Categorias
ENTRETERIMENTO

Os 50 anos do show do quarteto ‘Doces Bárbaros’ gera tributo feito no Rio com ecos da energia e do alto astral de 1976


Guilherme Borges, Maíra (de vermelho), Simone Mazzzer e Verônica Bonfim (à direita) fazem o show ‘Nosso amor aos Doces Bárbaros’
Rodrigo Goffredo
♫ CRÍTICA DE SHOW
Título: Nosso amor aos Doces Bárbaros
Artistas: Guilherme Borges, Maíra, Simone Mazzer e Verônica Bonfim
Data e local: 25 de junho de 2026 no Manouche (Rio de Janeiro, RJ)
Cotação: ★ ★ ★ 1/2
♬ No contexto social de junho de 1976, ano em que o Brasil ainda vivia sob ditadura sanguinária, a formação e a entrada em cena do grupo Doces Bárbaros simbolizaram um ato político ao pregar o afeto e a liberdade como armas pacíficas de resistência à repressão.
Decorridos 50 anos, o país respira ares democráticos, mas ameaças às liberdades individuais e coletivas de corpos, credos e ideologias ainda empestam o ar – o que (também) justifica a existência de um show-tributo como “Nosso amor aos Doces Bárbaros”.
No contexto social de junho de 2026, o show “Nosso amor aos Doces Bárbaros” também representa um ato político ao celebrar o encontro de Caetano Veloso, Gal Costa (1945 – 2022), Gilberto Gil e Maria Bethânia – idealizadora desse quarteto fantástico que faz jus ao adjetivo já tornado clichê – com a reapresentação do repertório do álbum ao vivo “Doces Bárbaros” (1976), lançado há 50 anos pela gravadora Philips, no formato de LP duplo, com o registro do show estreado em 24 de junho de 1976 no Anhembi, em São Paulo (SP).
No palco do Manouche, clube carioca com ares de cabaré que representa por si só um símbolo de resistência cultural, Guilherme Borges, Maíra, Simone Mazzer e Verônica Bonfim apresentaram na noite de ontem, 25 de junho, um show inédito, roteirizado com as 17 músicas do álbum de 1976, mas sem se prender à ordem do disco e sem tentar copiar o grupo baiano.
O quarteto de 2026 até reproduz gestos e signos do quarteto de 1976 em cena, mas com organização própria e com espírito coletivo de liberdade, manifestado tanto nos figurinos dos artistas – criados por Brunna Napoleão com ecos da estética hippie – quanto nos movimentos (orquestrados por Iasmin Patacho, diretora artística do show ao lado de Yasmin Lima) e nas demonstrações de afetos entre os artistas.
O afeto, por exemplo, regeu o duo de Maíra e Simone Mazzer em “Eu te amo” (Caetano Veloso, 1976), feito com direito à citação original de “Boneca de piche” (Ary Barroso e Luiz Iglesias, 1938) e com direito ao gestual de Caetano e Bethânia no canto de “Fé cega, faca amolada” (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1974).
Com maior imponência cênica e vocal das três mulheres, todas atrizes além de cantoras, o quarteto se escorou na direção musical do arranjador Guilherme Borges, calcada em trio de guitarra (a de Navalha Carrera, expoente do instrumento na cena alternativa), baixo (o de Lelena Anhaia) e bateria (a de Flávia Belchior).
Essa sonoridade se afina com a estética dos Doces Bárbaros, grupo que fazia rock, muitas vezes na forma – como em “Nós, por exemplo” (Gilberto Gil, 1976, com titulo alusivo ao show que reuniu o quarteto baiano em 1964 no palco do Teatro Vila Velha, em Salvador) e como em “Chuckberry fields forever” (Gilberto Gil, 1976), solo em que Verônica Bonfim segura metaforicamente o machado de Xangô – e outras tantas vezes na atitude.
Havia a resistência do rock até no canto de um samba-canção do fim da era do rádio, “Atiraste uma pedra” (Herivelto Martins e David Nasser, 1958), destaque do show no duo de Guilherme Borges (também na harpa) e Verônica Bonfim.
Mesmo tropeçando em verso do início da letra de “Um índio” (Caetano Veloso, 1976), Simone Mazzer fez do número um dos pontos altos do show pela habitual força vocal e interpretativa.
O alto astral no canto de tantas lindas canções livrou o quarteto de 2026 das comparações com as interpretações soberanas do grupo de 1976. A energia do show foi boa, como exemplificou o canto de “Esotérico” (Gilberto Gil, 1976) com Guilherme Borges, Maíra e Verônica Bonfim sentados no palco, aos pés da cadeira que abrigava Simone Mazzer.
Essa energia respaldou solos (como o de Verônica Bonfim ao violão em “O seu amor”, canção de Gilberto Gil feita para os Doces Bárbaros), duetos e cantos coletivos, como o de “Fé cega, faca amolada” e o do hino “Os mais doces bárbaros” (Caetano Veloso, 1976), músicas reservadas estrategicamente para o bis.
Em essência, Guilherme Borges, Maíra, Simone Mazzer e Verônica Bonfim conseguiram o mais importante, que era evocar, mesmo que bem de longe, o clima de desbunde e contracultura que pautou a reunião dos Doces Bárbaros, sem cair na tentação de tentar reproduzir o irreproduzível.
O hasteamento de uma bandeira com as cores do Brasil na qual se lia “Livre para amar”, já ao fim do show, corroborou as ótimas intenções do quarteto de 2026 em sintonia com o início da apresentação, aberta com o canto performático de “As Ayabás” (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1976), exemplo de um repertório que explicitou em vários números a matriz africana da música do mundo.
Se ser Doce Bárbaro era um estado de espírito em 1976, Guilherme Borges, Maíra, Simone Mazzer e Verônica Bonfim captaram esse espírito em 2026, celebrando, e não tentando imitar, a força de um quarteto que marcou época ao fazer da própria reunião um ato político de resistência.
Guilherme Borges, Simone Mazzer, Maíra (de vermelho) e Verônica Bonfim (à direita) apresentam o tributo no clube Manouche, no Rio de Janeiro (RJ)
Rodrigo Goffredo

Fonte: G1 Entretenimento