Mateus Aleluia faz show solo de voz e violão no Teatro Nelson Rodrigues, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), na noite de hoje, sábado, 11 de julho
Rodrigo Goffredo
♫ PRIMEIRA PESSOA DO SINGULAR
♬ Vivi hoje à noite a experiência de ver um show solo de Mateus Aleluia. Falo em “experiência” porque, para usufruir inteiramente de uma apresentação desse cantor baiano de 82 anos, é preciso desligar o relógio do tempo das urgências cotidianas para entrar no tempo sereno do artista, divindade encarnada, espécie de preto velho que baixa em cena com alta carga de ancestralidade.
“O canto fala tudo o que sentimos sem contornos. É uma linguagem espiritual. Falamos de dentro”, ressaltou o integrante mais famoso do grupo Os Tincoãs ao público que lotou o Teatro Nelson Rodrigues na noite deste sábado, 11 de julho, para ver a estreia carioca da turnê de Seu Mateus – como o chamam – pelos palcos da Caixa Cultural (há uma segunda apresentação na cidade do Rio de Janeiro agendada para amanhã, domingo, 12 de julho, mas os ingressos já estão esgotados).
Mateus Aleluia tem presença bissexta em palcos cariocas. A última vez que o cantor fez show na cidade foi em 2017, há nove anos. Mas tive o privilégio de assistir recentemente a um show de Aleluia em Salvador (BA), na Concha Acústica do Teatro Castro Alves. Nessa apresentação baiana de novembro de 2025, a Orquestra Afrosinfônica – sob regência do maestro Ubiratan Marques – dividia a cena com Aleluia.
Hoje, no palco do Teatro Nelson Rodrigues, eram somente a voz, o violão e a imensidão da alma de uma entidade cuja voz grave e profunda puxou o fio da memória ancestral nas canções do roteiro autoral aberto com “Homem! O animal que fala” (2009). Enquanto via o show, pensei que Mateus Aleluia é, também ele, um Buda Nagô como Gilberto Gil qualificou Dorival Caymmi (1914 – 2008) em música de 1992.
Em essência, enquanto revolve memórias afetivas da rica vivência na África e na cidade natal de Cachoeira (BA), Mateus Aleluia canta a nobreza do amor. E esse canto que vem de dentro traz paz e serenidade, harmonizando o espírito. Sim, é preciso crer em algo mais além do mundo físico para entender a dimensão do canto desse orixá vivo.
É que há muito de transcendental no canto e na gênese de músicas como “Sonhos cor de criola” e “Filho de rei”, ambas do álbum “Fogueira doce” (2020), cuja música-título encerrou a apresentação, arrematada sem bis. “Eu vi Obatalá”, proclama Mateus Aleluia no verso-título da composição de 2017. E quem há de duvidar que ele viu mesmo?
O maior sucesso dos Tincoãs, “Cordeiro de Nanã” (Mateus Aleluia e Dadinho, 1977), veio entremeado com um lamento em forma de fala. É que o canto de Mateus Aleluia também carrega as dores do povo negro através dos séculos. Mas ameniza essas dores com a sabedoria dos que encontraram a paz de espírito e dos que extraem na música o alimento para a alma.
No fim do show, o artista agradeceu o público e disse que estava “abastecido”. A rigor, foi ele, o artista, quem abasteceu o público com uma música capaz de alimentar a alma e emanar boas vibrações, serenando quem for capaz de se entregar à experiência de ver um show solo de Mateus Aleluia. Eu fui.
Mateus Aleluia emana alta carga de ancestralidade através do canto grave e profundo
Rodrigo Goffredo
Fonte: G1 Entretenimento