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Filme ‘Nem tudo é paz e amor’ joga luz sobre as dores e delícias dos filhos da contracultura musical dos anos 1970


Imagem do filme ‘Nem tudo é paz e amor’, de Betão Aguiar
Reprodução
♫ CRÍTICA DE DOCUMENTÁRIO MUSICAL
Título: Nem tudo é paz e amor
Direção: Betão Aguiar
Roteiro: Betão Aguiar e Marco Korodi
Cotação: ★ ★ ★ 1/2
♪ Atração da 18ª edição do festival de documentários In-Edit Brasil, em cartaz em São Paulo (SP), “Nem tudo é paz e amor” tem roteiro estruturado com entrevistas inéditas com filhos de grandes nomes da música brasileira – Baby do Brasil, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Itamar Assumpção (1949 – 2003), Moraes Moreira (1946 – 2020) e Rita Lee (1947 – 2023), entre outros – mas passa longe de ser filme sobre os privilégios dos nepobabies, termo que identifica os filhos de artistas famosos que encontram portas abertas pelo parentesco.
Filme dirigido por Betão Aguiar, cineasta que também é compositor e baixista da banda de Arnaldo Antunes, “Nem tudo é paz e amor” escancara as dores e as delícias dos filhos da contracultura musical brasileira dos anos 1960 e 1970.
Partindo do universo particular do próprio Betão Aguiar, filho de Paulinho Boca de Cantor e da produtora Marília Aguiar, a discussão soa de início um pouco difusa, mas ganha musculatura ao longo dos 88 minutos do documentário feito pelo diretor a partir de ideia da amiga Jasmin Pinho, falecida em 2020.
Entre imagens de arquivo do grupo Novos Baianos, coletivo que personificou a ideia de contracultura e liberdade em tempos de repressão, “Nem tudo é paz e amor” alinha sucessivos depoimentos de filhos de artistas que tentaram pôr em prática a ideologia hippie na criação dos filhos ou que, ao menos, tentaram criar esses filhos fora dos dogmas e padrões sociais vigentes.
Moreno Veloso é um dos entrevistados do documentário dirigido por Betão Aguiar a partir de ideia original de Jasmin Pinho
Bruno Graziano / Divulgação
As sucessivas falas de Anelis Assumpção, Beto Lee, Ciça Moraes, Moreno Veloso, Nara Gil e Sarah Sheeva – entre outros filhos – acabam por revelar um orgulho dos pais que se mistura com confissões de desconforto em cotidiano sem rotina.
Se temas como sexo e drogas eram abordados sem culpas nas casas dos filhos de artistas de almas libertárias (“Nada era tabu na mesa de jantar”, resume Beto Lee, filho de Rita e Roberto de Carvalho), a sensação de insegurança ou inadequação em um ambiente permissivo, geralmente festivo e sem limites rígidos também se mostravam recorrentes. “Meus pais achavam muito estranho eu ser heterossexual”, lembra Moreno Veloso, em fala tão inusitada que resulta lúdica.
É curioso como a ausência de um sofá na sala de estar – símbolo do conforto das famílias pequeno burguesas – é apontada com certo incômodo por alguns depoentes no filme.
As falas de Sarah Sheeva são especialmente relevantes porque a filha de Baby do Brasil e Pepeu Gomes revela como a simples escolha de um nome exótico pelos pais – Riroca, trocado oficialmente na adolescência por Sarah Sheeva – gerou bullying e transtorno psicológico que conduziram Sarah ao divã.
Contudo, o saldo parece ter sido sempre positivo entre perdas e ganhos. À medida que avança a narrativa curiosa e linear de “Nem tudo é paz e amor”, documentário que ainda tem sessões programadas para 25 e 28 de junho no festival In-Edit Brasil antes da entrada em circuito comercial no segundo semestre, o filme de Betão Aguiar mostra que a harmonia acabou prevalecendo entre pais e filhos quando estes se tornaram adultos e refletiram sobre as dores, mas também sobre as delícias, de terem crescido em um círculo familiar sem tanto cerceamento da liberdade.

Fonte: G1 Entretenimento