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Por que idade média das mulheres vencedoras do Oscar está aumentando


As atrizes jovens são tradicionalmente favorecidas no Oscar, mas as estatísticas indicam que esta tendência está mudando
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Quando Michelle Yeoh recebeu o Oscar de Melhor Atriz de 2023 aos 60 anos, pelo filme Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, ela declarou: “Senhoras, não deixem ninguém dizer a vocês que já passaram do auge. Nunca desistam.”Yeoh julgou ser necessário fazer esta afirmação pública porque ela é uma dentre apenas sete mulheres que já receberam a estatueta de melhor atriz com mais de 60 anos de idade.
Até hoje, apenas uma mulher venceu a premiação com mais de 80 anos: Jessica Tandy (1909-1994), em 1990, por Conduzindo Miss Daisy. E só uma outra ganhou o prêmio na casa dos 70, que foi Katharine Hepburn (1907-2003), em 1982, por Num Lago Dourado.
Os eleitores da Academia tradicionalmente favorecem as mulheres na casa de 20 e 30 anos de idade, gerando uma clara discrepância de idade entre os vencedores do Oscar de Melhor Ator e de Melhor Atriz.
Adrien Brody é, até hoje, o único vencedor na categoria de melhor ator com menos de 30 anos, por O Pianista, em 2003. Paralelamente, 32 atrizes já ganharam o Oscar na casa dos 20 anos de idade.
Frances McDormand venceu o Oscar de Melhor Atriz de 2021 por Nomadland, aos 63 anos de idade
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Mas os tempos certamente mudam, mesmo que com lentidão.
Uma pesquisa da BBC demonstra que a idade média das indicadas ao Oscar de Melhor Atriz vem aumentando ao longo das décadas.
Nos anos 1940, a média de idade era de 33 anos. Ela aumentou para 36 nos anos 1970, atingiu 40 na década de 2000 e, entre 2020 e 2026, chegou a 44 anos de idade.
Ao lado de Yeoh, vencedoras recentes incluem Renée Zellweger (aos 50 anos), Frances McDormand (63) e Jessica Chastain (45). E recentes indicadas incluem Annette Bening (65), Demi Moore (62) e Fernanda Torres (59) — ainda que, no ano passado, a vencedora tenha sido Mikey Madison (25) por Anora, mesmo com o favoritismo de Moore.
A idade média de 27 anos na década de 1940 reflete uma indústria que priorizava as mulheres mais jovens.
No seu livro The Star Machine (“A máquina de estrelas”, em tradução livre), de 2007, a escritora e professora de história do cinema Jeanine Basinger comenta que “era difícil uma mulher durar”.
“As mulheres glamourosas eram um produto frágil… A câmera era um observador cruel e observava a idade…”
“Se uma estrela conseguisse durar uma década, ela realmente se pagava. Se ela durasse duas décadas, era um sucesso fenomenal. Se durasse mais do que isso, era um milagre e, hoje, podemos chamá-la de lenda.”
As estrelas daquela época incluem vencedoras do Oscar como Bette Davis (1908-1989), Ingrid Bergman (1915-1982) e Vivien Leigh (1913-1967). As três ganharam a estatueta de Melhor Atriz na casa dos 20 anos de idade.
O “milagre” mencionado por Basinger pode ser Katharine Hepburn, que detém o recorde de maior número de troféus de Melhor Atriz — quatro, três deles conquistados com mais de 60 anos.
Os fatores que levaram à mudança
Stacy L. Smith é a fundadora da Iniciativa de Inclusão Annenberg da Universidade do Sul da Califórnia, nos EUA, um grupo de estudos que examina questões de desigualdade no setor do entretenimento.
Ela declarou à BBC que, agora, em relação aos filmes de “prestígio” (os que atraem o interesse das premiações), as mulheres têm um período de carreira mais longo.
“Quando começamos este trabalho em 2007, eu sempre brincava que a mulher precisava se chamar Judi [Dench], Maggie [Smith, 1934-2024] ou Meryl [Streep] para trabalhar com mais idade em Hollywood”, ela conta. “E acho que este não é mais o caso.”
“Você tem um número maior de papéis disponíveis em filmes deste tipo e menos viés ou foco em mulheres mais jovens para conduzir a história.”
Stacy Smith destaca que, “atualmente, a Academia reconhece filmes que tipicamente ganham menos dinheiro. Eles têm conteúdo mais artístico, são filmes de arte.”
“E, neles, o trabalho do ator é realmente apreciado.”
Atrizes veteranas com décadas de experiência “agora têm filmes feitos para elas”, algo raro até recentemente, segundo Elizabeth Kaiden, uma das fundadoras da organização The Writers Lab, que apoia roteiristas mulheres com mais de 40 anos de idade.
“Já se comprovou que as atrizes podem ter carreiras longas”, destaca ela.
“São as Meryl Streeps, as Helen Mirrens, as Nicole Kidmans. Elas conseguem atrair roteiristas, diretores e produtores que observam seu valor ao escalar uma estrela madura.”
“Estamos vendo cada vez mais filmes sobre mulheres complexas com certa experiência de vida, que elevam a idade [das vencedoras de prêmios de melhor atriz] acima de onde costumava ficar.”
Também há quase uma década, as campanhas #OscarsSoWhite e #MeToo reivindicaram maior igualdade e diversidade na Academia. E alguns desses esforços trouxeram frutos.
De 2021 para cá, seis mulheres foram indicadas para o Oscar de Melhor Direção e duas delas venceram: Chloé Zhao (em 2021, por Nomadland) e Jane Campion (2022, por Ataque dos Cães).
Mas, antes delas, só uma havia vencido: Kathryn Bigelow, em 2010, por Guerra ao Terror.
Muitas dessas diretoras e roteiristas mulheres escolhem protagonistas femininas.
Em 2025, Coralie Fargeat, de 47 anos, foi indicada ao Oscar de Melhor Direção por A Substância, com Demi Moore no papel principal.
E, em 2024, a diretora francesa Justine Triet (45 anos) ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Original por Anatomia de uma Queda, que também lhe valeu a indicação para o prêmio de Melhor Direção.
Seu filme é estrelado pela atriz alemã Sandra Hüller, que também foi indicada para o prêmio de Melhor Atriz de 2024, aos 45 anos de idade.
“Acho que mais mulheres estão atingindo uma posição em que elas podem escolher o material que querem fazer”, afirma Kaiden.
“Jessie Buckley foi indicada ao Oscar este ano por Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, que teve o livro e o roteiro escritos por mulheres, além de Chloé Zhao como diretora.”
“O filme anterior de Zhao, Nomadland, teve Frances McDormand como protagonista. Ela estava na casa dos 60 anos”, prossegue Kaiden. “Aquele filme provavelmente nunca teria sido feito 50 anos atrás, nem Chloé Zhao teria tido a oportunidade de fazê-lo.”
“O cargo da mulher diretora realmente é fundamental para esta mudança”, confirma Smith.
“Mesmo em 2010, nós observávamos o que acontecia em uma produção quando havia uma mulher diretora atrás da câmera. Concluímos que, neste caso, você tinha mais mulheres e meninas como personagens principais ou importantes — e mais mulheres com mais de 40 anos de idade na tela.”
Outro fator para o reconhecimento cada vez maior das atrizes com mais idade no Oscar pode ser o fato de que a Academia ampliou seus quadros, incluindo mais eleitores internacionais.
Esta decisão também aumentou a quantidade de indicações de títulos do cinema mundial.
Tudo isso pode ter alterado as coisas, segundo Smith. Para ela, nos Estados Unidos, “ainda existe um grande viés pró-juventude” que é menos proeminente em outras partes do mundo.
“As preocupações culturais em torno do envelhecimento variam de país para país”, afirma ela.
O filme brasileiro Ainda Estou Aqui, do diretor Walter Salles, tem Fernanda Torres como protagonista aos 59 anos. E Emilia Pérez, de Jacques Audiard, traz a atriz trans Karla Sofia Gascón, de 52. Ambas foram indicadas na categoria de Melhor Atriz em 2025.
Em 2017, a atriz francesa Isabelle Huppert foi indicada aos 63 anos de idade pelo seu papel como sobrevivente de estupro no drama em língua francesa Elle, de Paul Verhoeven.
Ainda há mudanças pela frente
Na verdade, o aumento da média de idade das indicadas ao Oscar de melhor atriz não reflete o que acontece no restante de Hollywood.
A Iniciativa de Inclusão Annenberg da Universidade do Sul da Califórnia pesquisou os 100 filmes de maior bilheteria de Hollywood, todos os anos, desde 2007.
Dados ainda não publicados fornecidos à BBC indicam que a idade média das protagonistas ou coprotagonistas mulheres nesses filmes em 2025 era de 34 anos. Já a idade dos seus equivalentes homens, no mesmo ano, era de 42.
Além disso, a média de idade naquela categoria para as mulheres nunca ultrapassou os 36 anos, desde o início do estudo.
Os resultados relembram o duplo padrão divulgado em 2015 por outra indicada ao Oscar, Maggie Gyllenhaal. Ela contou que foi considerada “velha demais” para representar, aos 37 anos, ao contrário de um ator homem de 55 anos de idade.
O estudo mais recente da Iniciativa Annenberg também concluiu que, nos 100 principais filmes de Hollywood do ano passado, apenas quatro mulheres com mais de 45 anos atuaram como protagonistas ou coprotagonistas.
Apenas uma delas ofereceu sua voz em uma animação: Ginnifer Goodwin, de 47 anos, em Zootopia 2. E todas eram brancas.
Por outro lado, 31 homens na mesma faixa de idade se qualificaram como protagonistas ou coprotagonistas nesses filmes, incluindo atores como Anthony Mackie, Benedict Cumberbatch, Benicio Del Toro, Brad Pitt, Dwayne “The Rock” Johnson, Leonardo DiCaprio, Pedro Pascal e Tom Cruise.
“É impossível dizer que, acima desta idade, não há atrizes qualificadas, capazes de fazer papéis de protagonistas na tela”, afirma Smith à BBC. “Na verdade, isso é discriminação.”
“E garanto a você que também existe um grupo limitado de mulheres que conseguem essas oportunidades para interpretar papéis no cinema”, destaca ela, sobre o número de atrizes com mais idade que podem ser consideradas para um filme comercial, de grande orçamento, em relação a um projeto de arte, “de prestígio”.
As mulheres roteiristas com mais idade, segundo Kaiden e Nitza Wilon (outra fundadora de The Writers Lab), também são sub-representadas na cinematografia popular.
Os dados do seu estudo fornecidos à BBC indicam que, de 511 filmes de longa-metragem lançados em 2025, apenas 12% foram escritos por mulheres com mais de 40 anos (e apenas 20% foram escritos por mulheres de qualquer idade).
“A distância entre o Oscar e a realidade é muito grande”, segundo Wilon. “Não acho que podemos usar os Oscars como fonte confiável do que realmente acontece no mundo.”
“O Oscar é um espetáculo. É considerado entretenimento, não jornalismo.”
“Estou feliz por Demi Moore ser indicada aos 62 anos por A Substância, mas ela é uma mulher que não aparenta sua idade”, destaca ela. “Hollywood é uma bolha. Não é normal.”
O relatório It’s a Man’s (Celluloid) World (“É um mundo (de celuloide) dos homens”, em tradução livre), foi publicado no mês passado pelo Centro de Estudos das Mulheres na Televisão e no Cinema.
Ele traz notícias ainda mais sombrias para as atrizes com mais de 60 anos: apenas 2% das principais personagens femininas nos filmes de maior bilheteria de Hollywood estavam acima dessa idade em 2025.
Elas incluíram Jamie Lee Curtis em Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda! e Amy Madigan em A Hora do Mal. Madigan também foi indicada para o Oscar deste ano, na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante.
A autora do relatório, Martha Lauzen, destaca que a quantidade de personagens homens também diminui muito quando eles chegam à casa dos 50 anos, mas os atores com mais de 60 anos de idade ainda representam 8% dos papéis principais — quatro vezes mais do que as mulheres.
É claro que Luzen destaca que o etarismo feminino segue presente no cinema, apesar da esperança oferecida pelo Oscar.
“Quando o público observa Frances McDormand ou Demi Moore indicadas para o Oscar de Melhor Atriz, muitos acreditam que o etarismo no setor faz parte do passado”, afirma ela.
“Mas, para as mulheres na tela, seus números começam a cair drasticamente com quase 40 anos e um pouco mais e continuam a diminuir na casa dos 50.”
“Quando chegam aos 60 anos de idade, elas se tornam invisíveis”, prossegue Luzen.
“Acho que este é um dos motivos por que os filmes com protagonistas mais velhas costumam chamar nossa atenção. Elas são raras.”

Fonte: G1 Entretenimento

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‘O Agente Secreto’ mostra que ditadura tinha ‘difusão psicológica do terror como princípio fundamental’, diz psicanalista


Equipe de ‘O Agente Secreto’ revela expectativa para cerimônia do Oscar
Os filmes O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, e Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, fizeram história ao colocar o Brasil nas principais premiações internacionais, como o Festival de Cannes, o Globo de Ouro e o Oscar.
No país de origem, os longas-metragens pautam conversas sobre a ditadura iniciada com o golpe militar de 1964.
Os silenciamentos trágicos causados pela violência e pela impunidade daquele período puderam se tornar debate nacional, estimulado pelas interpretações de Fernanda Torres e Wagner Moura.
Hoje o assunto pode circular, mas, naquele período, que se estendeu até 1985, o silêncio era a marca do sofrimento psicológico, destaca o psicanalista Rafael Alves Lima, professor de História e Filosofia da Psicologia na USP (Universidade de São Paulo).
“Quando as circunstâncias políticas suspendem a liberdade da palavra, falar e escutar torna-se temerário”, avalia o especialista, que participou de projetos dedicados ao testemunho de quem viveu o terror da ditadura e da violência policial contemporânea.
Segundo Lima, que é doutor em Psicologia Clínica pela USP e autor de Psicanálise na Ditadura (1964-1985): História, Clínica e Política (Editora Perspectiva), quando o Estado “não se responsabiliza pelos crimes que comete, o trauma tende a se eternizar e a se repetir”.
Em entrevista à BBC News Brasil, o pesquisador destaca a importância das políticas de memória, verdade e justiça como forma de trazer à tona “a dimensão psicológica do trauma” e de impedir repetições.
Em paralelo, na visão dele, a escuta do sofrimento “não pode se dar ao luxo de ignorar o contexto histórico e os conflitos sociais”.
Confira a seguir os principais trechos da entrevista.
Anúncio do filme ‘O Agente Secreto’ como finalista do Oscar 2026
Getty Images/via BBC
BBC Brasil News Brasil – Como era sofrer e ser escutado em um período de muita desconfiança, incerteza e violência?
Rafael Alves Lima – Acho que o silêncio é o critério fundamental para pensar no sofrimento sob regimes autoritários. A extensão do silêncio leva a um retraimento subjetivo, a uma autocensura implacável e a uma angústia permanente, dissolvida no cotidiano.
Quando as circunstâncias políticas suspendem a liberdade da palavra, falar e escutar torna-se temerário, uma vez que a chance de ser mal interpretado em qualquer ambiente e em qualquer relação era enorme. A música Na hora do almoço, do Belchior, retrata bem isso: é a palavra caindo fatalmente no desentendimento, é a mão suada e molhada de medo, uma tristeza no fundo do prato de comida que não combina com os desejos da juventude.
Acho que aqui aparece mais um elemento do sofrimento, que é a desesperança. A desesperança prolongada obscurece o sentido das coisas — a morte do futuro se torna a antessala da depressão. Então, escutar é esse processo de reabilitar a dignidade da palavra, sustentando-a na relação com o outro — e, por meio dessa relação, renovar o sentido das coisas, dos prazeres, da vontade de viver coletivamente.
Por isso que as práticas de escuta, nas mais diversas formas de psicoterapia, são políticas, diga-se de passagem, para o bem e para o mal. Ou seja, elas podem servir pra “ressilenciar” o sujeito, o que é catastrófico. Foi um tanto do que aconteceu de fato na ditadura, dentre aqueles que estavam de alguma maneira alinhados ideologicamente ao regime.
Ou, ao contrário, as práticas de escuta podem recusar o silêncio socialmente imposto, comprometendo eticamente a palavra com a liberdade, o que também aconteceu na ditadura, mas, neste caso, entre os que estavam na resistência ao regime.
BBC Brasil News Brasil – Quais as marcas psíquicas deixadas pela tortura, no caso de quem sobreviveu, e pelo desaparecimento forçado, no caso dos familiares?
Lima – A tortura é avassaladora. É um nível traumático profundo, que desorganiza a orientação do sujeito no tempo e no espaço. As percepções e sensações se fragmentam, as ligações entre o eu e o corpo se desintegram, é o que poderíamos chamar de experiência de despersonalização.
Lembro sempre de uma entrevista da ex-presidenta Dilma Rousseff a respeito da reação dela depois do golpe de 2016, e ela diz que a situação extrema da tortura não permite chorar, pois na dor física extrema você não tem consciência de nada, você luta por mais dez minutos de vida. É o que dá, é o que resta. Ficam as sequelas físicas, e também as psicológicas.
Sándor Ferenczi, um psicanalista húngaro brilhante da primeira geração de discípulos do Freud, tinha uma analogia muito interessante para explicar isso, a “autotomia psíquica”.
Digamos que é como uma lagartixa que, para distrair um predador e assim fugir e sobreviver, faz uma automutilação do seu próprio rabo e corre. Sob um trauma dessa magnitude, é como se fizéssemos algo parecido com nós mesmos, essa dissociação é um mecanismo de sobrevivência psíquica. No caso da lagartixa, o rabo se regenera depois. No caso do trauma humano, por sua vez, não há como apostar em algo como uma “autorregeneração espontânea” individual: é preciso juntar os estilhaços depois, organizar e dar contorno à experiência, e isso exige, necessariamente, da relação com o outro, mediada pela palavra.
Quando o Estado não se responsabiliza pelos crimes que comete, o trauma tende a se eternizar e a se repetir. O desaparecimento forçado leva a isso. Por exemplo, por mais que a família possa vir a ter a consciência de que a pessoa depois de tantos anos desaparecida muito provavelmente esteja morta, fica como que um vácuo, pois os rituais de despedida do velório e do enterro são fundamentais para dar um contorno à dor da perda e encaminhar o luto.
Guardadas as devidas proporções, podemos arriscar uma aproximação com a pandemia de covid-19: não poder enterrar nossos mortos, não ter a chance de se despedir simbolicamente, é algo vivido como absolutamente trágico.
Os rituais são confirmações públicas que dão materialidade à morte, é neles que temos a vivência coletiva, concreta e palpável, de que a pessoa morta não vai voltar. Por isso, o desaparecimento sistemático dos corpos é uma tecnologia muito sinistra, pois leva as famílias a esperar indefinidamente por um retorno que nunca acontecerá. É um luto infinito, que impede que as pessoas sigam suas vidas. Então quando falamos em justiça de transição, em políticas de memória, verdade e justiça, trazemos à tona essa dimensão psicológica do trauma; ou seja, fazer justiça acaba sendo uma forma de promoção de saúde.
BBC Brasil News Brasil – É possível ter notícias do que sonhavam as pessoas no período da ditadura?
Lima – Temos algumas notícias por meio de textos autobiográficos, da chamada literatura de testemunho, de relatos e entrevistas e das produções culturais — e, às vezes mais especificamente, em casos clínicos publicados em livros ou revistas de psicoterapia e psicanálise da época. Ainda há muita pesquisa para ser feita nesse campo, mas podemos afirmar com segurança que o sonho cumpre essa função de radar político, de “termômetro” dos acontecimentos sociais.
Freud já dizia que há duas premissas do sonho: realizar desejos e proteger o sono. Sonhamos para satisfazer os prazeres, mas também para continuar dormindo, para suportar dormir. Na ditadura, os tipos de pesadelos envolvendo cenas de captura, interrogatórios, prisões e afins eram razoavelmente comuns, mas o que mais me parece interessante nisso é pensar que sonhar é uma forma de conciliar as dimensões do indivíduo e do social ao mesmo tempo.
Em todo caso, as fronteiras entre sonhos e pesadelos são muito sutis. Há, por exemplo, os sonhos em que o sujeito reencontra o familiar desaparecido; por um lado, realiza-se um desejo (do reencontro), mas também há o sofrimento da perda, da despedida impossível, que é reconfirmada no despertar.
O sonho é “termômetro político” porque ele é indomável, pois nem o sujeito nem a sociedade podem controlar o seu destino. Portanto, sonhar é uma forma de resistir, de reafirmar a vida em um cenário político de morte iminente. O Paulo Endo, professor do Instituto de Psicologia da USP, tem um artigo excelente sobre esse assunto. Lembraria também do último livro da psicanalista argentina Fabiana Rousseaux, que discute o uso legítimo dos sonhos em processos jurídicos de crimes de Estado na Argentina. Ou seja, o sonho dá materialidade ao testemunho, pois nas situações da violência do Estado a verdade dos acontecimentos não é estritamente factual, há também uma densidade experiencial que decorre dos fatos. O sonho é quem leva essa densidade em conta, tentando elaborar o impensável do trauma, dos medos sem contorno, daquilo que a nossa razão não dá conta de compreender.
Ao mesmo tempo, e por isso, sonhar é resistir porque é também esperançar — como dizem os mineiros do Clube da Esquina, os sonhos não envelhecem. Se fosse possível fazer um grande “inventário dos sonhos na ditadura”, eu arriscaria dizer que ele seria composto dessas duas expressões maiores: é nele que a violência se evidencia, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, é nele que renovamos nossas apostas de reafirmação da vida.
BBC Brasil News Brasil – No filme O Agente Secreto, o personagem Marcelo, interpretado por Wagner Moura, é obrigado a lidar com as violações e abusos de uma pessoa bastante poderosa, e isso ocorre durante a ditadura no Brasil. Chama atenção que ele não era alguém com propósitos de confrontação ao regime, mas sofreu perseguição mesmo assim. A que formas de violência os cidadãos ficam expostos durante um regime não democrático?
Lima – O filme é absolutamente brilhante no sentido de mostrar que havia uma camada espantosamente arbitrária de perseguições na ditadura. É fato que a ditadura assassinou, perseguiu e torturou militantes organizados, o que levou uma parte deles (os que sobreviveram) ao exílio forçado ou à clandestinidade, mas não podemos ser ingênuos de acreditar que a violência de Estado se esgotava aí.
Havia um método, certamente, mas tratava-se de um método que tinha justamente a difusão psicológica do terror como um princípio fundamental. Era um modo inclusive de misturar as fronteiras entre o público e o privado, como que mantendo a densidade do ar sempre pesada, com essa sensação contínua de vigilância e perseguição.
Há muitas trajetórias de professores na ditadura brasileira parecidas com a de Marcelo, e eu penso que o cenário acadêmico foi uma escolha totalmente acertada do filme. Há excelentes pesquisas em história da Psicologia, como os livros da Rosane Souza e do Juberto Massud de Souza; há inúmeras trajetórias interrompidas, seja dentro das universidades, seja nos grupos que constituíram os institutos e conselhos de regulamentação profissional.
A USP mesmo, onde eu fui aluno e hoje sou professor, tem uma lista expressiva de professores que foram perseguidos e demitidos sumariamente sob um eufemismo insidioso: a chamada “aposentadoria compulsória”. E isso aconteceu em todos os departamentos. Entre as professoras da Psicologia, há o caso bastante conhecido da Iara Iavelberg, relatado no documentário Em Busca de Iara. Também houve assassinatos e desaparecimentos de alunas e alunos, como o da Aurora Furtado, que recebeu uma diplomação honorífica em 2024.
Concordo com o que você disse, em muitos desses casos não havia resistência ou confrontação direta. Havia crítica e discordância, evidentemente, mas nada que se pareça com uma ação organizada que viesse a ameaçar o regime ou algo do tipo. Muitos cidadãos eram contrários ao regime mas jamais chegariam a intimidar de fato os militares no poder — e, mesmo assim, mesmo sem representar uma ameaça real, esses cidadãos eram mortos, digamos, como que por capricho dos seus assassinos.
É o tema da “pirraça” em O Agente Secreto. O algoz que persegue e ameaça o professor e sua então companheira não era um militar caricato, mas, sim, um civil, um empresário rico e prepotente ligado organicamente ao regime, o típico beneficiário de ocasião que instrumentaliza relações com o poder vigente para oprimir e mandar matar.
Por isso se fala em ditadura “civil-militar”; é uma expressão que divide opiniões, mas tem o mérito de ressaltar a aliança entre os militares no poder e as elites civis, um casamento oportunista motivado pelo dinheiro e pelo autoritarismo, certamente, mas assentado em valores comuns retrógrados e coléricos.
Não por acaso a ciência vira alvo em situações ditatoriais: os ditadores via de regra odeiam a ciência e, por conseguinte, o pensamento crítico. Qualquer semelhança com o que Trump vem fazendo com as universidades norte-americanas não é, infelizmente, mera coincidência. É por isso que qualquer desentendimento em torno de um motivo banal, como uma desavença em uma mesa de restaurante, ou uma negociação que não avança, acaba por ser a véspera da morte.
Quando um agente do Estado, ou um miliciano, ou um grupo paramilitar, passa a agir junto a um Estado deliberadamente sanguinário como foi o Brasil sob o regime militar, com toda a partilha de tecnologias de morte e desaparecimento, a violência arbitrária escalona vertiginosamente, transborda de forma irreversível.
BBC Brasil News Brasil – Há um certo pensamento de que a ditadura só tenha atingido pessoas que se opuseram ao regime ou que pertencessem à classe média branca, com acesso às universidades. Na sua avaliação, os brasileiros reconhecem os efeitos da ditadura sobre a população em geral?
Lima – Eu tendo a achar que estamos caminhando na direção de uma maior abertura do reconhecimento da violência de Estado. Falamos de O Agente Secreto, mas eu lembraria também de Ainda Estou Aqui, ambos são plataformas fundamentais nessa direção.
No caso do filme do Walter Salles, há o destaque para a família do desaparecido, o deputado Rubens Paiva: os familiares dos mortos e desaparecidos também são vítimas da violência de Estado. No caso do Kleber Mendonça Filho, há toda uma narrativa muito bem elaborada que vai sustentar que a universidade não é um bloco tão hegemônico quanto pode parecer quando vista de fora. Em se tratando de uma universidade pública, em um território como Pernambuco, há uma expressiva diversidade racial, de classe e mesmo de origem de seus docentes.
A classe trabalhadora, negra e periférica, tende a dizer: “sempre houve violência”, “sempre fomos tolhidos em nossos direitos”, “nunca foi fácil” etc. Por isso é tão difícil trabalhar os efeitos da ditadura na população em geral. É por isso, justamente, que eu penso que o tema da violência de Estado é estratégico, porque, por um lado, ele traz visibilidade para todos aqueles crimes cometidos na calada da noite, quando não sob a luz do dia mesmo, sem qualquer pudor.
Por outro lado, lançar luz sobre esse tema desnaturaliza isso que é transmitido como um destino inelutável, como esse “sempre foi assim”. É muito forte a cena em que a Fátima, personagem da Alice Carvalho, reage (e veja: uma mulher, nordestina, sem os privilégios da branquitude e da riqueza) de dedo em riste, no restaurante, proferindo palavrões e esculhambando aquele que viria a ser seu algoz. Dá vontade de aplaudir, porque é uma cena que sintetiza muito do que ainda está para ser feito em termos de luta por reconhecimento. Quando a percepção da violência de Estado vier acompanhada de uma resposta, de uma recusa ao silenciamento, gerando uma reação popular de fato, nós vamos ganhar uma ampliação da consciência social sobre esse problema que nós ainda não tivemos a oportunidade de testemunhar.
Se os brasileiros se contagiarem com a coragem política de uma Fátima, de um Marcelo, de uma família Paiva, talvez tenhamos a chance de não repetir os mesmos erros nos quais, infelizmente, ainda insistimos.
Cena de O Agente Secreto com as atrizes Suzy Lopes, Fafá Dantas e Geane Albuquerque, além do ator Wagner Moura, ao centro
Divulgação
BBC Brasil News Brasil – A experiência da ditadura brasileira costuma ser contada por meio de lacunas, já que os projetos de investigação, documentação e reparação por parte do Estado não são contínuos e dependem do interesse dos governantes em exercício. A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, por exemplo, foi extinta durante o mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro e retomada pelo atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, em julho de 2024. No mesmo ano, porém, em março, a gestão Lula cancelou os eventos oficiais planejados para relembrar os 60 anos do golpe militar. De que maneira a falta de interesse e consistência na produção de memória sobre este período pode afetar os brasileiros?
Lima – Esta pergunta é fundamental. Eu começaria lembrando que a memória é, sem dúvidas, um dos temas mais fascinantes da história da psicologia moderna. A memória compõe o conjunto dos chamados processos psicológicos básicos, ao lado da atenção, sensação, percepção, aprendizagem, etc. O estudo científico e experimental da memória passou pela mensuração do que é lembrado e do que é esquecido. Por quanto tempo algo fica na memória? Por quais razões certos conteúdos permanecem e outros não? São perguntas decisivas por exemplo para o campo da psicopatologia, é um instrumento para estabelecer diagnósticos diferenciais com doenças neurológicas, como quadros ligados à senilidade do tipo doença de Alzheimer e outras.
Há outros interesses pela dimensão da memória na Psicologia Social, na Filosofia moderna, na Antropologia e na história oral. Então veja que há muitas razões, biológicas, psicológicas e sociais, que explicam por que construímos narrativas inteiras de vida baseadas em cenas inevitavelmente fragmentadas da memória.
Freud desenvolveu uma teoria preciosa sobre a memória, o que ele chamou de “lembranças encobridoras”. Ele estava intrigado com o fato paradoxal de que por vezes nós somos plenamente capazes de lembrar coisas aparentemente irrelevantes em detalhes muito ricos (a cor da roupa de uma boneca, o cheiro de uma flor, a textura e toda a sensação tátil de um toque com a ponta dos dedos) e, na mesma medida, não termos a mínima lembrança dos eventos mais traumáticos pelos quais passamos na vida. Para a psicanálise, as lembranças mais vívidas e nítidas encobrem as experiências traumáticas como uma forma de sobrevivência psíquica, por vezes física também.
O Agente Secreto aborda isso brilhantemente. Um adulto é capaz de lembrar de detalhes de um filme de terror marcante da infância, mas é incapaz de lembrar do que sentiu no dia em que seu pai morreu. O mais interessante é que isso tende a ser um sinal de saúde psíquica, é fundamental conseguirmos suspender minimamente a lembrança direta de um trauma para apegarmo-nos aos vizinhos dele. No entanto, nada nesse campo é acidental. Por um lado, aquilo que se lembra é lembrado por algum motivo, e em geral é a melhor pista que temos para alcançar o trauma propriamente dito. Por outro, aquilo que se esquece é esquecido por algum motivo, em geral porque lembrar do trauma dia e noite, como uma percepção que não se atenua, seria absolutamente insuportável, um ciclo infinito de retraumatização.
Aqui a psicologia encontra a política: é preciso lembrar para não repetir, é fato. Mas como elaborar a dor de lembrar dos nossos traumas mais agudos? Como lidar com essas memórias traumáticas que são sempre fragmentadas? E quando os traumas vividos ou sentidos como individuais são, também, ou sobretudo, coletivos? É um enorme desafio.
O presidente Lula foi bastante criticado por este recuo em relação aos 60 anos do golpe. Sou da posição de que ele jamais poderia ter se dado “ao luxo” de ignorar essa data. A sanha golpista e autoritária no Brasil é persistente demais para baixarmos a guarda. Vide o fatídico 8 de janeiro. Do ponto de vista acadêmico, acho que há muito interesse na investigação científica da memória e nas suas consequências sociais e culturais. Espero que haja mais vontade política para dar mais solidez à memória social da ditadura, combinando ciência e compromisso social. O fascismo cresce no mundo todo e nós não podemos nos dar ao luxo de vacilar.
BBC Brasil News Brasil – Na ditadura, o Estado, encarregado de assegurar os direitos dos cidadãos, foi o responsável por violações, mortes e retirada de direitos. O que significa, em termos psíquicos, ser violado pelo agente que deveria prover a proteção e a segurança?
Lima – É um descompasso estrutural. Há a definição sociológica clássica de Max Weber de que o Estado detém o monopólio legítimo da violência. Entre várias interpretações possíveis dessa máxima, está justamente essa ideia de que todos estão sob o jugo da lei, mas, no autoritarismo, os agentes do Estado se confundem com a lei, acreditam ser algo como a versão encarnada da Lei. Isso equivaleria a dizer que bem, se eu sou a lei, posso exercê-la sem negociações ou concessões — portanto, sou a lei porque me coloco acima dela. Ora, a gravidade de nós nunca termos julgado adequadamente os crimes cometidos pelos ditadores é enorme. São os impasses da Lei da Anistia, cujo legado de impunidade se faz presente até hoje.
Mas, voltando à pergunta, é comum que o agente do Estado se sinta “do lado certo da história” por ser esse representante legítimo da violência. O discurso geral dos militares era de “proteção da democracia”, “contra as investidas do comunismo internacional” e afins. Ora, na verdade, a democracia esteve destruída por 21 anos sob um discurso que dizia defendê-la! Diante desse paradoxo, o cidadão médio experiencia uma ruptura profunda na confiança básica no mundo social. Pensando em termos de desamparo, como dizia Freud, podemos sugerir que há uma produção histórica e discursiva intencional desse estado psíquico de desproteção, como que remetendo ao bebê que depende inteiramente das figuras parentais para o cuidado e a sobrevivência. As consequências dessa perda de confiança são graves, psíquica e socialmente falando.
BBC Brasil News Brasil – Para muitas pessoas, falar sobre a ditadura é mexer em feridas muito agudas, e às vezes isso é usado como argumento para que o assunto continue silenciado – um termo frequentemente evocado é “pacificação”. Além disso, o julgamento de militares envolvidos nunca foi realizado. Qual a importância do reconhecimento das violações, da reparação delas e da punição dos agentes da ditadura para o processo do luto?
Lima – O grande problema dessa ideia de “pacificação” é a invenção de uma falsa equivalência, que é um dos substratos nefastos da nossa famigerada Lei da Anistia. Esse álibi tendencioso de que “houve violência de ambas as partes” supõe uma horizontalidade de forças que nunca existiu. Não há proporcionalidade quando se compara a força da maquinaria do Estado contra grupos limitados na resistência, é evidente que há um desequilíbrio entre o opressor e o oprimido. Reconhecer as violações deveria ser, nesses contextos, o primeiro passo na direção de uma reparação. Tentou-se fazer isso por exemplo com as Comissões da Verdade. Se políticas dessa natureza serão capazes de pacificação não sabemos, pois mal conseguimos dar os primeiros passos.
BBC Brasil News Brasil – Você fez parte do projeto Clínicas do Testemunho, inserido nas políticas de reparação do Estado por meio da Comissão de Anistia e que propõe a escuta do sofrimento psíquico de vítimas da ditadura brasileira. O que a censura externa, a ameaça vinda do próprio Estado e o clima de segredo silenciaram dentro das pessoas?
Lima – O projeto Clínicas do Testemunho foi uma das experiências mais importantes na minha formação, posso falar por mim, mas é preciso lembrar que há livros e artigos publicados por todos os grupos que fizeram parte dele, no Rio de Janeiro, em Porto Alegre e aqui em São Paulo. O nosso projeto foi chamado de Clínica do Testemunho nas Margens, e dentre os vários resultados importantes eu destacaria essa ampliação da percepção da violência de Estado por parte do cidadão comum.
Havia, por exemplo, quem tinha dificuldade de reconhecer que sofreu algum tipo de violência na ditadura, e que era justo que entrasse com um processo de reparação. Pessoas que não estavam organizadas em grupos ou partidos clandestinos, mas que perderam seus empregos sumariamente porque eram do sindicato. Escutamos familiares de vítimas e de pessoas desaparecidas em um luto emperrado, inconcluso.
Quebrar o silêncio e o segredo é fundamental, pois quando a palavra circula, o sofrimento pode ser elaborado. As Clínicas do Testemunho sofreram um abalo enorme em 2016 em função da conjuntura política e pouco tempo depois o projeto acabou sendo descontinuado. Acho que ainda há um trabalho de recuperação dessa experiência a ser feito.
BBC Brasil News Brasil – Em outro projeto, o coletivo Margens Clínicas, você e outros psicanalistas escutam as atuais vítimas do Estado brasileiro, sobretudo as populações negras e periféricas atingidas pela violência policial. Qual a relação entre esta violência atual, cometida em um período democrático, e o período ditatorial brasileiro?
Lima – Estive com o Margens Clínicas por 12 anos, acabei me afastando no ano passado em função da docência na USP, mas o coletivo segue em plena atividade. Mantivemos ao longo desses anos todo um debate sobre a continuidade e a descontinuidade entre a violência de Estado do período ditatorial e a violência policial, que é a violência de Estado do tempo presente.
Quando a gente olha para a violência policial nas suas quatro dimensões fundamentais (raça, classe, gênero e território), fica evidente que o alvo é repetidamente o mesmo: o corpo negro, jovem, periférico; no caso do homem é o corpo exterminado, “matável”; e no da mulher, o corpo violentado sexualmente. Foi um momento de problematizar essa continuidade. Tenho a impressão de que o debate avançou muito de lá para cá.
Em termos de continuidade, penso que a violência policial faz uso dos mesmos instrumentos da tecnologia da violência da ditadura (mortes, desaparecimentos etc.). Foram todos “testados em laboratório” entre 1964 e 1985, as escolas brasileiras da tortura remontam necessariamente a esse momento da nossa história.
Mas em termos de diferenças e descontinuidades, penso que há uma violência de Estado no Brasil historicamente mais profunda, que remete à escravidão e ao racismo estrutural que persiste até os dias de hoje.
As populações negras, pobres e marginalizadas foram ininterruptamente violentadas ao longo dos séculos, e isso parece marcar um contraste importante. As ferramentas da violência se sofisticaram na ditadura, certamente, e isso tem um impacto enorme na violência atual. Mas não posso deixar de lembrar que o alvo por excelência do extermínio e do genocídio no Brasil, que é o corpo negro, tem alguns séculos a mais de história do que o regime militar.
BBC Brasil News Brasil – Como reconhecer a violência do Estado se ela se tornou tão cotidiana e impune?
Lima – É muito difícil. A banalidade da violência nos meios de comunicação, a velocidade das informações, a sensibilidade fica adormecida, e isso tudo é muito perigoso do ponto de vista social. Vivemos sob um bombardeio de imagens, quase sempre sem palavras: é a foto da criança sozinha no aeroporto depois de um bombardeio, é o corpo morto de um refugiado na beira da praia. Não tem nome, não tem história — tem um impacto, que deveria ser profundo, mas acaba se tornando fugidio.
Sofrer à distância gera esse efeito de que nosso papel foi cumprido: eu me sensibilizo muito rapidamente, porque logo em seguida eu preciso voltar ao trabalho, correr para buscar as crianças na escola, enfim, volto bruscamente à minha vida cotidiana. Todo dia. No médio e longo prazo, a percepção adormece. Deve haver algo como uma disposição fisiológica nesse adormecimento das emoções, algo como um recurso adaptativo, que retira da consciência imediata essa exposição contínua à violência. Mas isso não significa que, em um nível mais subliminar da consciência, não estejamos o tempo todo em estado de alerta.
Há uma carga de ansiedade imperceptível, mas que nos adoece, que se transforma em medo de sair de casa, em medo do outro, do estrangeiro e afins. Reconhecer a violência de Estado é ter consciência dela, consciência inclusive para agir, tomar medidas políticas em relação a ela. Mas há algo que se instala em nós para além da consciência, que se converte em um adoecimento cotidiano, insistente, que banalizamos mais do que deveríamos.
Cena de O Agente Secreto com os atores Licínio Januário, Hermila Guedes, Wagner Moura, Lula Terra, João Vitor Silva e Isabél Zuaa
Divulgação
BBC Brasil News Brasil – No seu livro você levanta uma hipótese sobre a expansão da psicanálise brasileira durante a ditadura: com algumas exceções, ela teria predominantemente servido a uma espécie de adaptação da pessoa ao próprio sofrimento, sem considerar as condições de surgimento do que a fazia sofrer. Em regimes de exceção e de ausência de democracia, o que os profissionais da escuta devem garantir como compromisso ético?
Lima – Essa é uma reflexão importantíssima, que fica como um saldo das experiências sinistras da ditadura.
A escuta, na psicologia em geral, e na psicanálise especificamente, não pode se dar ao luxo de ignorar o contexto histórico, os conflitos sociais, sobretudo quando a democracia está suspensa, ou está “respirando por aparelhos”, como foi um pouco o caso do que vivemos de 2016 até muito recentemente. O sofrimento psíquico é também social e político — ou melhor, o nosso sofrimento é psíquico porque ele é social e político. O modo pelo qual nós nomeamos o nosso sofrimento é codificado socialmente.
Na ditadura, por exemplo, o vocabulário das psicopatologias passa a se esparramar pelas camadas médias dos grandes centros urbanos. Revistas da época traziam reportagens sobre depressão, uso de substâncias, ansiedade, conflitos de ordem sexual e por aí vai. Aos poucos, expressões que pertenciam em geral às classes profissionais especializadas (na Medicina e na Psicologia) passam a designar os sofrimentos populares: isso que eu sinto é tristeza ou é depressão? É um aperto no peito ou é uma crise de pânico? É uma “runheira” ou uma ansiedade?
Acho que um dos grandes compromissos éticos é preservar alguma distância crítica em relação a essas categorias diagnósticas, estarmos permanentemente nos perguntando o que elas estão designando, o que elas querem dizer. E, sobretudo, que tipo de subjetividade elas produzem. Sujeitos psicopatologizados são mais domesticáveis? Ou obedientes? Refazendo a pergunta do ponto de vista daquele que escuta: minha prática profissional ajuda as pessoas em sofrimento a se libertarem ou as empurra ainda mais para o silenciamento e a opressão? O compromisso ético deveria se orientar para a emancipação do sujeito. Na ditadura houve quem trabalhasse contra ela, e justamente, por isso hoje devemos reiterar que o nosso compromisso fundamental com o outro deve visar garantir sempre esse caráter emancipatório.
BBC Brasil News Brasil – O enfrentamento à pandemia de covid-19 no Brasil foi marcado por mais de 700 mil mortes, falta de testes, atraso na compra de vacinas, notícias falsas, desencorajamento do uso de máscaras, buzinaço em frente a hospitais, divulgação do uso de cloroquina e ausência de oxigênio para tratamento de pessoas internadas com falta de ar no Amazonas, dentre outros problemas. Pesquisadores apontaram que mais de 200 mil mortes poderiam ter sido evitadas. Apesar de o relatório final da CPI da pandemia apontar indícios de crimes cometidos por agentes públicos e propor o indiciamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, os responsáveis pela gestão não foram julgados. O que esta falta de resposta traz de efeitos psíquicos à população afetada?
Lima – Isso é outro clássico do déficit democrático: a perda da autonomia das ciências. Quando um governo resolve decidir o que uma população deve tomar (cloroquina, ivermectina e afins) em uma pandemia a despeito da ciência, temos um sinal inequívoco de que a democracia não vai bem. O governo foi trocando a direção dos ministérios (da Saúde sobretudo), e trocando, e trocando… Até que não sobrasse nenhum quadro técnico-científico e o lugar fosse ocupado por um general do Exército! Ora, uma população que elege nas urnas um representante tende a se orientar por aquilo que ele determinar, ainda mais em um momento de catástrofe social como foi a pandemia. Se essa liderança política passa mensagens no mínimo ambíguas — e a gente sabe o quanto Bolsonaro zombou das mortes de forma macabra —, a população perde a base simbólica da confiança na palavra e na sustentação do laço social.
Daí só restam duas posições: ou a adesão acrítica e alienada ao líder, que no fundo é uma posição de ruptura com o tecido social em favor de um “salve-se quem puder” sem precedentes; ou a posição crítica, de denúncia da violência, de reposicionamento da política em favor da sustentação democrática.
A história provou que o desgoverno Bolsonaro arrebentou com o tecido social mais elementar. A tutela dos militares em relação à democracia é muito perniciosa, esse autodeclarado “poder moderador” é um embuste monstruoso. Acho que o julgamento do golpe de 8 de janeiro é um marco importante, indica uma transformação nesse cenário que vem sendo o nosso desde a reabertura democrática até aqui. Mas essa base simbólica de confiança, que sustentaria um projeto comum de sociedade, está devastada.

Fonte: G1 Entretenimento

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Oscar 2026 é neste domingo; indicados, favoritos, onde assistir e tudo que você precisa saber


Indicados ao Oscar de Melhor Filme em 2026: ‘Bugonia’, ‘F1: O filme’, ‘Frankenstein’, ‘Hamnet’, ‘Marty Supreme’, ‘Uma Batalha Após a Outra’, ‘O Agente Secreto’, ‘Valor Sentimental’, ‘Pecadores’ e ‘Sonhos de Trem’
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O Oscar 2026 acontece finalmente neste domingo (15), em Los Angeles, nos Estados Unidos — apesar de ser a edição mais brasileira da história da premiação, com cinco indicações para representantes do país.
“O agente secreto” concorre nas categorias de melhor filme, melhor ator (Wagner Moura), melhor seleção de elenco e melhor filme internacional. Já a categoria de melhor fotografia tem Adolpho Veloso, de “Sonhos de trem”.
Com apresentação do comediante Conan O’Brien pelo segundo ano seguido, a premiação começa às 20h (horário de Brasília). A TV Globo começa a transmissão ao vivo após o “Fantástico”, às 21h. Você também pode assistir ao vivo pelo g1.
“Pecadores” bateu o recorde histórico e tem 16 indicações. Mesmo assim, na categoria principal, fica um pouco atrás do favoritismo de “Uma batalha após a outra”, com 13 no total. Entenda melhor a situação das disputas nas categorias principais.
Na terceira colocação, “Frankenstein”, “Marty Supreme” e “Valor Sentimental” têm 9 cada.
‘O agente secreto’ recebe quatro indicações ao Oscar
Veja abaixo a lista completa dos indicados, os favoritos e quem deveria ganhar:
Melhor filme
‘Bugonia’
‘F1: O filme’
‘Frankenstein’
‘Hamnet: A vida antes de Hamlet’
‘Marty Supreme’
‘Uma batalha após a outra’
‘O agente secreto’
‘Valor sentimental’
‘Pecadores’
‘Sonhos de trem’
Deve ganhar: ‘Uma batalha após a outra’
Merece ganhar: ‘Valor sentimental’
Direção
Chloé Zhao, ‘Hamnet: A vida antes de Hamlet’
Josh Safdie, ‘Marty Supreme’
Paul Thomas Anderson, ‘Uma batalha após a outra’
Joachim Trier, ‘Valor sentimental’
Ryan Coogler, ‘Pecadores’
Deve ganhar: Paul Thomas Anderson, ‘Uma batalha após a outra’
Merece ganhar: Paul Thomas Anderson, ‘Uma batalha após a outra’
Atriz
Jessie Buckley, ‘Hamnet: A vida antes de Hamlet’
Rose Byrne, ‘Se eu tivesse pernas, eu te chutaria’
Kate Hudson, ‘Song Sung Blue – Um sonho a dois’
Renate Reinsve, ‘Valor sentimental’
Emma Stone, ‘Bugonia’
Deve ganhar: Jessie Buckley, ‘Hamnet: A vida antes de Hamlet’
Merece ganhar: Jessie Buckley, ‘Hamnet: A vida antes de Hamlet’
Ator
Timothée Chalamet, ‘Marty Supreme’
Leonardo DiCaprio, ‘Uma batalha após a outra’
Ethan Hawke, ‘Blue Moon’
Michael B. Jordan, ‘Pecadores’
Wagner Moura, ‘O agente secreto’
Deve ganhar: Michael B. Jordan, ‘Pecadores’
Merece ganhar: Wagner Moura, ‘O agente secreto’
Ator coadjuvante
Benicio Del Toro, ‘Uma batalha após a outra’
Jacob Elordi, ‘Frankenstein’
Delroy Lindo, ‘Pecadores’
Sean Penn, ‘Uma batalha após a outra’
Stellan Skarsgård, ‘Valor sentimental’
Deve ganhar: Sean Penn, ‘Uma batalha após a outra’
Merece ganhar: Stellan Skarsgård, ‘Valor sentimental’
Atriz coadjuvante
Elle Fanning, ‘Valor sentimental’
Inga Ibsdotter Lilleaas, ‘Valor sentimental’
Amy Madigan, ‘A hora do mal’
Wunmi Mosaku, ‘Pecadores’
Teyana Taylor, ‘Uma batalha após a outra’
Deve ganhar: Amy Madigan, ‘A hora do mal’
Merece ganhar: Inga Ibsdotter Lilleaas, ‘Valor sentimental’
Roteiro original
‘Blue Moon’
‘Foi apenas um acidente’
‘Marty Supreme’
‘Valor sentimental’
‘Pecadores’
Deve ganhar: ‘Pecadores’
Merece ganhar: ‘Foi apenas um acidente’
Roteiro adaptado
‘Uma batalha após a outra’
‘Hamnet: A vida antes de Hamlet’
‘Bugonia’
‘Sonhos de trem’
‘Frankenstein’
Deve ganhar: ‘Uma batalha após a outra’
Merece ganhar: ‘Uma batalha após a outra’
Montagem
‘F1: O filme’
‘Marty Supreme’
‘Uma batalha após a outra’
‘Valor sentimental’
‘Pecadores’
Deve ganhar: ‘Uma batalha após a outra’
Merece ganhar: ‘Uma batalha após a outra’
Fotografia
‘Pecadores’
‘Uma batalha após a outra’
‘Sonhos de trem’
‘Frankenstein’
‘Marty Supreme’
Deve ganhar: ‘Uma batalha após a outra’
Merece ganhar: ‘Uma batalha após a outra’
Animação
‘Guerreiras do K-Pop’
‘Zootopia 2’
‘Arco’
‘Elio’
‘A Pequena Amélie’
Deve ganhar: ‘Guerreiras do K-Pop’
Merece ganhar: ‘Guerreiras do K-Pop’
Som
‘F1: O filme: O filme’
‘Frankenstein’
‘Uma batalha após a outra’
‘Pecadores’
‘Sirât’
Deve ganhar: ‘F1: O filme’
Merece ganhar: ‘F1: O filme: O filme’
Documentário
‘Alabama: Presos do sistema’
‘Embaixo da luz de neon’
‘Rompendo rochas’
‘Um Zé Ninguém contra Putin’
‘A vizinha perfeita’
Deve ganhar: ‘A vizinha perfeita’
Merece ganhar: ‘A vizinha perfeita’
Direção de arte
‘Frankenstein’
‘Hamnet: A vida antes de Hamlet’
‘Marty Supreme’
‘Uma batalha após a outra’
‘Pecadores’
Deve ganhar: ‘Frankenstein’
Merece ganhar: ‘Frankenstein’
Canção original
‘Dear Me’, de ‘Diane Warren: Relentless’
‘Golden’, de ‘Guerreiras do K-Pop’
‘I Lied to You”’, de ‘Pecadores’
‘Sweet Dreams of Joy’, de ‘Viva Verdi!’
‘Train Dreams’, de ‘Sonhos de trem’
Deve ganhar: ‘Golden’, de ‘Guerreiras do K-Pop’
Merece ganhar: ‘Golden’, de ‘Guerreiras do K-Pop’
Filme internacional
‘Foi apenas um acidente’ – França
‘O agente secreto’ – Brasil
‘Valor sentimental’ – Noruega
‘A voz de Hind Rajab’ – Tunísia
‘Sirât’ – Espanha
Deve ganhar: ‘Valor sentimental’
Merece ganhar: ‘Foi apenas um acidente’
Efeitos visuais
‘Avatar: Fogo e cinzas’
‘F1: O filme’
‘Jurassic World: Recomeço’
‘O Ônibus Perdido’
‘Pecadores’
Deve ganhar: ‘Avatar: Fogo e cinzas’
Merece ganhar: ‘Avatar: Fogo e cinzas’
Figurino
‘Avatar: Fogo e cinzas’
‘Frankenstein’
‘Hamnet: A vida antes de Hamlet’
‘Marty Supreme’
‘Pecadores’
Deve ganhar: ‘Frankenstein’
Merece ganhar: ‘Frankenstein’
Seleção de elenco
‘Hamnet: A vida antes de Hamlet’
‘Marty Supreme’
‘Uma batalha após a outra’
‘O agente secreto’
‘Pecadores’
Deve ganhar: ‘Pecadores’
Merece ganhar: ‘O agente secreto’
Trilha sonora original
‘Bugonia’
‘Frankenstein’
‘Hamnet: A vida antes de Hamlet’
‘Uma batalha após a outra’
‘Pecadores’
Deve ganhar: ‘Pecadores’
Merece ganhar: ‘Pecadores’
Maquiagem e cabelo
‘Frankenstein’
‘Kokuho’
‘Pecadores’
‘Coração de lutador: The Smashing Machine’
‘A Meia-Irmã Feia’
Deve ganhar: ‘Frankenstein’
Merece ganhar: ‘Frankenstein’
Curta-metragem com atores
‘Butcher’s Stain’
‘A Friend of Dorothy’
‘O drama menstrual de Jane Austen’
‘The Singers’
‘Two People Exchanging Saliva’
Deve ganhar: ‘Two People Exchanging Saliva’
Animação de curta-metragem
‘Butterfly’
‘Forevergreen’
‘The Girl Who Cried Pearls’
‘Retirement Plan’
‘The Three Sisters’
Deve ganhar: ‘Butterfly’
Documentário em curta-metragem
‘Quartos vazios’
‘Armado com uma câmera: Vida e morte de Brent Renaud’
‘Children No More: “Were and Are Gone’
‘O Diabo não tem descanso’
‘Perfectly a Strangeness’
Deve ganhar: ‘Quartos vazios’

Fonte: G1 Entretenimento

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Quem é quem no elenco de O Agente Secreto? Veja em vídeo e infográfico


Como foi selecionado o elenco menos conhecido de ‘O agente secreto’
O elenco de “O agente secreto” já foi considerado a grande arma secreta por trás do sucesso do filme. Foi, pois a essa altura do campeonato todo mundo já está cansado de saber do tamanho do talento dos atores, muitas vezes desconhecidos, que dão vida aos mais variados personagens.
Tanto que uma das quatro categorias às quais a obra de Kleber Mendonça Filho concorre no Oscar 2026, neste domingo, é a de melhor seleção de elenco.
Quem é Gabriel Domingues, indicado a melhor seleção de elenco
Mas o que é, afinal, melhor seleção de elenco? Gabriel explica
“Acho isso uma parada muito interessante do meu trabalho, como eu conheci as cidades brasileiras acessando a cena cultural daquele lugar, seja a produção de cinema, seja a produção de teatro, seja produção de música. E aí isso me mobiliza muito”, conta o diretor de elenco do filme, Gabriel Domingues, em entrevista ao g1.
“Isso me deixa muito interessado e apaixonado pelo Brasil e pelas pessoas e pelos filmes assim. Porque o Brasil é muito maneiro, né? Assim, o Brasil tem muita coisa legal e tem muita gente legal – e tem muita gente legal querendo fazer filme.”
Para “O agente secreto”, o trabalho foi monumental. O carioca de 36 anos gerenciou uma convocatória que recebeu mais de 2 mil inscrições, mas que também envolveu uma procura ativa por nomes ideais para cada papel.

Guilherme Pinheiro/g1
Isso ajuda a explicar a descentralização geográfica do elenco. No infográfico acima, é possível encontrar atores mais ou menos conhecidos de diversos cantos do país, como Pernambuco, Rio Grande do Norte, Alagoas, Ceará, Minas Gerais, São Paulo e Paraná.
Muito vêm ainda de projetos passados de Domingues. Por essas que também é fácil observar que muitos membros do elenco de “O agente secreto” têm no currículo alguma participação na série “Cangaço novo”, como é o caso da agora renomada Alice Carvalho e do não tão badalado (ainda) Joálisson Cunha.
“Conheci ele em João Pessoa, trocando ideia com a cena de lá. Ele tem uma forma de existir muito interessante e sempre enriquece a cena com a própria forma de falar”, conta Domingues.
É com essa mentalidade que chegou ao “olhar muito expressivo” do potiguar Kaiony Venâncio — o assassino “com uma uma pulsão de estranheza” do filme — ou à “paulistanidade industrial” do mineiro Luciano Chirolli.
Gratidão
Se o processo é técnico, o resultado é muitas vezes emocional. Ele ainda se comove ao falar da estreante Laura Lufési, que interpreta a personagem que conecta o passado e o presente na trama.
Com um pedido específico do diretor para o papel, Domingues sentiu que estava mais perto de encontrar a atriz ideal ao receber o teste em vídeo da jovem mineira, que usou roupas de época e fitas cassete para a gravação.
Depois de uma nova encenação ao vivo com Mendonça Filho, Lufési conseguiu seu primeiro trabalho no cinema.
“Foi uma leitura super emocionante assim. E ela nunca tinha feito nada e a gente aprovou ela pro papel. E aí a gente falou que ela ia contracenar com Wagner (Moura) ela quase caiu para trás. Ela ficou passada e aí foi acho que foi o primeiro trabalho dela, sabe? Ela é muito grata e eu sou muito grato por ela também. É incrível.”
Gabriel Domingues é o diretor de elenco de ‘O agente secreto’
Divulgação

Fonte: G1 Entretenimento

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‘Preciso ser invisível e onipresente no set’: conheça Victor Jucá, fotógrafo de ‘O Agente Secreto’


Set das filmagens de “O Agente Secreto”, no Recife
Victor Jucá
Diferente de um diretor de fotografia, um fotógrafo still (ou fotógrafo de cena) é responsável por fazer os cliques que serão utilizados nos materiais de divulgação de um filme.
Em “O Agente Secreto”, essa função ficou a cargo de Victor Jucá, pernambucano de 41 anos, que trabalha com Kleber Mendonça Filho desde “O Som ao Redor” (2012).
Victor Jucá, 41 anos, fotógrafo de cena de “O Agente Secreto”
Ligia Tiemi Sumi
No longa indicado a quatro categorias no Oscar 2026, Jucá teve a missão de fazer a “vitrine” do projeto. É dele a famosa foto de Wagner Moura usando um orelhão amarelo, que rodou o mundo como uma das primeiras imagens divulgadas do filme.
VEJA: Fotos inéditas de bastidores de “O Agente Secreto” no fim da matéria.
Wagner Moura em ‘O Agente Secreto’
Victor Juca
“Eu falei ‘Waguinho, telefone pra tu’. Ele estava tomando um café no intervalo entre uma cena e outra e entrou na brincadeira. Sem dúvidas, é a minha foto com maior alcance.”, comenta o fotógrafo em entrevista ao g1.
Camuflado dentro do set
Kleber Mendonça Filho durante as gravações de “O Som ao Redor”
Victor Jucá
Primo de Kleber Mendonça Filho, Jucá destaca que a parceria entre fotógrafo e diretor exige uma sintonia fina.
Segundo ele, a grande vantagem do fotógrafo still é a mobilidade: enquanto a câmera de cinema muitas vezes está limitada a um trilho ou posição fixa, o fotógrafo consegue circular pelo cenário em busca de ângulos que o filme não alcança.

“Eu tenho liberdade para criar imagens que não estarão no corte final do filme, por exemplo. Mas para isso, eu preciso ser invisível para não atrapalhar e onipresente para não perder o ‘ouro’.”
Set de filmagens do filme “Fim de Festa”, do diretor Hilton Lacerda
Victor Jucá
Entre as peças criadas por ele estão a foto oficial do passaporte de Marcelo (Wagner Moura) e a que o protagonista carrega dentro do carro, mostrando Fátima (Alice Carvalho) e o pequeno Fernando (Enzo Nunes).
O pôster de “Aquarius”
Atriz Sônia Braga fotografada no set do filme ‘Aquarius’
Victor Jucá
Outro registro de sua autoria é a foto que se tornou o cartaz oficial de “Aquarius” (2016). A imagem traz Sônia Braga entrando no Edifício Oceania, na Praia de Boa Viagem, no Recife, em instante de bastidor.
Sônia Braga nos bastidores de “Aquarius”, no Edifício Oceania, Recife.
Victor Jucá
Assim como ocorreu com Wagner Moura no orelhão, a foto de Sônia não é um frame captado em um momento de gravação do filme, mas uma criação provocada pelo fotógrafo.
Kleber e Sônia durante gravações de “Aquarius”
Victor Jucá
“Tínhamos acabado de filmar na praia e a equipe ia atravessar a rua para voltar ao prédio. Sônia foi na frente com a assistente de direção e eu pedi para ela parar ali um instante. Ela ama ser fotografada”, relembra Jucá.
Sônia Braga e Lia de Itamaracá durante as gravações de “Bacurau”, em Parelhas, no Rio Grande do Norte
Victor Jucá
O corre e o close
Formado em Publicidade, Jucá iniciou sua carreira profissional na fotografia em 2007. Antes de se consolidar como still nos sets de filmagem, circulou por diversas áreas: de casamentos e campanhas publicitárias até festivais de dança e teatro.
A transição para o audiovisual ocorreu em 2009 e, no ano seguinte, iniciou a duradoura parceria com Kleber Mendonça Filho que segue até hoje.

Ao g1, o fotógrafo antecipou um projeto que a dupla pensa em colocar em prática após a temporada de premiações:
“Um livro com as fotos dos bastidores de O Agente Secreto. Ainda não batemos o martelo, mas temos esse plano de compilar esses registros onde eles merecem estar”, revela.
Atriz Maeve Jinkings no set das gravações de “O Som ao Redor”
Victor Jucá
Com mais de uma dúzia de produções no currículo, o portfólio de Jucá inclui títulos de peso do cinema nacional recente:
“Entre Irmãs” (Breno Silveira) (2017)
“Divino Amor” (Gabriel Mascaro) (2019)
“Fim de Festa” (Hilton Lacerda) (2019)
“Cangaço Novo” (Aly Muritiba e Fábio Mendonça) (2023)
“Sem Coração” (Nara Normande e Tião) (2024)
“Dormir de Olhos Abertos” (Nele Wohlatz) (2024)
Filmagens da série “Cangaço Novo” no interior da Paraíba.
Victor Jucá
CONFIRA: Abaixo, fotos inéditas das gravações de “O Agente Secreto”.
Kleber e Wagner durante as gravações de “O Agente Secreto”
Victor Jucá
Kleber e Wagner no set de “O Agente Secreto”
Victor Jucá
Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura durante as gravações de “O Agente Secreto”
Victor Jucá
Udo Kier no set de “O Agente Secreto”. Ator faleceu em novembro de 2025, semanas após a estreia brasileira do filme
Victor Jucá
Wagner Moura no set de “O Agente Secreto”
Victor Jucá
Wagner Moura em “O Agente Secreto”
Victor Jucá
Wagner Moura em “O Agente Secreto”
Victor Jucá

Fonte: G1 Entretenimento

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Tânia Maria, a garota-propaganda: como a atriz de ‘O Agente Secreto’ está faturando com seu carisma


Como a atriz Tânia Maria, de ‘O Agente Secreto’ está lucrando com seu carisma
Destaque em “O Agente Secreto”, a atriz Tânia Maria, de 79 anos, se tornou um dos nomes queridinhos do mercado publicitário brasileiro.
Desde o lançamento do longa, em novembro passado, a potiguar já estrelou cerca de 20 campanhas apenas no Instagram.
Em uma delas, ela aparece ao lado do cantor João Gomes, para divulgar uma marca de produtos de limpeza.
O carisma da artista também atraiu empresas de diferentes setores, como “Caixa”, “Volkswagen”, “Casas Bahia”, “Uber” e “Heineken”. Além de propagandas para “HBO Max”, “TNT” e “Youtube”.
Cachês
Tânia Maria vestida de vilã do filme ‘A Hora do Mal’ em publicidade na internet
Reprodução: redes sociais
O g1 teve acesso às informações de um dos contratos da atriz, referente à uma campanha do Governo de Pernambuco para a divulgação do Carnaval.
O pacote publicitário incluía uma inserção de 30 segundos na TV aberta, anúncios em outdoors e traseiras de ônibus, jingles em rádios e postagens nas redes sociais.

Realizada pela Empetur (Empresa de Turismo de Pernambuco), a campanha teve um orçamento de R$ 6.992.040,38. Pelo trabalho, a atriz recebeu um cachê de R$ 200 mil.
“A escolha de Tânia tem a ver com o carisma dela e esse momento de destaque de Pernambuco no cinema mundial. A ideia foi conectar essa visibilidade com o nosso Carnaval”, disse Eduardo Loyo, presidente da Empetur, ao g1.
Na prateleira dos grandes
Tânia Maria está sendo agenciada por Ilana Brakarz, cujo portfólio inclui nomes do primeiro escalão da TV Globo como Isis Valverde, Gabriel Leone e Humberto Carrão.

O g1 procurou a agência para confirmar o número exato de contratos ativos da atriz no momento, mas a equipe optou por não abrir detalhes sobre as parcerias comerciais.
O poder do engajamento
Embora tenha menos de 150 mil seguidores no Instagram, as métricas da atriz revelam um poder de entrega que supera o de muitos influenciadores grandões por aí.
Um exemplo desse fenômeno é sua colaboração recente com a rede de fast food “Burger King”. No vídeo, ela celebra a indicação de “O Agente Secreto” ao Oscar sob a legenda de “diva do cinema”. O conteúdo superou a marca de 11 milhões de visualizações.
Nem sempre foi assim
Cena do filme ‘Bacurau’
Victor Jucá
Antes de ser descoberta pelo cinema, Sebastiana Maria de Medeiros Filho (seu nome de registro), era uma costureira aposentada. Morava no povoado de Santo Antônio da Cobra, no Rio Grande do Norte, a cerca de 90 quilômetros da capital.
A estreia nos cinemas aconteceu com “Bacurau” (2019), quando produtores do filme foram até sua comunidade em busca de figurantes.
Em entrevista à revista “piauí”, Tânia revelou sempre querer ser atriz, só “não imaginava que teria chances nessa altura da vida”.
Após a estreia de “O Agente Secreto”, em material de divulgação do filme nas redes, Tânia não fez cerimônia ao ser questionada sobre um desejo para o futuro: “Que venha muito filme para eu ganhar dinheiro”.
Saúde e planos futuros
Tânia Maria em ‘Yellow Cake’, novo filme de Tiago Melo
Foto: Divulgação
Apesar do sucesso comercial e da indicação do longa ao Oscar, a atriz não viajou com o elenco para Los Angeles para a cerimônia deste domingo (15).
Por recomendações médicas, ela permanecerá no Brasil para priorizar seu bem-estar.
Com novos projetos já divulgados, Tânia estará no filme “Yellow Cake”, de Tiago Melo. O longa é um sci-fi que se passa em Picuí, no sertão da Paraíba.

A trama acompanha um grupo de cientistas que tenta erradicar o mosquito Aedes Aegypti, portador da dengue, por meio de um experimento com urânio.
No Brasil, o filme ainda não tem data para chegar aos cinemas.

Fonte: G1 Entretenimento

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Recife no Oscar: como tecnologia transformou cidade em personagem no filme ‘Agente Secreto’


Tecnologia transforma a cidade de Recife em personagem no filme O Agente Secreto
Falta pouco para a festa do Oscar e expectativa é grande no Recife. Em “O Agente Secreto”, a tecnologia transformou a cidade em personagem.
No Recife, o tubarão saiu da vida real e foi parar na tela do cinema, em uma das cenas do filme “O Agente Secreto”.
Depois das gravações, a réplica do tubarão-tigre foi doada para uma universidade federal. Virou atração.
“Quando ele foi liberado para ser exposto, aí todo mundo no laboratório queria ver, queria tirar foto, foi um ‘auê’ aqui, foi muito bacana”, diz Mari Rêgo, pesquisadora e coordenadora do NEA / UFRPE
“O Agente Secreto” é ambientado no Recife. Diversos pontos da cidade serviram de locação.
O Parque Treze de Maio, o Ginásio Pernambucano e o Cinema São Luiz, onde a atriz Mariza Moreira gravou uma participação no filme.
“Eu olhava o meu sapato, eu olhava aquele cigarro, as vitrines, os carros, e eu me lembrava, misturava memória com o que eu estava vendo ali agora, né”, comenta Mariza Moreira, atriz.
Para o diretor Kleber Mendonça Filho, a cidade onde nasceu é universal.
“O Recife está no Oscar da mesma maneira que durante tantos anos, eu vi filmes franceses, americanos. Eu vi Paris, Nova York, Los Angeles, e, dessa vez, a gente tem um filme feito em Recife, Pernambuco, que está sendo visto no mundo inteiro”, destaca Kleber Mendonça Filho, diretor de “O Agente Secreto”.
O Recife, mais que cenário, também é personagem de “O Agente Secreto”. Boa parte das cenas do filme – indicado ao Oscar em quatro categorias – foi filmada lá. Mas, para contar uma história que se passa no final da década de 1970, vários pontos da cidade precisaram entrar no túnel do tempo com a ajuda da tecnologia.
Os letreiros nos prédios, o chão da ponte, o ônibus… a equipe de VFX ou efeitos visuais reconstituiu tudo digitalmente.
“Boa parte disso foi feito com pesquisas iconográficas, de foto e de vídeo. Eu organizava esse material e enviava diretamente para a casa de VFX, e lá eles tinham uma base suficiente para construir cenários virtuais, para acrescentar placas antigas”, explica André Pinto, supervisor de efeitos visuais no set.
Voltar ao passado abriu as janelas do mundo para o Recife. É o futuro do cinema que, por Recife, já chegou.
“Que bacana ‘O Agente Secreto’ dar essa visibilidade a uma cidade e mostrar que o cinema não é preciso ser feito apenas nos grandes centros. As pessoas perguntam muito ‘ah, você acha que vai ganhar o Oscar?’. Olha, para mim já ganhou! O prêmio já está aí, é esse reconhecimento que o filme tem”, diz Alexandre Figueiroa, crítico e professor de cinema.
Tecnologia transforma a cidade de Recife em personagem no filme O Agente Secreto
Reprodução/TV Globo
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Fonte: G1 Entretenimento

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Oscar 2026: produções internacionais participam da disputa de melhor filme pelo oitavo ano consecutivo


Produções internacionais participam da disputa de melhor filme pelo oitavo ano consecutivo
O Jornal Nacional foi para Los Angeles saber dos preparativos finais da premiação do Oscar.
Depois de um mês de montagem, o tapete vermelho está finalmente pronto. A cerimônia do Oscar vai acontecer daqui a menos de 24 horas, um momento de muita ansiedade para os finalistas.
Em uma entrevista com o diretor Kleber Mendonça filho, ele admitiu que os concorrentes são muito fortes, mas falou que está confiante de quem o filme leve ao menos uma estatueta para casa. O filme brasileiro “Agente Secreto” concorre a quatro indicações.
Dezenas de estrangeiros vão passar pelo tapete vermelho, incluindo, 30 artistas do filme o “Agente Secreto”, isso porque há anos os estrangeiros vem ganhando força na cerimônia do Oscar.
Quantos idiomas tornam uma festa inesquecível? A emoção não precisa ser traduzida.
Por muito tempo, o inglês foi o único idioma escutado no Oscar e uma a foto de 1927 ajuda a explicar o porquê: são atores, diretores e roteiristas que fundaram a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Entre as 36 pessoas, apenas três mulheres.
A composição do grupo revela a estrutura por trás da indústria naquela época. Em 1929, eles criaram o Oscar, uma premiação para estimular o avanço do cinema nos Estados Unidos.
Ao longo do século XX, Hollywood se consagrou como a capital mundial do cinema. A eficiência das grandes produções e o desenvolvimento de efeitos especiais se tornaram referência em todo o planeta.
As cenas rodadas lá ganharam o público e conquistaram o reconhecimento internacional. Demorou para as produções de fora serem convidadas para a festa.
A categoria de melhor filme internacional foi criada na 29ª edição do Oscar, em 1957. Em 2025, essa categoria rendeu ao Brasil a primeira estatueta da História, com um Oscar para ‘Ainda Estou Aqui’.
Em 2026, pelo oitavo ano seguido, filmes internacionais aparecem na lista de indicados ao prêmio mais esperado da noite: o de melhor filme. Até agora, o único estrangeiro a vencer nesta categoria foi parasita em 2020.
“É uma evolução que está se confirmando e que vem muito de um trabalho da própria academia”, diz Emilie Lesclaux, produtora de “O Agente Secreto”.
Na categoria de melhor ator, Wagner Moura é o único concorrente que não nasceu nos Estados Unidos. O primeiro brasileiro e apenas o sexto latino a concorrer.
“É uma estatística estarrecedora. Eu acho uma estatística que diz bastante sobre ainda as barreiras que há com relação, sobretudo aos latinos, que são uma parte muito grande. Eu espero que é essas indicações, essa atenção que eu tenho recebido, que isso abra portas para novos atores mais jovens”, destaca Wagner Moura.
Gabriel Domingues, de “O Agente Secreto”, concorre numa categoria estreante no Oscar deste ano que é a de “Melhor Seleção de Elenco”. E Adolpho Veloso, na categoria melhor fotografia com o filme “Sonhos de Trem”.
A Globo vai transmitir a cerimônia do Oscar neste domingo (15), logo depois do Fantástico.
Produções internacionais participam da disputa de melhor filme pelo oitavo ano consecutivo
Reprodução/TV Globo
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Fonte: G1 Entretenimento

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Matheus Torres faz confissões na toada existencial do primeiro álbum do artista projetado no reality ‘Estrela da casa’


Matheus Torres lança o primeiro álbum, ‘Tanta pressa’, na próxima quinta-feira, 19 de março
Matheus L Herbele / Divulgação
♫ NOTÍCIA
♬ “Queria um par de asas para fugir desse inferno que habita o meu peito”, confessa Matheus Torres no verso inicial de “A mil”, canção que fecha em atmosfera íntima o primeiro álbum do artista mineiro de 33 anos, “Tanta pressa”, no mundo a partir da próxima quinta-feira, 19 de março.
“O mundo é grande / Deve ter algum lugar / Para chamar de meu / Para chamar de paz / Para chamar de lar”, reflete o cantor nos versos que compõem o refrão dessa canção autoral gravada somente com o violão de Matheus, instrumento exposto com o dono na foto de Matheus L Herbele estampada na capa do álbum “Tanta pressa”.
Três anos após debutar no mercado fonográfico com o EP “Pode ser” (2023), Matheus Torres lança o primeiro álbum no embalo da projeção nacional obtida em 2024 com a participação do cantor na primeira temporada do reality show musical “Estrela da casa” (TV Globo).
Gravado e mixado no estúdio Nave 33, no Rio de Janeiro (RJ), entre outubro de 2025 e fevereiro deste ano de 2026, o álbum “Tanta pressa” tem produção musical orquestrada por Juliano Cortuah com o próprio Matheus Torres.
Ao longo do álbum, as músicas se apresentam em embalagem convencional geralmente pop, como mostram as faixas “Não é o fim” e “Ponteiros”. Contudo, há espaço para uma canção como “Sonho de papel”, formatada somente com a voz e os violões do artista e escolhida pela gravadora Universal Music para promover o álbum no mercado.
Precedido pelo single que apresentou em 18 de dezembro a música-título “Tanta pressa”, o álbum transita entre a pegada mais enérgica e quase roqueira de faixas como “Pra saber fazer” e a delicadeza melódica de canções como “Se você soubesse”.
À medida em que o disco avança, a atmosfera fica mais ou menos menos pop até chegar no tom essencialmente íntimo da supracitada canção “A mil”.
Matheus Torres assina oito das nove músicas que compõem o repertório essencialmente autoral do álbum “Tanta pressa”. A exceção é “Amantes”, composição de autoria de Maurílio, amigo do artista.
Matheus toca violão, guitarra e eventualmente baixo no álbum gravado com músicos como Pedro Malcher (teclados e sintetizadores) e Wesley Castro (bateria).
Detalhe: além de ser cantor, compositor e multi-instrumentista, Matheus Torres também é escritor, tendo publicado no ano passado o livro “Nuvens passam rápido” (2025), diário de memórias com crônicas e poemas que se afinam com o tom confessional do álbum “Tanta pressa”.
Capa do álbum ‘Tanta pressa’, de Matheus Torres
Matheus L Herbele

Fonte: G1 Entretenimento

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‘O Agente Secreto’ no Oscar: as chances do filme na premiação, segundo críticos de cinema


Wagner Moura em cena de “O Agente Secreto”, do diretor Kleber Mendonça Filho
Divulgação
O Brasil volta a entrar em “clima de final de Copa do Mundo” neste domingo (15). Mas, pelo segundo ano consecutivo, a disputa é pelo Oscar.
Um ano após o triunfo de Ainda Estou Aqui, brasileiros torcem agora por uma estatueta para O Agente Secreto, indicado a quatro categorias do principal prêmio do cinema mundial.
De transmissões em salas de cinema a festas com DJ, torcedores se reúnem para acompanhar se o filme de Kléber Mendonça Filho repetirá o feito do conterrâneo Walter Salles.
Veja os vídeos que estão em alta no g1
Cinemas, bares e espaços culturais em diferentes cidades do país organizam eventos para exibir a cerimônia — especialmente no Recife, onde se passa a história.
A produção disputa nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (para Wagner Moura) e Melhor Direção de Elenco.
Recife e Olinda se preparam para acompanhar a cerimônia do Oscar com eventos especiais e concurso de sósias da personagem Dona Sebastiana e da folclórica Perna Cabeluda.
Conheça Tânia Maria, a Sebastiana de “O Agente Secreto”
Reprodução/Fantástico
Com ingressos esgotados, o Cinema São Luiz, também cenário do filme, vai transmitir a cerimônia em Recife. Um telão também será instalado na Rua da Aurora, um dos principais cartões-postais da capital pernambucana.
Em Olinda, a sede da Pitombeira dos Quatro Cantos, que vendeu mais de 30 mil camisas do clube carnavalesco após Wagner Moura aparecer nas telas com uma delas, vai exibir a premiação com apresentações de frevo.
Camiseta de bloco de carnaval Pitombeira. usada por Wagner Moura em ‘O Agente Secreto’, tem fila de espera com pedidos de todo o Brasil
Divulgação e TV Globo/Reprodução
Na véspera da cerimônia, o Brasil aparece mais visível do que nunca. Desde a estreia do filme no Festival de Cannes, em maio de 2025, elenco e equipe participaram de uma intensa campanha internacional.
O ator Wagner Moura, protagonista do longa, tem feito uma maratona de entrevistas de divulgação, mostrando que o brasileiro “tem o molho” — e especialmente o baiano. O filme chega à premiação acumulando dezenas de prêmios, incluindo o Globo de Ouro.
Mas será que o engajamento dos brasileiros vai se concretizar em uma premiação pelo segundo ano consecutivo?
Para a crítica de cinema Caryn James, que escreve para a BBC, o desempenho do filme nas indicações já demonstra a força da produção brasileira neste ano.
“Isso diz muito sobre a força de O Agente Secreto, que recebeu tantas indicações importantes, e eu diria que merecia ainda mais, especialmente para direção”, afirma a crítica britânica.
A presença nas principais categorias representa um avanço em relação ao ano passado, quando Ainda Estou Aqui, de Walter Salles — também ambientado durante a ditadura militar brasileira — foi o representante do país na premiação.
Mas, apesar do reconhecimento da crítica e dos diversos prêmios que a produção conquistou nesta temporada, a imprensa especializada não aponta o filme brasileiro como favorito nas categorias em que concorre.
Mas, se o número de indicações aumentou, o cenário da disputa parece mais difícil. É o que afirma a crítica de cinema Flávia Guerra.
“A gente vem com mais indicações, o que é incrível, porque mostra uma evolução de um ano para o outro. Mostra o cinema brasileiro fazendo filmes melhores ou mais competitivos — e também a nossa capacidade de nos posicionarmos nessa festa, que é prioritariamente americana, internacional e muito competitiva”, afirma.
“Claro que, como público brasileiro e torcedor, a gente tende a pensar: se agora temos mais indicações, então também deveríamos levar mais prêmios. Mas a matemática não é tão linear assim. O Oscar ainda é, no fim das contas, uma ciência humana.”
Abaixo, veja a análise das chances da produção levar uma estatueta neste domingo.
Maior chance: Melhor Filme Internacional
Indicados ao Oscar de Melhor Filme em 2026: ‘Bugonia’, ‘F1’, ‘Frankenstein’, ‘Hamnet’, ‘Marty Supreme’, ‘Uma Batalha Após a Outra’, ‘O Agente Secreto’, ‘Valor Sentimental’, ‘Pecadores’ e ‘Sonhos de Trem’
Divulgação
Na categoria de Melhor Filme, o longa enfrenta uma disputa dominada por produções americanas de grande orçamento, muitas delas com mais indicações na premiação.
“É difícil para qualquer filme competir pelo prêmio de melhor filme com Uma Batalha Após a Outra e Pecadores, que são produções de grande escala”, afirma Caryn James.
Pecadores, dirigido por Ryan Coogler, estabeleceu um novo recorde e é o filme mais indicado da história do Oscar, com 16 indicações. Uma Batalha Após a Outra recebeu 13 indicações.
Flávia Guerra concorda que a disputa na categoria é a mais difícil e lembra que a vitória do sul-coreano Parasita (2020) foi um ponto fora da curva na história da Academia. Segundo ela, o fato de a premiação ser majoritariamente americana pesa na corrida.
“A festa é deles”, afirma. “Quando a gente tem no cenário filmes como Pecadores, do Ryan Coogler, um diretor que está no auge, e também Paul Thomas Anderson, que está num momento de reconhecimento, fica difícil para a gente.”
As previsões de veículos como The New York Times e Variety apontam que as maiores chances do Brasil estão na categoria de Melhor Filme Internacional.
Mas o principal obstáculo nessa corrida é o elogiado longa norueguês Valor Sentimental, cotado como favorito.
Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas em cena de ‘Valor sentimental’
Kasper Tuxen/Divulgação
Guerra destaca que os dois filmes tiveram trajetórias relativamente equilibradas ao longo da temporada.
“A gente ganhou prêmios importantes, como o Satellite Awards, e muitos prêmios da crítica. Valor Sentimental ganhou outros.”
Ainda assim, a possibilidade de vitória brasileira não é simples. Guerra explica que fazer uma “dobradinha” brasileira — ou seja, vencer dois anos consecutivos na categoria de filme internacional — é uma tarefa “extremamente difícil”.
“A última vez que isso aconteceu foi nos anos 1990. Um bicampeonato não é fácil. E os países que conseguiram foram França, Itália, Suécia, com Bergman. São países de cinematografia muito respeitável. Seria maravilhoso se a gente conseguisse”, diz.
Caryn James diz que é significativo o fato de O Agente Secreto e Valor Sentimental estarem indicados simultaneamente a melhor filme e melhor filme internacional.
“Isso mostra como o cinema hoje é verdadeiramente global — e como a composição mais internacional da Academia está tendo impacto”, afirma.
Wagner Moura e elenco
Wagner Moura no evento dos indicados ao Oscar 2026
REUTERS/Mario Anzuoni
A indicação de Wagner Moura ao prêmio de Melhor Ator consolidou seu status internacional, junto com o prêmio no Globo de Ouro, mas a estatueta para Melhor Ator é uma disputa imprevisível.
O americano Timothée Chalamet perdeu o favoritismo, principalmente por opiniões polêmicas sobre balé e ópera dadas em entrevistas. Ele disse recentemente que “ninguém mais liga” para essas artes.
A controvérsia, que atingiu o auge depois do encerramento da votação do Oscar, pode não ter grande impacto no resultado. Ele também não venceu dois dos principais prêmios preparatórios recentes: o Bafta e o Actors Awards.
Por outro lado, Michael B. Jordan ganhou tração ao vencer o prestigiado prêmio do Sindicato dos Atores (SAG).
Caryn James descreve a atuação de Wagner Moura como fundamental para O Agente Secreto.
“Ele é simplesmente uma presença carismática na tela”, diz James. “Ao mesmo tempo em que mostra uma resistência feroz ao autoritarismo, algo com que espectadores de todo o mundo podem se identificar hoje, também cria uma relação muito terna com o filho.”
Outro marco histórico para o Brasil é a indicação de Gabriel Domingues na estreante categoria de Melhor Direção de Elenco.
Guerra explica que este prêmio celebra o olhar visionário do profissional que lê o roteiro e identifica os rostos exatos para compor aquele universo.
“Mas é uma categoria que não é exatamente para o elenco — e isso acho importante explicar. Ela também envolve o elenco, claro, porque o diretor de elenco é quem escolhe os atores. Mas não é “melhor elenco” no sentido de todo mundo subir ao palco. O prêmio é para esse profissional”, explica.
“Claro que existe todo um processo, com testes, e o diretor do filme tem a palavra final. Mas é esse profissional que consegue prever quem vai funcionar naquele universo.”
Aqui, ela pondera que as chances práticas de vitória são mínimas, uma vez que Hollywood é a “terra dos grandes elencos” e Domingues compete, em uma categoria recém-criada, com profissionais americanos que dominam a indústria há décadas.
“É muito improvável que, logo no primeiro ano, o prêmio vá para um profissional estrangeiro. Não por predileção, mas por identificação mesmo. É algo natural.”
‘O Agente Secreto’ é um filme difícil para o público internacional?
Em O Agente Secreto, o diretor Kléber Mendonça Filho passeia por diversos gêneros, do thriller e terror ao drama político, e insere diferentes de elementos de lendas urbanas nordestinas, como a “Perna Cabeluda”.
O que levantou o debate: as nuances da narrativa podem se perder na tradução?
Para Guerra, Mendonça Filho fez um filme “extremamente brasileiro”, sem concessões a um suposto “gosto internacional”. Ela rejeita a premissa de que a obra seja excessivamente hermética ou difícil.
A crítica argumenta que o público, especialmente o americano, está historicamente acostumado a ver sobretudo o próprio universo retratado na tela.
“A força do filme está justamente em não fazer concessões. Está no fato de ele ser muito local, muito fiel ao seu próprio universo. Quem escreve roteiro fala isso o tempo inteiro: quanto mais local você é, mais universal você se torna”, afirma.
“Ao mesmo tempo, o Kleber também não esquece da linguagem do cinema. Ele trabalha essa identidade local sem abrir mão do repertório e da linguagem cinematográfica.”
Do ponto de vista da crítica estrangeira, Caryn James também vê a estratégia como eficaz. A jornalista britânica, como seria de esperar, nunca tinha ouvido falar da “Perna Cabeluda” antes de pesquisar sobre o filme, mas afirma que isso não foi uma barreira.
“A paródia de gênero daquela sequência de terror funciona de qualquer maneira”, avalia James. Segundo ela, Mendonça Filho fornece ao público as informações necessárias para compreender o absurdo da situação.
“Podemos não entender as nuances das diferenças regionais no Brasil, por exemplo, mas captamos a ideia básica de que elas existem e influenciam a história.”

Fonte: G1 Entretenimento