temores pelo avanço da variante Delta, viajantes com destino ao país são obrigados a apresentar resultado negativo para covid-19.
Sydney faz lockdown de duas semanas
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Austrália
Durante a maior parte do ano passado, os australianos desfrutaram da vida com poucas restrições: o uso de máscaras não era obrigatório, enquanto o país — com suas fronteiras fechadas — chegava a passar dias sem registrar nenhum caso de covid-19.
Quando havia surtos, autoridades rapidamente implementavam lockdowns para conter as contaminações. Um exemplo ocorreu na cidade de Perth, que passou cinco dias de janeiro completamente fechada depois da detecção de apenas um caso de coronavírus ali.
Agora, o avanço da variante Delta em Sydney, a partir de meados de junho, fez com que a maior cidade australiana fosse forçada a impor um confinamento, que deve vigorar ao menos até o final de julho.
Sydney está atualmente registrando mais de 100 casos por dia. O vírus tem se espalhado rapidamente — até mesmo durante as primeiras semanas do lockdown — em uma cidade desacostumada a restrições.
Autoridades afirmam que muitas pessoas descumpriram a obrigatoriedade de permanecer em casa e, por conta disso, as regras se tornaram mais rígidas.
Mas com mais de 90% da população não vacinada devido ao baixo estoque do imunizante, estima-se que o retorno à normalidade ainda vá demorar.
EUA
Quando a vacinação avançou no país, muitos Estados americanos começaram a suspender suas restrições, retirando a obrigatoriedade de máscaras e permitindo a reabertura dos negócios.
Em junho, a Califórnia (o Estado mais populoso dos EUA) anunciou sua “grande reabertura”, enquanto Nova York revogou quase todas suas restrições quando as taxas de vacinados passaram de 70%.
De modo geral, os casos têm permanecido em números baixos, embora algumas cidades e áreas com baixas taxas de vacinação tenham se tornado polos de disseminação. Novas infecções estão em menos de 10% do que eram no auge da pandemia, em janeiro — mas é bom ressaltar que os novos casos dobraram nas duas últimas semanas.
Agora, cresce a preocupação com a variante Delta, justamente a que tem predominado nas áreas pouco vacinadas. À medida que o ritmo da vacinação desacelera, alguns Estados estão recomendando que seus moradores continuem a usar máscaras, para se proteger da variante mais infecciosa.
Na cidade de Nova York, caos aumentaram em quase um terço no intervalo de apenas uma semana — particularmente em bolsões com baixos índices de pessoas vacinadas.
As mortes também têm crescido, mas não em ritmo tão alto. Autoridades estaduais afirmam que a grande maioria dos casos de hospitalização tem ocorrido entre não vacinados.

Fonte: G1 Mundo

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EUA tem evacuações no oeste por causa de grandes incêndios e previsão de raios

Enorme incêndio perto da fronteira do Oregon com a Califórnia cresceu para 97.124 hectares, uma superfície maior que a cidade de Nova York; pelo menos 2.000 pessoas tiveram que ser evacuadas às pressas. Calor extremo e ar seco antecipam temporadas de incêndios florestais nos EUA
O oeste dos Estados Unidos, atingido por uma seca extrema, se prepara para mais destruição em função de incêndios florestais, diante da impossibilidade de conter um grande desastre que avança no sul do estado de Oregon e das previsões de tempestades de raios na Califórnia.
Batizado de “Bootleg” o enorme incêndio perto da fronteira do Oregon com a Califórnia, cresceu da noite para a manhã de sexta-feira para 97.124 hectares, uma superfície maior que a cidade de Nova York. O fogo, que representa o maior incêndio ativo nos EUA, foi apenas 7% contido até o momento.
Dezenas de casas foram destruídas e pelo menos 2.000 pessoas tiveram que ser evacuadas às pressas.
“O perímetro do incêndio Bootleg tem mais de 200 milhas (cerca de 320 km) de extensão, é uma enorme quantidade de linha (de contenção) para formar e manter”, explicou o comandante dos bombeiros, Rob Allen.
“Continuamos usando todos os recursos, de escavadeiras a caminhões-pipa, para intervir onde é seguro fazê-lo, especialmente com o calor, a seca e o vento que se espera que piorem no fim de semana”, acrescentou.
Mais ordens de evacuação foram emitidas na noite de quinta-feira, após os bombeiros terem que se retirar de áreas com chamas de crescimento rápido e “condições extremas de incêndio” a leste do incêndio, que eclodiu há 10 dias e cresceu em cerca de 404 hectares por hora desde então.
“Eu vi as chamas se espalhando pela encosta do penhasco a cerca de um quilômetro de nossa casa e recebi uma ligação me dizendo para fazer as malas e ir embora”, revelou Frank Lee Smith, residente do condado de Klamath, à AFP. “Então enchi o caminhão com tudo o que pude e com os dois cachorros e partimos.”
A situação deve piorar no final de semana, apesar da mobilização de quase 2.000 bombeiros.
O governador da Califórnia, Gavin Newsom, anunciou o envio de reforços para Oregon, ao mesmo tempo em que enfatizou os vários incêndios que os bombeiros da Califórnia já combatem.
Mudança climática
Precisamente na Califórnia, o cientista climático Daniel Swain alertou que o risco de incêndios florestais causados por raios secos previstos para este fim de semana é “bastante alto”.
“A mudança climática está alimentando o desenvolvimento de incêndios cada vez mais perigosos e destrutivos em todo o oeste dos Estados Unidos”, disseram os serviços de gerenciamento de emergência da Califórnia.
Cerca de 85% do estado também está em situação de “seca extrema”, de acordo com um observatório do governo.
Em agosto de 2020, o maior incêndio da história moderna da Califórnia, destruindo uma área do tamanho do estado de Delaware, foi provocado por uma sequência grande de milhares de relâmpagos.
Devido a um “longo período de calor implacável e frequentemente recorde”, a vegetação rasteira da Califórnia está mais seca do que normalmente seria em seu pico de agosto ou setembro, disse Swain, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA).
Mas é “altamente improvável que haja quase tantos raios secos quanto houve em agosto de 2020”, completou no Twitter.
Canadá também em alerta
A situação não é muito melhor no vizinho Canadá. O cenário é de calor, incêndios e fumaça tóxica. Alertas de qualidade do ar foram emitidos em quatro províncias do país.
“A fumaça dos incêndios florestais é a causa da má qualidade do ar em muitas comunidades”, confirmou a Agência Ambiental do Canadá em uma mensagem em sua conta no Twitter nesta sexta-feira.
“Tudo muda tão rápido dependendo do vento. Ontem, por volta das 8h, estava claro e ensolarado e às 10h havia tanta fumaça que mal dava para enxergar”, afirmou à AFP Graham Leggett, funcionário da Galeria de Arte de Alberta, no oeste do Canadá.
Nesse país, cerca de 100 bombeiros mexicanos devem chegar a Toronto neste sábado para combater incêndios no noroeste de Ontário, anunciaram as autoridades provinciais nesta sexta-feira.
A mudança climática intensifica as secas, criando condições ideais para que os incêndios florestais se espalhem de forma incontrolável e provoquem danos materiais e ambientais sem precedentes.

Fonte: G1 Mundo

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Brasileiros na Alemanha: família perde tudo, enfermeira salva pacientes e mulher vê vizinho morrer em incêndio


Europa Central sofre com as piores enchentes desde a década de 1960. Alguns brasileiros que viveram o drama das inundações de perto relatam o que aconteceu durante os momentos de perigo. O rio Ahr transborda e destrói casas em Insul, na Alemanha, em 15 de julho de 2021
Michael Probst/AP
A região da Europa Central foi atingida por tempestades que fizeram rios transbordarem e levar muita coisa pelo caminho. Mais de 120 pessoas morreram e milhares estão desaparecidas.
O país mais afetado é a Alemanha, onde mais de 100 pessoas morreram. Alguns brasileiros que moram nas cidades afetadas deram seus relatos ao G1. Leia-os abaixo:
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A família que perdeu tudo
Imagem da casa de Marcela da Silva Amandio em Bad Neuenahr Ahrweiler, na Alemanha
Acervo Pessoal/Marcela da Silva Amandio
Marcela da Silva Amandio mora com o marido, Lucas, e a filha de 7 anos em Bad Neuenahr Ahrweiler.
O bairro foi devastado pela água. O temporal destruiu carros, casas e a estrutura da cidade.
“Por volta das 20h de quinta-feira passou um carro com um alto-falante pelo bairro. Eu não falo a língua e não entendi muita coisa. No grupo de mensagens por aplicativo de pais de colegas da minha filha começaram a mandar mensagem dizendo que na sexta-feira não teria aula”. A filha de Marcela estava dormindo.
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Às 22h, ela conta, tocou uma sirene que é acionada quando há emergências. Depois disso, a vizinha tocou a campainha de sua casa.
“Ela disse que eu precisaria guardar o carro, porque a água estava chegando. Eu disse que não tenho carteira de motorista, e que precisaria esperar meu marido”, diz. Lucas, o marido, trabalha em um restaurante na frente da casa onde a família vive.
A vizinha “fez uma cara de espanto, e disse que precisaria ser naquele momento”, diz. Ela resolveu manobrar o carro.
Nessa hora, o marido, Lucas, estava saindo do restaurante. Ele ouviu gritos e foi ver o que era.
Os dois pegaram as roupas da filha, alguns documentos, alguns eletrônicos e foram para a casa da vizinha. A menina estava assustada e não queria sair de casa.
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Enquanto eles levavam alguns objetos para a casa da vizinha, a água entrou na casa deles.
“A água estava só na altura do pé, mas em segundos subiu para a coxa. Foi muito rápido, ficamos desesperados. Minha filha achou que ia morrer porque não sabe nadar. Eu também fiquei nervosa, mas me controlei para que ela não ficasse tensa.”
Depois de um tempo, a casa da vizinha também ficou vulnerável. Eles resolveram subir em uma laje para se proteger da água aumentava de nível. O problema é que não havia escada.
A família e os vizinhos subiram se equilibrando com uma calha —o marido, o último a subir, teve mais dificuldades, porque não havia mais ninguém para empurrá-lo.
Os três e os vizinhos passaram a noite nessa laje, no frio, sem roupas e com a casa tomada pela água.
“Demos sorte porque não choveu à noite. Eu estava de shorts, eu cheguei a cair na água e estava molhada. Alguns vizinhos conseguiram jogar cobertores e toalhas para que nós nos protegêssemos. Ainda colocamos sacolas de plásticos para nos esquentarmos. Nós três dormimos próximos para nos esquentarmos, abraçados. Em um momento achei que se não morrêssemos afogados, seria de frio”, conta ela.
Marcela da Silva Amandio e a filha durante a madrugada que tiveram que passar na laje da casa da vizinha
Acervo Pessoal/Marcela da Silva Amandio
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Da laje da vizinha, ela viu os vidros do restaurante onde o marido trabalha arrebentarem com a força da água. Um carro ainda bateu na frente do local. Eles ligaram para a polícia, mas não havia gente para ir até lá.
Às 5h, a água começou a baixar.
Alguns dos trabalhadores do restaurante conseguiram levar uma escada e a família e os vizinhos puderam descer da laje.
O carro da família, comprado há dois meses, está em uma pilha com mais de 30 veículos. A polícia não deixou eles se aproximarem, pois havia um vazamento de gás em um dos carros.
Eles foram andando até a casa de dois amigos brasileiros. “Toda a cidade está destruída. Estamos sem água nem energia. Nós compramos comida enlatada. Nossa família fez uma vaquinha em menos de 24 horas chegou algum dinheiro. Não sabemos quando vamos conseguir voltar para casa”, ela conta.
Enfermeira salva pacientes
A enfermeira Lívia Nogueira, de 30 anos, do Rio de Janeiro, mora em Erfstadt, na Alemanha, há 9 meses.
Na quinta-feira, antes de ir para o hospital onde ela trabalha, ela soube que o subsolo do prédio estava inundado, e por isso não foi de carro. Na quarta-feira havia chovido o dia todo, mas na quinta-feira já havia parado.
O prédio estava sem luz, mas ela e os colegas começaram a trabalhar normalmente.
Lívia Nogueira depois de ter ajudado a retirar pacientes de um hospital que inundou em Erfstadt
Acervo Pessoal/Lívia Nogueira
O hospital é térreo. Os quartos todos têm portas e janelas para fora, para uma espécie de jardim.
Por volta das 10h, um colega dela disse que a água estava chegando. Ela entrou no quarto de um dos pacientes para tirá-lo de lá. Nesse momento, ela viu a água chegando pela janela. “Deu um desespero. A água estava vindo muito rápido”, ela conta.
A água entrava por baixo das portas dos quartos dos pacientes.
Ela e os outros enfermeiros pegaram os pacientes dos quartos e levaram para um corredor. Foi uma solução temporária: logo a água começou a inundar os corredores também.
Lívia levou os pacientes para um outro canto do hospital.
A água não era barrenta, mas estava suja. O pior não era a consistência, mas, sim, a velocidade.
“A água não foi subindo aos poucos, pelo contrário, veio muito rápido; houve um momento que em 3 ou 5 minutos estava na altura do joelho”, ela conta.
O problema com os pacientes não terminou. Depois de tirá-los do quarto, levá-los para três outros lugares diferentes do hospital, começaram a gritar nos corredores que seria preciso tirá-los de lá.
Ela e os outros profissionais saíram do hospital empurrando os pacientes —alguns deles em camas.
“Chegamos no jardim, mas de lá precisamos levá-los até a pista da rua. E isso aconteceu enquanto a água continuava a subir. Foi o pior momento: tivemos que empurrar a cama onde tinha grama e lama e onde o chão não era plano. Nessa parte pior, devemos ter andado uns 200 metros até chegarmos na pista”.
O difícil, diz ela, foi atravessar um terreno irregular com um paciente em uma cama.
“Eu estava sem força, cansada. Tinha que levantar a cama para conseguir que a roda andasse”, diz.
Na pista de carros, ela esperou os bombeiros chegarem. “Eles chegaram de carro, de caminhão, chegou até um trator e botes também”, conta Livia.
O hospital foi interditado Uma parte dos pacientes foram para outros hospitais, uma outra parte foi levada para uma escola que está sendo usada como abrigo —há cerca de 100 pessoas lá.
Casa do vizinho em chamas
A brasileira Sintique Amaral de Lima mora perto do rio em Leichlingen, na Alemanha. “Esse rio já deu problemas no passado, algumas ruas ficaram alagadas”, ela conta.
Na terça-feira, ela estava se preparando para dormir quando uma vizinha bateu na porta. A água estava chegando.
“Eu respondi: ‘Mas que água?’, e já percebi o que estava acontecendo. Foi só o tempo de mandar as crianças para dentro de casa”, ela conta.
O marido chegou depois de cerca de 10 minutos.
A água não chegou a entrar na casa deles, mas, sim, em um porão onde eles guardam coisas.
A família passou a noite ouvindo o barulho da água pelas paredes.
O problema era que eles não tinham como sair. “Meu filho, de 14 anos, tentava ajudar, mas ele estava com medo. Minha filha ficou apavorada, mas consegui colocá-la para dormir. Ao longo da madrugada, a água foi baixando.”
“Eu acordei por volta das 5h. Quando abri a janela, vi que a casa de um vizinho estava queimando”, ela conta.
Tentaram apagar o fogo usando a água de uma piscina pública do bairro, mas não foi o suficiente. Um homem morreu no incêndio.
Sintique Amaral de Lima, brasileira que vive em Leichlingen, na Alemanha
Acervo Pessoal/Sintique Amaral de Lima
Sintique e a família foram para a casa da sogra, que fica em uma região da cidade onde houve menos problemas.
“Precisamos esperar até amanhã para a água toda sair. Daí vamos ver quais os problemas, se houve consequências no prédio”, ela conta. A expectativa é voltar para a casa só na semana que vem, ela conta.

Fonte: G1 Mundo

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Sobe para mais de 150 o nº de mortos após chuvas na Europa; tragédia na Alemanha é a maior em 59 anos


Imensa quantidade de água tem causado inundações gigantescas, alagado cidades e derrubado casas na em países da Europa Central. É o maior número de mortos na Alemanha desde 1962. Chuvas causam inundações gigantescas na cidade de Erftstadt, na Alemanha. Foto fornecida pelo governo do distrito de Colônia em 16 de julho de 2021.
Rhein-Erft-Kreis via AP
Mais de 150 pessoas morreram e milhares estão desaparecidas devido às chuvas dos últimos dias na Europa, que estão fazendo os rios transbordarem e levarem tudo pelo caminho principalmente na Alemanha e na Bélgica.
O país mais afetado é a Alemanha, onde 133 mortes foram confirmadas até o momento e 1,3 mil pessoas estão desaparecidas apenas em um distrito ao sul de Colônia, no oeste do país.
É o maior número de mortos em um desastre natural na Alemanha desde 1962 (quando uma enchente no Mar do Norte deixou cerca de 340 mortos) e a maior quantidade de chuva no país em um século.
As inundações no rio Elba, que em 2002 foram anunciadas como “inundações que acontecem uma vez por século”, mataram 21 pessoas no leste da Alemanha e mais de 100 em toda a Europa.
As chuvas deste ano têm afetado também a Bélgica, onde 20 pessoas morreram e 20 estão desaparecidas, e Holanda, França e Luxemburgo em menor intensidade (veja mais abaixo).
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Enchentes na Europa já registram mais de 120 mortes; 1,3 mil estão desaparecidos somente na Alemanha
O número de vítimas pode aumentar consideravelmente após relatos de deslizamentos de terra e casas sendo arrastadas pelos rios ou desabando devido à força da água na sexta-feira (16).
Imagens áreas divulgadas pelas autoridades do distrito de Colônia, na Alemanha, mostram uma cratera formada por um deslizamento de terra imenso, que arrastou lama e destroços.
O que se sabe até o momento:
133 mortos na Alemanha (90 no estado da Renânia-Palatinado e 43 no estado da Renânia do Norte-Vestfália)
1,3 mil pessoas desaparecidas no distrito de Ahrweiler, na Renânia do Norte-Vestfália, a cerca de 40 km ao sul da cidade de Colônia
20 mortos e 20 desaparecidos na Bélgica
114 mil casas sem energia na Alemanha, segundo a maior empresa de distribuição do país
Mulher observa pilha de carros após enchentes em Bad Neuenahr-Ahrweiler, na Alemanha, em 16 de julho de 2021
Christof Stache/AFP
Na Alemanha, as cidades e vilas mais afetadas estão no curso do rio Ahr, que nasce quase na fronteira com a Bélgica e deságua no rio Reno. O vale do rio Ahr é famoso pela produção de vinho tinto, e a cidade mais importante da região é Bad Neuenahr-Ahrweiler.
Na Bélgica, a região mais afetada é a Valônia, cuja principal cidade é Liège. Os maiores estragos estão em cidades e vilas ao longo do rio Mosa, que nasce na França, passa pelo país e adentra a Holanda, e também do rio Vesdre, perto da fronteira com a Alemanha.
A ministra do Interior belga, Annelies Verlinden, disse a uma TV local nesta sexta que continua crítico o nível das águas do rio Mosa e vários diques correm o risco de ruir (veja mais abaixo).
Clare Nullis, porta-voz da Organização Meteorológica Mundial, afirmou que algumas partes da Europa Ocidental receberam até dois meses de chuva em apenas dois dias. “O que piorou é que os solos já estavam saturados pelas chuvas anteriores”.
As cidades mais afetadas pelas chuvas:
V2 Chuvas e inundações na Europa: temporal deixa dezenas de mortos na Alemanha e na Bélgica e afeta cidades também na Holanda e na França
Editoria de Arte/G1
O presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, pediu nesta sexta um firme comprometimento com a luta contra as mudanças climáticas e afirmou que esta é a única alternativa para frear fenômenos meteorológicos extremos, como as chuvas intensas que castigam o país.
“Apenas se nos comprometermos de forma resoluta com a luta contra as mudanças climáticas poderemos controlar condições meteorológicas extremas como as que vivemos atualmente”, afirmou Steinmeier em um pronunciamento, em que disse estar “profundamente arrasado” pela tragédia.
A chanceler Angela Merkel havia dito na quinta-feira (15) que os extremos climáticos estão se tornando mais frequentes, o que requer ações para conter o aquecimento global. “Pequenos rios se transformaram em torrentes inundadas e devastadoras”.
1,3 mil desaparecidos na Alemanha
Ponte sobre o rio Ahr destruída pela força da água em Schuld, na Alemanha, em 15 de julho de 2021
Michael Probst/AP
As fortes enchentes no oeste da Alemanha transformaram ruas em rios com correntezas violentas, que “varreram” carros, arrancaram árvores e derrubaram ou arrastaram algumas edificações.
Comunidades inteiras ficaram em ruínas após rios transbordarem e varreram cidades e vilas, nos estados alemães da Renânia do Norte-Vestfália e Renânia-Palatinado.
Autoridades alemãs confirmam que 1,3 mil pessoas são consideradas “não reportadas” apenas no distrito de Ahrweiler, a cerca de 40 km o sul da cidade de Colônia.
Ainda não é possível saber quantas estão com problemas de comunicação e quantas podem ser vítimas ainda não localizadas.
Em Erftstadt, “as casas foram em grande parte destruídas e algumas desabaram”, disseram as autoridades locais em uma rede social. “Várias pessoas estão desaparecidas”.
As casas desabaram na manhã e equipes de resgate tentam chegar de barco ou helicóptero aos moradores, porque as estradas ao redor da cidade estão intransitáveis ​​após terem sido destruídas pela água.
VÍDEO: Imagens de drone mostram destruição causada por enchentes na Alemanha
Uma barragem perto da fronteira com a Bélgica transbordou, enquanto outra foi estabilizada.
Cerca de 4,5 mil pessoas foram evacuadas das comunidades a jusante e um trecho da rodovia A61 foi fechado em meio a temores de um possível colapso das estruturas.
Cidades e regiões mais afetadas
São 90 mortes no estado alemão de Renânia-Palatinado, entre elas 12 moradores de uma casa de repouso para pessoas com deficiência na cidade de Sinzig que foram surpreendidos pelo transbordamento do rio Ahr.
Na vizinha Renânia do Norte-Vestfália, as autoridades estaduais estimam em 43 o número de mortos, mas alertam que o número pode aumentar.
Casas desabaram e foram arrastadas pelas águas na aldeia de Schuld, onde muitos estão desaparecidos e quatro mortes já foram confirmadas.
Devastação causada pela enchente do rio Ahr, na aldeia Eifel de Schuld, no oeste da Alemanha. Foto tirada com um drone em 15 de julho de 2021.
Christoph Reichwein/DPA via AP
Outras duas pessoas morreram em porões inundados nas proximidades de Solingen e Unna.
A polícia relatou outra morte no município de Rheinbach, e dois bombeiros morreram durante os trabalhos de resgate nas cidades de Altena e Werdohl.
Infraestrutura danificada
As redes de telefonia móvel entraram em colapso em algumas das regiões atingidas pelas enchentes, e pessoas não estão conseguindo falar com familiares e amigos desaparecidos.
Ao menos 114 mil casas estão sem energia nos estados da Renânia do Norte-Vestfália e Renânia-Palatinado nesta sexta, anunciou a Westnetz, maior empresa de distribuição do país.
A infraestrutura foi completamente destruída e a reconstrução custará muito tempo e dinheiro, disse a premiê da Renânia-Palatinado, Malu Dreyer, a uma televisão alemã. “O sofrimento continua aumentando”.
Casas submersas pelas águas de rio que transbordou em Erdorf, na Alemanha
Harald Tittel/DPA via AP
Carro coberto em Hagen, na Alemanha, com destroços arrastados pela enchente do rio Nahma em 15 de julho de 2021. Fortes chuvas transformaram o pequeno rio em uma torrente violenta.
Roberto Pfeil/DPA via AP
Inundações na Bélgica
Na Bélgica, 20 pessoas morreram e 20 estão desaparecidas e as chuvas constantes durante a noite pioraram as inundações no leste do país, principalmente na região da Valônia.
Em Liège, principal cidade da Valônia o rio Mosa transbordou e o prefeito pediu às pessoas que moram nas proximidades para que se refugiassem em locais mais altos. O município tem 200 mil habitantes.
Mais de 21 mil pessoas continuam sem eletricidade na região.
VÍDEO: Drones mostram ruas alagadas na Bélgica
Carro flutua no rio Mosa durante forte enchente em Liège, na Bélgica, em 15 de julho de 2021
Valentin Bianchi/AP
Cerca de 10 casas desabaram em Pepinster, após o rio Vesdre inundar a cidade, e moradores foram evacuados de mais de mil casas.
As principais rodovias também foram inundadas nas partes sul e leste do país na quinta-feira (15), e a companhia ferroviária disse que todos os trens foram parados.
Carros danificados em rua inundada em Mery, na província de Liège, na Bélgica, em 14 de julho de 2021
Valentin Bianchi/AP
Os destroços em um rio em Verviers, na Bélgica
Yves Herman/Reuters
Lojista observa enchente criar “rio” na principal rua do centro de Spa, na Bélgica, em 14 de julho de 2021
Valentin Bianchi/AP
E na Holanda, na França…
No sul da Holanda, perto das fronteiras com a Alemanha e a Bélgica, autoridades da cidade de Valkenburg evacuaram uma casa de repouso e um hospício durante a noite. A principal rua da cidade turística virou um rio.
Autoridades da cidade de Venlo, também no sul, evacuaram cerca de 200 pacientes do hospital devido à ameaça de inundação do rio Mosa, o mesmo que transbordou em Liège, na Bélgica.
O governo holandês enviou na noite de quarta-feira (14) cerca de 70 soldados à província de Limburg, onde ficam Valkenburg e Venlo. Não há relatos de feridos ou mortos relacionados a enchentes na Holanda até o momento.
VÍDEO: Imagens aéreas mostram enchente na Holanda
Chuvas excepcionalmente intensas também inundaram uma parte do nordeste da França nesta semana, derrubando árvores e forçando o fechamento de dezenas de estradas.
Uma rota de trem para Luxemburgo foi interrompida e os bombeiros evacuaram dezenas de pessoas de casas perto da fronteira com Luxemburgo e Alemanha e na região de Marne.
O equivalente a dois meses de chuva caiu em algumas áreas da França nos últimos dias, segundo o serviço nacional de meteorologia do país.
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Fonte: G1 Mundo