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ENTRETERIMENTO

‘Chico 2.0’ acerta ao tirar Chico Buarque do nicho da MPB para levar a obra do artista para as quebradas urbanas


Chico Buarque tem dez músicas recriadas por rappers, trappers e funkeiros no álbum ‘Chico 2.0’
Francisco Proner / Divulgação
♫ CRÍTICA DE ÁLBUM
Título: Chico 2.0
Artistas: Bela Maria, Budah, Dexter, Don L, Grag Queen, Julia Mestre, MC Cabelinho, MC Livinho, Maurício Fazz, Tasha & Tracie, TZ da Coronel, Vandal e Xênia França
Cotação: ★ ★ ★ 1/2
♬ Haverá ouvidos fechados e narizes torcidos para a proposta de “Chico. 2.0”, álbum em que rappers, trappers e funkeiros trazem o cancioneiro de Chico Buarque para a linguagem da música urbana contemporânea, ou seja, a música das ruas e das quebradas do século XXI.
Mas o fato é que, sim, “Chico. 2.0” cumpre o prometido e acerta ao tirar a obra do compositor carioca do nicho da MPB – um vasto escaninho, diante das dimensões continentais do Brasil, mas ainda assim um nicho que tem dificultado a absorção do cancioneiro dos gigantes da MPB (como Chico, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Milton Nascimento) pela maior parte das gerações do século XXI.
Aí reside o mérito de “Chico. 2.0”, álbum formatado com produção musical de Alê Siqueira e Felipe Poeta em (re)construção feita sob a direção artística de Celso Athayde (fundador da Central Única das Favelas – CUFA), Fábio Almeida e Preto Zezé (presidente da CUFA).
“Chico. 2.0” não é para quem ouve Chico Buarque na voz do autor ou em gravações de intérpretes da MPB como Maria Bethânia e MPB4, pois as comparações serão inevitáveis e injustas. O álbum é para o jovem que ouve rap, trap, funk e R&B e que, com “Chico. 2.0”, vai se deparar com um punhado de músicas magistrais que abrem um portal para quem quiser conhecer mais a fundo da obra de Chico a partir dos registros dessas músicas nas vozes de Bela Maria, Budah, Dexter, Don L, Grag Queen, Julia Mestre, MC Cabelinho, MC Livinho, Maurício Fazz, TZ da Coronel, Vandal e Xênia França.
O resultado é interessante, porque muitas das 10 músicas desse primeiro volume – o segundo está previsto para outubro, com outras dez músicas e outro elenco – já nasceram com atmosfera sombria que se conecta com o universo do trap e do rap. Talvez por isso “Deus lhe pague” preserve o impacto de 1971 nas vozes da dupla Tasha & Tracie – em gravação feita com o coro da Família Ébano – e “Cálice” (Chico Buarque e Gilberto Gil, 1973) mantenha a força imperativa no registro que une MC Cabelinho e Xênia França.
Da mesma forma, o angustiado estado mental do eu-lírico de “Construção” (1971) – música que simbolizou a maturidade precoce de compositor que já surgiu grande na música brasileira em 1964 – é traduzido pelo canto de Dexter, Maurício Fazz e MC Livinho com beats que distanciam a releitura do arranjo referencial criado pelo maestro tropicalista Rogério Duprat (1932 – 2006) para a gravação original.
Contribui para o êxito do projeto “Chico. 2.0”, o fato de as músicas e letras terem sido preservadas na íntegra. As reconstruções são feitas sobre as bases originais.
Samba da parceria de Chico com Francis Hime, “Pivete” (1978) ganha a cadência funkeada de MC Livinho sem deixar de ser samba na ponte área que liga o compositor carioca ao funk paulista. A escalação de Grag Queen para o canto de “Geni e o Zepelim” (1978) cumpre a função social de dar voz à tribo marginalizada das drags e trans.
Destaque na cena de R&B, a cantora pernambucana Bela Maria segue a cadência do samba-choro “Meu caro amigo” (Chico Buarque e Francis Hime, 1976) em gravação com menor teor de novidade. Outro samba, “Olê, olá” (1966), ganha beats e a voz de Xênia França.
Já “João e Maria” (Sivuca, 1947, com letra posterior de Chico Buarque, 1977) tem preservada a delicadeza lúdica e melódica em gravação que se alimenta do contraste entre o canto doce de Julia Mestre e a voz grave do rapper TZ da Coronel.
Por fim, cantora que transita entre o rap e o R&B, Budah arremata bem “Chico. 2.0” ao fazer “Roda viva” (1967) girar no fraseado da artista. “Roda viva”, a propósito, é uma daquelas músicas contundentes do compositor que deixam a sensação de que, se tivesse Chico Buarque tivesse nascido no século XXI, ele provavelmente seria um trapper…
Capa do álbum ‘Chico 2.0’
Arte de Iann Thomas

Fonte: G1 Entretenimento